terça-feira, 7 de abril de 2009

Plataforma de gelo 8 vezes maior que a cidade de SP se descola da Antártida

Antartida

Da Folha de S.Paulo

Foi a crônica de uma morte anunciada. Um satélite europeu flagrou no fim de semana o rompimento da ponte de gelo que prendia uma plataforma de gelo no oeste da Antártida. Agora é uma questão de tempo até que essa estrutura, a plataforma Wilkins, oito vezes maior que a cidade de São Paulo, termine de se esfacelar. Cortesia do aquecimento global.

O colapso vinha sendo monitorado em tempo real pelo satélite Envisat, da Agência Espacial Europeia, nas últimas semanas. A ponte de gelo, de 40 km de extensão por até 2,5 km de largura, se esfacelou entre sábado e domingo. "Do dia para a noite a região explodiu com icebergs", disse o glaciologista David Vaughan, do Serviço Antártico britânico, à rede BBC.

Vaughan e seus colegas acreditavam que esse língua de gelo, que ligava a plataforma à ilha Charcot, fosse a única coisa impedindo a Wilkins de colapsar. No ano passado, os britânicos descobriram que a plataforma já havia perdido cerca de 15% de seus 16.000 km2 de extensão original. No final dos anos 1990, Vaughan estimara que a estrutura glacial fosse levar 30 anos para desaparecer.

A plataforma vinha se mantendo estável pelo menos desde os anos 1930 e, possivelmente, ao longo dos últimos 1.500 anos. Sua quebra é apenas o drama mais recente provocado pela elevação das temperaturas da península Antártica, região que tem vivido um aquecimento sem precedentes nos últimos 50 anos -de até 3C, contra 0,7C da média global em todo o século 20.

A Wilkins se junta agora às outras cinco plataformas de gelo extintas na península nesse período. A mais famosa delas, a Larsen-B, foi também a primeira a ter seu esfacelamento acompanhado por satélites, em tempo real, em 2002.

"A próxima a ir é a Larsen-C, daqui a alguns anos", disse à Folha o glaciologista Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O colapso dessas plataformas -bancos de gelo flutuantes presos ao continente- não tem impacto imediato sobre o nível do mar. No entanto, essas estruturas servem de "barragem" ao escoamento de geleiras continentais, cujo escorregão pode, este sim, elevar o oceano.

A tragédia com a Wilkins aconteceu exatamente na véspera da conferência que marca os 50 anos do Tratado da Antártida. Abrindo o evento ontem, em Washington, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, afirmou que o colapso é um lembrete "de que o aquecimento global já teve efeitos enormes no nosso planeta e que não temos tempo a perder para atacar essa crise".

Mas em Bonn, Alemanha, onde um encontro das Nações Unidas deveria começar a resolver essa crise, a diplomacia americana agiu no sentido oposto, com cautela em vez de pressa.

Gelo fino cobre 90% do Ártico, afirma estudo

Da Associated Press

A chegada da primavera no Ártico não é um bom presságio para o gelo marinho. Um estudo divulgado ontem nos EUA mostra que mais de 90% da região está coberta por uma camada de gelo jovem e, portanto, fina e frágil.

Ao contrário de anos anteriores, quando a taxa estava ao redor de 30%, apenas 10% do gelo da região tem hoje mais que dois anos de vida, disseram cientistas da Nasa (agência espacial americana) e do NSIDC (Centro Nacional de Informações sobre Gelo e Neve), no Colorado.

A pouca idade significa também pouca espessura. Jovem e frágil, o gelo do Ártico poderá derreter com muito mais facilidade quando o verão chegar.

Sem o gelo marinho, o oceano passa a absorver mais energia vinda do Sol. Mais radiação solar no planeta, especulam os climatologistas, pode causar um aquecimento global descontrolado.

