terça-feira, 6 de julho de 2010

Papa castigou os progressistas e deixou os pedófilos em paz

por Frederico Rampini, do La Repubblica

Joseph Ratzinger, quando cardeal (foto), dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé e fez "parte de uma cultura de não responsabilidade, negacionismo e obstrucionismo da justiça" diante dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes. A afirmação é do jornalNew York Times, com base em documentos internos à Igreja, entrevistas a bispos e especialistas em direito canônico. Da reportagem, surge uma versão muito diferente sobre o papel do Papa Bento XVI com relação à descrição oficial fornecida pela Igreja.

Entre as revelações, destaca-se uma reunião secreta ocorrida no Vaticano no ano 2000 entre Ratzinger e os bispos das nações anglófonas mais atingidas pelos escândalos da pedofilia: Estados Unidos, Irlanda, Austrália. Segundo o bispo Geoffrey Robinson, de Sidney, que participou do encontro secreto, Ratzinger "levou muito mais tempo para reconhecer o problema dos abusos sexuais do que alguns bispos locais". Na entrevista ao New York Times, o prelado australiano se pergunta: "Por que o Vaticano ficou tantos anos atrás?".

O New York Times desmonta a linha de defesa que a Santa Sé manteve sobre o atual Pontífice. O Vaticano descreveu como uma mudança a decisão de 2001 de dar à Congregação dirigida por Ratzinger a autoridade de simplificar os procedimentos e enfrentar diretamente os casos de pedofilia. Depois dessa decisão, anunciada com uma carta apostólica de João Paulo II, o cardeal Ratzinger, se destacaria como um dos mais corajosos em reconhecer a ameaça dos abusos sexuais para a reputação da Igreja.

Tudo isso foi refutado na reconstrução do jornal norte-americano. Na realidade, a Congregação já tinha os mesmos poderes desde 1922, segundo diversos especialistas de direitos canônico entrevistados. A carta de 2001 não marcou, de fato, uma mudança. Pelo contrário, a Igreja decidiu agir só com grande atraso, sob a pressão de alguns bispos anglófonos de primeira linha nos escândalos.

"Durante as duas décadas em que ele esteve na liderança da Congregação", escreve o New York Times, "o futuro Papa nunca exerceu essa autoridade. Evitou intervir também quando as acusações e os processos estavam minando a credibilidade da Igreja nos EUA, Austrália, Irlanda e outros países".

Ainda hoje, continua o artigo, "muitas décadas depois que os abusos sexuais cometido por padres se tornaram um problema, Bento XVI não instituiu um sistema de regras universais" para enfrentá-los. Pelo contrário, existe ainda "uma confusão difundida entre os bispos sobre o modo de enfrentar as acusações".

Porém, os sinais de alarme para o Vaticano veem de longe. Em 1984, o padre GilbertGauthé, de Lafayette, Louisiana, admitiu ter molestado 37 menores de idade. Em 1989, um enorme escândalo estourou em um orfanato católico no Canadá.

Na primeira metade dos anos 90, 40 padres e monges australianos estavam sob processo por causa de abusos sexuais. Em 1994, um governo caiu na Irlanda por ter negado a extradição de um padre pedófilo. Naquele tempo, o cardeal Ratzinger havia consolidado a sua autoridade na cúpula da Congregação, à qual havia sido nomeado em 1981.

"Era ele", destaca o New York Times, "quem poderia ter iniciado ações decisivas nos anos 90, para impedir que os escândalos se tornassem uma metástase, difundindo-se de um país ao outro". Mas as suas prioridades eram outras.

Desde 1981, Ratzinger havia identificado "a ameaça fundamental para a fé da Igreja": a teologia da libertação, o movimento dos padres progressistas que estava se afirmando na América Latina. "Enquanto o padre Gauthé [pedófilo] era processado na Louisiana, o cardeal Ratzinger estava sancionando publicamente os padres do Brasil e do Peru por terem defendido que a Igreja devia se comprometer em favor dos pobres e dos oprimidos.

Os seus dardos atingiram depois um teólogo holandês favorável ao fato de dar funções eclesiais aos leigos e um norte-americano que defendia o direito ao dissenso sobre o aborto, o controle da natalidade, o divórcio e a homossexualidade".

