Primeiro capítulo do livro O Mago, biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais pela editora Planeta

É um pássaro? É um avião?
Não, é o popstar Paulo Coelho, o escritor que já vendeu mais de cem milhões de livros


Em um feio e cinzento entardecer de maio de 2005, o enorme Airbus A600 branco da Air France pousa suavemente na pista molhada do Aeroporto de Ferihegy, em Budapeste. Terminava ali um vôo de duas horas de duração, iniciado na cidade de Lyon, no Sul da França. Na cabine, a comissária informa que são dezoito horas na capital da Hungria e que a temperatura local é de oito graus centígrados. Sentado junto à janela na primeira fila da classe executiva, com o cinto de segurança ainda atado, um homem de camiseta preta eleva os olhos e fita um ponto abstrato muito além da divisória de plástico à sua frente. Indiferente à curiosidade dos demais passageiros, e sempre com o olhar parado no mesmo lugar, ergue o indicador e o anular da mão direita, como se estivesse abençoando, e fica estático por instantes. Quando se levanta para tirar do bagageiro a mochila, com o avião parado, dá para ver que está todo de preto – coturno de lona, calça jeans, camiseta, tudo preto. Alguém já disse que, não fosse pelo brilho malicioso do olhar, ele poderia ser confundido com um padre. Por um detalhe de seu paletó de lã, igualmente preto, os passageiros – os franceses, pelo menos – percebem que o colega de viagem não é um mortal comum: preso à lapela, o minúsculo broche de ouro esmaltado em vermelho, pouco maior que um microchip de computador, revela ao gentio que seu portador é um Chevalier da Ordem Nacional da Legião de Honra, a mais alta e cobiçada condecoração da França, criada em 1802 por Napoleão Bonaparte e só concedida por decreto pessoal do presidente da República. A comenda, atribuída ao escritor por determinação de Jacques Chirac, porém, não é seu único sinal exterior de singularidade. Dos escassos cabelos brancos, raspados a navalha, ressalta um tufo acima da nuca, um pequeno rabode-cavalo também branco, com quatro dedos de comprimento: é a sikha, penacho usado por brâmanes, hindus ortodoxos e monges Hare Krishna.

Bigode e cavanhaque brancos, cuidadosamente aparados, arrematam a parte de baixo da moldura de um rosto magro e saudável, queimado de sol. Com 1,69 metro de altura, é um homem franzino, porém musculoso, seco, sem nenhum grama de gordura visível no corpo.

Mochila nas costas e louco de vontade de fumar, mistura-se ao rebanho de passageiros nos corredores do aeroporto, levando nos lábios, apagado, um cigarro Galaxy Light, fabricado no Brasil. Na mão, um isqueiro Bic está pronto para ser acionado tão logo isso seja permitido, o que não parece próximo. Mesmo quem não soubesse húngaro ou o significado da expressão Tilos adohányzás não poderia deixar de notar por toda parte as placas com um cigarro acesso cortado por uma faixa vermelha.

Budapeste também capitulara à fobia antitabagista, e não se podia fumar em lugar nenhum do aeroporto. Parado ao lado da esteira de bagagens, o homem de preto olha com ansiedade para a parede de vidro transparente que separa os passageiros internacionais do saguão principal do Aeroporto de Ferihegy. Graças a um truque do dono, a maleta preta de rodinhas pode ser reconhecida de longe: é a que traz um coração branco desenhado com giz. E é tão pequena que poderia ter sido embarcada como bagagem de mão, não fosse ele alguém que detesta carregar coisas.

Ao cruzar a vidraça depois de passar pela alfândega, descobre, visivelmente desapontado, que seu nome não está em nenhuma das placas exibidas pelos motoristas e agentes de turismo à espera dos passageiros daquele vôo. E, mais grave, também não estão à sua espera fotógrafos, repórteres ou câmeras de tevê. Não há ninguém. Caminha até a calçada olhando para os lados e, antes mesmo de levantar a gola do paletó para se proteger do vento frio que varre Budapeste, acende o Galaxy e dá uma tragada tão forte que carboniza meio cigarro. Os demais passageiros da Air France logo se dispersam por ônibus, táxis e carros particulares, a calçada do aeroporto fica deserta e a decepção dá lugar a um mau, péssimo humor. Acende outro cigarro, faz uma chamada internacional pelo telefone celular e rosna em português, com forte sotaque carioca e voz levemente fanhosa:

– Não há ninguém à minha espera em Budapeste! Sim! Foi isso mesmo que você ouviu.

Repete palavra por palavra, como se quisesse martelar cada uma delas na cabeça do interlocutor:

– Isso mesmo: não-há-ninguém-à-minha-espera-em-Budapeste. Não, ninguém. Eu disse ninguém!

Desliga sem se despedir, apaga o toco de cigarro numa lixeira, começa a fumar um terceiro e anda de um lado para outro com ar desolado.

Já se passaram quinze intermináveis minutos desde o desembarque quando ele ouve um tropel familiar. Vira-se para o lado de onde vem o ruído e seus olhos se iluminam. Um enorme sorriso aparece em seu rosto. O motivo da alegria está a poucos metros dali: uma matilha de repórteres, fotógrafos, cameramen e paparazzi corre em sua direção

e grita seu nome, quase todos de microfone e gravador em punho. Atrás deles vem um grupo mais numeroso, os fãs.

– Mister Colê-rô! Mister Paulo Colê-rô!

Colê-rô é como os húngaros pronunciam o sobrenome do escritor brasileiro Paulo Coelho, o homem de preto que acaba de desembarcar em Budapeste como convidado de honra do Festival Internacional do Livro. O convite foi uma iniciativa da Rússia, país homenageado em 2005 (e não do Brasil, que nem estande tem no local), pela singela razão de ser na época o autor mais lido naquele que, com 143 milhões de habitantes, é uma das nações mais populosas do planeta. Junto com os repórteres, avançam também pessoas com exemplares de seu mais recente sucesso, O Zahir, abertos na primeira página, tropeçando no cipoal de fios pelo chão e enfrentando a rispidez dos jornalistas na esperança de conseguir um autógrafo. O pipocar dos flashes, misturado à luz azulada dos refletores, dá à cabeça pelada do escritor uma aparência incomum, como se estivesse em uma pista de dança das boates dos anos 70, iluminada com lâmpadas estroboscópicas. Apesar do tumulto e do desconforto, ele exibe um permanente e angelical sorriso, e mesmo afogado por uma maré de perguntas em inglês, francês e húngaro, dá a impressão de estar desfrutando de um prazer inigualável: a fama planetária. Como um peixe na água. Ali, com os olhos faiscantes e o sorriso mais sincero que um ser humano pode abrir, Mister Colê-rô voltara a ser Paulo Coelho, o superstar, o escritor de 100 milhões de livros vendidos, o membro da Academia Brasileira de Letras que costuma ser recebido como astro pop por seus leitores em 66 idiomas e dialetos, espalhados por mais de 160 países. Ele conta aos jornalistas que tinha estado na Hungria uma única vez, mais de duas décadas antes. “Tenho medo de que em quinze anos o turismo capitalista tenha produzido em Budapeste estragos maiores do que os russos fizeram em meio século”, provoca, referindo-se ao período em que o país viveu sob a tutela da antiga União Soviética (1949-89).

Naquele mesmo dia o escritor tivera outra oportunidade de saborear o reconhecimento público. Enquanto aguardava o avião no aeroporto de Lyon, aproximou-se um brasileiro de barbas brancas que se identificou como seu leitor e admirador. Chamados para tomar o ônibus que os levaria à aeronave, caminharam juntos na fila até o portão de embarque. Na hora de exibir o tíquete, o brasileiro não conseguia encontrar o seu, perdido no meio de um maço de folhetos e mapas turísticos. Para evitar a impaciência dos demais passageiros, o funcionário da Air France colocou-o de lado, procurando o canhoto, enquanto a fila andava. Por delicadeza, Paulo postou-se de pé ao lado do conterrâneo, mas foi dispensado:

– Não precisa ficar aqui, obrigado. Em um minuto eu acho o cartão de embarque.

Com todos os passageiros acomodados no ônibus, a fila chegara ao fim e, com ela, o humor do funcionário francês, que ameaçava fechar a porta:

– Pardon, mas sem tíquete o senhor não vai embarcar.

O brasileiro percebeu que sua viagem de férias estava azedando, mas não entregou os pontos:

– Meu senhor, eu tenho o tíquete, estou certo disso. Minutos atrás eu o mostrei ao escritor Paulo Coelho, que estava comigo, para saber se viajaríamos em assentos próximos.

O francês arregalou os olhos:

– Paulo Coelho? Mas aquele homem de cabeça raspada e Légion d’Honneur na lapela é Paulo Coelho?

Diante da confirmação, o funcionário correu alguns metros até o ônibus onde os passageiros aguardavam a solução do problema e gritou:

– Monsieur Paulô Coelô!

Bastou o escritor se apresentar e confirmar que sim, que vira o tíquete, para o funcionário, repentinamente delicado e cordial, fazer um gesto de mão ao retardatário, autorizando-o a embarcar. Já caiu a noite em Budapeste quando um jovem alto e magro dá a entrevista por encerrada. Sob protestos de jornalistas e fãs, Paulo é colocado no banco traseiro de um Mercedes-Benz cuja idade e imponência sugerem que ali podem ter viajado hierarcas do finado regime comunista húngaro. No veículo vão também seus companheiros dos três dias seguintes: o motorista e guarda-costas Pál Szabados, um jovem de cabelos escovinha medindo quase dois metros de altura, e Gergely Huszti, o pálido cicerone que o livrara dos repórteres, ambos colocados à disposição do escritor pela Athenäum, sua editora na Hungria.

Quando o veículo arranca, e antes mesmo que Gergely se apresente, Paulo pede um instante de silêncio e faz como no avião: olhos fixos no infinito, indicador e anular levantados, só precisa de alguns segundos para proferir uma prece silenciosa. Essa solitária cerimônia é realizada pelo menos três vezes ao dia – ao despertar, às seis da tarde e à meia-noite –, e repetida nos pousos e decolagens e nas partidas dos carros (nestes casos, tanto pode ser uma rápida corrida de táxi como uma longa viagem internacional). No caminho para o hotel, Gergely vai

lendo a programação do escritor: um debate seguido de sessão de autógrafos no Festival do Livro, uma visita ao metrô de Budapeste em companhia do prefeito Gábor Demszky, cinco entrevistas individuais para programas de tevê e publicações importantes, uma coletiva, uma sessão de fotos com a Miss Peru, sua leitora (que se encontra na Hungria em campanha para o concurso de Miss Universo), dois jantares, um show em uma boate ao ar livre... Paulo interrompe Gergely em inglês:

– Por favor, pode parar por aí. Mas antes corta a visita ao metrô, o show e a Miss Peru. Isso não estava no programa.

O cicerone insiste:

– Acho que devemos manter pelo menos a visita ao metrô, que é o terceiro mais antigo do mundo... E a mulher do prefeito é sua fã, leu todos os seus livros.

– Nem pensar. Eu autografo um livro especialmente para ela, mas não vou passear de metrô.

Descartados o metrô, a boate e a miss (que acabaria aparecendo na tarde de autógrafos), o roteiro é aprovado pelo escritor, que não parece cansado a despeito de ter tido uma semana exaustiva. Em plena maratona de lançamentos de O Zahir, ele enfrentara, em sucessivas entrevistas individuais, repórteres do jornal chileno El Mercurio, da revista francesa Paris Match, do diário holandês De Telegraaf, da revista da Maison Cartier, do jornal polonês Fakt e da revista feminina norueguesa Kvinnerog Klær. A pedido de um amigo, assessor da família real saudita, Paulo Coelho ainda concedeu um longo depoimento para Nigel Dudley e Sarah MacInnes, editores da revista Think, publicação britânica especializada em negócios e economia.

Meia hora depois de deixar o aeroporto, o Mercedes estaciona diante do hotel Gellert, um imponente e secular quatro estrelas às margens do rio Danúbio, onde estão instaladas as mais antigas termas da Europa Central. Antes mesmo de assinar a ficha de hospedagem, Paulo troca um caloroso abraço com uma bela mulher de pele clara e cabelos pretos, que acabara de chegar de Barcelona, na Espanha, e o esperava no lobby do hotel levando pela mão um menino gorducho e de olhos azuis. É a brasileira Mônica Antunes, 36 anos, e a criança é filho dela e do editor norueguês Øyvind Hagen. Os dois se conheceram na Feira de Frankfurt, em 1993, quando ela negociava a venda dos direitos de O Alquimista para a Escandinávia. Mas considerá-la apenas como agente literária de Paulo Coelho, como se costuma fazer, é reconhecer apenas uma pequena parte do trabalho que Mônica realiza desde o final dos anos 80. Ele tinha então 41 anos e era um autor desconhecido quando uma linda estudante de engenharia química de 20 anos, trajando jeans de veludo verde, estendeu-lhe a mão e se apresentou:

– Li seus dois livros e adorei. Sou sua admiradora.

Para provar, abriu a bolsa e mostrou um sovado exemplar de O Diáriode um Mago. Embriagado pelo viço da menina, Paulo arrastou asa por ela durante semanas até descobrir que Mônica estava apaixonada e pensava mudar-se para a Europa com seu namorado, Carlos Eduardo Rangel. Ao contrário do que ele pretendia, a duradoura relação dos dois jamais foi além de inocentes e fraternos abraços. Convertida da noite para o dia em agente literária – e alguém que o próprio escritor reconhece como co-autora de seu sucesso mundial –, em alguns anos Mônica Antunes passaria a ser uma das pessoas mais influentes do mercado internacional de direitos autorais. Mas o rosto bonito, a voz suave e o tímido sorriso de dentes muito brancos, cochicha-se no jet set literário, escondem uma cérbera impiedosa. Ela é famosa e temida pela dureza com que trata quem quer que ameace os interesses do escritor. Muitos editores referem-se a ela, maldosamente – e sempre pelas costas, claro – como “a Bruxa de Barcelona”, uma alusão à cidade onde vive e de onde controla tudo o que acontece na vida profissional de seu único agenciado. Mais do que simples vendedora de direitos, Mônica converteu-se na ponte que liga o escritor ao mundo editorial. Tudo o que diga respeito ou envolva, direta ou indiretamente, sua produção literária passa obrigatoriamente pelo sétimo andar do moderno edifício de escritórios onde funciona a agência literária Sant Jordi Asociados – nome catalão de são Jorge, padroeiro dos livros. O editor que tentar aproximar-se diretamente de Paulo Coelho, sem passar pela agência, terá o seu nome inscrito na lista negra de Mônica – cuja existência ela nega com mau humor. Importantes livreiros europeus e latino-americanos já testemunharam que o castigo pode até tardar, mas nunca falha.