Em março, havia no mar do Ártico 15,2 milhões de quilômetros quadrados de gelo, mostra a pesquisa americana. Essa cifra está 730 mil quilômetros quadrados acima do mínimo histórico registrado em março (2006), mas 590 mil quilômetros quadrados abaixo da média registrada entre 1979 e 2000.

> Oceano Ártico está bombeando mais calor na atmosfera. (janeiro de 2009)

> Aquecimento global e o desequilíbrio da ecologia.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

13% dos brasileiros são obesos, diz Ministério da Saúde

 

obesidade

Da Folha

Embora o sedentarismo no Brasil tenha diminuído entre 2006 e 2008, a proporção de obesos no país continua crescendo. Essa é uma das principais conclusões de pesquisa do Ministério da Saúde feita por telefone em 27 capitais.

Para chegar aos resultados, foi calculado o IMC (Índice de Massa Corporal) dos entrevistados, que é o resultado da divisão do peso pela altura elevada ao quadrado. Considera-se que quem tem um índice maior do que 25 tem excesso de peso, e quem está acima de 30 é obeso.

O levantamento constatou que 43,3% dos moradores das capitais têm excesso de peso.
Dentro desse percentual, estão os 13% de obesos, que, três anos antes, representavam 11,4% da população. Porto Alegre é a capital brasileira com mais pessoas nessa situação.
A pesquisa do ministério ouviu 54 mil pessoas. Foram feitos cálculos para que não fossem distorcidas as estimativas em capitais com baixa cobertura de telefonia fixa, mas a pasta não descarta que parte dos habitantes dessas cidades possa estar excluída das estatísticas.

A alta da obesidade é creditada a uma mudança nos hábitos alimentares dos brasileiros, que cada vez mais comem fora de casa. Mesmo que seja preocupante, o índice ainda está em patamar inferior ao de outros países. Nos EUA, onde também é feita uma pesquisa por telefone, foi constatado praticamente o dobro do índice de obesos.

Um dado considerado alentador pelo Ministério da Saúde foi uma redução do sedentarismo e o aumento do consumo de frutas e hortaliças. De modo geral, constatou-se que as mulheres se alimentam melhor.

Por outro lado, aumentou outro fator relacionado a doenças e mortes violentas: o consumo abusivo de álcool. Em 2006, o problema alcançava 16,1% da população e hoje chega a 19%.

O ritmo de crescimento é mais rápido entre as mulheres: entre elas, a proporção cresceu 30% nos três anos; entre os homens, 18%. Outra singularidade em relação ao consumo de álcool pelas mulheres é que ele é mais presente entre as que têm maior escolaridade, o que não ocorre entre os homens.

Considerou-se abusivo o consumo em uma única ocasião no mês de mais de quatro doses de bebida alcoólica, para as mulheres, ou mais de cinco no caso dos homens.
Em relação ao tabagismo, a pesquisa mostra queda no número de fumantes, de 16,2% da população das capitais em 2006 para 15,2% em 2008.

Em 1989, uma pesquisa nacional apontava que 34,8% dos brasileiros fumavam. Entre as capitais, São Paulo é a que tem a maior proporção de fumantes.

Sedentarismo é fenômeno típico de grandes metrópoles

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou ontem que o baixo percentual de praticantes de atividade física em São Paulo e no Rio de Janeiro, verificado em pesquisa realizada pelo ministério, é típico de grandes metrópoles, onde predominam novos hábitos de alimentação e de consumo.

No ano passado, apenas 12,1% dos moradores de São Paulo faziam exercícios regularmente. No Rio, o percentual era de 15,9%. A média do país foi de 16,4%. Em comparação aos resultados verificados em anos anteriores, a pesquisa mostrou, em âmbito nacional, uma queda do sedentarismo.

