sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Anticorpo derrota HIV e inspira vacina

Dois anticorpos isolados de paciente africano conseguem neutralizar várias cepas do vírus, devolvendo esperança de vacina. Moléculas se ligam a partes de proteína da superfície do vírus que não mudam; nova técnica acelera busca de mais anticorpos desse tipo

por Ricardo Mioto, para a Folha de S.Paulo

A busca até agora frustrada por uma vacina contra a Aids ganha alento com uma pesquisa divulgada ontem. Um grupo internacional isolou dois anticorpos - ambos de um mesmo doador, um homem africano - capazes de neutralizar um amplo espectro de variedades do HIV, vírus causador da doença.

Os anticorpos são moléculas produzidas pelo sistema de defesa do corpo que lutam contra bactérias, vírus e outros invasores. O HIV é mestre em driblar essas moléculas.

Vírus da Aids Os anticorpos descobertos pelos cientistas, batizados PG9 e PG16, são especiais porque atacam uma região do HIV que é comum à maioria das variedades do vírus. Foram testados contra 162 linhagens, e conseguiram neutralizar mais de 120. Uma quantidade alta e inédita.

Algumas poucas pessoas, como esse doador, produzem anticorpos que as protegem do HIV naturalmente. Se, no futuro, for possível produzir uma vacina que estimule a produção deles em todos, as pessoas poderão ser imunizadas contra a Aids. Nos casos do PG9 e do PG16, a eficiência não chega a 100% - é de cerca de 80%. Mas já seria um grande passo.

O HIV é um vírus altamente mutante. As proteínas que ele usa para se ligar às células humanas mudam com tanta facilidade que os anticorpos não consegue reconhecê-las e se ligar a elas. Essa é a principal barreira à produção de uma vacina hoje.

A abordagem utilizada pelos cientistas, então, é buscar exceções: pedaços dessas proteínas que se mantenham idênticos em todas cepas do vírus.

"Certamente vamos encontrar mais [anticorpos]. Isso deve acelerar o desenvolvimento de uma vacina", diz Wayne Koff, da Iavi (Iniciativa Internacional de Vacinas contra a Aids, na sigla em inglês).

"A grande novidade foi que eles, talvez os melhores cientistas do mundo na área, conseguiram desenvolver um meio novo e eficiente de rastrear os anticorpos", diz Ésper Kallás, infectologista da USP.

"Se você pensar como uma pescaria, nós estávamos, antes, usando a isca errada para pescar anticorpos que funcionassem. Agora nós utilizamos uma abordagem melhor, mapeamos diretamente a capacidade que os anticorpos tinham de bloquear a infecção por HIV. Para isso, desenvolvemos um novo teste. Ele abre novos caminhos", diz Christos Petropoulos, chefe da Monogram Biosciences, uma das empresas envolvidas na pesquisa.

Foram mais de 15 anos de tentativas até que os cientistas da Iavi, do Instituto de Pesquisas Scripps (EUA) e de duas empresas de biotecnologia publicassem a descoberta, ontem, no site do periódico "Science". 

Outros quatro anticorpos de ação ampla contra o HIV já haviam sido isolados antes. Mas, segundo os pesquisadores, eles eram eficazes contra uma quantidade bem menor de variedades do vírus. Além disso, eles miravam regiões da superfície viral que se mostraram menos expostas - e, por isso, era mais difícil criar vacinas que funcionassem. Os novos anticorpos atacam regiões fáceis de se atingir.

O que precisa ser feito agora é identificar os imunógenos relacionados aos novos anticorpos descobertos. Imunógenos são os responsáveis por estimular o corpo a produzi-los. Vacinando as pessoas, então, seus corpos passariam a gerar PG9, PG16 ou qualquer outro anticorpo mais eficiente que venha a ser descoberto.

As descobertas são impressionantes, mas não significam que tudo vai dar certo.
No passado, vacinas antiaids chegaram até a fase de testes clínicos. Falharam. O caso mais famoso foi a vacina da Merck, em 2007. "Quem tomava vacina, dependendo do risco, tinha até mais chance de ter vírus", diz Ricardo Diaz, da Unifesp.

Ficou famosa a fala de Margaret Heckler, então secretária de Saúde dos EUA, em 1984, dizendo que a vacina contra a Aids estaria disponível em dois anos. É uma demonstração do quanto é difícil fazer uma que funcione e como é imprevisível saber quando isso acontecerá.

