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Animais não têm direitos, mas nós temos deveres para com eles

Título original: Homens e animais

por João Pereira Coutinho para Folha

Assisti a uma tourada na vida. Foi a primeira e a última. Era verão na Espanha e eu resolvi fazer um roteiro Hemingway (1899-1961): primeiro, beber na Gran Plaza; depois, tourada; finalmente, vomitar. Por causa da tourada, não da bebida. Tinha 15 anos.

O espetáculo pode ser esteticamente apelativo. Não contesto. Mas também não contesto que as antigas lutas de gladiadores romanos talvez pudessem proporcionar espetáculo igual. Ou, pensando melhor, os pobres cristãos lançados às feras. Fechar o juízo estético a qualquer consideração moral permite chegar a conclusões mil.

E a horrores mil. Como o horror da tourada. Não me lembro, com rigor, das etapas da corrida. Deixo isso para os especialistas. Lembro-me apenas de imagens soltas, cruéis, de uma violência primitiva.

O touro na arena a investir furiosamente contra os homens que ondulavam as capas vermelhas. Os cavaleiros e os bandarilheiros a sangrar o bicho. Lentamente. E, quando o sangue já escorria, abundante, pelo dorso do animal, o matador tinha o seu solene momento.

Curiosamente, o matador é a peça quase bondosa do processo: quando a espada trespassa o touro, sabemos que a desumanidade acabou.

Nesse sentido, honra seja feita, os espanhóis são mais compassivos do que os irmãos lusitanos. Em Portugal, nem sequer se concede ao animal a estocada da misericórdia.

Regresso à arena. O touro cai. O matador ergue os braços como um deus pagão.

O povo aplaude, em delírio. E os abolicionistas protestam: às portas da praça; nos jornais; nas televisões.

Fatalmente, protestam com o pior argumento de todos: torturar é um erro porque os animais têm direitos.
Lamento discordar. Os animais não têm direitos. Porque os animais não têm deveres. "Direitos" e "deveres" são concepções e imperativos humanos, criados pela nossa específica superioridade enquanto homens, enquanto seres racionais.

Só nós temos direitos. Só nós temos deveres. Só nós somos capazes de os formular e articular e de viver em sociedades politicamente organizadas onde existe o poder necessário para proteger e aplicar esses direitos e deveres.

Temos o direito de não ser arbitrariamente perseguidos ou mortos. Temos o dever de não perseguir ou matar. Mas também temos o dever de não torturar um animal para gáudio das massas.

Assim se entende por que sou contra as touradas. Não porque os animais têm direitos. Mas porque nós, como humanos, temos deveres para com eles.

As touradas são uma forma de degradação, não apenas para os animais, mas, antes de tudo, para nós. Elas suspendem a nossa singularidade como seres racionais e compassivos.

É por isso que aplaudo a decisão da televisão pública espanhola de não transmitir mais touradas. É um passo histórico, precedido por outros passos históricos: na Catalunha, por exemplo, a "fiesta" está banida. Segue-se o resto do país?

Mistério. Mas confesso que nunca acreditei na validade de uma proibição pura e simples enquanto não existe na comunidade o repúdio moral que a justifique.

E esse repúdio cresce devagar; cresce com a atitude sábia dos programadores televisivos de retirarem as touradas do "prime time", alegando a intrínseca pornografia do espetáculo.

Claro que a decisão não convence toda a gente. Não convence os aficionados, que avançaram com argumento previsível: os filmes de Hollywood são incomparavelmente mais violentos do que uma tourada. Como justificar a exibição de filmes e o boicote à tourada?

Era Cioran (1911-1995) quem definia o pessimista como o mártir do senso comum. Mas, às vezes, o senso comum é necessário. Desde logo para lembrar que existe uma diferença entre a ficção e a realidade.

No cinema, e mesmo no bom cinema, em nenhum momento a sombra do artifício desaparece por completo. Paradoxalmente, acreditamos na mentira porque suspendemos a incredulidade: é um negócio, consciente ou inconsciente, em que nos deixamos iludir. Mas que não altera a natureza inofensiva e indolor do que foi filmado.

Na tourada, essa ilusão desaparece. E, despida dos seus ornamentos retóricos, folclóricos ou culturais, o que resta é aquela memória de Espanha: uma memória de violência crua e cobarde dos homens sobre eles próprios.

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