"As grandes metrópoles têm esse problema: a introdução de novos hábitos, a questão da internet, da TV, a mudança do padrão de alimentação, o consumo de produtos semi-industrializados, em que você só precisa colocar no micro-ondas e apertar um botão... Tudo isso leva a um padrão de alimentação e sedentarismo muito danoso. Durante décadas você vai construindo esse padrão e depois vem a hipertensão, o diabetes, o infarto, com graves danos para você, sua família e o sistema de saúde porque isso é custo para o sistema", afirmou.

Temporão esteve ontem no Rio para o lançamento de uma campanha de estímulo à prática de atividade física e ao combate ao sedentarismo. Caminhadas foram realizadas em diversas cidades do país.

O Ministério investe hoje R$ 25 milhões anuais repassados para 450 municípios para medidas de apoio à prática de exercícios. O governo quer aumentar o valor para uma cifra em torno de R$ 60 milhões até 2011 e alcançar um total de mil municípios.

Temporão afirmou que o país poderia evitar 260 mil mortes por ano caso a população adotasse hábitos mais saudáveis, como alimentação balanceada e prática regular de exercícios. O Ministério da Saúde considera como padrão a prática de atividades leves por 30 minutos cinco vezes por semana ou de atividades vigorosas por pelo menos 20 minutos em três dias da semana.

"Uma simples caminhada é uma atividade importante, correr atrás do neto, fazer sexo é uma atividade boa para a saúde, sempre com proteção", afirmou Temporão.

> Idec confirma que fast-food causa dano à saúde da criança. (agosto de 2008)

domingo, 5 de abril de 2009

‘Não conheço ninguém que tenha matado em nome do ateísmo’

por Emília Caetano, do site português Visão

Michel Onfray é um dos mais lidos filósofos franceses da atualidade, sobretudo desde que, em 2005, lançou o Tratado de Ateologia.

Criou em Caen e também em Argentan, onde nasceu, há 50 anos, “universidades populares” gratuitas. As suas aulas sobre uma contra-história da Filosofia ou “a filosofia esquecida” têm grande audiência.

A entrevista

Visão: O que o levou a escrever um Tratado de Ateologia?

Tratado_Ateologia Onfray: O ateísmo foi, durante muito tempo, uma espécie de evidência. Toda a gente era ateia. Até o Antigo Testamento e o Corão criarem normas a que era preciso obedecer, havia uma espécie de ateísmo partilhado por todos. E o filósofo Gilles Deleuze lançou o conceito de um ateísmo tranquilo. Ora, a queda das ideologias fez com que muita gente se reencontrasse no religioso. E entre o cristianismo de Bush ou o islão de Bin Laden eu não quero nenhum. Não entro na lógica dessa dicotomia que nos propõem: ou um ou o outro. Mas, assim como houve um crescendo religioso, também se registrou um aumento do antídoto, o ateísmo.

Visão: No seu caso, define-se como ateu militante

Onfray: As pessoas diziam-me que há mais saídas, como o agnosticismo. Mas eu respondia: ‘Não, sou ateu.’ E comecei a apresentar propostas filosóficas ateias. Deus não existe. Escrevi o meu livro e pude constatar que foi muito bem recebido mesmo fora de França, como em Espanha, Itália ou Austrália. Creio que está a verificar-se o regresso do ateísmo um pouco por toda a parte.

Visão: Muita gente acha que um mundo sem Deus seria inimaginável, mesmo para quem não acredita nele.

Onfray: Ao contrário, em nome de Deus é que se tem massacrado, destruído. Em nome de Deus fizeram-se as cruzadas, numerosas guerras ou a Inquisição. Em nome de Alá, muitas pessoas atam explosivos ao corpo, para matar 20 ou 30 pessoas, às vezes crianças. Que eu saiba, o ateísmo nunca fez isso. Não conheço ninguém que tenha matado em nome do ateísmo. Há qualquer coisa que não é sã nessa relação do mundo com Deus. Ora, se Deus não existe, como acredito, não é preciso uma moral fundada em termos de eternidade, não é preciso fabricar ilusões para que as pessoas possam viver juntas.