Enquanto a babá peruana pajeia o garoto pelo saguão do hotel, Mônica senta-se com o escritor em uma mesa de canto e abre a pasta com planilhas extraídas dos computadores da Sant Jordi. A ordem do dia só tem boas notícias: em três semanas O Zahir vendeu 106 mil exemplares na Hungria. Na Itália, no mesmo período, os números bateram em 420 mil.

Nas colunas de best-sellers italianos o livro conseguira ultrapassar até Memoria e identità: Conversazioni a cavallo dei millenni, as memórias do recém-falecido papa João Paulo II. O escritor não parece satisfeito:

– Mas esses são números absolutos, Mônica. Quero saber do desempenho do Zahir comparado ao livro anterior, no mesmo período.

A resposta não está na ponta da língua, mas em outro gráfico, que Mônica lê com sorriso vitorioso, falando um português que após quase vinte anos de Espanha começa a exibir chiados catalães:

– No mesmo período, Onze Minutos vendeu 328 mil exemplares na Itália. Ou seja, O Zahir está vendendo quase 30% a mais. Agora você está satisfeito?

– Sim, claro. E da Alemanha, quais são as notícias?

– Lá O Zahir está em segundo lugar na lista da Der Spiegel, atrás apenas do Código Da Vinci.

Além de Hungria, Itália e Alemanha, o autor pede notícias da vendagem na Rússia, quer saber se Arash Hejazi, o editor iraniano, resolveu os problemas com a censura e como anda a questão das edições piratas no Egito. Pelas contas de Mônica, o autor vem batendo seus próprios recordes em todos os países onde o livro aparece. Na França, uma semana depois de lançado, Le Zahir estava na cabeça das listas, inclusive a mais cobiçada delas, a do semanário L’Express; na Rússia, as vendas ultrapassaram a casa dos 530 mil exemplares; em Portugal, 130 mil (lá Onze Minutos chegou aos 80 mil exemplares apenas seis meses após o lançamento). No Brasil, O Zahir vendera 160 mil exemplares em menos de um mês (60% mais que Onze Minutos no mesmo período). E enquanto Paulo faz sua turnê pela Hungria, 500 mil cópias de El Zahir em castelhano estão sendo despejadas desde o Sul dos Estados Unidos até a Patagônia, cobrindo dezoito países latino-americanos e mais a comunidade hispânica norte-americana.

A última notícia parece ser a única surpresa do relato: no dia anterior um grupo armado assaltara um caminhão num subúrbio de Buenos Aires, levando toda a preciosa carga – 2 mil exemplares de El Zahir recém-saídos da gráfica e a caminho das livrarias portenhas. Mesmo diante de números tão robustos, dias depois um crítico literário do Diario de Navarra, na Espanha, aventou a hipótese de que o roubo havia sido um golpe publicitário arquitetado pelo escritor para vender ainda mais livros.

Esse ambiente de ansiedade e estresse repete-se a cada dois anos, toda vez que Paulo Coelho lança um novo título. Nesses períodos, um dos autores mais lidos do mundo comporta-se com a insegurança de um estreante.

Sempre foi assim. Quando escreveu o primeiro livro, O Diário de um Mago, ele dividia com a mulher, a artista plástica Christina Oiticica, o trabalho de distribuir folhetos de propaganda nas portas dos teatros e cinemas do Rio de Janeiro, e depois percorria as livrarias da Zona Sul da cidade para saber quantos exemplares tinham sido vendidos. Passaram-se vinte anos, mudaram a metodologia e a tecnologia, mas o escritor continua o mesmo: pelo telefone celular ou recebendo no notebook serviços online exclusivos, ele controla, de onde estiver, a edição, distribuição, repercussão na mídia e colocação de cada um de seus livros nas listas dos mais vendidos – da Terra do Fogo à Groenlândia, do Alasca à Austrália.

Ainda sem preencher a ficha de hóspede nem subir ao quarto, ele encerra a reunião informal com a chegada ao hotel de Lea, uma simpática cinqüentona casada com o ministro do Interior da Suíça e leitora cativa do autor, a quem conhecera no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Ao ler num jornal que o brasileiro estaria na capital húngara, Lea tomou um trem em Genebra, atravessou toda a Suíça, a Áustria e metade da Hungria para, ao final de mil quilômetros de viagem, passar algumas horas ao lado do ídolo em Budapeste. São quase oito da noite quando Paulo entra finalmente na suíte que lhe reservaram no Gellert. O aposento adquire ares palacianos diante da bagagem franciscana de seu hóspede – a mesma que carrega pelo mundo afora: quatro camisetas pretas, quatro cuecas de seda colorida, do tipo samba-canção, cinco pares de meias, uma calça Levi’s preta, uma bermuda de brim e um pacote de cigarros Galaxy (o estoque é permanentemente reabastecido por seu escritório do Rio ou pela gentileza de amigos brasileiros que o visitam).

Nas ocasiões solenes acrescenta à bagagem o paletó com que veio da França, uma camisa de colarinho, uma gravata e os “sapatos sociais”: um par de botinas de salto carrapeta, como as de caubóis – tudo preto.

Ao contrário do que pode sugerir à primeira vista, a escolha da cor das roupas nada tem a ver com sorte, questões místicas ou espirituais. Com a experiência de quem passa dois terços do ano fora de casa, o escritor garante que tecidos pretos resistem mais às lavanderias industriais de hotéis – embora na maioria das vezes seja ele próprio quem lava suas meias, camisetas e cuecas em viagens. Num canto da maleta um pequeno nécessaire guarda escova e pasta de dentes, um aparelho de barba manual, fio dental, desodorante, água de colônia, spray de espuma de barba e um tubo de Psorex, pomada que usa quando a psoríase, uma doença crônica da pele, provoca irritantes coceiras e escamações nas juntas das mãos e nos cotovelos. No outro canto, protegidas entre meias e cuecas, uma pequena imagem de Nhá Chica, beata do sul de Minas, e uma garrafinha com água benta colhida no santuário católico de Lourdes, no Sul da França. Na mochila vai um notebook HP – marca da qual se tornou garoto-propaganda –, telefone celular, documentos, cigarros, dinheiro e cartões de crédito.

Meia hora depois ele reaparece no lobby do hotel recendendo a lavanda, de barba feita e com a disposição de quem acabou de acordar (o paletó atirado nas costas permite que se veja no dorso do antebraço esquerdo a tatuagem de uma pequena borboleta azul, de asas abertas).

O último compromisso do dia será o jantar na casa de um artista plástico, um chalé pendurado nos morros de Buda, a parte alta da cidade, na margem direita do Danúbio, de onde terá privilegiada vista da milenar capital coberta por fina garoa. Em um ambiente à luz de velas, espera-o meia centena de convidados, entre artistas, escritores e diplomatas, a maioria gente jovem, na faixa dos trinta anos. E muitas mulheres, como em quase todos os lugares onde sua presença é anunciada. Logo estão todos espalhados pelos sofás ou sentados no chão, conversando – pelo menos tentando conversar, tal é o volume do rock pesado que sai das caixas de som. Uma roda de pessoas cerca o escritor, que fala sem parar.

A pequena platéia logo percebe dois de seus vários hábitos curiosos: a intervalos curtos ele rapidamente passa a mão direita diante dos olhos, como se espantasse uma mosca que ninguém vê. Minutos depois o sestro se repete, mas agora é como se a mosca invisível estivesse zumbindo no ouvido direito. Na hora do jantar, sempre em inglês fluente, agradece a homenagem e elogia a proeza da cozinha húngara de transformar um modesto guisado de carne em uma iguaria inesquecível, o goulasch.

Às duas da madrugada, depois do café e de várias rodadas de Tokaj, o equivalente local do vinho do Porto, vão todos embora. Às quinze para as dez da manhã seguinte os primeiros jornalistas convidados para a entrevista coletiva estão acomodados nas trinta cadeiras estofadas da pequena sala de reuniões do hotel Gellert. Agora, mesmo quem for pontual e chegar às dez horas vai ter que ficar em pé.

O objeto do interesse dos repórteres acordou às oito e meia. Se não estivesse chovendo ele teria feito sua habitual caminhada de uma hora pelas ruas em torno do hotel. Como não gosta de pedir comida no apartamento (“Doente é que come no quarto”, costuma dizer), fez o desjejum no salão de café, subiu para um banho e agora está lendo jornais e ciscando na internet. Em geral lê um jornal do Rio e outro de São Paulo, mais o norte-americano editado em Paris International Herald Tribune. O resto chegará mais tarde em clippings e sinopses que filtram apenas o noticiário sobre o autor e seus livros. Às dez em ponto ele entra no salão iluminado pelos refletores e lotado de jornalistas e senta-se atrás da mesinha sobre a qual estão uma garrafa de água mineral, um copo, um cinzeiro e um buquê de rosas vermelhas.

Gergely pega o microfone, explica as razões da visita do escritor ao país e anuncia a presença, na primeira fila de cadeiras, da agente Mônica Antunes. Vestindo um elegante tailleur azul-marinho, ela se levanta, visivelmente tímida, para agradecer os aplausos.

Paulo fala durante quarenta minutos em inglês, aí contado o tempo gasto por Gergely para verter cada frase para o húngaro. Relembra sua viagem a Budapeste em 1982, conta um pouco de sua história pessoal e de sua carreira como escritor. Revela, por exemplo, que depois do êxito de O Diário de um Mago, o afluxo de peregrinos no Caminho de Santiago, na Espanha, aumentou de quatrocentos por ano para quatrocentos por dia – em reconhecimento, o governo da Galícia batizou de “Rua Paulo Coelho” uma das artérias da cidade de Santiago de Compostela, ponto final da peregrinação. Na hora das perguntas os jornalistas revelam não apenas familiaridade com sua obra, mas também, deixando de lado a objetividade, manifestam uma admiração explícita. Alguns se referem a determinado livro dele como “o meu favorito”. O encontro transcorre sem nenhuma pergunta indiscreta, nenhum contratempo. A atmosfera de fraternidade dá a impressão de se estar em uma reunião do clube dos leitores de Paulo Coelho em Budapeste. Quando Gergely dá a entrevista por encerrada, os repórteres batem palmas para o escritor. Uma pequena fila se forma diante da mesa e ali começa uma improvisada manhã de autógrafos, exclusiva para os jornalistas húngaros – só então se percebe que quase todos tinham trazido livros seus na bolsa.

Pouco dado a almoçar, o escritor faz um rápido lanche ali mesmo, no restaurante do hotel. Come uma torrada com patê de fígado, bebe um copo de suco de laranja e uma xícara de café expresso. Aproveita a meia hora livre antes do compromisso seguinte para passar os olhos no noticiário internacional dos jornais Le Monde, de Paris, e El País, de Madri. Seja pela internet, pela tevê ou pela mídia impressa, Paulo está permanentemente antenado com o que acontece no mundo. É um consumidor voraz de notícias de política internacional, o que faz dele alguém sempre bem-informado sobre as guerras e crises que freqüentam capas dos jornais – onde quer que elas estejam ocorrendo. É comum vê-lo falar com segurança (mas sempre com naturalidade, sem parecer professoral ou esnobe) sobre questões tão diversas quanto o recrudescimento da crise libanesa ou a nacionalização do petróleo e do gás na Bolívia. Defendeu em público a troca de reféns em poder da guerrilha marxista da Colômbia por presos políticos nas mãos do governo de Bogotá, e em 2003 causou polêmica – e foi lida por mais de 400 milhões de pessoas – sua carta-protesto “Obrigado, Presidente Bush”, vergastando o chefe de Estado americano pela iminente invasão do Iraque.

Vistos os jornais, é hora de voltar ao trabalho. Agora é a vez da louraça Marsi Anikó, âncora do programa Fókusz2, da tevê RTL Club, campeão imbatível de audiência nas noites de domingo. Além do talento e dos dotes físicos da apresentadora, Fókusz2 tem como peculiaridade o mimo que, ao final do programa, é oferecido ao entrevistado da semana: um prato da cozinha húngara preparado pela própria Marsi. Dentro do pequeno estúdio improvisado numa sala do hotel, o programa, no estilo cara-a-cara, transcorre também sem surpresas (nem mesmo as sensuais cruzadas de pernas de Marsi), salvo o leve rubor na face da âncora quando um bem-humorado Paulo Coelho se pôs a discorrer sobre sexo e penetração. Ao final este ganha dois beijos no rosto, uma bandeja com almásrétes – tradicional torta húngara recheada de pétalas de papoula que Marsi jura ter feito com as próprias mãos – e uma garrafa de pálinka, a fortíssima aguardente local. Em poucos minutos o cenário do Fókusz2está desmontado para dar lugar a outro, mais jovial e colorido, destinado à entrevista com András Simon, da MTV húngara. Quando termina a gravação, uma hora depois, em vez de presentes, o brasileiro recebe do jornalista uma pilha de sete livros seus para autografar.

Intercaladas por breves minutos – suficientes apenas para o autor tomar um expresso e fumar um Galaxy –, as entrevistas individuais para os veículos de maior expressão se sucedem até o final da tarde. Quando o último repórter deixa o hotel, a cidade está escura. A despeito das sombras de olheiras no rosto, Paulo garante que não está cansado: – Ao contrário. Falar de tantas coisas diferentes em tão pouco tempo faz subir a adrenalina. Essa atividade acaba me deixando ainda mais elétrico...

Seja movido por profissionalismo, vaidade ou outro combustível qualquer, o certo é que, embora prestes a se converter em sexagenário, o escritor exibe invejável disposição. Um banho e um café expresso bastam para que reapareça esfregando as mãos às oito e meia da noite no saguão do hotel, onde o esperam Mônica, a suíça Lea, que parece ter-se incorporado ao grupo, o mudo guarda-costas Szabados e Gergely. Velado pela babá Juana Guzmán, o garotinho dorme o terceiro sono no apartamento da mãe. Ainda falta um compromisso para encerrar a programação do dia: um jantar com escritores, editores e jornalistas na casa de Tamás Kolosi, dono da editora Athenäum e um dos responsáveis pela vinda do escritor à Hungria. Quando Gergely pergunta se está cansado da agitação do dia, ele dá uma gargalhada:

– Claro que não! Hoje foi só aperitivo, o trabalho começa mesmo é amanhã.

