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A nova mídia e a tradicional se convergem no Huffington Post


por Fernanda Godoy, do Globo

Arianna Stassinopoulos Huffington é uma mulher surpreendente. Criadora do maior êxito do jornalismo online, o “Huffington Post”, apelidada de “rainha dos blogueiros” e “baronesa da mídia eletrônica”, essa ateniense radicada nos EUA declina o papel de pitonisa do jornalismo:


"Eu vivo cada dia. Gregos não fazem sequer seguro de vida. Meu pai achava que escrever um testamento era desafiar os deuses. Eu me considero completamente americana, minha vida está aqui, mas sempre me sentirei grega. Vejo o “HuffPo” como uma obra em andamento. Não creio que chegará o dia em que acordarei e direi: “É isso! Isso é o ‘Huffington Post’!” — diz Arianna, 60 anos recém-completados, elegantemente informal em um jeans preto, sapatilhas e blusa bordada, em seu escritório no bairro nova-iorquino do SoHo, sede do “Huffington Post”.Formada em economia pela Universidade de Cambridge, Arianna fez carreira como escritora.

Entre seus 13 livros, estão biografias de Maria Callas e Pablo Picasso. Seu talento de comunicadora se expressou em vários meios: quando vivia na Inglaterra, nos anos 70, foi jurada em programas de música na BBC. Nos EUA há 30 anos, entrou no mundo do jornalismo pela porta de colunas em jornais e dos blogs, sua grande paixão.

Nos cinco anos que se passaram desde a sua fundação, em maio de 2005, o “Huffington Post” construiu uma impressionante história de sucesso, moldando uma arena de debate on-line, com a participação de 6.000 blogueiros que escrevem de graça, e com um noticiário ágil e interativo, fórmula que atrai 23,8 milhões de usuários únicos por mês (dados de julho, segundo a comScore, empresa que monitora audiência on-line). Ultrapassou gigantes do jornalismo como o “Washington Post”, e está atrás apenas do “New York Times”, com seus mil jornalistas.

O “HuffPo” concorre com 70 jornalistas, quase todos jovens, ousadia na edição e opção pela interatividade.

"A maneira como as pessoas consomem notícias é muito diferente hoje. Elas não querem só ler, querem se engajar, colaborar. Somos parte disso, do mundo do Facebook, doTwitter", diz Arianna, a primeira a apostar no Facebook como amplificador de audiência.

O editor-executivo Jay Singh, talvez a única pessoa na redação do “Huffington Post” com mais de 40 anos e larga experiência na imprensa, explica que o jornalismo participativo está no DNA do site.

"Num jornal, o ciclo da notícia termina quando ela é publicada. Para nós, é aí que o ciclo começa", diz Singh.

Na avaliação de Joshua Benton, diretor do Nieman Journalism Lab, centro de estudos de jornalismo da Universidade de Harvard, o “Huffington Post” teve um papel pioneiro:

"Eles estiveram na linha de frente do jornalismo on-line, executando ideias novas. Eles entenderam que agregar os conteúdos de outras origens dava certo, em vez de montar uma grande redação, que seria a ideia mais óbvia no passado. O “Huffington Post” também tem uma edição inspirada e é afinado com o que os leitores online querem", diz Benton.

Na redação do “Huffington Post”, a busca pela notícia e pela participação são indissociáveis.

Durante a visita do GLOBO, chegou a informação de que um juiz da Califórnia havia derrubado a proibição ao casamento gay. Imediatamente os editores começam a acionar, entre seus milhares de blogueiros — artistas, políticos, diplomatas, cientistas, acadêmicos —, aqueles ligados ao tema. São 250 a 300 novos blogposts por dia.

"Arianna teve a inteligência de atrair pessoas muito interessantes como comentaristas, uma variedade extraordinária de opiniões. E ela foi também a primeira a ter uma estratégia de mercado baseada na sua compreensão da vaidade humana", diz Edward Wasserman, professor da Universidade de Washington & Lee e colunista de mídia do “Miami Herald”.

A editora-chefe não abre mão de empregar moderadores, que considera essenciais para preservar a comunidade:

"Temos pessoas como moderadores. Não acredito que a internet deva ser um faroeste. Acho que não teríamos crescido tanto se nossos blogueiros não tivessem a certeza de que poderiam até receber críticas, mas não palavrões."

Estudiosos da mídia destacam a importância da experiência do “Huffington Post” e alertam para o risco que a imprensa tradicional corre quando ignora mudanças, desprezando esse novo modelo de jornalismo devido à sua menor produção de noticiário original e de “furos”.

"Está havendo uma ruptura de modelo de negócio, uma mudança no ecossistema, que era um deserto e virou uma floresta amazônica. Reagir dessa forma é fazer o mesmo que a indústria automobilística dos EUA fez quando os carros japoneses chegaram ao mercado", diz Rosental Calmon Alves, professor da Universidade do Texas.

