por John L. Allen Jr. para o National Catholic Reporter
Massimo Franco (foto) é um jornalista veterano que escreve para o jornal Corriere della Sera, o jornal diário de maior prestígio da Itália. Recentemente ele publicou um livro intitulado C'era Una Volta un Vaticano [Era uma vez um Vaticano], argumentando que, por trás dos colapsos de relações públicas e das crises internas do Vaticano no pontificado de Bento XVI, encontra-se uma radical mudança histórica – do Vaticano como capelão do Ocidente para umVaticano como representante de uma subcultura minoria.
A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio , 28-02-2011.
Durante séculos, defende ele, o Vaticano pensou e agiu como o representante de uma maioria cultural no Ocidente – uma mentalidade forjada na época da Cristandade e que ganhou uma vida nova durante a Guerra Fria, quando o Vaticano e as grandes potências ocidentais estavam fundamentalmente na mesma página. Isso não se adéqua mais para a paisagem cultural modificada do século XXI, diz ele – e a inabilidade das autoridades de alto escalão do Vaticano de se adaptarem a esse novo mundo é a força fundamental, argumenta, por trás de sua aparente desorientação.
A entrevista.
Seu livro parece mais forte no diagnóstico do que na cura. Você apresenta um argumento convincente de que o Vaticano não respondeu adequadamente a essa transição do catolicismo de maioria a minoria, mas você não explica realmente como seria um Vaticano capaz de responder a essa nova situação cultural.
Eu não estou surpreso com o que você diz, porque sou jornalista. Eu não sou um Papa, não sou um cardeal, não sou um intelectual. Tenho que analisar as origens dessa crise, mas não cabe a mim ditar as soluções.
Você deve ter algumas ideias a respeito.
Acho que o problema é uma das categorias intelectuais. É um problema de linguagem, de estar em sintonia com o mundo ocidental. Esse não é o caso neste momento. O Vaticano, claro, se orgulha de ser contracultural, mas às vezes eu acho que essa é uma forma de autoconsolação. Na verdade, eu acho que o Vaticano está certo quando diz que, no futuro, o Ocidente terá que retornar para a religião.
A questão é: qual religião? Será que o Vaticano vai estar lá no momento certo para responder às perguntas que as pessoas estarão se fazendo? Eu não tenho a resposta, mas posso dizer que há uma desconexão entre o Ocidente e o Vaticano do ponto de vista da linguagem. Não é o fato de os católicos serem uma minoria, mas sim de serem um modelo autorreferencial, não um modelo criativo, com nenhuma capacidade de expansão. É isso que eu temo. O risco é de dar voltas em si mesmo cada vez mais, divorciados do mundo externo.
Quanto da capacidade da Igreja de se comunicar com o mundo externo depende, na verdade, do Vaticano?
Muito, eu acho. Mas é importante dizer que o Vaticano não tem só um problema de comunicação externa – o problema também é interno. Todas as gafes, os mal entendidos, os erros dos últimos anos não foram realmente provocados pela falta de habilidades de comunicação com o mundo exterior. Essa é uma dimensão dela, mas o verdadeiro problema é que, dentro do Vaticano, a discussão não é livre e ampla o suficiente.
Você acha que não é tão simples quanto reformar as estruturas de comunicação.
Não, é reformar a máquina dentro do Vaticano. Eu acho que as decisões não são cuidadosa e suficientemente levadas em consideração, ou amplamente compartilhadas entre as pessoas do alto escalão. O caso do bispo que negou o Holocausto é um exemplo clássico, porque não foi fundamentalmente um problema de comunicação externa. Não foi estudado o suficiente, não foi discutido o suficiente, por isso o resultado não foi apenas um desastre externo, mas também a demonstração de que não há um profissionalismo real no Vaticano.