> Aids surgiu há um século, diz estudo. (outubro de 2008)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

‘Caro Bento 16, por que calas diante da violência contra os gays?’

do IHU On-Line

Bento16 "Em matéria de condenação das violências contra os homossexuais creio realmente que tenha chegado o tempo de falar, para não se tornar inconscientemente cúmplices daqueles desgraçados que, como o agressor de sexta-feira passada [de um jovem italiano que, por causa dos ferimentos, ainda está hospitalizado], se esquecem de sua humanidade quando vêem dois homens que trocam um beijo".

Essa é a opinião de Gianni Geraci, formado em estatística pela Universidade de Pádua. Depois de ter participado ativamente na vida de algumas associações católicas, entrou em contato com o Gruppo del Guado de Milão, um grupo de pesquisas sobre fé e homossexualidade. Em 1996, foi nomeado porta-voz da Coordenação de Grupos de Homossexuais Cristãos na Itália. O artigo foi publicado no jornal Il Guado, 25-08-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Já sei que muitos se escandalizarão quando lerem esta carta. Outros se porão a rir e me dirão que sou o costumeiro ingênuo que procura mudar o mundo escrevendo cartas inúteis. Algum anticlerical me acusará, depois, de alimentar a ilusão que haja em minha igreja alguém que escuta os homossexuais crentes como eu. Algum outro ainda excluirá o email com o qual decidi tornar público este meu texto e talvez me solicite não mais importuná-lo com aquelas que ele considera “lamúrias”.

Como vês, caro Papa, escrevendo-te corro o risco de causar incômodo a muitos.

Entre estes também poderias estar, pois espero realmente que eu possa pôr-te à escuta daquilo que escrevo, transformando assim, graças à ação misteriosa do Espírito, as pobres palavras que compõem minha carta naquilo que tu precisas saber para dar uma resposta eficaz a tantos homossexuais católicos que olham para ti com esperança.

Certamente terás sabido sobre Dino, aquele jovem homossexual que está baixado no hospital Santo Eugênio pelas feridas que sofreu por causa de uma agressão que se deu em Roma sexta-feira passada. A pessoa que o feriu não aprovava o fato de que Dino trocasse publicamente alguns sinais de ternura com outro jovem que conhecera naquela tarde. Essa pessoa os apostrofou, voaram palavras pesadas e, por fim, os agrediu ferindo-os com uma arma de corte.

Certamente não aprovas esta agressão, embora, provavelmente, com mérito na oportunidade de certas manifestações públicas de ternura entre duas pessoas do mesmo sexo, poderias pensar a coisa mais ou menos como o desgraçado que a praticou. Quando ainda eras Prefeito da Congregação para a doutrina da Fé, de fato tornaste público um documento no qual se lê, entre outras coisas, que “As pessoas homossexuais que declaram sua homossexualidade são em geral precisamente aquelas que consideram que o comportamento ou o estilo de vida homossexual seja indiferente ou mesmo bom e por isso digno de aprovação pública”, criticando aqueles projetos de lei que pretendiam tutelá-los (cf. Carta aos bispos dos Estados Unidos, de 23 de julho de 1992: Direitos sociais das pessoas homossexuais).

Seja claro, para evitar equívocos, que de fato não estou te comparando com o agressor de Dino. Tu o terias censurado educadamente e jamais terias aprovado a violência. O fato é que tuas admoestações, quando são lidas por um exaltado, correm o risco de se tornar uma desculpa que pode justificar uma homofobia que é tão mais perigosa quanto menos é reconhecida por aquilo que é. Digo isto porque foram tantas as pessoas que criticaram as vigílias de oração pelas vítimas da homofobia que os grupos de homossexuais italianos crentes organizaram nos últimos dois anos. Em geral diziam que não tinha sentido falar de uma violência homofóbica que só estava em nossas cabeças, porém algum deles chegou mesmo a negar a própria existência da homofobia e, citando o dicionário que o Pontifício Conselho para a Família publicou em 2003, se afirmou que a homofobia não é senão um instrumento de que se serve o lobby dos homossexuais para propagandear sua confusão psíquica.

