Thereza, uma década depois (Istoé Gente de 27 de maio de 2002)


Há 10 anos ela encantou o País apoiando o marido Pedro Collor nas denúncias que culminaram com o impeachment de Fernando Collor. Hoje, casada com Gustavo Halbreich, Thereza Collor curte os filhos e o segundo marido e diz que o passado é só uma lembrança

Reportagem: Luciana Franca, Fotos Edu Lopes


Nos últimos retoques da produção espanhola que preparava para ir à festa temática da amiga Maria del Pilar Solla Requejo, Thereza Collor foi surpreendida pelo marido, Gustavo Halbreich. Encantado com o figurino e o penteado cuidadosamente escolhidos para transformá-la em uma típica flamenca, ele voltou atrás e aceitou a sugestão da esposa de acompanhá-la na fantasia. Thereza prontamente acrescentou um cinturão e um chapéu à calça preta e à camisa branca do marido. Na entrada da festa, foram confundidos com os músicos que se apresentariam, mais tarde, no palco improvisado. “Nos divertimos muito”, lembra Thereza, o sorriso farto a iluminar-lhe o rosto de pele morena. “As pessoas demoraram a me reconhecer. Falavam: ‘Nossa, ela parece a Thereza Collor, só que mais magra’”, diverte-se.

Não faltam momentos felizes nos últimos três anos da vida de Thereza Collor. Casada há quase um ano com Gustavo Halbreich, empresário paulista do ramo da construção civil, ela comemora ter encontrado um companheiro para todas as horas. Gustavo sabe lidar com manias pouco conhecidas da mulher, como os invariáveis excessos de bagagem das viagens rumo a destinos exóticos da Ásia e África. Apaixonada por antigüidades, Thereza demonstra fôlego de maratonista para percorrer mercados e amontoar na mala pilhas de trajes étnicos. “Tailleurs não têm nada a ver comigo”, garante. “Só uso em ocasiões formais, onde tenho que estar comportada.”

Foi exatamente com um tailleur quadriculado vermelho e turquesa, com saia curtíssima e blazer acinturado, que Maria Thereza Pereira Lyra Collor de Mello entrou para a galeria dos personagens inesquecíveis da história política do Brasil. Teve sua beleza revelada ao País há 10 anos, em 27 de maio de 1992. Deixou o anonimato e o conforto de sua casa no Jardim Petrópolis, em Maceió, para acompanhar o marido, Pedro Collor, na cruzada de denúncias de corrupção que detonaria o processo de impeachment do irmão, o então presidente Fernando Collor de Mello.

Na entrevista coletiva em que provaria sua sanidade mental, no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, Pedro teve o papel de protagonista roubado por Thereza. Os repórteres aglomerados à margem da passarela em busca de apenas uma palavra da bela morena de 1,59m e 52 quilos deram a prova irrefutável de que ela conseguira desviar as atenções do ponto central da briga Collor x Collor. Alçada à condição de musa do impeachment, começava a ficar mais importante do que o marido.

Thereza lembra-se daquela época com o olhar perdido entre as obras de arte do belo apartamento no elegante bairro de Higienópolis, em São Paulo, onde mora com Gustavo, os dois filhos do casamento com Pedro Collor, Fernando, de 18 anos, e Victor, de 15, e o enteado Daniel, 22, filho do primeiro casamento do novo marido. São apenas lembranças, nada de mágoas ou saudade. “Foi uma coisa chata”, constata. “No meio de um problema político do País, as pessoas não paravam de questionar o tecido do tailleur.” A política, que concedeu-lhe projeção nacional, hoje a decepciona. Depois de cumprir um mandato como secretária de Turismo de Alagoas, entre 1995 e 1998, ela recusou o convite do governo do Estado para assumir a cadeira novamente. Vive tão distante dos cargos públicos quanto da família do ex-marido.

O Collor do nome é sua única ligação com o passado. Thereza não mantém contato com ninguém mais do clã. Não proíbe, porém, os filhos de se relacionarem com os primos Arnon e Joaquim Pedro, filhos de Fernando Collor com a primeira mulher, a empresária Lilibeth Monteiro de Carvalho. Repugna comparações com a ex-cunhada Rosane Collor. “Não freqüentamos o mesmo círculo social. Ela nunca foi da minha turma”, sustenta. “É uma pessoa por quem não tenho a menor amizade ou afeição.” O sentimento de Rosane é recíproco. “Sobre esta pessoa me dou o privilégio de não comentar nada”, diz. “Nem de bom, nem de ruim.”

De diferente entre as duas restou à Thereza o status de celebridade. Não lhe faltam convites para estrelar comerciais e capas de revistas. É requisitada para comparecer a festas em todo o País. Nunca passa despercebida. Só passeia incógnita em um único endereço. Adora peregrinar atrás das quinquilharias da rua 25 de Março, zona de comércio popular de São Paulo. Escolhe pessoalmente as linhas e pedrarias dos bordados – hobby que tem ocupado as raras horas vagas do dia. Sua última invenção tem sido pacientemente construída na varanda do apartamento ou na poltrona dos vôos da ponte-aérea Rio-São Paulo. Trata-se de uma saia comprada em Paris, recortada e transformada num top enriquecido a cada dia com fileiras de miçangas e canutilhos.

