quinta-feira, 7 de maio de 2009

Música é usada para acelerar recuperação de cardíacos

por Julliane Silveira, da Folha de S.Paulo

A pianista Beth Ripoli, 57, tocava uma música quando viu seu marido se aproximar. A composição era romântica, ambos choraram, o público se emocionou com a cena. Ele, o empresário Luiz Carlos Franco, 56, andava com dificuldade e arrastava o frasco de soro -estava internado havia alguns dias, recuperando-se de um infarto e da implantação de quatro pontes de safena. Ela tinha resolvido tocar o piano do hospital enquanto acompanhava o marido no pós-operatório.

"Eu precisava andar e vi que ela estava tocando, e a música me chamou a atenção. Imagina ter seu tronco aberto, pararem seu coração para operá-lo e depois ele voltar a bater. Fica-se em um estado muito sensível, alguns pacientes entram em depressão. E a música exercita sua sensibilidade do lado positivo", avalia Luiz.

musica-coração Desde então, Beth apresenta recitais no HCor (Hospital do Coração), em São Paulo, para pacientes e acompanhantes, como parte de um projeto que considera a música um dos componentes que ajudam na recuperação de pacientes com problemas cardiovasculares, principalmente em questões emocionais.

Silvia Cury Ismael, responsável pelo serviço de psicologia do HCor, observa em seus pacientes que ouvir música durante uma internação ajuda a resgatar questões esquecidas do lado de fora do hospital, o que faz com que se sintam mais motivados a se recuperar. O ambiente, afirma Ismael, se torna mais leve e menos depressivo.
Para a ciência, no entanto, a música vai além: os benefícios não são somente emocionais mas também se refletem na redução da pressão arterial e da frequência respiratória e na normalização das taxas de batimentos cardíacos.

É o que mostram alguns estudos, como a revisão científica divulgada no mês passado pela Cochrane Collaboration (rede global dedicada a revisão e análise de pesquisas na área da saúde). Foram avaliados 23 estudos com dados de 1.461 pacientes que se submeteram a sessões de música durante a internação após cirurgia ou infarto.

A maioria dos trabalhos comprovou que a música ajudou a reduzir pressão sanguínea, ritmo cardíaco, frequência respiratória, ansiedade e dor nos pacientes estudados.
Os trabalhos avaliaram a ação de diversas músicas -boa parte com harmonias consonantes e ritmos constantes (como algumas músicas eruditas, baladas e músicas próprias para relaxamento)- em sessões de musicoterapia ou audições de até 30 minutos.

"Os estudos não apontaram por quais mecanismos a música ajuda o sistema cardiovascular. No entanto, sabemos que a música diminui a atividade de regiões cerebrais que afetam as respostas emocionais e psicológicas. Isso reduz a liberação de hormônios estressores que podem afetar a frequência cardíaca e a pressão arterial", disse à Folha Joke Bradt, responsável pela revisão científica e diretor-assistente do Centro de Pesquisa em Artes e Qualidade de Vida da Temple University (EUA).

Dados preliminares de um estudo que será publicado nos "Arquivos Brasileiros de Cardiologia" também são promissores. A musicoterapeuta Cláudia Regina de Oliveira Zanini, professora da Universidade Federal de Goiás, avaliou o uso da técnica em pacientes hipertensos para sua tese de doutorado.

Zanini observou 46 pacientes da liga de hipertensão da universidade durante três meses. Metade deles participou de sessões de audição musical, composição e improvisação vocal, além de exercícios de respiração e relaxamento voltados para a música durante 30 minutos por semana. Ao final do período, a pressão arterial desse grupo havia caído de 150 mmHg por 90 mmHg para 133 mmHg por 80 mmHg. Já o grupo controle não apresentou redução significativa.

"O tratamento da hipertensão é de longo prazo, e muitos pacientes não aderem a ele. Entre os que têm pressão alta, somente 50% sabem disso e só 10% têm sucesso porque seguem o tratamento. Eu proponho a musicoterapia como um tratamento não medicamentoso, que seja um coadjuvante", afirma Zanini.

Para a cardiologista pediátrica Thamine Hatem, do Real Hospital Português de Beneficência, em Recife, o uso da música ajuda na recuperação mais rápida dos pacientes, pois as reações provocadas no organismo pela música podem diminuir o uso de sedativos e remédios para a dor.

"Quanto menor o uso de analgésicos e de sedativos, melhor. Quanto menos tempo a criança passa na UTI, menor é o risco de infecção", diz.