Para reprimir toda veleidade de autonomia das Igrejas nacionais, Ratzinger usou a sua autoridade para afirmar que as Conferências Episcopais "não têm um fundamento teológico, não pertencem à estrutura da Igreja". Uma ofensiva fatal, desencadeada justamente na fase em que algumas Conferências Episcopais nos países anglófonos haviam começado a enfrentar os escândalos de modo aberto e pediam para poder punir os padres pedófilos sem esperar pela lentidão dos processos canônicos. (Tradução de Moisés Sbardelotto)

> Casos de padre pedófilo.

domingo, 4 de julho de 2010

Ratzinger deixou 8 anos na gaveta o caso do padre devasso Maciel

do The New York Times

Dois ex-seminaristas mexicanos foram ao Vaticano em 1998 para apresentar pessoalmente um caso relatando décadas de abuso sexual cometido por um dos padres mais poderosos da Igreja Católica Romana, o reverendo Marcial Maciel Degollado. Na saída, toparam com o homem que teria nas mãos o destino de Maciel, o cardeal Joseph Ratzinger (foto), e beijaram o anel dele. O encontro não foi acidental. Ratzinger queria conhecê-los, disseram testemunhas mais tarde, e o caso deles logo foi aceito.

Em pouco mais de um ano, porém, veio a notícia de que Ratzinger - o futuro papa Bento XVI - havia paralisado o inquérito. "Não é prudente", dissera ele a um bispo mexicano, de acordo com duas pessoas que depois conversaram com o bispo. Durante cinco anos o caso permaneceu parado, possivelmente refém dos poderosos protetores de Maciel na Cúria, o aparato de governo do Vaticano, e de sua própria influência na Santa Sé.

De qualquer forma, Ratzinger - já Bento XVI - demorou até 2006, oito anos depois de o caso surgir perante ele, para tratar dos abusos de Maciel, removendo-o das funções clericais e banindo-o a uma vida de rezas e penitência, embora sem admitir publicamente seus crimes ou o sofrimento de suas vítimas. E no sábado, quatro anos depois disso, o Vaticano anunciou que Bento XVI indicaria um delegado especial para dirigir a congregação mundialmente poderosa fundada por Maciel, os Legionários de Cristo.

Um olhar atento aos registros mostra que o caso foi marcado pelos mesmos atrasos e cautela burocrática ocorridos na condução de outras denúncias de abuso sexual que passaram pela mesa de Bento XVI. Os simpatizantes do papa acreditam que ele estava tentando agir no caso de Maciel, mas foi impedido por outras poderosas autoridades da Igreja. Os advogados das vítimas de Maciel, entretanto, dizem que o resultado final e o ajuste de contas do caso foram muito pequenos e demoraram muito.

O reverendo Alberto Athie Gallo, padre mexicano que em 1998 tentou chamar a atenção de Ratzinger para as acusações de abuso sexual contra Maciel, disse que o Vaticano permitiu que o então líder dos Legionários de Cristo, falecido em 2008, levasse uma vida dupla durante décadas. "Isso foi tolerado pela Santa Sé durante anos", disse Athie Gallo. "Nesse sentido, acho que a Santa Sé não pode chegar até o fim dessa questão. Ela teria de fazer uma autocrítica, como autoridade."

Antigos seminaristas da Legião disseram que Maciel abusou deles a partir do começo dos anos 1940 até o início dos anos 1960, quando tinham entre 10 e 16 anos. Durante anos, Maciel cultivou aliados poderosos entre os cardeais, por meio de presentes e doações em dinheiro, de acordo com reportagem de Jason Berry no National Catholic Reporter. Liderando esses aliados estavam o ex-secretário de Estado do Vaticano e o homem mais poderoso depois do papa João Paulo II, o cardeal Angelo Sodano, agora decano do Colégio Cardinalício e franco defensor de Bento XVI.

"Até que o papa Bento confronte o papel de Sodano na cobertura de Maciel, não vejo como ele pode se mover para além da crise que engoliu seu papado", disse Berry. Ele relatou que Ratzinger recusou uma oferta de dinheiro dos Legionários. Sodano não respondeu às solicitações por escrito para uma entrevista. Aproximar-se da verdade do que aconteceu com Maciel é dificultado pelo sigilo do Vaticano sobre as suas políticas e tomadas de decisão interna. Também é difícil em razão da reverência a João Paulo II, que saudava a ortodoxia da Legião e sua capacidade de atrair jovens homens ao sacerdócio.