Após o jantar com o editor – servido por garçons e com todos os presentes engravatados –, Mônica aproveita os dez minutos no carro, no caminho de volta ao hotel, para informá-lo de que acertou com Gergely a agenda do dia seguinte:

– A abertura do Festival do Livro é às duas da tarde. Como de manhã você tem mais entrevistas no hotel, não haverá tempo para almoçar. Deixei reservado um restaurante no caminho para comermos sanduíches e uma salada. Paulo está com a cabeça em outro lugar:

– Estou preocupado com essa história da editora de Israel, que não gostou do título do Zahir e quer mudá-lo. Por favor, ligue para lá amanhã e diga que não autorizo. Ou mantêm o título ou não publicam o livro. Já me basta terem traduzido o nome do pastor Santiago, personagem do Diário de um Mago, por Jakobi.

Ele era cabeça-dura mesmo antes de ser estrela. Mônica lembra que quando O Alquimista foi publicado nos Estados Unidos, o editor quis rebatizá-lo com o título The Shepherd and His Dreams (“O Pastor e Seus Sonhos”), mas o autor bateu o pé e não permitiu. Ele ouve a história ao lado e sorri:

– Eu não era ninguém e eles eram a HarperCollins. Mas fui logo colocando o pé e dizendo “daqui vocês não passam”, e ganhei o respeito deles.

A conversa termina no saguão do hotel. Na manhã seguinte o solzinho ralo sobre a cidade anima o escritor a fazer sua caminhada de uma hora às margens do Danúbio. Um banho, uma rápida varrida na internet, café da manhã, duas entrevistas e está pronto para o segundo turno do dia, a abertura do festival. No caminho, eles param no lugar reservado por Mônica, uma lanchonete de onde todos os fregueses parecem ter sido espantados pelo som altíssimo que sai de uma jukebox antiqüíssima.

Paulo vai até lá, abaixa o volume, coloca 200 florintes em moedas e escolhe um hit romântico dos anos 50, “Love Me Tender”, cantado por Elvis Presley. Volta à mesa sorridente, imitando a voz melodiosa do roqueiro:

– “Love me tender, love me true…” Adoro os Beatles, mas este cara é eterno, vai ficar para sempre...

Gergely quer saber a razão de tanta alegria, e ele abre os braços:

– Hoje é dia de são Jorge, o padroeiro dos livros. Vai dar tudo certo!

Realizado todos os anos em um centro de convenções dentro de um parque ainda chamuscado pela neve do inverno, o Festival Internacional do Livro de Budapeste é célebre por atrair centenas de milhares de pessoas.

Recebido em uma entrada privativa por três corpulentos guardacostas e levado a uma salinha VIP, Paulo reclama ao saber que há quase quinhentas pessoas na fila de autógrafos do estande da editora:

– Não foi isso que combinamos. O acertado é que seriam distribuídas apenas cento e cinqüenta senhas.

A gerente da editora explica que não houve jeito de dispersar os leitores e fãs:

– Desculpe, mas quando terminaram as senhas as pessoas simplesmente

disseram que não iriam embora. Na verdade havia muito mais gente, mas quem sobrou foi para o auditório onde você vai falar. O problema é que lá cabem trezentas e cinqüenta pessoas e entraram oitocentas.

Tivemos que colocar telões às pressas, do lado de fora, para quem não conseguiu entrar.

Mônica deixa a sala discretamente, vai até o estande da Athenäum e volta cinco minutos depois, balançando a cabeça, com ar preocupado:

– Fatal. Não vai dar, vai ter tumulto.

Os seguranças dizem que não, que não há risco para ninguém. No máximo recomendam que o menino e a babá esperem o fim das atividades ali na salinha. As notícias de que o festival regurgita de fãs e leitores afugentam por completo o mau humor de Paulo. Levanta-se sorridente, bate uma palma da mão na outra e decide:

– Tem gente demais? Tanto melhor! Vamos lá atender os leitores.

Antes, no entanto, me dêem uma licença de cinco minutos. Finge que vai ao banheiro fazer xixi, mas lá dentro pára diante de uma parede e repete de olhos no infinito a prece silenciosa, ao fim da qual pede a Deus que tudo corra bem nas atividades do dia:

– Agora é com Você.

Deus parece tê-lo ouvido. Protegido pelos três guarda-costas – e por Szabados, que cumpre à risca as ordens de jamais desgrudar dele –, Paulo Coelho chega ao Salão Bela Bártok sob as luzes das equipes de tevê e dos flashes dos fotógrafos. Todos os assentos estão ocupados e não cabe mais ninguém nos corredores, coxias e galerias. O público é dividido meio a meio, há igualmente homens e mulheres, mas a maioria é de jovens. Levado ao palco pelos seguranças, agradece os aplausos com as mãos cruzadas no peito. A luz forte dos refletores e o excesso de gente tornam o calor lá dentro insuportável. O escritor fala de pé durante meia hora, em francês tão fluente quanto seu inglês – sua história, a luta para ser escritor, a realização do sonho, suas crenças... –, com versão para o húngaro feita por uma jovem. Terminada a exposição, um número limitado de pessoas é escolhido para fazer perguntas, ao final das quais o escritor se levanta para agradecer a acolhida. A platéia começa a gritar que não quer que ele vá embora. Sacudindo livros seus no ar, fazem uma algazarra:

Ne! Ne! Ne!

No meio da barulheira a intérprete explica que ne em húngaro significa “não” – as pessoas simplesmente não querem que o autor deixe o local sem autografar os livros. O problema é que os seguranças também dizem ne – não é possível organizar uma sessão de autógrafos ali, com aquela multidão. Diante dos gritos do público – o ne! ne! ne! prossegue –, Paulo se faz de desentendido com os seguranças, tira uma caneta do bolso e, com ela na mão, volta ao microfone sorrindo:

– Se a gente se organizar, dá para assinar alguns!

Não deu. Em instantes, dezenas de pessoas se atropelam, sobem ao palco e cercam o escritor. O risco de tumulto deixa o ambiente tenso e os seguranças decidem intervir sem esperar ordens. Seguram-no pelos ombros, levantam-no do chão e o carregam até um vão atrás das cortinas, de onde é levado para uma sala segura. Ele reage dando gargalhadas:

– Podiam ter me deixado lá. Dos meus leitores eu não tenho medo. Tenho medo é de um tumulto. Em 1998, em Zagreb, na Croácia, um sujeito tentava furar a fila exibindo uma pistola na cintura, imagina o perigo! Meus leitores jamais me fariam algum mal.

Dois guarda-costas na frente e dois atrás, o escritor é levado pelos corredores do centro de convenções, sob os olhares curiosos dos circunstantes, até chegar ao estande da Athenäum, onde pilhas de exemplares do Zahir o esperam. A fila de quinhentas pessoas transformou-se num enorme aglomerado que ninguém consegue colocar em ordem. Os 150 detentores de senhas agitam os cartões numerados no ar, cercados pela maioria que só tem como passaporte para o autógrafo o essencial: livros de Paulo Coelho. Experiente em situações semelhantes, ele logo assume o comando. Falando em francês com a ajuda da intérprete, levanta os braços e grita para a multidão – sim, o que o espera é uma pequena multidão de quantas pessoas? Mil e quinhentas, duas mil? Não dá para saber quem está ali para pedir autógrafos, para ver o ídolo ou simplesmente atraído pelo tumulto. Com dificuldade para ser ouvido, grita:

– Obrigado pela presença de vocês. Sei que muitos estão aqui desde o meio-dia, e já pedi à editora para servir água a todos. Vamos fazer duas filas: uma dos que têm senha e outra dos que não têm. Vou tentar atender todo mundo. Muito obrigado!

Agora é trabalho braçal. Enquanto garçons percorrem o local com bandejas repletas de garrafinhas de água mineral gelada, o escritor tenta colocar ordem na confusão: assina trinta livros dos leitores da fila e em seguida mais trinta dos que ficaram de fora. A cada cinqüenta minutos, uma hora, mais ou menos, faz uma parada rápida para ir ao banheiro ou sair para um cubículo ao ar livre, a única área onde pode fumar em todo o centro de convenções. Na terceira visita ao local – que ele batiza de bad boy’s corner – encontra um não-fumante de livro na mão, à espera de um autógrafo fora da fila. É o brasileiro Jacques Gil, carioca de vinte anos que se mudou para a Hungria a fim de jogar no centenário Újpest, o mais antigo clube de futebol do país. Assina o livro correndo, dá quatro ou cinco tragadas fundas e lá se vai mais um cigarro. A passos rápidos volta para o estande, diante do qual a multidão permanece paciente. De vez em quando alguém reclama que a fila está andando muito devagar. No meio dos leitores que não conseguiram senha uma voz se destaca toda vez que o escritor se aproxima. É um jovem alto, de barba negra, que agita nas mãos um exemplar de Lo Zahir e escande as palavras, em italiano:

Maestro! Maeeeestro! Per piacere, firmi il mio libro! Io sono il unico italiano

qui! [Mestre! Mestre! Por favor, autografe meu livro! Sou o único italiano aqui!]

Pelas clarabóias de vidro dá para ver que é noite quando os últimos leitores se aproximam da mesinha. Encerrada a programação oficial, agora é hora de relaxar. O grupo original, acrescido de meia dúzia de moças e rapazes que se recusaram a arredar pé do lugar, combina de se encontrar depois do jantar na portaria do hotel para um programa noturno. Às dez da noite chegam todos a uma casa de karaokê no Mammut, um moderno e badalado shopping center. Os jovens húngaros que acompanham o escritor ficam desolados ao saber que o som está quebrado. “Que péssima notícia”, queixa-se um deles ao gerente. “Logo hoje que tínhamos conseguido convencer Paulo Coelho a cantar...”

A menção ao nome do escritor volta a abrir portas: o sujeito cochicha algo no ouvido de um louro de cabeça raspada e este apanha um capacete sob a mesa e sai em disparada. O gerente volta ao grupo, sorridente:

– Não será por falta de equipamento de karaokê que vamos perder uma apresentação de Paulo Coelho. Meu sócio pegou a moto e vai trazer o equipamento de uma casa próxima. Vocês podem se sentar. O motoqueiro demora tanto que a esperada apresentação acaba reduzida ao que os músicos chamam de “canja”, e das bem modestas. Paulo engata um dueto com Andrew, jovem estudante americano em férias na Hungria, cantando a música “My Way”, imortalizada por Frank Sinatra, e depois faz um solo de “Love Me Tender”, sem atender aos pedidos de bis. Todos retornam ao hotel à meia-noite e na manhã seguinte o grupo se desfaz. Mônica volta com o filho e Juana para Barcelona, Lea vai para a Suíça e o escritor, depois de caminhar uma hora pelo centro de Budapeste, está no banco de trás do Mercedes guiado por Szabados. A seu lado vai uma caixa de papelão cheia de livros seus que ele abre na primeira página, apenas assina e passa para Gergely, no banco da frente, um atrás do outro. Dedica os dois últimos nominalmente ao motorista e ao cicerone. Uma hora depois está de novo na classe executiva de outro avião da Air France – agora com destino a Paris – fazendo sua prece silenciosa. Quando o aparelho termina a decolagem uma jovem e linda negra de cabelos repartidos em mil trancinhas aproxima-se dele, levando nas mãos um exemplar de O Diário de um Mago em português.

É Patrícia, secretária da maior celebridade de Cabo Verde, a cantora Cesária Évora. Com o característico sotaque dos antigos colonos portugueses da África, ela pede um autógrafo:

– Não é para mim, é para a Cesária, que está sentada ali atrás. Ela é sua fã, mas é muito tímida.

Duas horas e pouco depois, em Paris, Paulo ainda enfrenta uma breve e inesperada sessão de autógrafos e fotos na chegada ao Aeroporto Charles de Gaulle, ao ser identificado pela banda de rastafáris caboverdianos que esperavam a cantora. O alvoroço causado por eles atrai curiosos que, reconhecendo o escritor, também querem fotos com ele.

Apesar de visivelmente cansado, atende a todos com um sorriso nos lábios. Na saída já o espera o motorista Georges, a bordo de um Mercedes-Benz prateado posto à sua disposição pelo editor francês.

Embora uma suíte de 1300 euros a diária esteja à sua disposição no hotel Bristol, um dos mais luxuosos da capital francesa, prefere dormir em sua própria casa, um amplo apartamento de quatro dormitórios e 210 metros quadrados no elegante 16ème Arrondissement, de cujas janelas pode-se desfrutar uma romântica vista das curvas do rio Sena. O problema é chegar lá: hoje é aniversário do massacre perpetrado pelo Império turco-otomano contra os armênios, e uma barulhenta manifestação de protesto cerca a Embaixada da Turquia, instalada a poucos metros do prédio do escritor. Pelo caminho é possível ver estampado

nas bancas de jornais e quiosques um cartaz de página inteira da revista Femina (suplemento feminino semanal com tiragem de 4 milhões de exemplares e encartado em vários jornais franceses) oferecendo um capítulo de Le Zahir para as leitoras. Uma enorme foto do escritor está também na primeira página do Journal du Dimanche, que anuncia uma entrevista exclusiva com ele.

À custa de pequenas contravenções, como subir em calçadas e andar na contramão, Georges consegue por fim estacionar na porta do edifício – um prédio igualzinho a centenas, milhares de outras construções erguidas em Paris no começo do século XX, e que exemplificam a chamada “arquitetura burguesa”. Aquela é uma casa tão pouco familiar a Paulo Coelho que, mesmo tendo sido adquirida mais de quatro anos antes, o proprietário ainda não conseguiu decorar o código de duas letras e quatro números que abre automaticamente a porta de entrada do prédio. Christina, sua mulher, está lá em cima à espera dele, mas sem celular – e ele não se lembra também do número do telefone de sua própria casa. As alternativas são esperar a chegada de um vizinho ou gritar para que ela jogue a chave. Cai uma garoa fina e, como a “arquitetura burguesa” não previa marquises, a espera começa a se tornar desconfortável.

Além do mais, em um prédio de seis pavimentos com um só apartamento por andar, é grande o risco de passar horas ali até que algum samaritano entre ou saia. O jeito é gritar – e torcer para que Christina esteja acordada. Parado no meio da rua e com as mãos em concha em volta da boca, ele berra:

– Chris!

