'Wikileaks é uma resposta à fragilidade do jornalismo'

por Peter Scheer, para o site The Huffington Post, em 29 de julho de 2010

As notícias de primeira página do The New York Times sobre a guerra do Afeganistão – baseadas em um vazamento maciço de documentos militares norte-americanos – provavelmente não vão mudar o curso da guerra. Mas representam uma mudança radical na forma como os jornalistas noticiam a segurança nacional.

Os registros para os artigos do New York Times, o que inevitavelmente convida à comparação com os "Pentagon Papers" de uma geração anterior e de uma guerra anterior, foram fornecidos ao Times não por uma fonte do governo, mas pelo Wikileaks.org, um site vago e sem nacionalidade especializado na publicação de documentos sensíveis que vazaram anonimamente dos arquivos de governos e corporações.

Por que Wikileaks?

Se a necessidade é a mãe da invenção, a gestação do Wikileaks começou emWashington no dia 17 de junho de 2005. Esse foi o dia em que a Suprema Corte recusou-se a ouvir os apelos às decisões das cortes que obrigavam os jornalistas da revista Time e do New York Times a revelar a identidade de uma fonte – Lewis"Scooter" Libby, saberíamos mais tarde – a quem os jornalistas prometeram sigilo.

A inércia da Suprema Corte pôs a nu a vulnerabilidade dos jornalistas norte-americanos ao poder coercitivo dos juízes federais, que estão determinados a extrair informações para um júri ou um julgamento. A maioria dos jornalistas não pode ou não vai para a cadeia por proteger uma fonte. E aqueles que fariam isso podem achar que seu empregador, tipicamente uma empresa pública com uma obrigação com os acionistas, não compartilha o seu compromisso com a desobediência civil.

Mesmo sem a intervenção dos tribunais, as agências federais que realizam investigações de segurança nacional podem ter acesso ao sigilo telefônico dos repórteres, muitas vezes sem que os repórteres saibam disso.

O Wikileaks, em suma, é uma resposta à perda de controle dos jornalistas sobre suas informações.

Usando a tecnologia tanto para apagar as impressões digitais dos que vazam informações quanto para colocar o Wikileaks e seus arquivos eficazmente longe do alcance de qualquer processo judicial do país, o Wikileaks oferece um grau de anonimato e de segurança que, embora imperfeito, ultrapassa a capacidade das empresas midiáticas dos EUA.

Essas vantagens explicam a origem incomum das histórias no Afeganistão. Embora a fonte poderia ter vazado os materiais classificados para um repórter do Times diretamente, o repórter insistiria na comunicação com a fonte. Para o Times, conhecer a identidade de uma fonte é importante para avaliar a autenticidade das informações vazadas e para determinar os motivos que levaram a fonte a vazá-las. Do ponto de vista da fonte dos "Papéis do Afeganistão", no entanto, comunicar-se com o Times criaria um risco de exposição excessivo. A fonte, portanto, preferiu dar os documentos aoWikileaks; e o Wikileaks deu-os ao Times.

O resultado é que o Times publicou suas histórias aparentemente sem saber a identidade de sua fonte. Pode ser a primeira vez que isso acontece em um artigo importante do Times sobre segurança nacional. Não será a última vez que isso vai acontecer.

O Wikileaks, por sua vez, foi perspicaz em suas relações com as organizações de imprensa para disseminar os "Papéis do Afeganistão". Ele poderia ter publicado os documentos inicialmente em seu site, como fez em vazamentos passados, e então convidar a imprensa a escrever sobre eles. Mas tornar os documentos universalmente disponíveis diminuiria seu valor aos olhos do Times e de outras organizações de notícias. Nenhum jornalista quer escrever a mesma história que outros 100 jornalistas estão escrevendo. Os repórteres querem acesso especial.

O Wikileaks ofereceu os arquivos a três organizações noticiosas: o The Times, a Der Spiegel, na Alemanha, e o Guardian, na Grã-Bretanha. Esse acesso especial deu a cada jornal um incentivo suficiente para investir fortemente na história – atribuindo repórteres e editores principais para a difícil tarefa de autenticar, analisar e dar sentido a milhares de dados.

Além disso, a rivalidade entre as três organizações assegurou que todos iriam publicar as histórias proeminentemente, e que particularmente o Times estaria sob uma pressão competitiva para resistir aos esforços do governo Obama para convencê-lo a cancelar ou adiar os artigos.

Essa colaboração incomum funcionou. As notícias do Times, do The Guardian e da Der Spiegel lançaram uma nova luz sobre o papel da inteligência paquistanesa, a extensão das vítimas civis, as capacidades militares dos talibãs e outros assuntos. Embora o Wikileaks tem sido duramente criticado por ter postado arquivos brutos contendo os nomes de alguns informantes afegãos, as organizações de notícias não cometeram esse erro.

Enquanto as organizações de notícias sérias forem incapazes de proteger as fontes e as informações confidenciais, elas terão o Wikileaks – assim como o Wikileaks precisa delas. (Tradução é de Moisés Sbardelotto para o IHU On-Line)

O advogado e jornalista norte-americano Peter Scheer é diretor-executivo da ONG First Amendment Coalition (FAC). No início de 2008, a FAC ajudou a organizar e participou de uma disputa legal bem sucedida contra uma liminar federal contra o WikiLeaks.

> O conceito de internet é liberador, afirma professor. (julho de 2009)

> Redes sociais.

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