A eles. A aqueles que, como o agressor do jovem Dino, não se envergonham pelos instintos violentos que neles suscita a imagem de dois homens ou de duas mulheres que trocam um beijo. A todos aqueles que correm o risco de transformar a condenação moral dos anti-homossexuais num sentimento de desprezo ou numa atitude de marginalização ante lésbicas e gays, creio que se devam recordar estas palavras da Congregação para a Doutrina da Fé: “É deplorado com firmeza que as pessoas homossexuais tenham sido e ainda sejam objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da igreja, onde quer que se verifiquem. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros, que  é lesiva dos princípios elementares sobre os quais se baseia uma sã convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser sempre respeitada nas palavras, nas ações e na legislação” (Carta Pessoa Humana, sobre algumas questões de ética sexual, de 29 de dezembro de 1975).

E é em obediência a estas palavras que te peço intervir para expressar tua solidariedade ao pobre Dino, para condenar o episódio de violência que se desencadeou em tua diocese e para condenar todos os episódios análogos que se desencadeiam em toda parte do mundo.

Como escreve o livro da Sabedoria, “Há um tempo para falar e um tempo para calar”. Em matéria de condenação das violências contra os homossexuais creio realmente que tenha chegado o tempo de falar, para não se tornar inconscientemente cúmplices daqueles desgraçados que, como o agressor de sexta-feira passada, se esquecem de sua humanidade quando vêem dois homens que trocam um beijo.

Com o afeto de uma pessoa que te considera sempre e realmente como um pai na Fé, te saúdo e peço tua bênção sobre mim e sobre todos os homossexuais católicos.

Gianni Geraci

PS.: Alguém me fez notar que o ministério do Papa é universal e que ele realmente não pode correr atrás dos fatos de crônica que ocorrem em Roma. Esta observação, correta, me fez, no entanto, pensar que, precisamente por este motivo, o Santo Padre tem um cardeal Vicário que exerce de fato o ministério episcopal na cidade. As palavras de solidariedade e de condenação poderiam vir dele. E este Vigário, que também poderia estar muito empenhado, tem três bispos auxiliares que o ajudam na gestão da Diocese de Roma. Se ele realmente não tem tempo de intervir, poderia encarregar um destes três bispos. Querendo ou não, uma solução capaz de fazer entender que a Igreja de Romanão aprova a violência homofóbica que se consumou na cidade, certamente lá se encontra. Naturalmente é preciso querê-lo.

> Papa diz que camisinha ‘piora o problema’ da Aids. (março de 2009)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

População indígena dobrou em nove anos, constata IBGE

da Agência Brasil

A população indígena brasileira deu um salto nos últimos anos e mais que duplicou entre 1991 e 2000. Com uma taxa de crescimento de 10,8% ao ano, os índios passaram de 294 mil para 734 mil, representando 0,4% dos brasileiros, segundo pesquisa divulgada hoje (2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além de melhorias na área de saúde, resistência a infecções e o engajamento em instituições de defesa dos próprios direitos, o estudo aponta que a explosão do contingente está relacionada à mudanças no critério de autoidentificação dos censos. Nos levantamentos mais antigos, a auto-atribuição era aleatória.

“Isso pode ser explicado não só pelo aspecto demográfico, mas também pela mudança na autoidentificação de um contingente de pessoas que nos censos anteriores provavelmente se declaravam como pardos”, afirma o texto do documento.

De acordo com o documento, a maior parte da população indígena do país está no Norte, embora tenha caído quase pela metade nos anos pesquisados. Atualmente, vivem na região cerca de 29,1% do total. Em 1991, eram 42,4%.

Em um movimento contrário, cresceu o contingente indígena do Sudeste, onde subiu de 30,5 mil para 156 mil os indivíduos que se identificam como índios. No Nordeste, o contingente também aumentou, passando de 55 mil para 166 mil.

Segundo o levantamento do IBGE, a escolarização indígena, embora ainda muito baixa, também avançou nos anos pesquisados. Entre os dois censos, a média de estudo entre os indivíduos com mais de 10 anos de idade passou de 2 para 3,9 anos. (Isabela Vieira)

> Fotos de índios no Acre chamam a atenção para tribos na Amazônia e têm repercussão internacional. (maio de 2008)

Derretimento no Ártico pode afetar um quarto da população mundial, diz WWF

da BBC Brasil

O nível do mar pode aumentar mais de um metro até 2100 com o derretimento do gelo do Ártico, causando a inundação de regiões costeiras e afetando potencialmente um quarto da população mundial, de acordo com relatório divulgado nesta quarta-feira pela organização internacional para a preservação da natureza, World Wildlife Fund (WWF).