Nada. Tenta de novo:

– Christina!

Olha para os lados e para as janelas da vizinhança, temendo ser identificado, e esvazia os pulmões de novo:

– Chris-tiii-naaaaa!

Como uma mãe que olhasse um filho traquinas, ela aparece sorridente, de jeans e pulôver de lã, na sacadinha do terceiro andar, e lança ao ar o molho de chaves para que o marido (agora, sim, com aparência cansada) possa entrar no prédio. O casal dorme apenas uma noite ali. No dia seguinte ambos estão instalados na suíte 722 do hotel Bristol, reservada pela editora Flammarion. Não é casual a escolha do Bristol, um templo de luxo na rue du Faubourg Saint-Honoré: foi ali, entre as poltronas estilo Luís XV de seu saguão, que o escritor ambientou trechos de O Zahir.

Na obra o personagem central costuma se encontrar com a mulher, a jornalista Esther, para tomarem na cafeteria do hotel um chocolate quente adoçado por uma casca de laranja cristalizada. Como retribuição à homenagem, o Bristol decidiu batizar a bebida com o nome de Le chocolatchaud de Paulo Coelho, inscrição que vem gravada em confeito dourado nas barrinhas de chocolate servidas aos hóspedes por dez euros.

Neste fim de tarde o hotel converte-se no ponto de encontro de jornalistas, personalidades e convidados estrangeiros que irão ao jantar no qual a Flammarion vai anunciar a bomba do ano no mercado editorial europeu: a contratação de Paulo Coelho. Desde 1994 o escritor mantinha-se fiel à pequenina Éditions Anne Carrière, detentora de cifras capazes de despertar a cobiça até das tradicionais casas editoriais: em pouco mais de dez anos ela vendera 8 milhões de livros de sua autoria. Depois de anos dizendo não a propostas que se tornavam cada vez mais sedutoras e irrecusáveis, o escritor acabara de se render a uma montanha de 1,2 milhão de euros empilhados em sua conta bancária pela Flammarion, cifra que ambas as partes preferem não confirmar.

Paulo e Christina aparecem no lobby do Bristol. Ela é uma mulher de 55 anos, bonita e um pouco mais baixa que o marido, com quem está casada desde 1980. Discreta e elegante, de pele clara, olhos castanhos e nariz delicado, traz tatuada na parte interna do antebraço esquerdo uma pequena borboleta azul, idêntica à que o marido usa também no braço esquerdo, mas na parte externa. Christina tem os cabelos de mechas brilhantes cortados logo abaixo da orelha. Mesmo perto da vermelhíssima echarpe que lhe cobre o vestido longo preto, o que chama a atenção é o par de misteriosos anéis que usa nos dedos (“abençoados por um cacique”, explica), um presente trazido do Cazaquistão pelo marido. Este, como sempre, está todo de preto – calça, paletó, botinas de caubói. A única mudança em relação ao figurino de todos os dias é o uso de camisa social e gravata, ambas pretas, claro.

O primeiro amigo a surgir também está hospedado no Bristol e veio de longe. É o jornalista russo Dmitry Voskoboynikov, um grandalhão bem-humorado que ainda exibe nas reforçadas canelas as cicatrizes deixadas pelo tsunami que, no Réveillon de 2005, varreu a Indonésia – onde ele e a mulher, Evgenia, passavam o Ano Novo. Ex-correspondente em Londres da TASS (agência oficial de notícias da finada União Soviética) e filho de um ex-dirigente da temida KGB, o serviço secreto soviético, Dmitry é o dono da Interfax, uma mega-agência de notícias sediada em Moscou e que cobre de Portugal aos confins orientais da Ásia. Eles se abraçam enquanto Paulo desembrulha o mimo que a Flammarion acabara de deixar em sua suíte: um telefone celular Nokia, desses modelos capazes de fazer quase tudo.

Os quatro se sentam em torno de uma das mesinhas do saguão de mármore bege e Evgenia, uma opulenta loura cazaque, oferece ao escritor um presente especial: uma edição de luxo de O Zahir no idioma de seu país natal. Quatro taças de champanhe aparecem sobre a mesa, acompanhadas de cuias de cristal com pistache previamente descascado.

O assunto logo muda para gastronomia, e Evgenia conta que comeu um “cuscuz à Paulo Coelho” em Marrakesh, no Marrocos. Dmitry lembra que eles tinham estado em um Restaurant Paulo Coelho na estação de esqui de Gstaad, na Suíça. A conversa é interrompida pela presença de outro celebrado jornalista, o brasileiro Caco Barcellos, chefe do escritório europeu da Rede Globo de Televisão. Recém-chegado de sua base em Londres, fora enviado a Paris exclusivamente para cobrir o jantar da Flammarion. O jornalista está sozinho, sem qualquer ajudante ou auxiliar para cuidar da iluminação ou mesmo operar a câmera. Na hora da entrevista, abre o tripé de nove quilos que traz sob o braço, aparafusa ali a câmera com flash pré-instalado, acende o refletor, aciona o botão rec, dá a volta, pega o microfone e passa a fazer a entrevista para o que, à primeira vista, parece ser uma câmera-fantasma, sem operador.

Às sete da noite, Georges chega com o Mercedes para levá-los à cerimônia. O lugar escolhido pela Flammarion para o banquete de 250 talheres não deixa dúvidas quanto ao caráter arrasa-quarteirão da festa: o restaurante Le Chalet des Îles, um casarão que Napoleão III mandou vir desmontado da Suíça e reconstruiu, pedra por pedra, em uma das ilhas do lago do Bois de Boulogne, o grande bosque da região oeste de Paris, como prova de amor à sua mulher, a condessa espanhola Eugênia de Montijo. Os convidados são identificados por seguranças no barco que os levará à Île Supérieur, onde fica o restaurante. No desembarque, recepcionistas os acompanham até a porta principal, onde os diretores da Flammarion se revezam para cumprimentar os recém-chegados. Editores, críticos literários, artistas, diplomatas e personalidades da vida cultural européia são cercados pelos paparazzi e equipes de revistas de futilidades para fotos e entrevistas. Há muitos homens de black-tie e mulheres de vestidos longos, e aos poucos todos passam a procurar seus nomes marcados nas 25 mesas de dez lugares dispostas no salão central e nas varandas com vista para o lago.

Há pelo menos dois embaixadores presentes, o brasileiro Sérgio Amaral, e Kuansych Sultánov, representante do Cazaquistão, país onde foi ambientada parte de O Zahir. A única ausência notável é a do polêmico Frédéric Beigbeder. Ex-publicitário, escritor e crítico literário de estilo provocador, Beigbeder ocupa desde 2003 o cargo de editor da Flammarion.

Nada demais, não fosse o fato de anos antes, quando era crítico do semanário de escândalos francês Voici, ele ter esculhambado Paulo Coelho após o lançamento na França do livro Manuel du guerrier de la lumière (Manual do Guerreiro da Luz). Quando todos estão instalados em seus lugares, o escritor passa de mesa em mesa cumprimentando os convidados.

Antes que as entradas sejam servidas, o público ouve um rápido discurso de Frédéric Morel, diretor-geral da Flammarion, que anuncia a contratação de Paulo Coelho como um motivo de orgulho para a casa que lançou alguns dos maiores escritores franceses. Emocionado, o escritor também fala rapidamente, agradecendo a homenagem e a presença de tanta gente. Após a sobremesa, brindes de champanhe e um baile animado por um conjunto musical põem fim ao encontro que, como em geral acontece na França, tem hora certa para acabar. Às onze da noite não se vê mais ninguém no lugar.

Na manhã seguinte um vôo com duração de uma hora leva o escritor e Christina ao aeroporto de Pau, no extremo sul da França. Lá pegam o carro que Paulo deixara no estacionamento dias antes – um modesto Renault Scénic adquirido sob a forma de leasing e idêntico ao da mulher.

Seu visível desinteresse por bens de consumo, somado a certo pão-durismo, fez com que ele, embora muito rico, só viesse a ter seu primeiro carro de luxo em 2006, e ainda assim adquirido sob a forma de escambo. Isso ocorreu quando a montadora alemã Audi lhe encomendou um texto de 6 mil caracteres – o equivalente a duas páginas datilografadas – para acompanhar o relatório anual enviado a seus acionistas. Perguntaram quanto queria receber pelo trabalho e ele brincou:

– Um carro!

Escreveu e enviou o texto por e-mail. Dias depois um caminhão vindo da Alemanha desembarcava diante de sua casa uma reluzente perua Audi Avant preta, novinha em folha. Ao saber que era um carro que custava cerca de 100 mil euros nas lojas, uma jornalista brasileira fez as contas e escreveu que o escritor tinha ganhado dezesseis euros por letra escrita. “Está muito bom”, reagiu ele ao ler a notícia, “pois me disseram que o Hemingway recebia cinco dólares por palavra.”

Meia hora depois de deixar Pau, Paulo e Christina estão na melancólica Tarbes, cidadezinha de 50 mil habitantes nas franjas do País Basco francês, a poucos quilômetros da fronteira com a Espanha. Mais quatro quilômetros em direção ao sul, por uma estrada vicinal quase deserta, e afinal chegam em casa, em Saint-Martin, minúscula comuna em meio a campos de trigo e pastos com esparsas vacas da raça holstein, onde vivem 316 almas em poucas dezenas de casas. A escolha de tão insólito lugar para viver aconteceu em 2001, quando o casal fez uma peregrinação ao santuário de Lourdes, a dezesseis quilômetros dali. Destino de fiéis vindos de todos os cantos do mundo, a cidade de Lourdes não tinha uma única cama de hotel disponível, o que os levou a se hospedarem no hotel Henri IV, um modesto três estrelas de Tarbes. A tranqüilidade da região, a proximidade do santuário de Lourdes e a deslumbrante vista que dali se tem dos Pireneus induziram os dois a tomar uma decisão radical: fixar residência naquela região. Enquanto procuravam, sem nenhuma pressa, uma casa para comprar, Paulo e Christina moraram durante quase dois anos na única suíte do Henri IV, um casarão velho, aconchegante e sem nenhum dos confortos a que ambos estavam habituados nos grandes hotéis. A ausência desses luxos – não havia sequer conexão para a internet – era compensada pelo carinho com que foram tratados por madame Geneviève Phalipou, a proprietária, ou por seu filho Serge, que dependendo da hora podia ser gerente, garçom ou porteiro do hotel. A chamada “suíte” ocupada pelo casal nada mais era que um quarto com banheiro, como os demais, acrescido de um segundo cômodo convertido em sala.

A permanência por tão longo tempo em uma cidade pequenina como aquela transformou o brasileiro num nativo. Sem nunca ter tido secretários ou assistentes, era ele mesmo quem ia ao correio, fazia supermercado, ia à farmácia e ao açougue, exatamente como os demais moradores do lugar. No começo ainda era visto como celebridade (sobretudo pela presença permanente de jornalistas estrangeiros à porta do Henri IV), mas não há fama que resista ao convívio diário na fila do padeiro ou do barbeiro: em poucos meses tornou-se um legítimo tarbais. Ninguém, na verdade, entende bem por que, em vez de escolher um dos lugares eleitos por celebridades – como Paris, Nova York, uma villa na Riviera Francesa ou na elegante costa Amalfitana, na Itália –, Paulo Coelho decidira morar naquela roça, que fica literalmente no fim da linha: Tarbes é o ponto final de uma das linhas do trembala TGV, que serve o Sudoeste da França. Mesmo depois que deixou o hotel e se mudou para a casa em Saint-Martin, os moradores da cidade continuam a considerá-lo um deles – relação que Paulo faz questão de retribuir. Em uma de suas estadas em Paris, deu provas disso ao ser entrevistado no Tout le Monde en Parle, programa exibido ao vivo pelo canal France 2 e cujo apresentador, Thierry Ardisson, é conhecido por deixar seus entrevistados em maus lençóis. Nesse dia participavam também o cantor Donovan e o estilista Paco Rabanne. Ardisson começou botando o pé na porta:

– Paulo Coelho, tenho uma pergunta que há muito me intriga.

Você é rico, célebre, universalmente conhecido e, no entanto, vive… Você vive em Tarbes! Por que essa estupidez?

O escritor não passou recibo à provocação. Deu uma gargalhada e respondeu:

– Até mesmo os moradores de lá ficaram surpresos. Foi amor à primeira vista. Só o amor explica essas coisas.

O âncora não desistia:

– Agora a sério, sem rir, nos explique: por que escolheu morar em Tarbes?

– Foi o amor.

– Não acredito. Confesse: você perdeu alguma aposta e teve que se mudar para Tarbes?

– Não! Não!

– Eles mantêm sua esposa como refém para obrigá-lo a viver lá?

– Não! Nada disso!

– Mas quem vive em Tarbes não é obrigado a pegar a estrada para fazer compras nos shoppings de Laloubère ou de Ibos?

– Sim, é isso mesmo. É lá que faço compras.

– E alguém lá em Tarbes o conhece, sabe que você é o Paulo Coelho?

– Claro, todo mundo lá me conhece...

– Já que você gosta tanto de lá, quer enviar alguma mensagem para o morador de Tarbes, perdão, para os moradores de Tarbes?

– Claro: tarbaises, eu amo vocês. Muito obrigado por me acolherem como um filho da cidade.

As declarações soaram como música aos ouvidos de seus novos conterrâneos.

Dias depois o jornal La Dépêche, que cobre toda a região dos Hautes-Pyrénées, onde fica a cidade, celebrava o comportamento de Paulo Coelho, afirmando que “Tarbes viveu no sábado à noite seu momento de glória nacional”. Diferentemente do que a mídia costuma publicar, ele não mora em um castelo. O lugar onde o casal vive é o antigo Moulin Jeanpoc, um moinho de trigo desativado que ele e Christina converteram em residência. A área útil do imóvel parece não chegar aos 300 metros quadrados, divididos em dois pavimentos. Uma casa muito confortável, mas sem grandes luxos. No térreo ficam a sala de estar com lareira (ao lado da qual ele instalou sua mesa de trabalho), uma pequena cozinha, a sala de jantar e um lavabo. Durante a reforma do lugar, o casal fez um puxado todo de vidro temperado, inclusive o teto, o que permite jantar à luz das estrelas. Um antigo silo foi transformado num agradável estúdio repleto de cavaletes, telas, pincéis e tubos de tinta sob um mezanino de madeira: é ali que Christina Oiticica passa os dias pintando seus quadros.