Maciel fundou os Legionários de Cristo no México em 1941. Eles cresceram e se tornaram influentes e agora dirigem escolas, universidades, instituições de caridade e veículos de comunicação em 22 países. A congregação ganhou ares de culto à personalidade, com fotos de Maciel dominando os prédios da ordem. Os problemas de Maciel com o Vaticano datam de 1956, quando seu secretário pessoal o acusou de abuso de drogas e má administração financeira; ele foi suspenso por dois anos durante uma investigação, depois da qual foi absolvido e reempossado em 1959. "A partir desse momento, ele estava completamente protegido por todo o alto escalão do Vaticano", disse Fernando Gonzalez, sociólogo que escreveu um livro sobre o caso.

Os relatos de problemas na congregação continuaram, incluindo acusações de abuso sexual enviadas ao Vaticano, começando no final dos anos 1970. Em 1997, nove ex-seminaristas da Legião detalharam o abuso sofrido nas mãos de Maciel numa série de artigos publicados no The Hartford Courant. Naquele mesmo ano, o jornal mexicano La Jornada publicou uma denúncia similar. No ano seguinte, oito desses homens levaram uma reclamação formal à Congregação para a Doutrina da Fé, então liderada por Ratzinger. José Barba Martin, historiador da universidade Itam, no México, foi um deles.

Barba Martin disse que ele e outra vítima encontraram-se com o reverendo Gianfranco Girotti, um dos secretários de Ratzinger, em 17 de outubro de 1998. Barba afirmou que a advogada canônica deles, Martha Wegan, relatou a Girotti casos de abusos sexuais sofridos pelos oito homens. Na saída do edifício, Barba Martin contou, o grupo encontrou-se com Ratzinger e beijou o anel dele. Eles não conversaram sobre o caso. Depois, Wegan disse que o cardeal queria conhecê-los, de acordo com o historiador. Em fevereiro de 1999, a Congregação aceitou oficialmente o caso, de acordo com uma carta de Wegan.

Por volta da mesma época que o caso foi acatado, Athie, que se interessou pelo assunto e ajudava as vítimas de Maciel, escreveu uma carta relatando outra acusação de abuso e a deu ao bispo Carlos Talavera, do México, que lhe disse tê-la entregue a Ratzinger. Em uma entrevista, Athie disse que Talavera - que depois morreu - contou que o cardeal havia lido a carta e decidido não avançar com o caso. "Ratzinger disse que ele não poderia ser aberto porque ele era uma pessoa muito querida pelo papa", referindo-se a Maciel, "e havia feito muita coisa boa para a Igreja". Ele também teria tido "lamento muito, mas não é prudente", segundo Athie.

Saul Barrales, professor que trabalhou como secretário de Maciel e é primo de Talavera, disse ter ouvido do bispo o mesmo relato sobre a conversa. Pouco antes do Natal de 1999, Wegan, a advogada, escreveu a Barba Martin para dizer que tinha "notícias tristes". Ela disse que Girotti havia lhe dito que eles haviam decidido fechar o inquérito "por enquanto". Barba afirmou que, numa conversa posterior com Wegan, ela contou que seria melhor que os oito homens inocentes sofressem do que milhões de pessoas perdessem sua fé. Em outubro de 2002, segundo Barba Martin, Wegan lhe contou que Sodano pressionou Ratzinger, aparentemente favorável a prosseguir com o caso, para que abandonasse a investigação. Wegan recusou as solicitações para ser entrevistada.

Vários ex-legionários também disseram que Sodano, o decano do Colégio Cardinalício, era próximo de Maciel e poderia ter exercido um papel tanto em guardar informações sobre ele de João Paulo ou agir para impedir uma investigação. "Era muito claro que Angelo Sodano iria fazer todo o possível para proteger tanto Maciel como a Legião de Cristo", disse Glenn Favreau, defensor dos ex-legionários que foi ordenado decano na ordem e trabalhou em seu escritório em Roma. Favreau lembra-se de refeições opulentas nos prédios da Legião na cidade para Sodano e sua família ampliada. "Nós os alimentamos com as melhores comidas", disse ele.

Outros fatores adiaram o ajuste de contas. Alguns questionaram os relatos de abuso; um dos nove reclamantes originais voltou atrás e a Legião espalhou que diversos deles foram inquiridos, mas nada disseram, durante a investigação dos anos 1950. Há quem suspeite de inveja pelo sucesso de Maciel. "As acusações eram de fato vistas como infundadas e uma vendeta contra ele", disse Sandro Magister, jornalista italiano que acompanhou de perto o caso.

