Daniel Ortega, o presidente acusado de estupro

por Ximena Torres Cautivo, De Santiago (para o Terra Magazine)

"Quem tiver estômago que leia na Internet o testemunho completo sobre essa DanielOrtega peripécia, que parece extraída de um romance do Marquês de Sade". Com essa frase desafiadora, o sempre belicoso Mario Vargas Llosa me conduziu a navegar durante a tarde de domingo pelas águas pestilentas do governo do presidente nicaragüense Daniel Ortega (foto), e sua desprezível primeira dama Rosario Murillo.

Suponho que eu não tenha sido a única pessoa a se sentir morbidamente atraída pelo terrível caso de Zoilamérica, a filha adotiva do atual presidente da Nicarágua e primogênita de Rosario Murillo, a poeta de axilas peludas - tanto por questões éticas quanto estéticas - e praticante da magia negra. Vargas Llosa relata em seu artigo, publicado originalmente no domingo pelo diário espanhol "El País" e reproduzido em diversos outros jornais, alguns outros detalhes sobre a denúncia apresentada por Zoilamérica Narváez, hoje uma socióloga de 42 anos. Ela apresentou queixa à Justiça da Nicarágua acusando seu pai adotivo de abusos desonestos praticados contra ela desde que tinha 11 anos, e de violação sistemática a partir dos seus 15 anos. No total, ela sofreu quase 20 anos de assédio e abusos, e diz ter sido transformada em escrava sexual, com a anuência tanto de sua mãe quanto de todo o aparelho de segurança dos sandinistas, que então governavam o país.

O relato do escritor peruano representa igualmente, como ele mesmo afirma, "a história de um estupro cujo autor escapou impune; de um movimento que se desmantelou, o sandinismo; e da aliança espúria entre seu principal dirigente, o antigo revolucionário Ortega, com o corrupto ex-presidente direitista Arnoldo Alemán, que ao longo de sua presidência saqueou dos cofres do Estado uma quantia estimada em US$ 250 milhões, crime - agravado pelo de lavagem de dinheiro - pelo qual ele foi condenado a 20 anos de prisão em 2003. E essa conspiração entre os dois evitou que qualquer um deles prestasse as contas devidas à Justiça e abriu espaço à criação de um novo período de autoritarismo institucional na Nicarágua".

A denúncia de Zoilamérica foi apresentada inicialmente há 10 anos, e depois de ter sido rejeitada e arquivada pelos tribunais de seu país, pende há muito tempo de uma decisão pelo Comitê Interamericano dos Direitos Humanos, onde parece difícil que venha a encontrar um final coerente com a idéia que todos nós temos de justiça. "O organismo internacional não parece ter a menor pressa de considerar um caso diplomaticamente complicado, já que o caso envolveria um governante em exercício", aponta Vargas Llosa. E a frase tem a contundência de uma condenação, mas não deverá resultar em queda do líder sandinista, já que este conta com a ajuda de Rosario, sua mulher, a péssima mãe que permitiu que Ortega abusasse de sua filha por anos. Dizem que é desse apoio incondicional ao marido que deriva o poder irrestrito da primeira dama.

Que bastaria que ela dissesse o que viu e que reconhecesse que Zoilamérica foi vítima de abusos, estupro e quase que de seqüestro, em sua infância, adolescência e por boa parte de sua vida adulta. O sátiro e sátrapa que governa o segundo mais pobre dos países do nosso continente, atrás apenas do Haiti, está sob o poder de Rosario Murillo, a mulher que entregou a filha em troca de poder, amor ou de suas crenças ideológicas. E agora ela o detém sob seu poder aconteça o que acontecer.

Como jornalista, me envergonho por não estar a par desse sórdido capítulo protagonizado pelo pequeno líder sandinista, que libertou seu povo do ditador Anastazio Somoza e veio a lhe oferecer uma revolução corrupta e a mesma pobreza e falta de oportunidades que afligiam o país antes do movimento. É incrível como as "revoluções" de esquerda, como o "progresso socialista", conseguem manter durante tanto tempo a capa protetora de um suposto idealismo que dificulta a veiculação de seus aspectos mais decadentes. E é igualmente evidente o mal que causam as ideologias marxistas ao preconizar o trato igualitário ao sexo feminino. Não é raro descobrir exemplos e casos que deixam claro que, no contexto dos movimentos comunista, as mulheres são pouco mais que trapos - vermelhos - usados para limpar o chão e, claro, satisfazer os apetites dos líderes do partido ou da revolução.

Na denúncia de Zoilamérica, pode-se ler, em descrição de sua vida posterior, como adulta: "Naquele período, mais que em qualquer outro, fui levada a acreditar com grande intensidade que meu destino seria suportar mesmo aquela vida, suas aberrações. Ele me fazia acreditar que era eu que permitia que ele mantivesse a sua suposta estabilidade emocional e me falava do papel que, segundo diz, eu tinha na revolução: o de ser seu objeto sexual disponível em caráter permanente. Por isso, não só me resguardei no silêncio a que estava condenada como me vi submersa na decomposição e corrupção do poder que ele exercia".

Vargas Llosa tem razão quando afirma que é preciso estômago para ler o relato detalhado de Zoilamérica sobre o calvário que sofreu. Dividida em diversas porções, a denúncia apresenta títulos eloqüente: "Dos 11 aos 14 anos, 18 abusos desonestos"; "dos 15 aos 18 anos, violação continuada"; além de parágrafos carregados de detalhes escabrosos e repulsivos.

Reproduzo: "Daniel Ortega Saavedra me violentou no ano de 1982; não recordo ao certo o dia, mas recordo muito bem tudo que aconteceu. Foi em meu quarto, jogada sobre o tapete, onde ele não só me manuseou como, de maneira agressiva e com movimentos bruscos, me feriu. Senti muita dor e um frio intenso. Ele ejaculou sobre meu corpo, para evitar o risco de gravidez, e continuou a fazê-lo repetidas vezes; minha boca, minhas pernas e meus seios foram as áreas em que se acostumou a depositar seu sêmen, apesar do meu asco e de minha repugnância. Ele maculou meu corpo, o utilizou como desejou sem se importar com o que eu pudesse sentir ou pensar. O mais importante era o prazer dele; minha dor não tinha importância".

Os trechos do relato em que ela relata a atitude de sua mãe diante do acontecido são ainda mais repugnantes: "Não consegui entender porque ela exibia aquela atitude de resignação diante da posse que seu companheiro de vida exercia sobre mim. As tentativas de estabelecer um vínculo de afeto com minha mãe se viram frustradas porque para mim era muito difícil ser usada sistematicamente por Daniel Ortega na biblioteca da casa e em seu escritório, e ao mesmo tempo compartilhar desse lugar de trabalho e de intercâmbio entre mãe e filha".

Aqueles que não acreditam na denúncia de Zoilamérica a reduzem a uma briga entre mulheres por um homem, mas é difícil entender um suposto triângulo no qual o macho do trio tem 34 anos e sua sedutora amante tem 11. Há quem atribua a denúncia a um plano da Agência Central de Inteligência (CIA) para torpedear a revolução. Já a denunciante não dá entrevistas e trabalha em uma ONG que luta pelas pessoas que sofreram abusos; ela tem dois filhos, e jamais perdoou o companheiro de sua mãe, o revolucionário de rosto marcado, pai de oito filhos e da fracassada revolução sandinista.

> Terra Magazine.

> Austríaco diz que estava viciado em incesto. (maio de 2008)

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