No segundo andar ficam o quarto do casal, o de hóspedes e um terceiro, onde dorme a mineira Maria de Oliveira, cozinheira de mão-cheia que Christina trouxe do Brasil mas que recebe remuneração européia – 2 mil euros mensais. O maior encanto da casa, no entanto, não está dentro dela, mas fora. De qualquer lugar do terreno tem-se uma magnífica visão dos Pireneus – a cordilheira de 430 quilômetros de extensão e 3 mil metros de altitude que constitui a fronteira natural entre a França e a Espanha, unindo o Atlântico ao Mediterrâneo. A vista adquire beleza ainda maior no período que vai de novembro a março, quando a neve cobre o maciço, deixando inteiramente branco o mastodonte de pedra. Para desfrutar desse privilégio, o escritor teve de comprar e botar abaixo a casa de um vizinho que criava mulas e ovelhas. Ele não se lembra exatamente de quanto pagou pela casa (nem pela do vizinho), mas corretores da região avaliam que o imóvel, sem o terreno que o cerca, vale cerca de 900 mil euros. O patrimônio imobiliário do escritor, que compreendia a casa de Tarbes, o apartamento de Paris e outro em Copacabana, no Rio – seria substancialmente engordado em 2007, quando Sua Alteza, o xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, emir de Dubai e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, ofereceu-lhe de presente uma mansão mobiliada no valor de 4,5 milhões de dólares, construída em um dos mais exclusivos condomínios de Dubai (mimo semelhante também foi oferecido pelo monarca ao piloto alemão Michael Schumacher, ao meio-campista inglês David Beckham e ao jogador brasileiro Pelé).

Como a família não conta com a ajuda de nenhum outro empregado além de Maria, nem mesmo de um motorista, o responsável pelas tarefas rotineiras é o próprio Paulo. Rachar lenha para a lareira, cuidar das roseiras, aparar a grama e recolher folhas secas com um rastelo são tarefas que fazem parte do seu cotidiano. Sistemático e organizado como, dizem, são os nascidos sob o signo de Virgem, tenta impor certa disciplina aos horários da casa por meio de regras que chama, brincando, de “regulamento do monastério”. Salvo quando está empenhado no lançamento de um novo livro ou atendendo a convites para debates e palestras pelo planeta afora, seu dia-a-dia não muda muito. Sem ser boêmio, raramente dorme antes da meia-noite. Como em matéria de álcool quase só bebe vinho, e em geral com moderação, costuma despertar sempre bem disposto, por volta das oito da manhã. Toma café com pão, manteiga, queijo e, chova ou faça sol, sai para uma hora de caminhada diária que tanto pode ser nos trigais em volta da casa como, em caso de o tempo estar bom, nos íngremes e pedregosos morros vizinhos que formam o sopé dos Pireneus. Sua companheira nessas andanças é quase sempre Christina; mas, se ela está ausente ou indisposta, ele vai sozinho. Os eventuais amigos que se hospedam na casa sabem que serão compelidos a acompanhar o anfitrião – esta é uma das regras do monastério. Um dos trajetos preferidos é o que termina em frente à capela de Notre Dame de Piétat, na comuna de Barbazan-Débat, vizinha de Saint-Martin e de Tarbes. Lá, de joelhos, ele se persigna, faz uma prece rápida, põe uma moeda no cofre de latão e acende uma vela diante da pequena imagem de madeira pintada da Virgem Maria que tem no colo um insólito Menino Jesus: embora tenha as formas de um bebê, ele traz o corpo martirizado e a barba crescida.

De volta à casa Paulo mexe no jardim, poda flores, corta o mato que está entupindo o pequeno córrego que passa pelo terreno. Só então sobe para o banho, após o qual abre o computador pela primeira vez no dia.

Lê as versões online de pelo menos dois jornais brasileiros – a Folha de S.Paulo e O Globo –, passa os olhos por alto no clipping eletrônico com tudo o que saiu publicado na véspera sobre ele e seus livros na mídia mundial. Antes de clicar na tecla enter que vai abrir um site com listas de livros mais vendidos, coloca as mãos espalmadas sobre a tela do micro, como quem se aquece numa lareira, fecha os olhos e faz um instante de mentalização, buscando, segundo diz, atrair energias positivas. Bate o indicador com força no teclado e sorri à medida que as telas rolam: nos países que importam, O Zahir só não está em primeiro lugar na Alemanha e... no Brasil. Em ambos o pódio está ocupado pelo americano Dan Brown e seu Código Da Vinci. O correio eletrônico também não traz grandes surpresas: hoje chegaram quase mil mensagens, vindas de nada menos que 111 países, organizados em ordem alfabética numa lista que vai de Andorra à Venezuela, passando por Burkina Fasso, na África, Niue, nas costas da Nova Zelândia, e Tuvalu, na Polinésia. Paulo comenta com Christina, sentada a seu lado:

– Olha só, Chris: quando voltamos da caminhada eram 11 horas e 11 minutos e o termômetro marcava 11 graus centígrados. Agora eu abri minha caixa postal e há mensagens vindas de 111 países. Preciso decifrar o que significa esse sinal.

Não é raro ouvi-lo fazer considerações como essa. Onde a maioria das pessoas enxerga apenas uma coincidência – como no caso do número 1 que apareceu tantas vezes em tão pouco tempo –, o escritor vê sinais a serem interpretados. Suas preocupações com nomes, lugares, datas, cores, coisas e números que a seu ver poderiam atrair desgraças – assim como a mosca invisível que tenta espantar com os dedos – deixam a suspeita de que possa estar acometido de uma forma branda daquilo que a medicina moderna batizou de transtorno obsessivo compulsivo, ou apenas TOC. Pelo menos três outras estrelas, o inglês David Beckham, o compositor italiano Ennio Morricone e o cantor brasileiro Roberto Carlos, assumiram publicamente ser portadores do TOC. Morricone não entra em locais com paredes de cor roxa. Roberto Carlos, entre outras manias, não usava roupas marrons e nem entrava em locais que exibissem animais empalhados. Beckham enchia sua geladeira com produtos duplicados e ao chegar nos hotéis só conseguia dormir depois de trancar em uma gaveta todos os papéis existentes no quarto. Paulo não fala os nomes do Paraguai, do ex-presidente Fernando Collor (e de sua ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello), e só voltou a pronunciar o nome de Adalgisa Rios, uma de suas três ex-mulheres, depois da morte dela, ocorrida em junho de 2007. Em relação aos demais, se alguém fala a palavra proibida em sua presença, ele se apressa a buscar algo de madeira para bater três vezes com os nós dos dedos, a fim de afastar a energia negativa. Corta caminho sempre que vê uma pena de pombo na calçada, jamais passando por cima dela. Um de seus melhores amigos, o empresário uruguaio-brasileiro José Antonio Domínguez, o Pepe, é testemunha de que essas esquisitices do escritor são antigas. Ele se lembra de que certa noite, no começo dos anos 70, os dois saíam juntos de um bar do Rio de Janeiro quando Paulo de repente o agarrou pelo braço, atravessou a rua, puxando-o imprudentemente por entre os veículos, até achar uma árvore (a superfície de madeira mais próxima) e bater nela três vezes, sofregamente. Quando o intrigado Pepe pediu uma explicação, ele confidenciou:

– Acabei de ver uma mulher grávida falando num telefone público. Isso atrai energias negativíssimas.

Ao contrário de Beckham e Roberto Carlos, que recorreram a especialistas para se livrar desses impulsos incontroláveis, Paulo convive com suas manias sem qualquer constrangimento. Em abril de 2007, quando foi objeto de uma reportagem de oito páginas da refinada revista americana The New Yorker, confessou candidamente à repórter Dana Goodyear que se recusa a jantar em mesas onde haja treze pessoas.

Christina não apenas entende esse lado excêntrico do marido, mas compartilha seus temores e interpretações e, não raras vezes, é ela quem o adverte dos riscos astrais de fazer ou deixar de fazer alguma coisa.

Pela rotina da casa, uma tarde da semana é reservada à leitura da correspondência em papel. A cada sete dias ele recebe pelo correio os volumes vindos de seu escritório no Brasil e da Sant Jordi, em Barcelona.

Empilhados sobre uma mesa no gramado do jardim, os pacotes são abertos com um canivete de cabo de osso e as cartas organizadas em montinhos, separados por tamanho. De vez em quando o silêncio é interrompido pelo mugido de uma vaca ou pelo ruído distante de um trator. Para ler a maior parte do material Paulo precisa recorrer a um dos cinqüenta pares de óculos de plástico que guarda em uma gaveta da sala.

Eles não têm nada diferente dos similares vendidos em supermercados e camelôs nas grandes cidades e chegaram lá casualmente. Um dia, num programa da tevê francesa, perguntaram-lhe qual era a grife dos óculos que usava e o escritor respondeu que não eram de nenhuma marca famosa, mas comprados nas gôndolas das lojas Afflelou, uma popular rede especializada em óptica que tem filiais por toda a França. Sorte dele: madame Rosalie Afflelou, mulher do proprietário da cadeia, estava assistindo ao programa e no dia seguinte mandou entregar em Saint-Martin uma caixa com cinqüenta pares de óculos para vista cansada.

Para quem vê sinais em todo canto e tem fama de avarento, o primeiro envelope da pilha traz uma boa notícia: a conta do telefone do apartamento de Paris este mês apresentou um consumo de minguados catorze euros, pouco mais que a tarifa mínima. Maços de papel ou disquetes com originais de livros de autores estreantes nem são desembrulhados e seguem direto para a cesta de lixo – conforme está expressamente avisado nos sites e blogs do escritor na internet. No meio da papelada vê dois pequenos pacotes, embalados com o cuidado e a delicadeza que só mãos maternas ou apaixonadas costumam ter: as remetentes são monjas do interior da Noruega que lhe enviam doze sabonetes feitos por elas (seis de benjoim e seis de alfazema) e várias caixinhas de papelão do tipo Tetra Pak sem qualquer marca impressa, contendo leite de aveia, de arroz e de soja – também produzidos no mosteiro e que, graças a algum misterioso sortilégio, foram convertidos, asseguram as freirinhas, em produtos alquímicos. Na época em que cartas-bomba e envelopes com pós químicos venenosos viraram armas letais, ele chegou a temer que algum louco resolvesse explodi-lo ou contaminá-lo, mas nunca recebeu nada suspeito. Por via das dúvidas, os pacotes que chegam pelo correio, mesmo que previamente vistoriados no Rio de Janeiro ou em Barcelona, são submetidos a rápida mentalização para receberem boas vibrações antes de serem abertos. Uma embalagem de papelão do tamanho de uma caixa de camisas, vinda do escritório do Rio de Janeiro, traz as respostas às cartas de leitores para serem assinadas por ele. As mais longas estão impressas em folhas de papel ofício encimadas pelo símbolo da Academia Brasileira de Letras, instituição da qual Paulo é membro desde 2002. Respostas curtas vêm em cartões timbrados com seu nome. O expediente epistolar se encerra com autógrafos em cem fotografias solicitadas por leitores, nas quais o escritor aparece como de costume: calça, camisa e agasalho pretos.

Após alguns telefonemas faz uma hora de relaxamento: no improvisado estande montado no jardim (ou nas matas em volta da casa) pratica o kyudo, a arte marcial japonesa de tiro com arco, que une força física e disciplina mental. No meio da tarde senta-se diante do computador para escrever a pequena coluna semanal de 120 palavras que é publicada em trinta jornais dos cinco continentes, do Líbano (Al Bayan) à África do Sul (Odyssey), passando, entre outros, por Venezuela (El Nacional), Índia (The Asian Age), Brasil (O Globo) e Polônia (Zwierciadlo).

No mais, o dia-a-dia de Paulo e Christina não difere muito do sossegado cotidiano das três centenas de moradores do vilarejo. O círculo de relações do casal é pequeno e não inclui intelectuais, personalidades ou freqüentadores de colunas sociais. O mais conhecido do grupo é Frédéric Bonomelli, 47 anos, residente a quatro quilômetros da casa dos Coelho, distância suficiente para se chegar a outra comuna, a de Hibarete. Ele é dono da Salaisons Pyrénéennes, produtora de uma célebre e cara iguaria conhecida como Le Noir de Bigorre, o presunto de porco do sudoeste da França – o “porco preto”, como se diz, parente do famoso Patanegra da vizinha Espanha. Em vias de extinção décadas atrás, a raça foi recuperada por Eugène Bonomelli, pai de Frédéric, que se orgulhava de ter entre seus clientes ninguém menos que o papa João XXIII. Os outros amigos são o radiologista de Tarbes, Hervé Louit, o representante da Renault na região, Allen Tanni, a cardiologista Sylvie e seu marido Patrice Pinta.

“Tenho quinhentos canais de tevê à minha disposição”, declarou Paulo anos atrás, em entrevista ao jornal The New York Times, “mas moro em uma cidade que não tem padaria.” Não tem padaria, bar, supermercado nem posto de gasolina. Como costuma acontecer na maioria das minúsculas 35 mil comunas da França, na pachorrenta Saint-Martin não há um único estabelecimento comercial. Para fazer compras ou apenas sair da rotina, Tarbes é a alternativa mais à mão, desde que se chegue lá antes das cinco da tarde, hora em que a cidadezinha começa a morrer. O programa noturno é ir a um dos três bons restaurantes locais, o vietnamita Thanh Thúy, o tunisiano L’Oriental, onde servem um honesto cuscuz, e o melhor deles, o francês Le Petit Gourmand, que era uma extensão da casa dos Coelho no período em que moraram em Tarbes – não só pela saborosa comida feita pela dona, Marie Christine Espagnac, mas também pela comodidade de ficar a cinco passos do hotel Henri IV.

Durante um jantar no Le Petit Gourmand, nessa época, Paulo e Christina viveram momentos de apuros. Eles e os demais clientes, que ocupavam metade das mesas, viram-se surpreendidos quando as luzes se apagaram repentinamente e o lugar foi tomado pelo tropel de homens correndo e o ruído ensurdecedor de helicópteros pairando acima do pequeno prédio de dois andares. Pelas portas da frente e dos fundos entraram dois grupos de soldados com os rostos cobertos por máscaras,capacetes com visores de luz infravermelha e armamento pesado.