Ártico O documento sugere que o aumento do nível das águas seria quase o dobro do previsto no estudo do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) que, em 2007, estimava este número em 59 centímetros.

A WWF diz que o relatório Feedbacks do Clima do Ártico: Implicações Globais é o primeiro do tipo a incorporar o impacto do derretimento do gelo na Groenlândia e da porção ocidental da Antártida sobre o nível do mar, regiões que não foram consideradas nas projeções do IPCC.

As temperaturas do ar no Ártico aumentaram quase duas vezes em relação à média global nas últimas décadas, diz a WWF. "O que este relatório nos permite ver são as (...) amplas consequências globais deste aquecimento", disse o cientista Martin Sommerkorn, consultor para mudanças climáticas do programa da WWF para o Ártico, em entrevista divulgada pela organização no YouTube.

O derretimento do gelo do Ártico se tornaria um motor de mudanças climáticas mais acentuadas, diz o documento da WWF.

O relatório prevê que a perda acentuada do gelo com o aquecimento do Ártico influenciaria o clima além da região. O fenômeno mudaria a temperatura e os padrões de precipitação de chuvas na Europa e na América do Norte, afetando a agricultura, florestas e recursos hídricos.

O documento explica que o solo congelado do Ártico reserva o dobro do carbono mantido na atmosfera e, que se o aquecimento da região continuar, o gelo do solo vai se derreter e liberar carbono na atmosfera na forma de dióxido de carbono e metano em níveis significativos. A concentração de metano, um gás causador do efeito estufa especialmente poderoso, vem aumentando na atmosfera nos últimos dois anos e há sugestões de que isso se deve ao aquecimento da tundra do Ártico.

"Este relatório mostra que é urgentemente necessário controlar as emissões dos gases do efeito estufa enquanto ainda podemos", disse Sommerkorn. "Se nós permitirmos que o Ártico fique quente demais, há dúvidas sobre se poderemos manter a cadeia de implicações desse fenômeno sob controle."

"Nós acreditamos que estas informações são críticas para se levar às pessoas diante do novo acordo sobre mudanças climáticas que será negociado em Copenhague (Dinamarca) em dezembro."

O tratado a ser negociado na capital dinamarquesa vai ser a sequência do Protocolo de Kyoto.

> Aquecimento global e o desequilíbrio da ecologia

Hipertensos têm mais risco de desenvolver demência

por Fernanda Bassette e Flávia Mantovani, da Folha de S.Paulo

Pessoas com hipertensão arterial descontrolada têm mais riscos de desenvolver deficit cognitivo e demência no futuro do que aquelas com a pressão normal, aponta trabalho publicado na revista "Neurology".

O estudo, da Universidade do Alabama, envolveu cerca de 20 mil pessoas com mais de 45 anos e também idosos que nunca tinham sofrido AVC (acidente vascular cerebral) ou pequenas isquemias silenciosas (microinfartos que atingem áreas não vitais do cérebro).
Os resultados foram ajustados para outros fatores de risco que poderiam afetar as habilidades cognitivas, como idade, tabagismo e diabetes.

hipertensão Segundo a pesquisa, para cada aumento de dez pontos na leitura da pressão arterial diastólica (o número de baixo da relação), os riscos de problemas cognitivos e de perda de memória crescem 7%. É considerado hipertensão quando os níveis de leitura são iguais ou maiores do que 140 por 90.

O neurologista Gabriel Rodriguez de Freitas, coordenador do Departamento Científico de Doenças Cerebrovasculares da Academia Brasileira de Neurologia, diz que a hipótese mais provável que explica a relação é a ocorrência cumulativa dos microinfartos cerebrais.
A pessoa com hipertensão descontrolada pode sofrer até centenas de pequenos infartos cerebrais e não apresentar nenhum sintoma, pois eles atingem áreas silenciosas.
O entupimento faz com que o sangue deixe de circular nessas regiões, matando neurônios. "Quando a pessoa envelhecer e a reserva de neurônios for menor, perceberá o comprometimento neurológico."