Visão: O que lhe desagrada no que chama os “três grandes monoteísmos”?

Onfray: O ódio às mulheres, aos homossexuais, à inteligência e à razão, aos prazeres do corpo, aos desejos, às pulsões. Querem que o corpo seja espartilhado, impedido. Criaram interditos, seja alimentares seja sexuais. Foram de um anti-hedonismo primário. É preciso viver na lei, na dor, no sofrimento, na recusa.

Visão: Mas por que diz que só um ateu é um homem livre?

Onfray: Quando se vive sob o olhar de Deus, não se é livre. Quando se age em função de ser salvo ou condenado, de ficar eternamente no Paraíso ou no Inferno, vive-se na inquietação. Tudo o que acontece é por vontade ou por decisão de Deus. O ateu não age a pensar na vida depois da morte. Só quando Deus não existe é que o Homem é livre.

Visão: Além de ateu, declara-se um filósofo do hedonismo. Aliás, chama ao seu novo livro um manifesto hedonista.

Onfray: É uma síntese do meu trabalho até agora. Quis escrever algo que permita às pessoas viverem alegremente. O hedonismo é isso, a arte de viver feliz. Proponho uma ética hedonista, uma política hedonista, uma bioética hedonista. Procuro que em todos os campos levem uma existência o mais feliz possível e façam o mesmo pelos outros.

Visão: E por que escolheu este livro para contar a sua infância, que não foi muito hedonista?

Onfray: Não é a primeira vez que falo de coisas pessoais, mas da minha infância, sim. É verdade que me batiam, que fui deixado pela minha mãe num orfanato aos 10 anos, que aos 14 mudei para um instituto de onde saí aos 17, para ter de me desenvencilhar sozinho, sem os meus pais. Sei o que é a dor, o sofrimento, a infelicidade, a brutalidade. É a minha forma de dizer “nunca mais quero isso, acabou-se a dor”. Podia ter-me tornado alguém que quisesse reproduzir a violência sobre o mundo. Pelo contrário, defendo um mundo com o menor sofrimento possível.

> Dobra o número de ateus e agnósticos nos EUA em 18 anos. (março de 2009)

Na ditadura, grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim


Ex-integrante da cúpula da organização terrorista dá detalhes do plano, do qual a ministra declara jamais ter tido conhecimento. Delfim confirma localização de sítio mostrado em um mapa, apreendido durante a ditadura, que indicava onde o sequestro seria realizado.


por Fernanda Odilla, da Folha

Luiza, 22, abandonou a faculdade de economia e agora sabe montar e desmontar um fuzil de olhos fechados. Na clandestinidade, seu grupo planeja uma das ações ousadas da luta armada em 1969 contra a ditadura militar: o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico e civil mais poderoso do governo federal.
Quarenta anos depois, o antigo alvo é agora aliado de Luiza, aliás Dilma Rousseff (foto), na empreitada que tenta fazer da ex-guerrilheira, também conhecida à época como Estella, Wanda, Marina e Patrícia, a sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O ambicioso sequestro era uma espécie de "lenda urbana" entre poucos militantes de esquerda nos anos 70. Sem mencionar o nome de Dilma, foi citado de passagem no livro "Os Carbonários" (1981), do hoje vereador carioca Alfredo Sirkis (PV), e esquecido. Na página 180, há uma citação ao possível sequestro do ministro: "Preparavam, na época, o sequestro do ministro Delfim Netto". A Folha obteve documentos inéditos e o primeiro testemunho de um dos idealizadores do plano.

Antonio Roberto Espinosa, 63, doutorando em Relações Internacionais na USP, contou à reportagem segredos que diz não ter revelado sob tortura. Ex-comandante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares), assumiu que coordenou o plano.

Mais: afirmou que os quatro outros integrantes da cúpula da VAR-Palmares concordaram com o sequestro do então ministro da Fazenda, que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969.