Hatem publicou, em 2006, uma pesquisa que avaliou como reagiram 84 crianças de até 14 anos nas primeiras 24 horas após uma cirurgia cardíaca, depois de uma sessão de música erudita. "Dava para ver que, se a criança estava angustiada e chorosa, acalmava-se ao colocar o fone de ouvido; muitas crianças dormiam durante o processo."

As crianças ouviram "A Primavera", de Vivaldi, por meia hora e tiveram melhora no ritmo de batimentos cardíacos, na frequência respiratória e na sensação de dor. "Uma frequência cardíaca muito alta aumenta a pressão e o risco de sangramento. Já a frequência respiratória elevada significa desconforto ou problema pulmonar -se é controlada, mostra que era causada mais por um desconforto", explica.

A aposentada Eunice da Silva Ferreira, 52, também sentiu os benefícios do uso da música após a cirurgia para colocar duas pontes mamárias no INC (Instituto Nacional de Cardiologia), no Rio de Janeiro.

Foram instaladas caixas de som ao lado dos leitos, que transmitem música erudita, sons da natureza e canções próprias para relaxamento durante todo o dia, das 8h às 22h.

"O ambiente hospitalar é frio, há pessoas sedadas. Eu tenho uma doença sem cura, e a música me ajudava a me desligar um pouco da realidade. O uso da música deu tão certo que nós pedíamos aos funcionários que colocassem sempre", diz Eunice, que acompanhou a implantação das caixas de som na UTI do instituto.

De acordo com o INC, um ano após a instalação de caixas de som na UTI, houve uma redução de 40% no consumo de tranquilizantes e sedativos.
Os pacientes podem até pedir aos funcionários que desliguem o som, mas, dizem os médicos, ninguém nunca o fez.

"A UTI tem muito barulho, luz acessa, aparelhos. O paciente está ansioso com o que vai acontecer e isso gera um estresse grande. As diretrizes [orientações das sociedades médicas] indicam ansiolíticos aos pacientes; muitos não conseguem dormir à noite, a ansiedade aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial", diz o cardiologista Marco Antonio de Mattos, diretor do INC.

Na maioria dos estudos, as músicas utilizadas têm ritmos constantes, harmonias consonantes e são mais calmas, características que ajudam o paciente a relaxar.
"Não é qualquer música clássica que produz relaxamento. É preciso pensar em músicas mais calmas, com menor número de batimentos por minutos e que sejam bem harmônicas e agradáveis", aconselha o neurocientista Felipe Viegas Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Neurociência e Comportamento da USP.

No entanto, fatores culturais e o gosto pessoal também devem ser levados em consideração na hora de utilizar a música como componente na recuperação do paciente.

"É preciso curtir a música, usufruir dela e de seus efeitos benéficos", sugere o neurologista Mauro Muszkat, coordenador do In Music, grupo multidisciplinar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) que estuda a ação da música no organismo.

Não é possível, no entanto, determinar por quanto tempo o paciente deve ouvir música e quais seriam os tipos mais indicados. Muszkat resume: "Não dá para dizer o tempo adequado para cada indivíduo. De maneira didática, ouvir mais músicas, com graus diferentes de complexidade, um repertório variado, facilita ao organismo processar esses sons de formas mais variadas e mais amplas, inclusive com benefícios no sistema cardiovascular."

> Maior parte dos infartados possui colesterol normal. (janeiro de 2009)

'Tudo o que está no mundo passa pelo corpo'

por Alina Mazzaferro, do jornal Página/ 12

Desde a sua chegada, David Le Breton causou uma pequena grande comoção dentro do mundinho acadêmico portenho. Uma centena de pessoas o seguem, há duas semanas, em seu itinerário de conferências programadas em diferentes pontos da cidade de Buenos Aires. Porque o sociólogo e antropólogo francês veio para apresentar um seminário intensivo de doutorado na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e, enquanto isso, aproveitou para apresentar seu livro "El sabor del mundo. Una antropología de los sentidos" na Feira do Livro, palestrar na Manzana de las Luces e participar do colóquio internacional dedicado à obra de Roger Caillois que a Aliança Francesa e a Embaixada da França na Argentina organizaram recentemente.

mulher-tatto O interesse que sua obra suscitou – pelo menos a que foi traduzida e publicada na Argentina, composta de sete livros de uma extensa produção que inclui mais de 20 – revela o crescente atrativo de um campo de estudo que há duas décadas tinha poucos adeptos: a sociologia do corpo. Porque Le Breton, sociólogo e psicólogo de formação, se dedica há mais de 15 anos ao estudo da corporalidade humana, à qual entende não como mera biologia, mas, pelo contrário, como "fenômeno social e cultural, matéria simbólica, objeto de representações e de imaginários".