Mas algo mudou. Em dezembro de 2004, Ratzinger abriu uma investigação canônica e disse a Wegan ter decidido "ir até o fim" das acusações, de acordo com os clientes dela. Magister disse acreditar que, quando o cardeal tornou-se mais ciente da magnitude do problema, ordenou que os casos antigos fossem reexaminados. Os simpatizantes de Maciel mantiveram a briga. Em cinco meses de reabertura da investigação por Ratzinger, os Legionários de Cristo em Roma anunciaram que o inquérito estava encerrado - baseados num fax do gabinete de Sodano. No entanto, a exoneração de Maciel foi anunciada em 19 de maio de 2006. Mas só no último sábado o Vaticano oficialmente divulgou o motivo: o "comportamento objetivamente imoral" de Maciel incluiu atos criminosos "e demonstrou uma vida sem escrúpulos e sem um autêntico sentimento religioso".

> Gonzalez fala do abuso que sofreu de seu pai, o padre Maciel. (julho de 2010)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Bullying começa em casa, alerta psiquiatra

do IHU On-Line

No livro "Bullying - mentes perigosas nas escolas" (Rio de Janeiro: Editora Fontanar, 2010), a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (foto) analisa o perfil dos bullies, ou seja, dos agressores que cometem Bullying. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ela revê o início dos estudos acerca desse problema crescente no mundo todo e lembra que o marco se deu em 1982, quando “o norte da Noruega foi palco de um acontecimento dramático, onde três crianças com idade entre 10 e 14 anos se suicidaram por terem sofrido maus-tratos pelos seus colegas de escola”.

A médica explica que não é apenas no ambiente escolar que o agressor pode ser reconhecido. “No ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas com relação aos familiares. São arrogantes no agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram”, indica.

Ana Beatriz Barbosa Silva é médica com pós-graduação em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e com especialização em Medicina do Comportamento pela Universidade de Chicago (EUA). É professora nas Faculdades Metropolitanas Unidas (UniFMU) e membro da Academia de Ciências de Nova York.

IHU On-Line – Quando se começou a estudar o bullying?

Ana Beatriz Barbosa Silva – O bullying escolar ocorre desde que existe a instituição de ensino. Porém, a partir das décadas de 1970 e 1980, passou a ser objeto de estudos científicos nos países escandinavos, em função da violência existente entre estudantes e suas consequências no âmbito escolar. No final de 1982, o norte da Noruega foi palco de um acontecimento dramático, onde três crianças com idade entre 10 e 14 anos se suicidaram por terem sofrido maus-tratos pelos seus colegas de escola. Nesta época, Dan Olweus [1], pesquisador norueguês, iniciou um grande estudo, envolvendo alunos de vários níveis escolares, pais e professores.

Se o bullying é algo que acontece há muito tempo, por que só agora tomou as dimensões que tem hoje?

O individualismo, cultura dos tempos modernos, propiciou essa prática, onde o ter é muito mais valorizado que o ser, com distorções absurdas de valores éticos. Vivemos em tempos velozes, com grandes mudanças em todas as esferas sociais. Nesse contexto, a educação tanto no lar quanto na escola se tornou rapidamente ultrapassada, confusa, sem parâmetros ou limites. Os pais passaram a ser permissivos em excesso, e os filhos cada vez mais exigentes, egocêntricos.

As crianças tendem a se comportar em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não refletem sobre a necessidade delas no convívio coletivo e sequer se preocupam com as consequências dos seus atos transgressores. A instituição escolar é corresponsável nos casos de Bullying, pois é nela que os comportamentos agressivos e transgressores se evidenciam ou se agravam na maioria das vezes.

É ali que os alunos deveriam aprender a conviver em grupo, respeitar as diferenças, entender o verdadeiro sentido da tolerância em seus relacionamentos interpessoais, que os norteiam para uma vida ética e responsável. Infelizmente, a instituição escolar é o cenário principal dessa tragédia endêmica que, por omissão ou conivência, facilita a sua disseminação.

Qual é o perfil das “mentes perigosas” que existem nas escolas?

Na escola, os agressores (ou bullies) fazem brincadeiras de mau gosto, gozações, colocam apelidos pejorativos, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam alguns alunos. Perturbam e intimidam, por meio de violência física ou psicológica. Furtam ou roubam dinheiro, lanches e pertences de outros estudantes. Costumam ser populares na escola e estão sempre enturmados. Divertem-se à custa do sofrimento alheio.