O mecanismo que leva ao deficit cognitivo é o mesmo que leva ao AVC. "Todo mundo teme o AVC, mas antes de ele ocorrer os microinfartos já podem gerar problemas cognitivos", diz a psicóloga Danielle da Costa, da equipe de neuropsicologia do Hospital da PUC de Porto Alegre.

A psicóloga participou de um estudo apresentado no último congresso da Sociedade Brasileira de Hipertensão, que ocorreu no início do mês em Belo Horizonte, que mostrou que hipertensos com idade média de 40 anos tiveram pior desempenho em testes de memória e função executiva do que as pessoas do grupo controle.

Funções executivas consistem, por exemplo, em manter o foco e a atenção, e a memória mais afetada é a verbal.

Costa diz que nem sempre os cardiologistas levam em conta os problemas cognitivos. "Os pacientes chegam ao neurologista quando o deficit é intenso, mas o ideal é identificar o problema cedo, para prevenir consequências piores", diz. Além do controle da hipertensão, programas de reabilitação neuropsicológica podem ajudar.

A gravidade e a proporção das pequenas isquemias têm reflexo direto na perda cognitiva. Outro levantamento, publicado em julho no "British Medical Journal", avaliou 639 pacientes e dividiu em três graus os microinfartos cerebrais (leve, moderado e grave).

Após três anos, os pesquisadores constataram que pacientes com grau mais alto da isquemia silenciosa têm 40% mais risco de evoluir para demência. "Além disso, os pacientes que não tratam a hipertensão evoluem muito mais rápido e mais gravemente para a demência", afirma o neurologista Gabriel de Freitas.

De acordo com o cardiologista Marcos Knobel, coordenador da Unidade Coronariana do Hospital Israelita Albert Einstein, os resultados do estudo americano reforçam a importância do controle da pressão para prevenir as doenças cardíacas e também neurológicas.

"A gente conhecia a relação da hipertensão com o risco de problemas na memória, mas não sabíamos quantificar. Esse é o primeiro grande estudo epidemiológico que demonstra exatamente o tamanho do risco em pacientes que não controlam a pressão", avalia.
Para Freitas, todo mundo deveria medir a pressão com frequência para poder detectar o problema o quanto antes. "Não adianta controlar só a pressão do idoso, pois os microinfartos acontecem ao longo da vida."

> Hipertensão cresce 18% em uma década nos EUA. (novembro de 2008)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

‘Dinheiro é o sangue da Igreja Universal do Reino de Deus’

do IHU On-Line

Bispo Clodomir, da Igreja Universal

Criada em 1977, numa funerária, a Igreja Universal do Reino de Deus cresceu e se desenvolveu com rapidez. De lá para cá foi construindo grandes templos e comprando canais de comunicação importantes. Hoje, sua ligação com a Rede Record é o alvo dos debates. Sua gestão é excelente, de molde quase empresarial, salientou o sociólogo Ricardo Mariano, em entrevista, por telefone, à IHU On-Line. O professor fez uma análise do crescimento da igreja pentecostal, explicou alguns rituais e falou sobre o conflito jurídico que ela enfrenta. “Todo o culto visa estabelecer uma relação de barganha entre os homens de Deus, na qual a Igreja Universal é a intermediária dessa transação. A Igreja sempre está oferecendo bênçãos e graças divinas aos fiéis que, para recebê-las, têm que comprovar sua fé mediante o seu engajamento na obra de evangelização”, destacou.
Ricardo Mariano é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, onde também realizou o mestrado e doutorado em Sociologia. Hoje, é professor na PUCRS. Entre suas obras citamos Neopentecostais: Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (São Paulo: Edições Loyola, 2005).

A entrevista.

IHU On-Line – Em sua opinião, como a Igreja Universal do Reino de Deus cresceu tanto nos últimos anos?

Ricardo Mariano – Por várias razões. A primeira delas é uma excelente gestão institucional, de molde quase empresarial. Outra razão é o emprego sistemático de oferta e prestação de serviços mágico-religiosos visando atrair as massas para a Igreja, através dos usos dos meios de comunicação. Para evangelizar, isso têm sido fundamental para o sucesso da Igreja Universal. Outra razão é que os pastores da Igreja Universal são pagos para trabalhar full time. Essa é uma vantagem competitiva da Igreja Universal em relação a outras denominações evangélicas, inclusive pentecostais, cujos pastores pastoreiam efetivamente a Igreja em alguns dias e horários específicos da semana durante ou cultos, ou seja, boa parte deles trabalha em profissões secundárias. Os da Universal não, eles são full time em relação às atividades do culto, de pregação, de evangelização, e também se envolvem na própria atividade de radio e tele-evangelismo, visitação a doentes e coisas do gênero. E o extremo pragmatismo também da liderança da Igreja Universal do Reino de Deus.