Vejamos outro exemplo: você não pode simplesmente dizer, como algumas autoridades do Vaticano, que a pedofilia está associada com a homossexualidade. É cientificamente incorreto. O que isso mostra é que há uma confusão cultural profunda [no Vaticano], e eles estão muitas vezes retrocedendo. Você tem que saber bem de um assunto antes de se atrever a falar sobre ele – você não pode simplesmente inventar. Houve uma verdadeira subestimação do que estava em jogo, já que as pessoas falavam sem qualquer preparação real. Foi impressionante como as reações foram amadoras, especialmente no começo.
Parece que o que você está dizendo é que o verdadeiro desafio é ter pessoas com profundidade cultural em posições-chave, antes de falarmos em mudar estruturas ou sistemas.
É isso aí. É um problema de cultura e de linguagem, porque a linguagem reflete a cultura. O problema não é simplesmente que você tem uma mensagem clara e não consegue comunicá-la corretamente. O problema é que, muitas vezes, a própria mensagem é confusa e desordenada.
Você diz que, para consertar tudo isso, provavelmente teremos que aguardar outro pontificado. Por quê?
Este pontificado tem sido muito difícil, porque foi preciso reconciliar a herança de João Paulo II e o fim da Guerra Fria com a necessidade de mudança. Isso é muito difícil. Bento XVI não herdou apenas a glória, mas também o fardo do pontificado de João Paulo. Por exemplo, ele teve que dar uma abordagem diferente para a crise dos abusos sexuais. Este Papa foi forçado a olhar para a frente e para trás ao mesmo tempo.
De certa forma, Bento XVI é o bode expiatório de uma situação histórica diferente. João Paulo II foi o último Papa da Guerra Fria, e ele era um homem profundamente da Guerra Fria. Este Papa foi o arquiteto intelectual do pontificado de João Paulo II, mas está sendo forçado a agir em um mundo pós-Guerra Fria. É um tempo de transição, e acho que ele está pagando por algo que ele não foi responsável. Ele tem sido subjugado por problemas não resolvidos do passado.
O seu livro também parece sugerir que ele está rodeado por um regime que, às vezes, é disfuncional.
Esse é um resultado do fato de que este é um tempo de transição. É preciso não esquecer que este Papa já era velho quando foi eleito e está cercado por pessoas em que confia, mas sem uma estratégia clara para o governo. O resultado é que algumas escolhas não foram felizes. Aqui está o quadro geral: o problema é que o Vaticano ainda é dominado por uma cultura moldada pela Guerra Fria, mas o mundo mudou.
O que os atentados das Torres Gêmeas foram para os Estados Unidos, os escândalos dos abusos sexuais são para a Igreja. As Torres Gêmeas significaram que o unilateralismo e a hegemonia militar norte-americanos haviam terminado, e os escândalos dos abusos sexuais significaram que o unipolarismo ético da Igreja Católica acabou. O Ocidente está em crise, de um ponto de vista militar, tecnológico, econômico e moral. Ambos os impérios paralelos hoje estão aprendendo mais interiormente, estão mais fracos e não colaboram um com o outro.
Há poucos anos, você escreveu um livro sobre as relações EUA-Vaticano. Como você vê essa relação hoje?
Em primeiro lugar, a relação foi delegada para os bispos dos EUA mais do que gerenciada pelo Vaticano. Em segundo lugar, tenho a impressão de que o governo Obama está muito bem informado sobre o que está acontecendo no Vaticano. Terceiro, eu acho que não há muita simpatia ou coincidência de opiniões sobre valores.
O que eu sempre ouço nos círculos do Vaticano é que Obama não tem uma cosmovisão religiosa. Há menos pontos de convergência do que no passado. Tanto o comunismo quanto o fundamentalismo islâmico aproximaram os EUA e o Vaticano uma vez, mas hoje o comunismo acabou e, como o Vaticano acusa silenciosamente os Estados Unidos por ter perdido terreno e credibilidade no mundo islâmico, ele sente que tem que manter a sua distância. Como resultado, os blocos de construção básicos da relação não existem mais.