Já no ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas com relação aos familiares. São arrogantes no agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram. Costumam voltar da escola com objetos ou dinheiro que não possuíam. Muitos agressores mentem, de forma convincente, e negam as reclamações da escola, dos irmãos ou dos empregados domésticos.

E geralmente qual é o perfil das vítimas?

As vítimas típicas são os alunos que apresentam pouca habilidade de socialização. Em geral são tímidas ou reservadas, e não conseguem reagir aos comportamentos provocadores e agressivos dirigidos contra elas. Normalmente, são mais frágeis fisicamente ou apresentam algo que as destaca da maioria dos alunos: são gordinhas ou magras demais, altas ou baixas demais; usam óculos; são “caxias”, deficientes físicos; apresentam sardas ou manchas na pele, orelhas ou nariz um pouco mais destacados; usam roupas fora de moda; são de raça, credo, condição socioeconômica ou orientação sexual diferentes... Enfim, qualquer coisa que fuja ao padrão imposto por um determinado grupo pode deflagrar o processo de escolha da vítima do Bullying.

Os motivos (sempre injustificáveis) são os mais banais possíveis. Normalmente, essas crianças ou adolescentes “estampam” facilmente as suas inseguranças na forma de extrema sensibilidade, passividade, submissão, falta de coordenação motora, baixa autoestima, ansiedade excessiva, dificuldades de se expressar. Por apresentarem dificuldades significativas de se impor ao grupo, tanto física quanto verbalmente, tornam-se alvos fáceis e comuns dos ofensores.

Você afirma que as escolas públicas sabem lidar melhor com o bullying do que as instituições particulares. Por quê?

Na verdade, o bullying existe em todas as escolas, o grande diferencial entre elas é a postura que cada uma tomará frente aos casos de agressão. Por incrível que pareça, os estudos apontam para uma postura mais efetiva contra o bullying entre as escolas públicas, que já contam com uma orientação mais padronizada perante os casos (acionamento dos Conselhos Tutelares, Secretaria de Educação etc.). Já nas escolas particulares, os casos tendem a ser abafados, uma vez que eles podem representar um “aspecto negativo” na boa imagem da instituição privada de ensino.

O que move uma criança a cometer bullying?

Primeiramente, precisamos identificar que tipo de agressor ele é, uma vez que existem causas diferenciadas. A maioria se comporta assim por nítida falta de limites em seus processos de educação. Por ausência de um modelo educacional que associe autorrealização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias. Este modelo faz com que os jovens busquem atitudes egoístas e maldosas, já que isso lhes confere poder e status.

O agressor pode estar vivenciando momentos de dificuldades circunstanciais, como doenças na família, separação dos pais ou até mesmo por estar sofrendo bullying também. Nesses casos, a violência praticada pelo jovem trata-se de um fato novo em seu modo de agir e de se relacionar com as pessoas que, geralmente, é passageiro.

Uma minoria se comporta assim por apresentar a transgressão pessoal como base estrutural de sua personalidade. Neste caso, falta-lhe o sentimento essencial para o exercício do altruísmo: a empatia. Trata-se de jovens que apresentam transtorno da conduta e são perversos por natureza. Eles apresentam desde muito cedo tendências psicopáticas, e se divertem com o sofrimento do outro.

O problema do bullying começa em casa?

Sim, sem dúvida. Para que os filhos possam ser mais empáticos e agir com respeito ao próximo, é necessário primeiro rever o que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de educadores. O exemplo dentro de casa é fundamental. O ensinamento de ética, solidariedade e altruísmo inicia ainda no berço e se estende para o âmbito escolar, onde as crianças e adolescentes passarão grande parte do seu tempo.

O "mundo virtual" é uma ferramenta do bullying?

O ciberbullying ou bullying virtual é uma das formas mais agressivas de Bullying. Os ataques ocorrem através de ferramentas tecnológicas como celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, Internet e seus recursos (e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além da propagação das difamações serem praticamente instantâneas, o efeito multiplicador do sofrimento das vítimas é imensurável. O ciberbullying extrapola, em muito, os muros das escolas, e expõe a vítima ao escárnio público. Os praticantes dessa modalidade de perversidade também se valem do anonimato e, sem qualquer constrangimento, atingem a vítima da forma mais vil possível.

> Caso de difamação e bullying pela internet.