Atravessaram o salão às escuras, derrubando mesas, bandejas e garrafas, e galgaram a pequena escada que leva ao segundo andar, arrebentando com pontapés as portas que encontravam pela frente. O ruído das hélices dos helicópteros dava a impressão de que os aparelhos estavam dentro do restaurante, apavorando ainda mais os comensais. Era um comando antiterrorista do Exército francês no encalço de um grupo de guerrilheiros do ETA, a organização pró-independência do País Basco.

Embora atue primordialmente na Espanha, o ETA tem um braço também na França e, segundo denúncias, teria alugado o pequeno apartamento do andar superior para usá-lo como esconderijo. Para sorte da clientela presente, os soldados não encontraram mais ninguém.

O descanso em Saint-Martin chega ao fim, está na hora de voltar ao batente. Um e-mail expedido pela Sant Jordi contém uma extenuante proposta de agenda para as três semanas seguintes que, se cumprida, obrigará o escritor a dar uma volta completa no globo terrestre. Para Paulo Coelho, essas viagens deixaram de ter como objetivo apenas o que fazem quase todos os autores, a divulgação de seus livros, expediente a que ele não precisa recorrer faz muitos anos. A aproximação com alguns de seus fãs célebres, que vão do ex-presidente americano Bill Clinton à superestrela de Hollywood Julia Roberts, passando pelo presidente russo Vladímir Pútin, acabou por alçá-lo também a outro mundo, o do jet set internacional. Na lista que veio de Barcelona estão pré-agendados convites para lançamentos de O Zahir na Argentina, no México, na Colômbia, em Porto Rico e em Paris; o recebimento do Prêmio Goldene Feder em Hamburgo, na Alemanha; noites de autógrafos no Egito, na Síria e no Líbano, assim como uma viagem a Varsóvia para o aniversário de Jolanda, mulher do então presidente da Polônia, Aleksander Kwa´sniewski.

Depois iria a Londres para participar – com o tenista Boris Becker, o cantor Cat Stevens e o ex-secretário-geral da ONU, Boutros-Ghali – de um jantar beneficente para a campanha contra o uso de minas militares, e no dia seguinte retornaria à França para jantar no Palácio de Versalhes, com Lilly Marinho, viúva de Roberto Marinho, dono das Organizações Globo. Quatro dias depois estão previstos lançamentos de O Zahir no Japão e na Coréia do Sul. Na volta para a Europa faria uma escala em Astana, capital do Cazaquistão, para a festa do 65o aniversário do presidente da República, Nursultan Nazarbayev. O último compromisso sugerido não dava para cabular: um convite do empresário Klaus Schwab, criador e presidente do Fórum Econômico Mundial, que se realiza anualmente em Davos, na Suíça, para o escritor falar na abertura de outra de suas famosas iniciativas – o Festival Cultural de Verbier, que reúne jovens músicos clássicos de todo o mundo em um cantão suíço.

Paulo espanta a mosca invisível duas, três vezes da frente dos olhos e, contrariado, resmunga algo como “nenhum ser humano é capaz de cumprir uma agenda como esta”. Ao lado do computador, na sala de visitas da casa, Christina ouve a queixa e provoca o marido, sorridente:

– Ué, foi você quem escolheu ser campeão mundial de Fórmula-1, não foi? Agora pega a Ferrari e guia!

A frase desarma seu mal-estar. Ele ri muito e reconhece que sim, que não só escolheu, mas lutou a vida inteira para ser aquilo em que se tornou, e que não tem do que reclamar:

– Tudo bem, mas ainda assim não dá para cumprir essa agenda. São eventos muito próximos uns dos outros, e em três continentes diferentes!

Na maioria das vezes o estresse das viagens não reside nos compromissos em si, mas no inferno em que se transformaram os aeroportos modernos, sobretudo depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 contra as torres gêmeas de Nova York, quando a vigilância, a burocracia, as desconfianças e, portanto, as demoras aumentaram muito.

Como a fama não assegura todos os privilégios, ele enfrenta filas, atrasos e overbookings como qualquer um de seus milhões de leitores. Cioso de sua imagem discreta e ascética – e pouquíssimo afeito a gastos desnecessários –, ele resiste a uma idéia sugerida por vários amigos: comprar um jato executivo. Defensor da política de “tolerância zero” para com as empresas aéreas, Paulo Coelho sofre freqüentes dores de cabeça em aeroportos. Vítima de um overbooking na classe executiva de um vôo Londres–Madri, pela espanhola Iberia, ele se queixou com tal veemência com a tripulação que, ao chegar ao Aeroporto de Barajas, na capital espanhola, cinco policiais esperavam o casal – Christina estava junto.

Nem mesmo um pedido formal de desculpas do presidente da companhia, feito por carta, foi capaz de desfazer o mal-estar. O problema da agenda proposta pela Sant Jordi é que ela teria de ser integralmente cumprida em aviões comerciais. Paulo imprime a lista numa folha de papel e, de caneta na mão, começa a cortar primeiro os compromissos que exijam vôos intercontinentais, o que significa adiar América Latina, Japão e Coréia, e descartar a festa de aniversário no Cazaquistão. Síria e Líbano também saem, mas o Egito permanece. Varsóvia é substituída por Praga, cidade onde o escritor pretende pagar uma promessa feita vinte anos antes. No fim, fica decidido que, da República Tcheca, início do périplo, ele vai a Hamburgo receber o prêmio e de lá segue para o Cairo. Mas o problema, de novo, são os aviões: não há conexões disponíveis que permitam cumprir no horário os compromissos da Alemanha e do Egito. Os alemães se recusam a alterar o programa, já impresso e distribuído, mas propõem uma alternativa: o jato particular de Klaus Bauer, presidente do conglomerado de mídia Bauer Verlagsgruppe, que patrocina o Goldene Feder, levará Paulo e eventuais acompanhantes de Hamburgo ao Cairo tão logo termine a cerimônia.

Horas mais tarde, quando o programa está sacramentado por todas as partes envolvidas, o escritor liga para Mônica com o ar maroto:

– Já que vamos a Praga, que tal fazer uma blitzkrieg lá?

Blitzkrieg – “guerra-relâmpago”, em alemão – é o nome dado às sessões de autógrafos feitas de surpresa, às vezes horas depois de decididas, sem qualquer anúncio ou publicidade. Ele simplesmente entra em uma livraria escolhida ao acaso, cumprimenta o gerente com um “muito prazer, eu sou o Paulo Coelho” e se oferece para autografar seus livros, caso haja algum cliente interessado. Há quem diga que as blitzkriegen no fundo são uma espécie de exibicionismo, que o escritor adora fazer sobretudo em companhia de jornalistas – como, de fato, ocorreu com a repórter que o acompanhava na Itália ao preparar o longo perfil para a New Yorker. Dana Goodyear ganhou em Milão uma blitzkrieg com toda a pinta de ter sido concebida especialmente para ela. Em Praga, na verdade, ele está propondo algo intermediário: avisar na véspera o editor de seus livros para não dar tempo de armar entrevistas, debates e talk shows, mas assegurar pelo menos que haja livros para todos, se aparecer muita gente.

O objetivo desta viagem à República Tcheca, porém, nada tem a ver com o lançamento de livros. Quando iniciava seu caminho de volta ao catolicismo, em 1982, depois de um período em que abjurou a fé e aderiu a seitas demoníacas, Paulo esteve em Praga em companhia de Christina, com quem já estava casado, em meio a uma longa viagem no estilo hippie rico dos dois pela Europa. Ao passar pela sombria rua Karmelitská, entrou na pequenina Igreja de Nossa Senhora da Vitória, espremida entre residências simples e lojas de souvenires religiosos, para fazer uma promessa ao Menino Jesus de Praga. A presença de alguém do Brasil ali não chamava atenção. Desde tempos imemoriais, e por razões inexplicadas, cristãos brasileiros sempre manifestaram devoção pelo garoto santificado no século XVII, o que pode ser medido, ao menos no Brasil, pela infinidade de anúncios classificados que há décadas são publicados em jornais de todo o país, nos quais os fiéis escrevem apenas uma frase, seguida da inicial de seus nomes: “Ao Menino Jesus de Praga, pela graça alcançada. D.”. Como milhões de seus compatriotas, Paulo também tinha um pedido a fazer, e não era pequeno. Ajoelhou-se no pequeno altar lateral, onde está exposta a imagem do menino, fez uma oração e murmurou de forma inaudível até para Christina, que estava ao lado:

– Eu quero ser um escritor lido e respeitado no mundo inteiro.

Sim, ele sabia que era um pedido e tanto, e que o pagamento tinha de ser à altura. Enquanto rezava, condoeu-se das vestes comidas por traças que cobriam a imagem – cópias da túnica e do manto tecidos pelas mãos da princesa Policena Lobkowitz em 1620 para a primeira imagem de que se tem notícia do Menino Jesus de Praga. Sempre sussurrando, prometeu o que, na hora, lhe pareceu mais grandioso:

– No dia em que for um escritor lido e respeitado no mundo inteiro, volto aqui e trago um manto bordado com fios de ouro para cobrir o seu corpo.

A proposta de blitzkrieg era um pretexto para o verdadeiro motivo de sua viagem a Praga: quase três décadas depois, ele ia afinal pagar a graça alcançada. Feito exatamente nas medidas da imagem – que tem cerca de meio metro de altura –, o manto de veludo vermelho bordado em finíssimos fios de ouro era o resultado de semanas de trabalho de Paula Oiticica, a mãe de Christina. Embalado em uma caixa de acrílico para ser transportado em segurança, o presente chegou a provocar um pequeno incidente no Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris: os policiais exigiam que a embalagem fosse passada pelo aparelho de raios X, para se comprovar que não escondia drogas ou explosivos, mas ela não cabia na máquina do aeroporto. Sem o manto Paulo não embarcava. E sem passar pelo raio X o manto não saía dali, garantiam os policiais. A pequena aglomeração que formou atraiu a atenção de um oficial superior que identificou monsieur Coelô e resolveu o impasse: o manto acabou sendo levado ao avião sem ser radiografado.

Quando o casal chega à igrejinha de Praga para entregar à imagem do santo o que lhe era devido, pouco mais de duas dezenas de fiéis se encontram no local, todos aparentemente estrangeiros. Como só fala tcheco e italiano, o padre carmelita Anastasio Roggero parece não compreender direito quem é e o que faz aquele sujeito de sikha na sua igreja, carregando um manto vermelho. Esfregando as mãos com impaciência na surrada batina, o padre ouve o que lhe diz Paulo em inglês, faz que entende, sorri, agradece e prepara-se para guardar a caixa com o manto atrás de um armário, na sacristia contígua à nave, quando uma velhinha francesa reconhece o autor. Em tom de voz alguns decibéis acima do conveniente ao lugar, ela alerta os membros de sua excursão:

– Olhem quem está aqui: o escritor Paulo Coelho!

Em instantes todos os pequenos grupos de turistas convergem em sua direção, falando alto e pedindo autógrafos e fotos ao seu lado. Padre Anastasio dá meia-volta, olha de novo para o manto que tem nas mãos e começa a entender que cometeu uma gafe. Pede desculpas a Paulo por não tê-lo reconhecido e só então compreende o significado do presente que o Menino Jesus acaba de receber. Retorna à sacristia e volta armado de uma Nikon digital para fazer fotos do manto, dos turistas e, claro, dele próprio com o ilustre visitante, cuja obra jura conhecer muito bem.

Acertadas as contas com o pequeno santo, o casal aproveita o tempo livre para rever a cidade e visitar Leonardo Oiticica, o irmão de Chris casado com Tatiana, diplomata acreditada na embaixada brasileira em Praga. Como os jornais Pravó e Komsomólskaia furaram os demais e noticiaram a presença do escritor na cidade, a blitzkrieg daqui não será autêntica. Às três da tarde, uma hora antes do combinado, centenas de pessoas formam fila na porta da Empik Megastore, a enorme e moderna livraria escolhida pela editora de Paulo no país, a Argo. Ele chega na hora marcada e encontra situação semelhante à de Budapeste: desta vez, apenas 150 leitores conseguiram senhas, mas além deles uma onda de centenas de pessoas se espalha pelos corredores da loja e deságua no calçadão da praça Wenceslas, uma das mais movimentadas de Praga. Todos querendo um autógrafo. O escritor repete a receita húngara – pede que a livraria sirva água para todos, divide os grupos e vai assinando, alternadamente, os com-senha e os sem-senha. Às seis da tarde olha o relógio, dá um salto e pede licença para ir ao banheiro, mas afasta-se apenas alguns metros para fazer sua silenciosa oração atrás de uma estante.

Está escuro quando os últimos leitores são atendidos. À frente de um pequeno grupo de amigos e agregados, termina a noite saboreando pratos da nouvelle cuisine tcheca em um elegante restaurante instalado num porão da parte velha da cidade.

No dia seguinte está de volta ao apartamento de Paris para outra atividade: uma tarde de autógrafos na Fnac da place des Thermes.

Embora estivesse prevista a presença de apenas cem clientes sorteados pela loja, a notícia circulou e cerca de trezentas pessoas se comprimem no pequeno auditório. Em uma ante-sala o público disputa, às cotoveladas, livros, CDs e DVDs expostos em uma gôndola gigante. É uma pequena exposição e venda não só de todos os seus títulos editados na França, mas das preferências literárias, musicais e cinematográficas dele.

Os livros prediletos do escritor são O Estrangeiro (de Albert Camus), Trópico de Câncer (Henry Miller), Ficções ( Jorge Luis Borges), Gabriela,Cravo e Canela ( Jorge Amado) e ...ou tu porteras mon deuil (“...ou Levarás Meu Luto”, versão francesa da biografia I’ll Dress You in Mourning, do toureiro El Cordobés, escrita por Dominique Lapierre e Larry Collins, inédita no Brasil).

Os fãs que foram à Fnac podem também adquirir sua eclética seleta de filmes: Blade Runner (de Ridley Scott), Era uma Vez no Oeste (Sergio Leone), 2001: uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick), Lawrence da Arábia (David Lean) e o brasileiro O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte). O rol dos CDs preferidos por Paulo é ainda mais ecumênico: Abbey Road (Beatles), Nona Sinfonia (Beethoven), Atom Heart Mother (Pink Floyd) e Primeiro Concerto para Piano e Orquestra (Chopin). O último disco da lista é Greatest Hits, de Roberto Carlos – o cantor popular de maior sucesso no Brasil, com quem Paulo iria colidir publicamente meses depois, quando o músico conseguiu que a Justiça retirasse de circulação uma biografia sua, não autorizada, que circulou no Brasil.