"O grupo foi informado. Os cinco [ele, Dilma e os outros três dirigentes da VAR] sabiam", disse Espinosa, no primeiro relato que aponta o envolvimento de Dilma, negado, porém, "peremptoriamente" pela ministra à Folha.

Em um dos processos que condenou militantes da VAR, consultados no Superior Tribunal Militar, há um mapa da emboscada e outro que sugere o local do cativeiro do sequestro planejado.

A ação tinha data e local definidos. Seria num final de semana de dezembro, durante uma das visitas do ministro a um sítio no interior de São Paulo.

Em 1969, a hoje ministra experimentava a vida clandestina com audácia. No Rio de Janeiro, ela e a amiga Iara Iavelberg, namorada do líder guerrilheiro Carlos Lamarca, foram cortar o cabelo no salão Jambert, que servia champanhe aos clientes. Iara, de acordo com o livro "Iara - Reportagem Biográfica", de Judith Patarra (editora Rosa dos Tempos), quis arrumar a "juba fora de moda" da companheira -para valorizar o rosto e os olhos dela- e sugeriu também roupas novas.

A extravagância foi bancada depois da ação que deu fama à VAR-Palmares: o assalto ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, guardado na casa da amante dele, com cerca de US$ 2,4 milhões. Dilma não participou diretamente do crime.

Mas, de acordo com depoimentos e relatórios policiais, ela administrou parte do dinheiro roubado para bancar salários de militantes, achar abrigo para eles e comprar um Fusca cinza. Como não sabia dirigir, ela escalava uma colega da VAR como motorista.

Do carro, Dilma se lembra. Do dinheiro, não. "Não me lembro que eu era do dinheiro. Se fosse, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro", afirma.

Dilma-Luiza havia chegado ao comando da organização após um racha que, logo depois do roubo do cofre, levara à saída de Lamarca, Iara e um expressivo grupo de militantes em um tumultuado congresso em Teresópolis (RJ).

A ministra ficou na VAR, trocou o Rio por São Paulo e assumiu a missão de evitar debandada ainda maior.
A VAR priorizava o recrutamento de estudantes e de operários, sem abandonar os planos de ações armadas esporádicas. De forma colegiada, de acordo com Espinosa, a cúpula decidiu sequestrar Delfim e montar uma fábrica de explosivos acionados por controle remoto em uma fazenda na serra da Mantiqueira (entre São Paulo e Minas Gerais).

Além de Dilma, assumiram o comando do grupo Espinosa (Hélio), Carlos Araújo (codinome Max, o segundo marido da ministra) e os hoje mortos Carlos Alberto Soares de Freitas (Breno) e Mariano Joaquim da Silva (Loyola).

Ouvido pela Folha, Araújo afirmou que não se recorda do plano nem de nenhuma ação armada depois do racha. Ressaltou, no entanto, que não é "boa fonte", pois perdeu parte da memória do período depois de ter sido torturado.

Ao longo de uma hora de conversa com a Folha, Dilma disse algumas vezes não se lembrar da ideia de capturar o ministro e duvidar "que alguém lembre".

Ao saber do testemunho dado por Espinosa, ela declarou que o ex-colega "fantasiou". No final da entrevista, pediu que registrasse a sua "negativa peremptória".

Classificado como "alvo fácil" por militantes e militares, Delfim era também um alvo antigo. Antes da fusão entre Colina (Comando de Libertação Nacional) e VPR, que resultou na VAR-Palmares, Juarez Guimarães de Brito, militante da Colina e mentor do roubo ao cofre de Adhemar, havia utilizado o emprego no Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) para levantar os passos do pai do milagre econômico.
O sequestro nunca foi executado porque os principais envolvidos na ação começaram a ser presos semanas antes.

Coordenador do plano, Espinosa foi capturado em 21 de novembro de 1969, no Rio. "Ainda levaria 15 ou 20 dias. Aconteceria por volta de dezembro. O comando nacional sabia, não houve nenhum veto. Mas não detalhou o plano do ponto de vista político. Havia uma preparação militar que não estava concluída", disse ele.

