PM pedófilo tinha reputação 'ilibada' na corporação, diz capitão

por Wagner Gomes, O Globo Online

tenente_brazSÃO PAULO - Um homem calado e bastante discreto em relação a sua vida pessoal. Policial exemplar e de conduta ilibada. Assim era definido o tenente Fernando Neves Braz (foto), 34, pelos seus colegas de trabalho, que se matou após ser descoberto em uma rede de pedofilia. Por isso, a descoberta de que ele tinha interesse sexual por crianças causou tanta surpresa na corporação.

- Ele era um policial com uma conduta ilibada, sem nenhum envolvimento aparente com qualquer tipo de coisa ilícita. Tanto é que desempenhava como comandante da Força Tática uma função reservada a policiais de destaque, preparado para combater a criminalidade da região. Comandava um pelotão de 30 homens e nunca apresentou desvio algum - disse o capitão Marcelino Fernandes, porta-voz da Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo.

O capitão Marcelino explica que, em muitos casos, esse costuma ser o perfil clássico do pedófilo. Para a sociedade, familiares e amigos, a pessoa está acima de qualquer suspeita. Têm uma conduta moral exemplar. Já em sua face oculta, o pedófilo é um indivíduo tenebroso e maquiavélico, que não revela nem mesmo para os melhores amigos a atração sexual por crianças. Alguns pedófilos têm atração por crianças dentro de uma faixa etária específica. Como no dia-a-dia prevalece a face de 'homem de bem', torna-se difícil identificar esse desvio de conduta.

- O pedófilo costuma vender uma imagem diferente do traficante de drogas ou do ladrão. Não sai por aí contando vantagem, dizendo que vai roubar um banco ou outra coisa qualquer. Por isso, é difícil identificá-lo. Ele vive na clandestinidade. Às vezes, nem mesmo os familiares, um irmão, por exemplo, sabe o que ele faz - disse o capitão Marcelino.

O tenente Braz era casado com uma jovem de 22 anos e tinha uma filha de 9 anos, do primeiro casamento. Mas poucas pessoas sabiam disso.

- Possivelmente, nem mesmo a mulher dele sabia de qualquer envolvimento com a pedofilia. Pelo que constatamos, o Braz também tinha uma relação homossexual com o chefe da rede de pedofilia. Escutas telefônicas mostraram intimidade entre Toledo e o tenente da PM. Mas é possível também que nem mesmo essa pessoa soubesse muito sobre ele, soubesse, por exemplo, que ele era um policial - disse o capitão da Corregedoria.

A polícia não informou se Braz passou por exames psiquiátricos depois que entrou na corporação. Para o capitão, a pedofilia pode ter sido um hábito que ele adquiriu no decorrer do tempo assim como uma patologia, onde uma pessoa leva anos para desenvolver uma carga genética.

Braz comandava a Força Tática do 5º Batalhão da Polícia Militar, na zona norte da capital. Foi ele quem comandou as buscas a um suposto ladrão no Edifício London na noite em que a menina Isabella Nardoni foi arremessada da janela do sexto andar. A polícia chegou ao policial a partir da prisão de Márcio Aurélio Toledo, de 36 anos. Escutas telefônicas mostram que Toledo ofereceu a Braz uma menina de 9 anos, a mesma idade da filha, para manter relações sexuais.

O tenente trabalhava no período noturno. Entrava às 17h30m e saía às 6h do dia seguinte. Folgava 36 horas e trabalhava novamente. Um companheiro da polícia disse que o tenente era uma pessoa "sossegada, simples e muito profissional". Para esse colega, o envolvimento com crianças pode ter sido apenas uma maneira de agradar o amigo que liderava a rede de pedofilia e com quem mantinha uma relacionamento amoroso.

A polícia recebeu o comunicado falando do envolvimento de Braz com a pedofilia no dia 29. No dia 30, sexta-feira, o tenente foi convocado para comparecer ao 5º Batalhão da Polícia Militar, na Vila Gustavo, onde Braz ficava. Lá, ele ficou sabendo que estava sendo investigado e negou tudo. Já desarmado, acompanhou tranquilamente os PMs até a sua casa, onde o seu computador seria apreendido para análise. Pediu que apenas 5 policiais subissem com ele até o apartamento, para não chamar muita atenção, e em um descuido dos colegas foi até o quarto, pegou uma outra arma que tinha (.40), se trancou no banheiro e deu um tiro na própria cabeça.

No armário dele, no 5º Batalhão da Polícia Militar, a polícia encontrou CDs e negativos de fotografias que foram encaminhados para a perícia. Dois computadores que estavam na casa de familiares em Penápolis, a 474 quilômetros de São Paulo, também foram apreendidos. Suspeita-se de que o oficial usava os equipamentos para trocar mensagens com a rede de pedofilia quando estava na cidade.

O enterro do tenente ocorreu no sábado em Penápolis. Ele foi sepultado no último sábado como civil, apesar de estar há 11 anos na corporação. Apenas parentes e alguns amigos acompanharam o enterro. A família, muito abalada, não permitiu que a imprensa acompanhasse o velório. O pai do oficial passou mal e teve que ser socorrido.

Para o capitão da Corregedoria, o medo de ser desvendado pelo crime deve ter feito o tenente tomar uma atitude precipitada e desesperadora atirando contra si próprio.

- O suicídio é um paradoxo de coragem e covardia. Coragem para puxar o gatilho e covardia para enfrentar o problema. Acho que ele teve medo de enfrentar a família e a sociedade - disse o capitão Marcelino, acrescentando que o tenente correria o risco de ser expulso da corporação e ainda sofrer uma ação penal por participar de uma rede de pedofilia.

> Polícia Civil gravou conversas telefônicas do tenente pedófilo da PM.

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