Todo o culto visa estabelecer uma relação de barganha entre os homens e Deus, na qual a Igreja Universal é a intermediária dessa transação. A Igreja sempre está oferecendo bênçãos e graças divinas aos fiéis que, para recebê-las, têm que comprovar sua fé mediante o seu engajamento na obra de evangelização. Isso geralmente se dá pela via do financiamento da evangelização nos meios de comunicação de massa, ou seja, o fiel da Igreja Universal só comprova efetivamente mediante a doação de dízimos e de ofertas, com amor, desprendimento e generosidade. Esse é um mecanismo fundamental para a Igreja Universal ser tão bem sucedida na arrecadação de recursos monetários que lhe permitem investir na aquisição de grandes terrenos, templos, de envio de missionários para o exterior, e também, sobretudo, a aquisição de novas emissoras de rádio e de TV pelo Brasil e outros países cuja legislação permite.


IHU On-Line – Quais são as peculiaridades a Igreja Universal do Reino de Deus que explicam esse crescimento?

Ricardo Mariano – Seria a junção de tudo que eu mencionei: a organização de tipo empresarial, o extremo pragmatismo, a oferta sistemática de serviços mágico-religiosos para a atração das massas, o uso intenso e extenso dos meios de comunicação para evangelizar a sua capacidade de atestar aquilo que os pastores pregam, por meio de uma verdadeira máquina de produção de testemunhos, que Deus retribui com bênçãos o pagamento de dízimos e a doação de ofertas generosas para a Igreja. Por exemplo, os cultos de libertação e de exorcismo espetaculares e dramáticos levados a cabo semanalmente pela Igreja Universal em todos os seus templos pelo planeta funcionam como atestado da existência dos poderes divino e demoníaco, que estão numa verdadeira guerra cósmica, Deus tentando salvar a humanidade e o diabo tentando levar para o caminho da perdição e causar todos os malefícios possíveis e imagináveis.

Então, o ritual de exorcismo no qual os pastores e bispos convocam os encostos e os demônios que estão se manifestando naquelas pessoas em transe demoníacos e perguntam a eles durante os cultos com que males aqueles demônios estão infligindo as suas vítimas. Então, eles humilham os “demônios”, arrastando os fieis pelos cabelos diante do púlpito, os faz ajoelhar.  Depois, convocam o próprio Cristo para libertar o fiel e demonstrar, portanto, seu poder superior sobre os demônios. São vários mecanismos de demonstração daquilo que é pregado pela Igreja Universal do Reino de Deus que procura, assim como as demais religiões pentecostais, resgatar o cristianismo primitivo, baseado na ideia de que aquilo que está na Bíblia referente ao Ministério de Reino de Cristo continua ocorrendo nos dias de hoje. É isso que eles procuram fazer. E essas são algumas das principais razões pelas quais a Igreja Universal cresce tanto. Tudo o que ela faz, faz com grande eficácia. Ela arrecada mais do que os outros, investe em empresas de rádio, TV, gravadoras e editoras que gravitam em torno da Igreja e cuja finalidade também é o crescimento da Igreja.

IHU On-Line – O que significa a Fogueira de Israel?

Ricardo Mariano – É uma campanha que a Igreja Universal faz sistematicamente, onde queima os pedidos de benção dos fieis. Então, eles levam esses pedidos para Israel e os queimam e oferecem as ofertas a Deus. Com isso, pleiteiam para os fieis as bênçãos que eles pediram. Ou seja, a Igreja funciona como uma intermediária. A partir dessa campanha que a igreja encampa, é como se Deus ficasse incumbido de obedecer a essas demandas desde que os fieis tenham sido zelosos cumpridores de parte da sua relação contratual com Deus. Deus é obrigado a conceder às bênçãos e os fieis são obrigados a fazer a sua parte, ou seja, obedecer a Deus, pagar dízimos e doar ofertas com amor, generosidade e desprendimento.