Aos que desdenham de sua fórmula, criticando a reciclagem de noticiário alheio e o uso de mão de obra gratuita, Arianna responde que o “HuffPo” vem expandindo sua cobertura, abrindo seções novas, e aponta a convergência entre os novos meios e a mídia tradicional.

"Quando abrimos o “Huffington Post”, éramos dois mundos separados, mas agora caminhamos para a convergência, com cada lado incorporando o que o outro tem de melhor."

Com o crescimento, a redação ficou apertada. Também é pequeno o escritório da editora-chefe, decorado com quadros de sua filha Isabella. Seu Blackberry permaneceu inerte sobre a mesa de trabalho durante toda a entrevista, e Arianna atendeu apenas aos telefonemas das filhas. Mas é fácil notar que seu cérebro continua funcionando no modo multitarefa, com frequentes interrupções para passar tarefas à assistente.

A entrevista precedeu uma ocasião especial para a família Huffington: no dia seguinte, a mãe levaria as duas filhas à Universidade de Yale, onde Isabella é caloura na faculdade de arte e Christina estuda História.

‘Temos que aceitar o fracasso como parte da vida’ Foi para as filhas que Arianna escreveu o livro “On becoming fearless”, inspirado nos ensinamentos de sua mãe, Elli, sobre como vencer o medo. A disposição para correr riscos é a mola propulsora de Arianna nesse ecossistema mutante citado por Rosental.

"Minha mãe sempre dizia que o fracasso não é o oposto do sucesso. Ela considerava o fracasso parte de nossa viagem. Muitas pessoas, especialmente as mulheres, temem o fracasso, mas nós temos que aceitá-lo como parte da vida."

Por causa da vizinhança com Yale, em Connecticut, Arianna passará mais tempo em Nova York, e menos em sua casa de Los Angeles, para onde se mudou quando casou com o republicano Michael Huffington, magnata do petróleo. Arianna adotou ideias republicanas, pediu o impeachment do presidente Bill Clinton durante o escândalo Monica Lewinsky.

O casamento durou até 1997, mas o divórcio com os republicanos veio um ano antes. Em 2003, tentou concorrer como independente ao governo da Califórnia. Aproximou-se das ideias progressistas (ou liberais, na definição americana).

Nos últimos anos, sua lista de 12 livros publicados ganhou um título que ataca a direita “Right is wrong” e está prestes a apresentar “Third World America”, sobre a decadência da classe média nos EUA, que será lançado no próximo dia 9.

"Arianna tem opiniões, mas é uma empresária. Foi conservadora quando isso tinha apelo, e passou a liberal quando isso se tornou popular", diz Benton.

Por convicção ou estratégia de mercado, ou ambos, Arianna ataca o que chama de “falsa neutralidade” dos jornais. A expressão que ela mais detesta em um texto jornalístico é “por um lado....por outro lado...”:

"Às vezes sabemos onde está a verdade, então não tem sentido essa coisa de “por um lado, por outro lado”. É como fazer um debate onde uma pessoa acredita que a Terra é plana, e a outra, que o planeta é redondo, e tratar os dois argumentos com o mesmo peso. Ou dar crédito a pessoas que negam o aquecimento global, apesar das evidências científicas. Isso não é ter equilíbrio, é deixar de fazer o papel de jornalista."

No “Huffington Post”, há temas, como as guerras do Iraque e do Afeganistão, onde a cobertura é feita a partir de um ponto de vista explícito.

No caso, contra a guerra. Os analistas apontam a clareza de opiniões como um grande valor de mercado na floresta amazônica da internet, onde é difícil se diferenciar. Já os jornais impressos, principalmente depois da concentração da indústria na segunda metade do século XX, são muitas vezes a única voz em uma grande cidade, e precisam falar para toda a comunidade.

Experiente debatedora — uma arte que aprendeu na Universidade de Cambridge —, radialista, ativista política, Arianna usou sua intuição para perceber a mudança nos ventos da sociedade e, com sua imensa rede de contatos em Nova York, Washington e Los Angeles, criar uma comunidade que se expressa em mais de 3 milhões de comentários por mês. Enfrenta com galhardia mais de 100 palestras por ano e não para nunca de procurar gente interessante para incorporar à sua comunidade.

E agora, o que se segue? Uma volta à política?

"Não. Sinto que estou no último capítulo, que tudo que aconteceu na minha vida, tudo que aprendi, me trouxe a esse ponto, e está nutrindo o que estamos criando aqui. Você passa pela vida e toma tantas decisões cujo sentido não entende na hora, mas depois tudo se encaixa", conclui.

> Redes sociais e celulares são o futuro da web, diz "pai" da WWW. (abril de 2009)

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