Para ele, não há nada natural no corpo: os gestos e as posturas corporais, o modo em que cada um vê, ouve e percebe o mundo que o rodeia, as maneiras pelas quais sofre e aproveita, as formas de se relacionar e de se comunicar com os outros, até as emoções e todo o conjunto das expressões corporais são modelados pelo contexto social e cultural em que cada ator se encontra submergido.

Assim, Le Breton se encarregou de estudar as diferentes concepções do corpo da sociedade tradicional e moderna, segundo múltiplos pontos de vista: desde os ritos de interação em diferentes sociedades e épocas, até os jogos da sedução e os modos diferenciais em que o homem e a mulher expressam seus sentimentos; desde as práticas do piercing e da tatuagem, até a arte contemporânea que envolve o corpo como material estético; desde o corpo do deficiente, até os homogêneos corpos cinematográficos e televisivos; desde a bulimia e a anorexia, até todo o conjunto de preocupações atuais com a beleza, a saúde e a aparência.

Todo um campo de estudo se abre diante de seus olhos a partir da consideração do corpo como matéria simbólica no lugar de pura biologia. "Antropología del cuerpo y Modernidad" (Nueva Visión, 1995), o primeiro de seus livros publicado na Argentina e o mais conhecido no país, é para o autor uma espécie de "caixa de ferramentas" que lhe permitiu desenvolver o resto da sua obra. Ali, apresenta em cada capítulo as temáticas que abordará depois em profundidade nos livros posteriores: o estudo dos sentidos é desenvolvido em "El sabor del mundo..." (Nueva Visión, 2007); "As Paixões ordinárias. Antropologia das emoções" (Vozes, 2009) se ocupa das emoções; a dor e o sofrimento é objeto de análise em "Antropología del dolor" (Seix Barral, 1998); a invenção moderna do corpo enquanto objeto separado do ser que o carrega e a história da anatomia são trabalhados em "La chair au vif" (Em carne viva, em tradução livre); o tema do rosto e da máscara é estudado em "Des visages. Essai d’antropologie" (Os rostos. Ensaio de antropologia); enquanto os corpos de um mundo voltado cada vez mais sobre a tecnologia são analisados em "Adeus ao corpo. Antropologia e sociedade" (Papirus, 2003).

Além disso, Le Breton publicou uma breve e esquemática mas útil genealogia das teorias que se ocupam do corpo – "A sociologia do corpo" (Vozes, 2008) – em que percorre todas as correntes sociológicas, filosóficas e antropológicas que, histórica, implícita ou explicitamente, abordaram as lógicas sociais e culturais do corpo, os imaginários em torno dele, o controle político da corporalidade (trabalhado especialmente por Michel Foucault) ou os vínculos entre o corpo e as classes sociais (tarefa encarada principalmente pela sociologia de Pierre Bourdieu a partir da sua noção de habitus).

O que é certo é que a abordagem de Le Breton está nos antípodas da obra de Foucault, Bourdieu ou de autores pós-marxistas, que encararam o estudo do corpo a partir de sua situação de classe. Le Breton desconfia da microfísica do poder, que suporia um controle invisível e disseminado em todos os âmbitos do social das ações corporais. Também não crê na existência de um habitus de classe (essas disposições que, com o tempo, vamos adquirindo a partir da experiência).

Para uma boa parte da intelectualidade argentina, essas suspeitas e descartes podem ser incômodos, levando-se em consideração a atração que esses autores ainda têm aqui. Mas Le Breton vem de outro ambiente acadêmico. Nessas duas semanas em Buenos Aires, conquistou um público e incomodou outro para o qual a experiência humana só tem sentido em termos de classe. Le Breton disse inscrever-se em uma corrente de pensamento muito diferente, de tradição norte-americana: o interacionismo simbólico, representado pelo sociólogo Erving Goffman, considerado o pai da microsociologia. Porque interessa a Le Breton estudar indivíduos e não classes fechadas e homogêneas, e essa teoria lhe permite dar conta da heterogeneidade do mundo social contemporâneo. Assim ele se expressou em uma extensa e profunda conversa com Página/12.

Como o senhor começou a se preocupar pelo corpo?

Escrevi sobre o corpo porque eu era um jovem que se sentia mal em sua própria pele. Estava começando a realizar a minha tese doutoral sobre a constituição social e cultural do corpo, quando decidi partir para o Brasil, com a vontade de me perder, de desaparecer. Estive ali durante meses, viajando a pé e em barco, atravessando todo o país, inclusive o Amazonas, até que finalmente decidi voltar para a França para terminar minha tese de sociologia. Foi nessa época que comecei a escrever sobre as condutas de risco dos jovens e também sobre o corpo.