Os franceses que lotam o salão da Fnac não são menos discretos e contidos que os leitores húngaros e tchecos. Nem menos pacientes: tendo falado durante meia hora e respondido a perguntas do público, o escritor ainda assina livros para todos os presentes antes de deixar a loja.

Em contraponto à descontração dos lançamentos de Budapeste, Praga e Paris, o protocolo da entrega do Prêmio Goldene Feder, no dia seguinte, é de um rigor quase militar. Hamburgo passou a viver em permanente estado de alerta (e tensão) desde que se descobriu que lá atuava a célula da organização terrorista Al Qaeda que reuniu os autores dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Dos vinte seqüestradores suicidas diretamente envolvidos no atentado, nove moravam em um apartamento da periferia da cidade – entre eles o chefe do grupo, o egípcio Mohammed Atta, piloto de um dos dois aviões lançados contra as torres do World Trade Center. A julgar pela quantidade de automóveis Rolls-Royce e Jaguar que despejam convidados na porta da Handelskammer, a Câmara de Comércio e Indústria, e pelo número de seguranças privados que os cercam, a festa para homenagear Paulo Coelho parece mesmo ser um alvo excelente para atentados. Banqueiros, industriais, empresários, editores e personalidades afluíram de vários pontos da Europa para a cerimônia.

Para evitar problemas, a organização do evento reserva apenas cinco minutos para a imprensa fotografar os convidados e agraciados (o prêmio será entregue também a um cientista, um professor, uma empresária e um religioso). Câmeras de tevê não podem funcionar com baterias, só com cabos de energia ligados em tomadas locais, e transmissões por rádio não serão permitidas. O público é separado pela cor dos tapetes: os premiados no vermelho, os convidados no azul – jornalistas que forem apanhados em qualquer um dos dois tapetes serão retirados do recinto pelos seguranças. Durante a cerimônia de premiação, os repórteres (entre eles um convidado de Paulo, previamente credenciado) são segregados junto com seguranças e motoristas em uma cantina dos funcionários, de onde assistem a tudo por monitores de tevê instalados nas paredes.

Cinco horas depois de chegar ao prédio da Handelskammer, o escritor está de mochila nas costas em uma sala VIP do aeroporto de Hamburgo, prestes a embarcar no Falcon Jet que vai levá-lo ao Cairo.

Sua chegada à capital do Egito coincide com a presença na cidade da primeira-dama dos Estados Unidos, Laura Bush, o que faz as autoridades reforçarem ainda mais o opressivo aparato de segurança do país. A freqüência com que o Egito vem sendo vitimado por atentados terroristas de grupos islâmicos radicais – tendo como principais alvos os turistas – chegou a preocupar amigos do escritor. “Já pensou se um grupo religioso fanático o seqüestra”, indagou um deles, “e exige a libertação de cem presos políticos para soltá-lo?” O escritor, porém, não parece preocupado.

Não só por ter consultado os seus oráculos, mas por saber que durante a viagem estará sob a proteção desarmada de Hebba Raouf Ezzat, a responsável pelo convite para uma palestra na Universidade do Cairo. Muçulmana, quarenta anos, mãe de três filhos, professora visitante da Universidade de Westminster, em Londres, a carismática cientista política superou os preconceitos de uma sociedade aferrada ao machismo e tornou-se importante liderança na luta pelos direitos humanos e pelo diálogo entre o islamismo e as demais religiões. Estar no Egito a convite de Hebba significa circular com desenvoltura (e segurança) entre as mais diversas correntes políticas e religiosas.

Mas Paulo tem também objetivas razões temporais para realizar essa viagem: o Egito é provavelmente o campeão mundial de pirataria dos seus livros. Mesmo em se tratando de um país em que quase metade da população é analfabeta, calcula-se que mais de 400 mil cópias ilegais – cerca de 5% dos livros dele pirateados em todo o mundo – circulem por lá. Desde O Diário de um Mago até O Zahir, é possível encontrar a obra completa do autor em árabe, tanto nas vitrines das mais elegantes livrarias como nas calçadas do Cairo, de Alexandria e de Luxor. E há livros para todos os bolsos, todos piratas – desde edições toscas, visivelmente produzidas em fundos de quintal, até volumes de capa dura, impressos em papel de boa qualidade, produzidos por editoras estabelecidas, algumas delas estatais. Além do autor, em cuja conta jamais pingou um miserável ceitil de direitos autorais provenientes do Egito, a grande vítima é o leitor, que lê edições com capítulos suprimidos ou fora de ordem, ou ainda longos trechos pirateados de traduções de outros países árabes, muitas vezes incompreensíveis para um egípcio. A impunidade dos piratas é tal que, na última Feira Internacional do Livro do Cairo – um evento oficial importante no calendário cultural egípcio –, as obras de Paulo Coelho ficaram em primeiro lugar em vendas, como se tivessem sido publicadas por editoras cumpridoras das leis e dos acordos internacionais.

Disposto a colocar um ponto final no problema, ele desembarca no Cairo escoltado por Mônica Antunes e Ana Zendrera, dona da editora Sirpus, instalada na Espanha mas especializada em publicações em árabe distribuídas nos países do Oriente Médio e do Norte da África. A partir de então, maio de 2005, só duas empresas, a All Prints, do Líbano, e a Sirpus, estão legalmente autorizadas a editar seus livros no Egito.

No aeroporto repleto de soldados com metralhadoras, os três são recebidos por Hebba e seu marido, o também ativista Ahmed Mohammed. Ele veste roupas ocidentais, mas dela só é possível ver o rosto sorridente e as mãos muito brancas – o resto está protegido dos olhares indiscretos por um folgado chador bege que a faz parecer ainda mais gordinha. Todos falam inglês, a segunda língua do Egito. Os visitantes sabem das rígidas regras locais: homens e mulheres só se cumprimentam com um seco e formal aperto de mãos, sem os costumeiros abraços e beijinhos ocidentais. O pequeno grupo segue direto para o hotel Four Seasons – lá está reservada para o escritor uma suíte no último andar com vista para Gizé, no começo do deserto do Saara, onde fica uma das sete maravilhas do mundo, o conjunto formado pelas pirâmides de Quéops, Quéfrem e Miquerinos.

O programa organizado por Hebba não é menos puxado que os de costume: entrevistas e talk shows com os principais órgãos de imprensa e estações de tevê do país, visitas a personalidades (entre elas o Prêmio Nobel de Literatura Nagib Mahfouz, nonagenário e quase cego, mas que faz questão de receber o brasileiro para um chá em seu apartamento), uma palestra na Universidade do Cairo e dois debates – um na Associação Egípcia dos Escritores e outro na sua principal concorrente, a União dos Escritores Egípcios. A pedido de Paulo, Hebba organizou, em um dos salões do Four Seasons, um almoço para o qual foram convidados os principais editores e livreiros do país e representantes do Ministério da Cultura. É nesse encontro que o escritor pretende puxar a espada em defesa de seus direitos. Reitera, com olhar maroto:

– E você sabe muito bem, Hebba: quando um guerreiro saca a espada, tem que usá-la. Não pode recolocá-la na bainha sem sangue.

Na manhã seguinte, o lobby do Four Seasons está tomado pela tralha dos canais de tevê que esperam a hora das entrevistas organizadas por Mônica – são câmeras, tripés, refletores, cabos e baterias empilhados nos cantos ou espalhados sobre mesas e sofás. As entrevistas individuais serão um privilégio das tevês: os repórteres de jornais e revistas terão que se consolar com uma coletiva. A única exceção é para o Al Ahram, principal jornal do país – estatal, como parece ser quase tudo no Egito – e que ainda tem o privilégio de ser o primeiro da fila.

Terminada a entrevista, o repórter Ali Sayed abre uma pasta e pede ao escritor que autografe três livros, O Alquimista, Maktub e Onze Minutos – todos piratas, comprados na rua a sete dólares cada. No começo da tarde os cinco vão a um restaurante típico para um rápido almoço regado a Fanta, Coca-Cola, chá e água mineral. Embora haja vinho e cerveja à venda, como a conta vai ser paga por Ahmed, um muçulmano, manda o bom-tom que não se consuma bebida alcoólica à mesa.

Liquidados os compromissos com a imprensa, ele participa de rápidos debates nas duas associações de escritores. Em ambas o público é duas, três vezes maior do que a capacidade dos lugares, e os inevitáveis pedidos de autógrafos ao final são atendidos com gentileza e bom humor pelo convidado. Antes de retornar ao hotel, ele é levado ao apartamento de Mohamed Heikal, veterano e influente político que começou sua carreira ao lado do falecido presidente Gamal Abdel Nasser, que governou de 1954 a 1970, e vem sobrevivendo até hoje às intempéries políticas que varreram o Egito. Cercado de guarda-costas, Heikal recebe o visitante em um pequeno apartamento. As paredes são cobertas por fotos dele em companhia de grandes líderes da política internacional do século XX, como o falecido dirigente soviético Nikita Khruchov e os também já mortos primeiros-ministros Chou En-Lai, da China, Jawalarhal Nehru, da Índia, e Willy Brandt, da então Alemanha Ocidental, o presidente soviético Leonid Brejnev, e, claro, o próprio Nasser. O encontro com Nagib Mahfouz também acontece sob tensa vigilância de seguranças (anos antes ele escapara por um triz da morte na porta de casa, quando foi esfaqueado no pescoço por um fundamentalista islâmico que o acusava de blasfêmias contra o Corão, o livro sagrado dos muçulmanos). Os dois conversam rapidamente em inglês, trocam livros autografados e nada mais. Encerrado o programa do dia, a noite é reservada para um passeio de barco no rio Nilo.

No dia seguinte a manhã livre lhe permite acordar mais tarde, fazer sua caminhada sem atropelos e dedicar mais tempo à varredura de notícias na internet. À uma da tarde estão de volta ao salão do hotel para o almoço proposto pelo escritor. Apesar dos sorrisos e salamaleques das apresentações, percebe-se na atmosfera um clima de acerto de contas. Antes que os pratos sejam servidos, e com todos os convidados em seus lugares, um dos editores se levanta para fazer uma saudação ao visitante e faz questão de dizer que aquele é um encontro de amigos. “O escritor Coelho deu provas de comprometimento com o povo árabe não só em sua obra”, ressalta, “mas em corajosas manifestações públicas, como na carta ‘Obrigado, Presidente Bush’, uma clara condenação da invasão do Iraque pelos Estados Unidos.” Mais um orador, mais rasgação de seda e afinal chega a hora em que Paulo vai falar. Sobre a mesa, ao lado dos talheres, deixa três exemplares piratas de livros seus, ali colocados deliberadamente para provocar desconforto nos editores, elegantes senhores de paletó e gravata sentados à sua frente. Traquejado na arte de falar em público (coisa que, paradoxalmente, odeia fazer), começa manso, lembra que o Egito e a cultura árabe foram inspiradores de alguns de seus livros e recorre a uma boutade para entrar no espinhoso tema da pirataria, cara a cara com os piratas:

– Qualquer autor adoraria ver seu livro publicado no Egito. Meu problema é exatamente o contrário: eu tenho editores demais no Egito...

Ninguém acha a menor graça na piada, mas isso não o desanima. Sempre de pé, ele olha um instante para o céu, como se pedisse a são Jorge forças para defender seus livros, e resolve falar grosso. Pega um exemplar pirata de O Alquimista e agita-o no ar:

– Estou aqui como convidado da doutora Hebba, ou seja, do povo egípcio. Mas vim por minha conta, porque quero solucionar de uma vez por todas o problema da pirataria dos meus livros aqui.

Agora os convivas, homens e mulheres, parecem se sentir incomodados nas cadeiras, mexendo-se nervosamente de um lado para outro.

Alguns rabiscam desenhos imaginários nos guardanapos, cabisbaixos. Paulo sabe que entre eles há funcionários graduados do Ministério da Cultura (entidade que é acionista de muitas das editoras acusadas) e não perde a oportunidade:

– O governo não pune nem reprime a pirataria, mas o Egito é signatário de tratados internacionais de direitos autorais e tem que cumpri-los. Eu poderia contratar o melhor advogado e ganhar essa causa em cortes internacionais, mas não estou aqui apenas defendendo valores materiais. Estou defendendo princípios. Meus leitores compram livros a preço vil e recebem obras de conteúdo vil, e isso tem que acabar.

A proposta de armistício sugerida por Paulo não parece agradar a nenhum dos presentes:

– Não me interessa o passado, esqueçamos o que aconteceu até hoje. Não vou cobrar judicialmente de ninguém os direitos sobre os 400 mil livros meus publicados aqui, um país onde nunca tive editor. A partir de hoje, qualquer livro meu publicado no Egito que não seja da Sirpus ou da All Prints será considerado ilegal e, portanto, objeto de ação judicial.

Para demonstrar que não está blefando, o escritor anuncia para aquela tarde, na livraria Dar El Shorouk, ao lado do hotel, uma blitzkrieg especial: vai autografar o livro de estréia da nova fase (uma versão de bolso de O Alquimista em árabe, com o selo da Sirpus) e exemplares da edição inglesa de O Zahir. O indigesto encontro termina sem aplausos e com a maioria dos convidados de cara amarrada. Tudo parece correr como Paulo previa: a tarde de autógrafos é um sucesso e a todos os jornalistas que o procuram ele reitera o discurso do almoço. “Estou convencido de que os editores aceitaram minha proposta”, repetiu várias vezes. “A partir de agora os egípcios só lerão livros meus em traduções oficiais, editadas pela Sirpus.”

O tempo, no entanto, diria que aquela alegria iria durar pouco: menos de seis meses depois, o escritor receberia relatórios revelando que a situação de seus livros permanecia exatamente a mesma. A única mudança ocorrida no mercado editorial egípcio após a visita é que os piratas passaram a ter mais um concorrente na praça, a Sirpus.

A conferência na Universidade do Cairo, no dia seguinte, o último da viagem ao Egito, transcorre sem problemas e sob uma organização que lembra mais um colégio interno do que o campus de uma universidade: em um auditório de trezentos lugares, há exatamente trezentas pessoas, nem uma a mais. A maioria é de mulheres jovens que, ao contrário de Hebba, se vestem à moda ocidental, com roupas decotadas, calças jeans justas e camisetas que deixam à vista ombros e cinturas.