A paixão por trabalhos manuais ultrapassa a fronteira da agulha e linha. A cada fotografia de Thereza estampada nas colunas sociais, pouca gente sabe que, na maioria das vezes, a roupa e os acessórios levam sua assinatura. Jóias são sua grande paixão. Ela mesma as produz. Desenha o modelo no papel e modela um molde de cera até chegar à finalização da peça numa mesa de ourives encostada no escritório de casa. “Se eu tivesse 17 anos, com a vida começando agora, iria para a Europa estudar joalheria”, diz.

Não há nostalgia na voz. Thereza está feliz com a nova vida de casada. Para o ensaio fotográfico de Gente, buscou no porta-jóias uma gargantilha de flores com pérolas e brilhantes que havia desenhado para um joalheiro profissional finalizar. Gustavo adiantou-se e surpreendeu a esposa, presenteando-lhe com a peça no Dia das Mães. No novo lar de Thereza, a harmonia familiar impera. Ela orgulha-se da relação do empresário com Fernando e Victor. Há liberdade comum entre pai e filho. Gustavo é capaz de ligar do escritório para lembrá-la de colar o pôster de campeão do Corinthians na parede do quarto de um dos meninos, flamenguista fanático.

O bom relacionamento, sem dúvida, ajudou Thereza a superar a difícil adaptação de Fernando e Victor a São Paulo. Há três anos estudando na Suíça, eles mudaram-se para a capital paulista no ano passado. Mostraram-se relutantes em aceitar a decisão da mãe de deixar Maceió. Ela empenhou-se durante 12 meses em convencê-los de que a escolha também refletiria em melhores oportunidades no futuro profissional. Por um curto período, o estresse levou-a a perder cabelos. “A tempestade passou”, acredita. “Eles entenderam que é melhor assim.”

Thereza garante ter sido exceção na adaptação a uma sociedade paulista e carioca que, segundo ela, é mais cruel com os nordestinos. “Se você pertence a uma família tradicional daqui e resolve andar com uma sandalinha de couro numa festa, você é exótica. Se for do Nordeste, mesmo que seja bacana, é taxada de brega”, reclama em causa própria. Apaixonada por roupas étnicas, escolheu um casaco trazido do Turcomenistão (centro-oeste da Ásia) para ir a um casamento. Como scarpin não combinava com o traje, optou por uma sandália italiana, que se adaptava ao estilo do figurino, da sofisticada grife Sergio Rossi. Foi mal interpretada. No dia seguinte, uma nota de jornal registrou: Thereza Collor usou chinelo no casamento.

Ela jura ter aprendido a tirar de letra eventuais represálias do gênero. “Há um respeito pela pessoa que fui e pelo que representei num momento histórico do País”, crê. Reconhece sua importância na trajetória política do Brasil. Repetiria hoje, se preciso, cada ato de 10 anos atrás. O assédio da época não a importunou tanto quanto as notícias caluniosas sobre seus relacionamentos amorosos. A mais grave, segundo ela, foi sobre o relacionamento relâmpago com Paulo Henrique Cardoso, filho do presidente Fernando Henrique. “Quando comecei a namorar o Paulo Henrique, saiu uma nota de jornal dizendo que eu não me dava bem com Ruth Cardoso. Pura mentira. Isso nunca aconteceu”, protesta. Thereza também foi acusada de perseguir o ex-jogador de futebol Raí no banheiro masculino. “Esse tipo de comportamento não faz parte da minha conduta”, defende-se. “Nunca precisei correr atrás de homem nenhum.”

A beleza imune à passagem do tempo depõe a favor da afirmação. Aos 38 anos, Thereza é dona de uma beleza irretocável – que garante não retocar. Reconhece que a idade pede cada vez mais um cuidado maior diante do espelho, mas o hábito de lambuzar o corpo com cremes de promessas milagrosas não faz parte da sua rotina. Vez ou outra, dá atenção ao cabelo naturalmente ondulado, que tem preferido alisar com escova e secador.

Tranqüila, de voz suave, não é adepta de massagens relaxantes, mas recebe com um luminoso sorriso a massagista que, num gesto de carinho com a nora, a mãe de Gustavo insiste em mandar bater à sua porta. Depois de passar quase dois anos totalmente dedicada à família, Thereza garante que chegou sua hora. Está à frente de inúmeros projetos. O mais importante – e desejado deles – é a apresentação de um programa de tevê sobre a cultura e a diversidade do Brasil.

“Prefiro me calar para que dê certo”, diz, supersticiosa. Enquanto não viabiliza a atração, complementa a agenda diária com aulas particulares de ioga e dança do ventre, a fórmula da sua boa forma. Anda tão entusiasmada com os novos passos de dança que é bom o marido se preparar. Não será surpresa se pedir a Gustavo a companhia de um xeque árabe quando resolver se vestir de odalisca para a próxima festa à fantasia.

> Fonte: http://www.terra.com.br/istoegente/147/reportagens/capa_thereza.htm

> A musa Thereza Collor reaparece para defender o rio São Francisco.

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