Caberia aos outros integrantes do comando nacional decidir os procedimentos políticos, como o conteúdo do manifesto e as exigências para libertar o refém. A repressão, contudo, foi mais rápida.

O mapa com a indicação do local onde a organização planejava agir foi apreendido em um "aparelho" em Lins de Vasconcelos, no Rio. Dividiam a casa de dois andares o casal Espinosa e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, além do estudante de medicina Chael Schreier, que foi preso vivo e chegou morto ao Hospital Central do Exército. Com o trio, foi encontrado um arsenal de armas, munições e explosivos, além de levantamentos de áreas onde o grupo tencionava agir.

Espinosa disse à Folha que os mapas apreendidos só podiam ser os dele. "Tínhamos o endereço, sabíamos tudo. Era um local em que ele [Delfim] ia sem segurança porque imaginava que ninguém soubesse."

A Folha encaminhou cópia do mapa a Delfim, que confirmou ter frequentado um sítio na região indicada em vermelho de forma simplificada na folha de papel já amarelada.

Trata-se do Sítio Gramadão (cujo nome aparece no mapa), de propriedade do cunhado e melhor amigo, Mario Nicoli, próximo a Itu e Jundiaí, no interior paulista.

Delfim contou à Folha que recebeu recomendações para redobrar o cuidado diante da onda de atentados promovida pela esquerda contra o regime. Mas disse não saber do plano da VAR e que nunca deixou de andar com pouca, ou nenhuma, segurança.

Ex-guerrilheira é elogiada por militares e vista como "cérebro" do grupo


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Gritos de "mata", "tira a roupa" e "terrorista filha da puta" receberam Luiza-Dilma no primeiro dia de prisão no pátio do prédio da rua Tutoia, no Paraíso, zona sul de São Paulo. No local funcionava a Oban, sigla da Operação Bandeirante, estrutura que integrava as polícias civis e os serviços de inteligência das Forças Armadas.

As sessões de palmatórias, choques, chutes e socos até hoje são tratadas com reticências pela ex-guerrilheira. "Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha."

Segundo o Tortura Nunca Mais, ela ficou 22 dias no local. Para Dilma, "foi muito tempo" a ponto de não entender por que todo mundo ia embora, menos ela.

"A Oban era pau, puramente interrogatório. O preso ficava lá até considerarem que não havia mais como conseguir informações", recorda o hoje economista José Olavo Leite Ribeiro.

A ministra foi uma guerrilheira que até hoje impressiona os militares. Colecionou epítetos superlativos nos relatórios da repressão, que a definiram como "um dos cérebros" de esquemas revolucionários.

"Era a grande dirigente da VAR-Palmares. Era realmente boa guerrilheira. A gente tem que respeitar ambos os lados", disse à Folha Maurício Lopes Lima, integrante de uma equipe de busca da Oban, na época capitão do Exército e agora militar da reserva de 73 anos.

Foi a primeira vez que aceitou falar de Dilma. Ele nega tê-la torturado, mas não diz o mesmo dos colegas. "A história dela era furada demais."

Com a militante a tiracolo, ele visitou diferentes pontos de São Paulo em busca de informações. "Ela se preparou mais para jogar conosco. É gato e rato. Ela tenta fugir, a gente tenta encontrar", explicou ele.

À Justiça Militar Dilma citou Lima como um dos torturadores. Disse ter recebido visita no presídio Tiradentes, onde ficou por três anos, da equipe chefiada pelo capitão, que a ameaçou com novas agressões uma semana antes desse depoimento, em 21 de outubro de 1970. À Folha, porém, ela afirmou que o militar jamais a torturou, mas não o eximiu de responsabilidade. "Ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza."

Em 26 de fevereiro, 40 dias depois de presa, Dilma havia assinado depoimento à Polícia Civil com detalhes de sua trajetória e nomes de colegas das organizações em que militou.