Nesse momento, a sociologia não prestava atenção ao corpo?

O corpo havia sido objeto de análise de Michel Foucault, mas de um ponto de vista mais histórico. O etnólogo François Loux já havia trabalhado sobre o corpo na sociedade popular francesa, mas em geral a pesquisa sobre o corpo não era valorizada nessa época. Para muitos de meus colegas, o corpo não era mais do que uma forma biológica sobre a qual não havia nada para se dizer. Obviamente, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, havia um certo número de sociólogos e antropólogos que já trabalhavam esse tema, mas eram os inícios. Eu tentei aplicar os critérios de análise da antropologia cultural à questão do corpo.

Como se aborda uma antropologia do corpo?

Tenta-se interrogar-se. Dou um exemplo: a questão das cores. Poderíamos pensar que, para vê-las, só seria preciso usar os olhos. Mas, na realidade, uma criança vai aprendendo a reconhecê-las progressivamente. Primeiro aprende a reconhecer o rosto de sua mãe, de seu pai, dos objetos que lhe são próximos, depois o jardim e a rua e o mundo que o rodeia. Se seu pai o estimular a reconhecer as formas das aves, ele o fará. O que significa que nosso olhar está orientado, do mesmo modo que o nosso ouvido e o nosso paladar.

Então, não há nada natural, tudo é construído culturalmente...

Exato. Tudo é construído culturalmente por meio da interação de uma criança com seus pais. Uma criança que sempre come o mesmo prato de arroz terá pouco sentido do paladar. Em troca, se uma criança aprende a preparar e a temperar pratos ao lado de sua mãe, será uma grande cozinheira, com um grande sentido do sabor.

Essa é a tese do livro que o senhor veio apresentar na Feira do Livro?

Em "El sabor del mundo...", dediquei-me a compreender como vivemos no mundo, porque tudo o que está nele passa pelo corpo: devemos escutar o mundo, tocá-lo, cheirá-lo, senti-lo. Não há mundo mais do que através do corpo. Aproximamo-nos do mundo por meio da mediação dos sentidos. E não só dos cinco sentidos que conhecemos, que são os que herdamos da tradição grega, mas também de outros sentidos. Porque há outras sociedades humanas com outras percepções sensoriais.

Acontece algo semelhantes com as emoções?

Em "As paixões ordinárias...", tento demonstrar que todas as emoções provêm da cultura. Quer dizer que há uma cultura afetiva dentro da qual crescemos e dentro da qual vamos nos situar, com nossos modos pessoais de ser, obviamente, porque não somos clones nem robôs. Sempre há uma variável pessoal no emocional, mas, quando passamos de uma cultura a outra, vemos claramente como a cultura afetiva muda, a maneira em que os sujeitos sentem e demonstram as emoções varia. Há sociedades em que os sujeitos permanecem estóicos diante da dor, porque a ritualização da dor implica em guardar o sofrimento para si. E há outras em que as pessoas choram, gemem, gritam diante da dor.

E por que o "Adeus ao corpo"?

Não sou eu que digo adeus ao corpo! Nesse livro, tento analisar o imaginário do corpo no mundo de hoje, que considera que o corpo é insuficiente, imperfeito, que nos faz perder tempo, sobre ele recai a morte e a enfermidade. Então, crê-se que se pudéssemos nos desfazer dele seria melhor. Crê-se que a tecnologia poderá nos libertar da morte, nos dará uma juventude eterna, uma crença que substitui hoje a que propunha a existência de um Deus e de uma eternidade no paraíso. Tento compreender o porquê dessa exigência de transformar o corpo no mundo contemporâneo, por que sempre é preciso fazer regime e esportes, por que não temos mais direito de ser nós mesmos e de estar com gosto em nossa pele.

Quais são os problemas que essa crença a favor da tecnologia nos trará no futuro?

Vejo uma grande iniquidade entre as sociedades mais ricas e as mais pobres. A tecnologia do ciborg e a robotização se desenvolverá entre os mais ricos. Dentro de vários anos, assistiremos a essa fusão entre a tecnologia e a carne, o desenvolvimento da clonagem, um mundo em que escolheremos o nosso filho em uma revista. Um mundo profundamente injusto, porque as tecnologias serão para os ricos e contribuirão com a iniquidade. (tradução de Moisés Sbardelotto)

04-05-2009

> "O ser humano deseja ser máquina; já somos híbridos" (junho de 2008)

domingo, 3 de maio de 2009

Médica prepara doente para a morte

por Luiz Fernando Vianna, da Folha

Todo dia a morte leva de um a três pacientes da médica Lucia Cerqueira Gomes. O que seria arrasador para a maioria de seus colegas é rotina para ela. Lucia, 39, trabalha no Inca 4, a unidade do Instituto Nacional de Câncer, no Rio, voltada para pacientes terminais.