Após a fala do convidado, a idolatria vence a disciplina e as pessoas o assediam de livros em punho, em busca de um autógrafo.

No caminho para o hotel, Hebba sugere uma atividade fora da programação. Leitores associados ao Fã-Clube Oficial de Paulo Coelho no Egito que não conseguiram assistir a nenhuma de suas aparições públicas querem reunir-se com ele no final da tarde para um bate-papo.

Animado com o suposto sucesso do almoço com os editores, ele aceita sem perguntar detalhes. A resposta afirmativa obriga Hebba a desligar-se do grupo e sair em campo para mobilizar o público. O lugar escolhido é um improvisado auditório ao ar livre, sob uma das pontes do rio Nilo. Ninguém sabe que meios de divulgação a anfitriã terá utilizado para juntar tanta gente, mas o espanto é generalizado quando os brasileiros chegam ao local e deparam com uma massa de mais de 2 mil pessoas.

O lugar parece ser uma construção abandonada pela metade, com lajes de concreto e pontas de ferro à mostra. Lotado o recinto, as pessoas se apinham pelo vãos entre as cadeiras e galerias laterais. É incrível que se possa juntar tanta gente num dia de semana, sem um único anúncio ou notícia nos jornais, no rádio ou na tevê. Até sobre os muros e árvores que cercam o auditório há gente dependurada. Sob um calor infernal Paulo é levado por Hebba a uma pequena tribuna no canto do palco, ao lado da qual estão uma mesinha de centro e três poltronas.

Quando pronuncia as primeiras palavras, em inglês – “boa tarde, obrigado pela presença de todos vocês” –, um silêncio de igreja sobrepõe-se à barulheira geral. Fala meia hora sobre sua vida, a luta para ser um escritor reconhecido, a convivência com drogas, com bruxarias, com as internações em hospícios, com a repressão política e com a crítica, para afinal reencontrar o caminho da fé e realizar seu sonho. As pessoas olham-no fixamente, como se estivessem diante não do autor de seus livros prediletos, mas de alguém que tivesse lições de vida a lhes dar.

Muitas não conseguem esconder a emoção e têm os olhos marejados de lágrimas. Quando diz seu último “muito obrigado”, percebe-se que Paulo também chora.

Os aplausos parecem não ter fim. Sem conter o choro, o brasileiro agradece várias vezes, cruzando os braços no peito e fazendo uma leve inclinação para a frente. As pessoas ficam de pé e não param de bater palmas. Uma garota vestida de chador escuro sobe no palco e entrega a ele um buquê de rosas. Mesmo habituado a situações semelhantes, o escritor parece sinceramente emocionado e sem saber como reagir. O público continua de pé, aplaudindo. Ele dá meia-volta rapidamente, se esconde atrás das cortinas por um instante, vira os olhos para o alto, se persigna e repete pela enésima vez a oração de agradecimento a são José, o santo que quase sessenta anos atrás abençoara seu renascimento.

Mobilizar e comover multidões pelo mundo afora, a ponto de ter editores piratas se digladiando para publicar suas obras até mesmo num país de enormes contingentes de pobres e analfabetos, como o Egito, não foi algo que caiu do céu para Paulo Coelho. É verdade, o sonho de ser um escritor lido no mundo inteiro e de ter “fama, fortuna e poder” conduziu sua vida, de forma pertinaz, desde a adolescência. Mas esse sonho só começaria a se realizar em 1987, quando, já quarentão, publicou O Diário de um Mago. Em menos de um ano o autor havia vendido 40 mil exemplares do célebre relato de sua trajetória pelo Caminho de Santiago. As vendas seriam poderosamente alavancadas pelo segundo livro, O Alquimista, editado em 1988. No final do ano seguinte os dois juntos haviam batido na astronômica cifra de meio milhão de exemplares. O sucesso transformou Paulo Coelho em um nome nacional e abriu as portas de editoras nos Estados Unidos, da Europa e de outras paragens. Vinte anos depois de lançar seu primeiro livro fora do Brasil, ele seria o único autor vivo a ser traduzido em mais línguas do que William Shakespeare.

Até escrever o Diário de um Mago, porém, o garoto magricela criado nos bairros do Botafogo e da Gávea, no Rio, percorreria uma trajetória mirabolante. Aluno rebelde e relapso, sob os rigores de um pai severíssimo e implacável, acabou sendo internado à força por três vezes num hospício, e submetido a brutais sessões de eletrochoque. Confuso com sua própria identidade sexual, tomou a iniciativa de ir para a cama com homens, para só então decidir que aquele não era seu caminho. O jovem com tantas dificuldades para lidar com as mulheres na adolescência daria lugar, depois de adulto, a um colecionador de conquistas amorosas – algumas das quais transbordariam para a mídia. Fez de tudo nesse terreno, como participar de orgias e praticar sexo com uma garota num cemitério. Sua peculiar forma de encarar e relacionar-se com as mulheres não impediu, nem impede, que mantenha um sólido casamento de 28 anos com a artista plástica Christina Oiticica, de quem, assegura ele, nada nem ninguém fará “jamais” com que se separe. O homem que há mais de três décadas deixou a cocaína e há muitos anos não fuma maconha chegou a mergulhar fundo, e por muito tempo, no mundo das drogas, sem excluir praticamente nada. O tédio diante dos estudos formais, razão de seu permanente insucesso escolar, não impediu que Paulo se tornasse voraz consumidor de livros. A leitura indiscriminada, que incluía clássicos irretocáveis e bobagens sem valor, ajudaria sua incursão no mundo com que ele sonhava, e que começou pelo teatro infantil com pequenos papéis não-remunerados, para com o tempo arriscar-se a, já profissional, escrever e depois também dirigir e produzir pequenos espetáculos. Paralelamente, começou a viajar e arranjou bicos na imprensa alternativa – e foi como editor de uma revisteca underground que seria procurado por alguém que marcaria sua vida, o hoje mitológico roqueiro Raul Seixas, de quem viria a ser parceiro e letrista durante seis anos e 41 canções. Com isso ganhou mais fama, dinheiro e poder do que sonhara até então – e muito, muito menos do que ainda viria a ganhar.

Antes e durante a vigência da parceria com Raul, a ânsia permanente por novas experiências, de um lado, e sua tendência onívora à leitura, por outro, levaram-no a mergulhos assustadores. Ainda adolescente, flertou com o suicídio e acabou degolando um animal doméstico para que “o Anjo da Morte” tivesse alguma alma para levar que não fosse a sua. Já adulto, apoiou a decisão de uma namorada de se suicidar, traumatizada após abortar um filho dele. Ao transpor as fronteiras do misterioso universo das trevas ele chegaria a perigosos extremos e incorreria em práticas quase inacreditáveis, como ter como escravo, com contrato assinado, um jovem estudante que se iniciava no esoterismo. Fazia invocações ao demônio enquanto tomava banhos de ervas, e chegou a propor um pacto formal ao Diabo: entregar sua alma em troca de poderes absolutos. Sua carreira no satanismo chegou ao fim após um pavoroso e arrepiante episódio que durou doze intermináveis horas e que Paulo descreve como sendo seu encontro com o Demônio. A terrível visão, compartilhada pela namorada, representaria o início do retorno de Paulo à fé cristã incutida pelos rigorosos padres jesuítas do colégio em que fora educado. Ainda assim continuava acreditando ter encontrado formas de atingir o sobrenatural e agir sobre as forças da natureza, fazendo, por exemplo, ventar e chover com a força do pensamento.

O fato de ter sido um adolescente e depois um jovem adulto alienado e infenso à política não impediu que fosse preso duas vezes pela ditadura militar e, num terceiro episódio, seqüestrado pelo DOI-Codi, o mais brutal instrumento da repressão – o que lhe deixou profundas marcas e acentuou traços de uma ancestral paranóia. Outro tipo de perseguição, o da crítica brasileira, que, com raríssimas exceções, despreza seus livros e o trata como subliterato, não parece afetá-lo. Ele só se declara indignado quando as restrições a seu trabalho implicam menosprezo a uma entidade que cultiva com dedicação plena e paciência oriental: seus leitores. Para contrabalançar o desdém da crítica brasileira, não faltam a Paulo manifestações em sentido contrário para exibir. E não se fala, aqui, de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras ou mesmo de condecorações indiscutivelmente honrosas que lhe foram conferidas no exterior, como a Légion d’Honneur da França, mas de um maciço, consistente elenco de elogios recebidos de críticos de dezenas de países, entre os quais o venerado escritor e semiólogo italiano Umberto Eco.

Esses fatos da vida de Paulo são apenas uma amostra modesta da trajetória extraordinária de um brasileiro cujo trânsito internacional só se compara ao de Pelé. Por um triz, no entanto, nada disso teria sido possível, pois Paulo nasceu morto.

[Fonte da reprodução do primeiro capítulo do “O Mago”: site do livro, em http://www.fernandomorais.com.br ]

Crítica de Veja, por Jerônimo Teixeira

Perdoado pelo sucesso

A biografia O Mago revela detalhes escabrosos do passado de Paulo Coelho (foto) – mas, para quem já vendeu 100 milhões de livros, isso conta como promoção

"A minha vida privada não mais me pertence", afirmou Paulo Coelho, no ano passado, em um artigo no qual criticava o acordo judicial que censurou a biografia Roberto Carlos em Detalhes, do historiador Paulo Cesar de Araújo. A prova de que a afirmação é verdadeira acaba de chegar às livrarias: O Mago (Planeta; 632 páginas; 39,90 reais), biografia escrita pelo jornalista Fernando Morais. Consta que Coelho não interferiu no trabalho de seu biógrafo. Ao contrário, facilitou-lhe o acesso a diários que cobrem quarenta dos seus 60 anos de vida. Longe de ser temerária, tamanha exposição íntima atesta a inteligência publicitária do escritor. Paulo Coelho atropelou um menino e fugiu sem prestar socorro? Consumiu drogas? Firmou pacto com o demônio? Sim, a biografia confirma tudo isso. Mas foram meros tropeços no caminho de um homem obstinado na realização de seu sonho: tornar-se famoso como escritor. No fim, o herói converte-se no Guerreiro da Luz, o sábio autor de O Alquimista. Os 100 milhões de livros que o mago vendeu em 160 países redimem (em tese) o passado vil.

Filho desgarrado de uma família de classe média conservadora do Rio de Janeiro, Coelho foi o típico doidão que a cultura hippie glamourizou na virada dos anos 60 para os 70. A biografia revela suas experiências alucinógenas e sexuais. Ele teve, por exemplo, relações com homens – fato que já admitira em entrevista a VEJA em 2003 – só para concluir que, no fim das contas, não era homossexual. Mas nem tudo foi colorido nos anos de desbunde. Coelho passou por duas internações psiquiátricas e teve relacionamentos difíceis, beirando o patológico. O mais tumultuado deles foi o romance com a arquiteta Adalgisa Magalhães, a Gisa. Depois de se submeter a um aborto, ela teve uma depressão pesada. Coelho incentivou-a a tentar suicídio – por motivos meio místicos, meio psicanalíticos, achava que essa terapia de choque poderia ajudá-la.

Paulo Coelho fez muito dinheiro, nos anos 70, como parceiro do roqueiro Raul Seixas. Mas o que ele queria mesmo era fazer fama como escritor. Sua determinação começou a dar frutos com O Diário de um Mago, de 1987, e O Alquimista (até hoje seu maior sucesso, com 40 milhões de exemplares vendidos), do ano seguinte. O estilo pedestre e o misticismo de supermercado desses livros encontraram ressonância no grande público, mas desagradaram aos críticos. O Mago retrata Coelho como uma vítima da mídia, perseguido pela intelectualidade elitista e preconceituosa. Não é surpresa. Morais é um ardente apologista da ditadura de Fidel Castro e acredita na inocência de José Dirceu, acusado de ser o chefe do mensalão. Com essa larga experiência na defesa do indefensável, não admira que ele busque afirmar o mérito literário de Paulo Coelho.

Morais nem sempre compra barato as lorotas de seu personagem. Em uma entrevista à Playboy, em 1992, Coelho gabou-se do tempo em que viveu com duas mulheres em Londres. O biógrafo corrigiu-o: Coelho não dava conta das duas sozinho – havia um segundo homem na animada cama inglesa –, e uma delas mais tarde reclamaria da performance sexual do escritor. Morais só não desacredita Coelho no seu terreno de eleição, o misticismo. Epifanias, assombrações, visões angelicais – a biografia dá crédito a tudo o que é bobagem sobrenatural. Nas páginas que precedem essas aventuras mágicas, porém, Paulo Coelho aparece falsificando a assinatura do próprio pai, plagiando um texto de Carlos Heitor Cony e dando entrevistas sobre um encontro com John Lennon que nunca aconteceu. O leitor que conhece aritmética básica pode levantar a dúvida legítima: as aventuras sobrenaturais do tal "mago" não serão invenções da mesma ordem? Paulo Coelho é um péssimo escritor, mas talvez seja um gênio da ficção.

Trechos do livro

"Este é o mais longo dos meus dias. São momentos de angústia que passo esta noite, sem saber o estado da criança. (...) Vou receber intimação por dirigir carro sem habilitação. E, caso a criança piore, responderei a processo, arriscando-me a ir para a colônia correcional." Depois de atropelar um menino de 7 anos e fugir do local do acidente, em 1965

"A sensação de relatividade do tempo é algo impressionante. Deve ter sido assim que Einstein descobriu aquilo." Relato de uma experiência com haxixe, no início dos anos 70

"Senti que Você vinha fechando o círculo à minha volta, e sei que Você é mais forte que eu. Você tem mais interesse em comprar minha alma do que eu em vendê-la.
Negociações para um pacto com o demônio, em 1971

"Fomos recebidos pela mulher dele, Edith, com uma filha pequenininha. É tudo caretinha, tudo bem-comportado. Serviram umas cumbuquinhas com salgadinhos...
Salgadinhos, que coisa ridícula!
Sobre sua primeira visita à casa do futuro parceiro musical Raul Seixas, em 1972

Comentários

  1. Somos do Clube do Ebook e o livro o Mago se encontra completo para download em PDF neste link http://www.4shared.com/document/pwmCRkyL/o_Mago_-_Biografia_-_Paulo_Coe.html

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  2. esse livro não era banido pela igreja por que revelava uma tal de pacto q o paulo coelho avia feito com o la de baixo ?

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