Diante da Justiça Militar, ela reconheceu sua assinatura, mas repeliu todas as declarações -segundo ela, obtidas sob tortura. A Folha obteve a íntegra dos dois depoimentos, assim como dos relatórios dos órgãos da repressão que mencionam Dilma, hoje arquivados no Superior Tribunal Militar.

Em 20 de janeiro de 1969, sem saber que ela estava presa, o operário Natael Custódio foi a um encontro marcado com Luiza-Dilma. Foi capturado. "Ela foi muito torturada e levou a polícia. Não teve jeito", diz o agora caminhoneiro que vive em Londrina (PR).

Custódio, 65, não se diz atormentado com o passado. Lamenta, sim, o fato de a ministra nunca ter respondido a carta que ele enviou. "Depois que chegam lá em cima, fica difícil. Mas gosto demais dela."
O caminhoneiro há cinco anos escreveu pedindo ajuda para ser anistiado. Ainda não desistiu de receber a indenização.

Quando ficou presa no prédio da Oban, Dilma indicou endereços e acompanhou policiais a ao menos uma casa de militantes. Segundo ela, indicavam-se "pontos [local de encontro] para parar de apanhar". Custódio, contudo, não é um dos quatro nomes de companheiros presos logo depois da captura da guerrilheira. No depoimento da auditoria militar, Dilma citava que "em consequência direta de sua queda caíram Maria Joana [Teles Cubas], João Ruaro, Savério [Carlos Savério Ferrante] e Vicente [José Vicente Corrêa]".

Dilma confirmou à Folha ter dito que os quatro colegas caíram porque ela havia sido presa. "É. Caíram, ponto." A reportagem localizou Ferrante, que não quis falar sobre a prisão.

Para o delegado Newton Fernandes, que investigou a VAR em São Paulo e traçou o perfil de 30 dos 70 integrantes, Dilma era muito mais do que a responsável pela distribuição do dinheiro. "Através de seu interrogatório, verifica-se ser uma das molas mestras e um dos cérebros dos esquemas revolucionários postos em prática pelas esquerdas radicais", diz no relatório, cujo conteúdo nem a ministra conhecia.
O promotor que denunciou a VAR disse que Dilma "chefiou greves e assessorou assaltos a bancos" e a definiu como "Joana d'Arc da subversão". A comparação hoje provoca gargalhadas da ministra. (FO)


Aos 19, 20 anos, achava que eu estava salvando o mundo


Dilma diz não ter a mesma cabeça da época em que era guerrilheira, mas se orgulha de não ter mudado de lado, e sim de métodos
por Fernanda Odilla


UMA DAS três sentenças de prisão de Dilma Rousseff, de 1971, a descreve como a inimiga que "jamais esmoreceu" desde que ingressou na luta armada contra o regime instalado pelo golpe de 31 de março de 1964 e dissolvido 21 anos depois. Leia a entrevista da ministra sobre a vida na clandestinidade durante a ditadura.

FOLHA - A sra. se lembra dos planos para sequestrar Delfim e montar fábrica de explosivos?


DILMA ROUSSEFF - Ah, pelo amor de Deus. Nenhuma das duas eu lembro. Nunca ninguém do Exército, da Marinha e da Aeronáutica me perguntou isso. Não sabia disso. Acho que não era o que a gente [queria], não era essa a posição da VAR.

FOLHA - A sra. logo percebeu que a clandestinidade seria o caminho natural?


DILMA - Percebi. Todo mundo achava que podia haver no Brasil algo muito terrível. O receio de que um dia eles amanheceriam e começariam a matar era muito forte. Sou bem velha, comecei em 1964. Com o passar do tempo, o Brasil foi se fechando, as coisas foram ficando cada vez mais qualificadas como subversivas. Era subversivo até uma música, uma peça de teatro, qualquer manifestação de rua. Discutir reforma universitária era subversivíssimo. Coisas absolutamente triviais hoje eram muito subversivas.