No início, falava-se muito de uma parceria entre Vaticano-Obama na virada de página com o mundo islâmico. As pessoas indicavam, por exemplo, que os discursos de Bento XVI na Terra Santa, em 2009, e o discurso de Obama no Cairo eram notavelmente similares.
Eles eram semelhantes, mas a realidade é que Obama está sobrecarregado com problemas norte-americanos, e Bento está sobrecarregado com problemas católicos no Ocidente. Cada um deles tem crises internas que estão tentando resolver.
Você tem um capítulo sobre as lutas do cristianismo no Oriente Médio. Há algo que o Vaticano pode fazer de forma realista com relação a isso?
É muito difícil, porque o controle do Vaticano sobre essas realidades não é tão forte. Eles deveriam ter tido uma estratégia há mais tempo, porque acho que o declínio já era muito claro antes da guerra no Iraque, e a guerra apenas o acelerou. Eu sei que eles dizem para que pessoas fiquem, mas minha impressão é de que eles estão dizendo isso quasepro forma, porque eles sabem que a decisão de ficar, hoje, é quase heroica Não há mais nenhuma perspectiva real para eles.
Por que você acha que os cristãos no Ocidente são muito menos propensos a reagir quando outros cristãos são atacados do que, digamos, os judeus quando outros judeus são ameaçados, ou os muçulmanos quando outros muçulmanos estão com problemas?
Paradoxalmente, há uma profunda ignorância da presença cristã fora do Ocidente. Em segundo lugar, eles tendem a considerá-los em primeiro lugar como árabes, ou paquistaneses, ou indianos, e apenas em segundo lugar como cristãos. Nacionalidade, cultura e raça, muitas vezes, tendem a ser mais fortes do que a religião.
Há algum outro exemplo da sua afirmação de que os cristãos não se adaptaram a ser uma minoria? No Ocidente, os cristãos tendem a tomar por certa a sua identidade religiosa, de uma forma que os judeus e os muçulmanos não fazem. Por isso, o bem-estar dos cristãos em outras partes do mundo não mexe com as nossas almas da mesma forma.
Você está certo. Eu concordo com isso totalmente. Muitas desilusões dos católicos, e no Vaticano, dependem desse fato. Eles pensam como se fossem uma maioria. Quando Bento XVI diz que devemos nos comportar como uma minoria criativa – o que, na prática, significa muitas vezes que devemos nos comportar como os judeus fazem – pode parecer paradoxal, mas é uma intuição válida do que está acontecendo. (Tradução de Moisés Sbardelotto).
> Fundamentalismo do Vaticano destrói as bases da tolerância.
março de 2009
> Casos de padre pedófilo.
sábado, 5 de março de 2011
quarta-feira, 2 de março de 2011
Deus é uma hipótese desnecessária
por Márcia Junges
Deus é uma hipótese desnecessária, pois o surgimento do cosmos e da vida são demonstráveis através de proposições explicadas pela ciência, garante o filósofo italiano Paolo Flores D’Arcais, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para dar sustentação ao seu argumento, vale-se da “Navalha de Ockham”, conceito criado pelo filósofo medieval cristão, o inglês Guilherme de Ockham, para assinalar que pluralidades não devem ser postas sem necessidade. “O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo”, completa. Em seu ponto de vista, “a inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros”. Dessa forma, o relativismo de valores é um fato, o que não implica, necessariamente, o niilismo, “que consiste em considerar todos os valores como equivalentes”. Para D’Arcais, não há sentido na pergunta “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”. Outro tema debatido pelo italiano é a “revanche Deus”: “Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da ‘revanche de Deus’ diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial”. O terreno comum entre cristãos e ateus “não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente”, define.
D’Arcais é diretor da revista MicroMega, colaborador dos jornais El País, Frankfurter Allgemeine Zeitung e Gazeta Wyborcza. Professor e pesquisador na Faculdade de Filosofia La Sapienza, da Universidade de Roma, escreveu sua tese de doutorado sobre Adam Smith e Karl Marx. Considerado um dos mais importantes críticos de esquerda da Itália, escreveu inúmeros livros, dos quais destacamos: Esistenza e libertà: a partire da Hannah Arendt (Genova, Marietti, 1990); Etica senza fede (Torino, Einaudi, 1992); L' individuo libertario: percorsi di filosofia morale e politica nell'orizzonte del finito (Torino, Einaudi, 1999); e Il sovrano e il dissidente (Milano: Garzanti, 2004).