Responsável pela enfermaria do quinto andar e coordenadora da equipe de visitas domiciliares, ela administra os chamados cuidados paliativos. São remédios e procedimentos que procuram poupar da dor quem não pode mais passar por tratamentos invasivos como cirurgias e quimioterapias.

E não só as dores físicas são inimigas. Numa visita acompanhada pela Folha, a médica se esforçava para que uma professora de 67 anos, com metástase de um tumor nos rins, buscasse ânimo para realizar coisas ainda possíveis, nem que fosse uma pequena peça de crochê.

Deu-lhe as mãos, conversou, buscou que, do choro da mulher, surgisse alguma "elaboração", como se diz no jargão dos cuidados paliativos. Ou seja, que ela expressasse parte do que estava sentindo, para não ficar tomada pela angústia. O resultado, naquele dia, não foi completamente satisfatório.

"O medo [no seu trabalho] é não ter tempo. Quando um paciente morre, nós pensamos: "Será que deixamos de fazer alguma coisa? Será que ele conseguiu passar com tranquilidade?'", conta ela, especialista em clínica-geral há 17 anos.

Palavra que diz com frequência ao explicar o que almeja para seus pacientes, tranquilidade parece ser uma marca sua. Ela fala baixo, dá respostas curtas, evita frases emocionadas.

Ao contrário de médicos com outras funções, ela não vê a sua como salvacionista. Quer ajudar as pessoas a "fechar" bem. Por "fechar" entenda-se resolver as pendências possíveis (práticas e emocionais) para conquistar alívio.

Há casos tão bem sucedidos que, paradoxalmente, deixam Lucia angustiada. Um engenheiro, por exemplo, conseguiu viajar com a mulher, casar a filha e dizer para a médica: "Fique tranquila, eu estou bem".

"Mas não há mais nada que eu possa fazer por você?", perguntou ela.
"Não, eu estou bem", repetiu ele. E morreu dias depois. "Houve tempo para criar vínculos", explica Lucia.

Situação diferente ela enfrentou com uma senhora que sentia dores. Suas filhas pediam que fossem dadas doses menores de morfina, para que ela talvez reagisse.
"Foi um tratamento confuso desde o início. E não houve tempo para criar confiança. Acho que ela sofreu", conta a médica, que encontrou as duas filhas da paciente horas depois de a morte acontecer. "A gente tentou brigar até o último momento. Desculpe qualquer coisa", justificaram elas.

Instituição federal, o Inca 4 atende pacientes de várias classes sociais. É comum a equipe -formada por médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais- lidar com famílias desestruturadas, com um histórico de violência, nas quais "fechar" bem se torna difícil.


"Se o caminho é truculento ao longo de toda a vida, vai ser truculento no final", resume Lucia, lembrando que problemas graves existem também em pacientes ricos. "Há pessoas que vivem num luxo intenso, mas por dentro têm uma miséria muito grande."


Lucia diz receber entre 90 e cem pacientes por mês. E perder a mesma quantidade. Num dia em que a reportagem da Folha esteve pela manhã no hospital, em Vila Isabel (zona norte), acabara de morrer uma pessoa. Em outro, um corpo passou ao lado numa maca.

"Não é "lava, troca e põe outro". São histórias, vidas, sentimentos, interesses. Mas, se chorar a cada morte, esqueço o foco, que é a vida", afirma.

Se a morte fosse encarada por ela como algo trágico, e não um desdobramento natural da vida, como seria chegar toda noite em casa e encarar seus filhos, uma menina de seis anos e um menino de quatro? Daí a importância de ressaltar o lado positivo de conviver tanto com a proximidade da morte.

"Os pacientes ensinam como viver bem com muito pouco, como não perder tempo com coisas pequenas", diz.

As crianças ainda não sabem detalhes de seu trabalho. A filha pensava até havia pouco que ela era "médica de perna", pois fazia curativo nos seus joelhos e canelas ralados.

Lucia afirma que nunca sentiu vontade de trabalhar com crianças. "Eu ia sofrer até dizer "chega!". Se uma criança chorasse, eu a botaria no colo", diz.

> ‘Por que tenho o direito de escolher a minha morte’. (fevereiro de 2009)