IHU On-Line – O que é a sessão do descarrego e porque o dinheiro faz parte da liturgia?

Ricardo Mariano – O dinheiro é o sangue da Igreja, segundo Edir Macedo. Ou seja, sem dinheiro nada é possível de ser feito, não se pode evangelizar, comprar templos, pagar os salários dos pastores. A questão é que os mecanismos, estratégias e práticas de arrecadação da Igreja Universal são muito polêmicos, inclusive nos próprios meios evangélicos. Além disso, todo culto da Igreja Universal parece ter como principal finalidade a arrecadação. Todo culto tem uma estrutura única, o pastor geralmente prega fazendo referência a um personagem bíblico que estabeleceu uma relação de troca com Deus. O descarrego é o famoso ritual de libertação. São exorcismos coletivos realizados no culto geralmente de sexta-feira em que se faz a libertação de demônios. Essa é uma das principais obras da Igreja e dos cristãos, segundo Edir Macedo. Os fieis, por sua vez, entram nessa relação de troca com Deus, intermediada pela Igreja, visando bênçãos ou retribuição divina. Essa é a lógica desses cultos e da pregação da Igreja.

IHU On-Line – Como o senhor vê esse debate que se criou em torno da relação da Universal com a Record e outras grandes empresas brasileiras?

Ricardo Mariano – Isso não vem de agora. A Igreja Universal já protagonizou vários escândalos. Nos anos 1980, esteve nas manchetes dos jornais por conta da sua discriminação aos cultos afro-brasileiros, o que perdurou nas décadas seguintes. No finalzinho de 1989, quando começa a negociar a compra da Rede Record, emerge o escândalo relativo a essa compra. A questão era: como uma igreja nascida em 1977, numa funerária, de repente, havia juntado 45 milhões de dólares para comprar uma tradicional rede de TV no país. Já naquele momento começa a criar uma forte tensão entre emissoras de TV seculares e a Record, que estava sendo comprada pela Igreja Universal. Além da disputa de mercado e de audiência, um dos motivos básicos desse conflito é o fato de que as demais emissoras de TV, para realizar seus investimentos e suas expansões, precisaram recorrer aos bancos pagando juros altos.

Enquanto isso, as igrejas que investem na mídia eletrônica, seja comprando emissoras de rádio ou TV, o fazem com recursos arrecadados dos fieis. O problema é que esses recursos só podem ser canalizados, do ponto de vista legal, para atividades religiosas ou assistenciais, por isso as igrejas têm imunidade tributária. Ou seja, o investimento desses recursos em empresas lucrativas é terminantemente proibida pela legislação brasileira. Então, já nos anos 1990, a Igreja Universal recebeu uma multa multimilionária da Receita Federal, de mais de 90 milhões de reais, e isso está se repetindo agora. O Ministério Público de São Paulo levou adiante uma nova denúncia a respeito desse fato. Está chamando, inclusive, nove integrantes da cúpula da Igreja Universal de quadrilha criminosa, mas o que está lastrando a denúncia é a alegação de que essas empresas com fins lucrativos estão sendo compradas por desvio de recursos de dízimos e ofertas da Igreja. O problema é que isso se torna uma concorrência injusta. Eis o grande drama. A Globo, no caso, não está só reclamando disso, também tem feito entrada na própria disputa religiosa ao favorecer claramente a Igreja Católica, isso ficou visível na visita do Papa Bento XVI em maio de 2006. A cobertura que a Globo fez só reforçava o catolicismo o tempo todo. Em nenhum momento houve uma perspectiva jornalística.

IHU On-Line – Como o senhor acha que a Igreja e as empresas saíram desse processo que corre na justiça, em relação a forma com que os dízimos possam estar sendo utilizados?

Ricardo Mariano – Acho que é imprevisível o que pode acontecer. Faz dez anos que a Receita Federal multou a Igreja Universal, e isso está parado na Justiça desde então. A Igreja Universal dispõe de bons advogados, paga-os a preço de ouro, dispõe de poder político, é aliada do governo Lula também. Ela tem poder religioso, tem poder midiático, tem poder político-partidário. Tudo isso não se pode deixar de lado quando se pensa no que vai ocorrer com a Igreja.

> Negócios de Edir Macedo na mira da Justiça.