A entrevista.
IHU On-Line - Há algum nexo causal entre ateísmo e relativismo de valores?
Paolo Flores D’Arcais - O ateísmo é a simples constatação que: 1) a história inteira do cosmos, do Big Bang até hoje, o nascimento da vida sobre o planeta Terra e a evolução da vida da lombriga até o homo sapiens, são perfeitamente explicados pela ciência, sem necessidade de recorrer à “hipótese Deus” (e segundo a “navalha de Ockham ”, é sempre filosoficamente inaceitável levantar a hipótese de uma causa oculta quando já temos explicações suficientes). E que: 2) o cérebro do homo sapiens é somente uma evolução e modificação do cérebro de um macaco, e todas as partes de um cérebro se desfazem com a decomposição que segue a morte, como também aqueles segmentos extraordinários do neocórtex do pós-símio sapiens que reassumimos sob o nome de “consciência”. Pelo que, após a morte, não pode existir nenhuma vida pessoal, não pode existir algum “do lado de lá”.
O relativismo dos valores é uma consequência lógica do ateísmo. Mas, continuaria inevitável também sem o ateísmo. A inteira história humana é, de fato, diacrônica e sincronicamente um gigantesco afresco de valores relativos, incompatíveis uns com os outros, visto que, como já recordava Pascal (de fato nada ateu e mesmo catolicíssimo), “... (lei) universal não existe nenhuma. O furto, o incesto, o assassinato dos filhos e dos pais, tudo encontrou seu próprio lugar entre as ações virtuosas”. O relativismo dos valores é um fato, inelutável. Há muitos ateus (ou agnósticos) que procuram remover este fato com inexauríveis e falimentares tentativas de redescobrir uma inencontrável “moral natural”. São as várias formas de “cognitivismo ético” que, no entanto, não resistem à reflexão crítica.
Ninguém ainda conseguiu, de fato, demonstrar (no mesmo sentido da geometria, ou pelo menos da física e da biologia) que uma asserção moral seja verdadeira recorrendo somente a dados empíricos acertados e à lógica. Para fundar uma asserção moral é, ao invés, sempre inevitável recorrer a uma asserção moral precedente, num regresso ao infinito. O valor primeiro (ou último) que funda toda a cadeia é, portanto, indemonstrável. Para alguém será a dignidade igual entre todos os seres humanos, para outro o direito do mais forte a tornar escravo o mais débil. Entre estas duas morais (e muitas outras possíveis) a questão não é de verdade e falsidade, mas de luta (frequentemente mortal).
No cenário ocidental de relativismo de valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?
Paolo Flores D’Arcais - A partir do que expliquei acima, o relativismo dos valores é, portanto, um fato. Mas não implica realmente o niilismo que consiste em considerar todos os valores como equivalentes. Quando se reconhece – o que é inevitável na ótica de um pensamento crítico – que o “cognitivismo ético” e toda pretensão de “moral natural” são ilusões metafísicas, disso não segue, de fato, a equivalência dos valores, mas o dever de escolher explicitamente os próprios valores, na consciência que o valor primeiro (ou último) constitui precisamente uma escolha, uma decisão, que não é fundável no plano da verdade. A moral do nazista não é “falsa”, é abjeta porque eu escolhi como fundamento ético da minha existência a igual dignidade entre todos os homens. Mas, sem esta escolha não estou em condições nem de refutar a opção nazista do ponto de vista argumentativo, nem de combatê-la do ponto de vista prático.
