A pós-modernidade não trouxe a esbórnia sexual

 

Os dados revelados pelos Indicadores Sociais 2007, do IBGE, "indicam uma mudança no comportamento já detectado por outros indicadores - de menor convicção, para alguns, que os números ora estampados. Eles refletem ao menos três fatores: a melhoria da renda da população, também largamente comentada nesta semana, por outros índices; a persistência da importância do vínculo da vida a dois, legitimado ou não; e o retardo da idade de ter filho, se comparado com os hábitos de 20, 30 anos atrás", analisa Jorge Forbes, psicanalista e psiquiatra, presidente do Instituto da Psicanálise Lacaniana-IPLA e diretor da Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, em artigo publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, 25-09-2008.

Eis o artigo.

Os Indicadores Sociais 2007, do IBGE, agora anunciados, mostram que há no País quase 2 milhões de casais com duplo rendimento e nenhum filho. É um fenômeno dos países desenvolvidos: casais nos quais os dois cônjuges têm fontes de renda independentes, mas não têm filhos. O número é de 1,942 milhão. Esses casais têm rendimento per capita de até 3,5 mínimos (por isso, estão nos 10% mais ricos do Brasil) e, em quase 60% dos casos, têm até 34 anos. Em dez anos, o número praticamente dobrou, pois era de 997 mil, ou seja, ocorreu um crescimento de 94,78%!

Surpresa? Não, esperado. Esses dados indicam uma mudança no comportamento já detectado por outros indicadores - de menor convicção, para alguns, que os números ora estampados. Eles refletem ao menos três fatores: a melhoria da renda da população, também largamente comentada nesta semana, por outros índices; a persistência da importância do vínculo da vida a dois, legitimado ou não; e o retardo da idade de ter filho, se comparado com os hábitos de 20, 30 anos atrás.

Analisemos a vida a dois e o filho supostamente tardio.

Pensava-se - o que se mostrou errado - que a pós-modernidade, a globalização, traria uma verdadeira esbórnia sexual, derivada do fato da despadronização dos princípios morais. Qual o quê. Os índices de promiscuidade sexual, em vez de aumentarem, baixaram - também no Brasil. Provou-se que não é a disciplina, ou o controle externo, que está na base do comportamento amoroso.

Além disso, as pessoas preferem a vida a dois, mesmo quando poderiam ter uma vida múltipla, e isso não se dá hoje por nenhuma coerção de costumes civis ou religiosos. A vida em casal oferece para o homem e a mulher da globalização o confronto necessário e diário com o mesmo; não o mesmo da mesmice, do tudo igual, mas o mesmo de um lugar simultaneamente conhecido e estranho, que é a intimidade. No desbussolamento dessa época, uma nova orientação é dada por essa intimidade singular de cada um, que só uma vida conhecida oferece. Paradoxalmente é aí, no conhecido, que fica evidenciado o ponto de estranheza que nos inquieta e move a vida.

Quanto aos filhos, é bom notar que a maioria desses casais está na faixa de até 34 anos. Seria precipitado pensar que não querem mais ter filhos. Seria se fossem guiados pelos critérios de um tempo anterior, que nomeava tecnicamente uma moça de mais de 30 anos de “primigesta idosa”. Antes, era esperado que os filhos nascessem, ao menos o primeiro, antes dos 30 anos, especialmente, dela.

Hoje é diferente. Como no avião, onde se aconselha, em casos de despressurização, que primeiro os adultos ponham suas máscaras e só depois ajudem as crianças a colocarem as delas, também os casais de agora, primeiro tomam ar cuidando de suas vidas profissionais e de construírem suas casas, para depois terem um, dois, quando muito, três filhos.

É claro que contam para isso, não só com as mudanças do tempo, como também com os avanços da medicina que pluralizaram as formas de concepção e de se manterem os pais jovens.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica