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Brasil desenvolve soro antiveneno de abelha

por IGOR ZOLNERKEVIC, colaborador da Folha

Mais do que causar inchaço e muita dor, uma ferroada de abelha pode matar.
Pesquisadores brasileiros esperam desde agosto para testar em humanos o primeiro soro no mundo capaz de neutralizar veneno de abelha. Só precisam agora que as vítimas se apresentem no Hospital Vital Brazil e no Hospital das Clínicas, ambos em São Paulo.

image O projeto de produção do soro envolve mais de dez pesquisadores da Unesp, da USP, do Incor e Instituto Butantan e já custou R$ 2 milhões.

"Acreditamos que o soro sirva para a maioria das abelhas melíferas do mundo", disse o bioquímico Mário Palma, da Unesp, coordenador do projeto. Palma explicou que uma única espécie de abelha, a Apis mellifera, predomina em três quartos do planeta. Portanto, se o antídoto passar nos testes, terá exportação garantida.

O projeto começou em 2005, depois que um estudo do Ministério da Saúde mostrou que acontecem 10 mil acidentes com abelhas por ano no Brasil.

Várias tentativas de criar um antiveneno de abelha fracassaram no mundo inteiro. O problema, segundo Palma, era que os cientistas usavam métodos desenvolvidos para criar soros contra venenos de cobra, muito diferentes do das abelhas.

As serpentes são caçadoras. O veneno de sua mordida impede que as presas fujam logo após o bote. Suas toxinas agem rapidamente, paralisando a circulação do sangue.

Já o veneno de vespas e abelhas tem "função mnemônica". O veneno causa dor e desconforto para que o animal ferroado se lembre de nunca mais chegar perto das colméias.

O efeito imediato da ferroada é o inchaço da ferida, facilmente tratável. Muito piores são os efeitos que podem demorar até um dia para aparecer e que dependem da sensibilidade da vítima e do número de ferroadas.

"É uma tortura chinesa", explicou Palma. "O veneno pode ficar no corpo por até três dias após o ataque. Age nos músculos, causa taquicardia, sudorese e diarréia. A pessoa sente o coração sair do peito, uma dor de cabeça terrível."

Essa "tortura" causa danos permanentes a coração, fígado, nervos e rins, que levam à morte em 1% dos casos.

Atualmente, as vítimas fazem hemodiálise ou recebem remédios próprios para problemas de respiração e circulação.

Para criar um antídoto realmente eficaz, a estratégia dos pesquisadores foi analisar, uma por uma, a composição e a estrutura das proteínas do veneno das abelhas.
"Antes do trabalho, apenas quatro proteínas do veneno eram conhecidas. Nosso laboratório [na Unesp] identificou mais de 200", disse Palma.

Conhecendo as proteínas que compõem o veneno, os pesquisadores conseguiram verificar quais delas eram neutralizadas pelos soros produzidos pelo Butantan, que então eram modificados até neutralizarem totalmente o veneno.

Os soros são feitos de anticorpos produzidos por cavalos inoculados com o veneno. Cada molécula de anticorpo precisa se encaixar numa proteína do veneno, cancelando seu efeito.

O Butantan precisou criar uma linhagem nova de cavalos especialmente para o experimento, já que o sistema imunológico dos cavalos usados para produzir soro antiveneno de cobras e aranhas não respondia adequadamente.
"A resposta [eficácia] nos testes com ratos e camundongos foi de 100%", disse Osmar Malaspina, da Unesp.

O grupo aguarda agora uma chance de testar o soro em vítimas de picadas múltiplas de abelhas que procuram ajuda nos hospitais. O fim dos testes depende de conseguirem um número mínimo de 30 a 40 vítimas. "Gostaríamos de completar os testes até o fim do ano, mas não posso torcer por isso, seria antiético!" -disse Palma.

"Temos prontos 30 litros de soro, o que dá para umas cinco mil doses", disse Palma.
Se o soro passar nos testes, será distribuído pela rede pública de saúde em todo o país.

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