Ora, o Ocidente moderno nasce, com o Iluminismo, precisamente a partir desta escolha. O valor de fundo que permite o produzir-se da modernidade ocidental é a autonomia do ser humano (a partir da sinergia historicamente imprevisível e de todo contingente de ciência + heresia). Autós-nomos, dar-se, de si mesmo, a própria lei. O que implica que tal autonomia considere todos e cada um, pois, caso contrário, seria uma nova forma de heteronomia, de submissão da maioria a alguns privilegiados autocratas. Por isso, não tem nenhum sentido perguntar-se: “no cenário ocidental de relativismo dos valores, qual é o espaço para a solidariedade e a tolerância?”, a partir do momento em que o “cenário ocidental” nasce precisamente escolhendo tolerância e solidariedade como inevitáveis articulações do princípio de autós-nomos. Inevitáveis ambas – a tolerância e a solidariedade – sob o perfil lógico, também se historicamente serão conquistadas através de um processo histórico feito de lutas e sofrimentos ao longo de um par de séculos, da revolução americana até o wellfare dos anos 1960; e o princípio de tolerância se tornará então, desde o início, um pôr em jogo da modernidade, sendo que a solidariedade deverá esperar a irrupção no palco do movimento operário.
Por essa razão, de vez em quando se reduz no Ocidente a solidariedade e a tolerância e são os próprios valores do Ocidente que acabam sendo traídos. Deste ponto de vista, podemos dizer que a história da modernidade é a história de um conflito de resultados alternativos entre os valores do autós-nomos (para todos e para cada um) e as resistências do privilégio e do obscurantismo, que aceitam a modernidade somente sob a vertente das vantagens tecnológicas garantidas pelo progresso científico. Mas, ao mesmo tempo, obstaculizam a modernidade e a combatem enquanto possibilidade de conduzir desencanto, laicismo e democracia às suas lógicas consequências libertário-igualitárias. Deste ponto de vista, a modernidade é também a história da luta entre a democracia levada a sério e o establishment que a quer redimensionar como instrumento de conservação. Mas, neste conflito, que em anos mais recentes está assinalando preocupantes vitórias para os impulsos mais reacionários, a Igreja Católica hierárquica tem andado com as oligarquias e contra a “tolerância e solidariedade” (e também é impróprio continuar repetindo que, do ponto de vista histórico e ideológico, o conceito de autonomia é “tributário” à igualdade cristã, pois são duas coisas muitíssimo diversas).
A partir do diagnóstico nietzschiano do niilismo e da morte de Deus, abriu-se espaço para uma compreensão do homem que descambou em relativismo de valores. Por outro lado, há um retorno a Deus como salvação para os totalitarismos e a nadificação ou nulificação dos sujeitos. Que impasses e avanços surgem desse panorama do ponto de vista existencial e de autonomia do ser humano?
Paolo Flores D’Arcais - A “revanche de Deus” não nasce como tentativa de salvação contra os totalitarismos e a aniquilação dos sujeitos. Esta é a tese de Wojtyla e Ratzinger, falsa no plano histórico e insustentável nos planos lógico e filosófico (Wojtyla e Ratzinger fazem remontar os totalitarismos ao iluminismo e à pretensão do autós-nomos!). O Deus da Igreja Católica até encontrou, com os totalitarismos fascistas, formas mais que confortáveis de convivência e Mussolini foi até mesmo gratificado por Achille Ratti, mais conhecido como Papa Pio XI , com o título de “homem da Providência”. A onda atual de “revanche de Deus” (etiqueta que cobre fenômenos entre si muito diversos e não assimiláveis, desde os fundamentalismos – seja o islâmico ou o dos telepregadores protestantes, ou ainda o das católicas “Comunhão e libertação ” ou dos “Legionários de Cristo ” – aos sincretismos de religiosidade “new age” ou às seitas que na China renovam as religiões tradicionais) nasce, ao invés, como sub-rogação das esperanças de realização radical da democracia que caracteriza os dias da vitória contra o nazifascismo e, sucessivamente, os movimentos de luta anticolonialista no terceiro mundo, esperança que dos anos 1970 em diante se reduziu progressivamente.
Estas esperanças, que encontram uma última labareda em 1968, vêm sendo frustradas pelo triunfo do liberalismo selvagem de Reagan e Tatcher , pelo progressivo empobrecer-se das democracias ocidentais em “partido-cracias”, e pela metamorfose dos vitoriosos movimentos terceiro-mundistas em oligarquias de governo sempre mais corrompidas e sanguinárias. E a derrota do totalitarismo soviético em 1989 confirma este clima de esperanças frustradas: somente alguns países do Leste conseguem – fatigosamente, contraditoriamente, parcialmente – homologar-se às democracias ocidentais (já em crise com respeito aos valores fundantes de “tolerância e solidariedade”, como temos visto), enquanto a Rússia de Putin se torna modelo de “democracia negada” e a China consegue juntar totalitarismo político e desfrute econômico selvagem.
A democracia ocidental se baseia no conceito de autonomia e também é tributária ao cristianismo em função da premissa de igualdade. Como analisa o projeto político da modernidade? Ele está esgotado? Por quê?
Paolo Flores D’Arcais - Quando diminui a esperança terrena na luta política e social, é natural que retorne o seu sub-rogado celeste. O fenômeno da “revanche de Deus” diminuirá tão logo tornem maciças as lutas pela democracia radical, com perspectivas críveis de sucesso ao menos parcial. O projeto político da modernidade não se exauriu por isso, mas é mais que incompleto e, portanto, a ser retomado, porque a realização de “tolerância e solidariedade” se chama precisamente democracia radical.
Como podemos falar em moralidade, direitos humanos e verdade numa época tão relativista como a nossa?
Paolo Flores D’Arcais - Os direitos humanos são parte integrante desta luta que deve retornar. Mas para ser “humanos”, devem valer realmente para todos. A declaração de Independência americana, escrita por Thomas Jefferson , fala justamente de “direito à obtenção da felicidade”. Uma felicidade tornada impossível tanto pela falta de liberdade quanto pela desmedida das desigualdades econômicas e sociais. Em 1968 os estudantes de Varsóvia se rebelaram justamente contra o regime comunista, gritando “não há pão sem liberdade”, mas vale obviamente também o recíproco: “não há liberdade sem pão”. É necessário, no entanto, ter claro que os direitos humanos, que devem ser de “pão e liberdade” para todos e para cada um, não são de fato humanos no sentido de serem inscritos espontaneamente no coração do homo sapiens. A prevaricação, a prepotência, a violência, a “lei” do mais forte parecem mesmo ser com frequência a tendência mais natural. Os direitos humanos são, na realidade, direitos civis, escolhidos contra naturam através de lutas democráticas dos séculos mais recentes. Estes direitos civis são filhos do relativismo, porque jamais teriam podido nascer sem o princípio do autós-nomos, incompatível, como é óbvio, com qualquer “soberania de Deus”.
Que valores são comuns entre cristãos e ateus?
Paolo Flores D’Arcais - Dadas estas premissas que acabo de expor, existe um terreno comum de ação ente ateus e crentes? Certamente, depende do tipo de ateus e do tipo de crentes. Não existe, de fato, uma moral ateia. Existem tantas e um ateu pode ser uma flor de reacionário. E também não existe uma moral dos crentes, mas tantas quantas as interpretações das religiões. Consequentemente, o terreno comum não depende da fé, mas das escolhas ético-políticas de cada um, seja ele ateu ou crente. Por exemplo, entre ateus democráticos que combatem por “justiça e liberdade” e crentes que levem a sério o Evangelho quando se lança contra os ricos (praticamente em cada página) e quando solicita que “teu dizer sim seja sim e teu dizer não seja não, porque o restante vem do demônio”, há plena consonância. (Tradução de Benno Dischinger)
> 'Deus das revelações proféticas pode ser tornar fonte amarga de ateísmo'. (dezembro de 2010)
Assinar:
Postagens (Atom)