FOLHA - Foi escolha da sra. o trabalho no setor de mobilização urbana?


DILMA - Qual era a outra alternativa?

FOLHA - Havia a expropriação.


DILMA - Disso eu nunca quis ser. Nós não achávamos isso grande coisa. A partir de um determinado momento houve uma visão crítica disso, do que a gente chamava militarismo. É muito difícil falar isso porque as pessoas ficam achando que a gente está limpando a barra. Não me interessa ficar falando nisso, é da época e deu. Eu sei que havia uma tensão eterna. Nunca concordávamos uns com os outros porque pensávamos diferente. Bota todo mundo junto, você imagina. Não posso dizer o que aconteceu dentro da direção.

FOLHA - No Rio, a sra. acompanhou a fusão e acompanhou o racha [da VAR] em Teresópolis.


DILMA - Na minha cabeça, eu só lembro que a gente conversava e discutia muito, debatia. Tinha uma infraestrutura complexa porque a gente não saía de lá, não podia aparecer. Bom não era. Mas, naquela época, você achava que estava fazendo tudo pelo bem da humanidade. Nunca se esqueça que a gente achava que estava salvando o mundo de um jeito que só acha aos 19, 20 anos. Sem nenhum ceticismo, com uma grande generosidade. Tudo fica mais fácil. Tudo fica mais justificado, todas as dificuldades. Você não ter roupa não tem problema. Às vezes, andava com uma calça xadrez e uma blusa xadrez.

FOLHA - A sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?


DILMA - Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. Seria estranho que tivesse a mesma cabeça. Seria até caso patológico. As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão. Inclusive, por causa daquilo, eu entendi muito mais coisas.

FOLHA - Como o quê?


DILMA - O valor da democracia, por exemplo. Por causa daquilo, eu entendi os processos absolutamente perversos. A tortura é um ato perverso. Tem um componente da tortura que é o que fizeram com aqueles meninos, os arrependidos, que iam para a televisão. Além da tortura, você tira a honra da pessoa. Acho que fizeram muito isso no Brasil. Por isso, minha filha, esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não.

FOLHA - Quando a sra. foi presa, foram apreendidos documentos falsos, desenho da VAR e um bilhete de amor com as iniciais TG. Era do Cláudio Galeno Linhares?


DILMA - Não, era do Carlos Araújo. Era apelido dele. Se você quiser me mandar, eu agradeço. Onde que está isso, hein?

FOLHA - No inquérito arquivado no STM. O bilhete está assim: "Nêga querida, infelizmente não poderei estar aí [no Natal]. Verás na prática, prometo-te..."


DILMA - Essa quantidade de te, você acha que é de mineiro, pô? Isso é de gaúcho. Tudo no te... Não falei do Carlos no depoimento. Eles acreditavam que era o Galeno. Carlos era da direção, eu não podia abrir a boca. Depois eles descobriram.

FOLHA - Como foi, durante os dias de Oban, para conseguir proteger a direção? Pelo que vi, alguns nomes não foi possível proteger como Maria Joana Telles, Ruaro, Vicente...


DILMA - Eles sabiam deles porque tinha caído outra pessoa que era da direção. Foi por isso que caí. Eu caí porque caiu outra pessoa.

FOLHA - Era com quem a sra. teria um encontro. O José Olavo?


DILMA - Essas coisas eu não quero falar, minha filha. Não quero dar responsabilidade para ninguém. Estou muito velha para fazer isso.

FOLHA - No depoimento da Justiça, a sra. cita os quatro como tendo caído em consequência direta de sua queda. A sra. dá os quatro nomes?


DILMA - É. Caíram, ponto.

FOLHA - Eu conversei com o hoje coronel, antigo capitão Maurício...


DILMA - Ele existe ainda? Ele já não batia bem da bola. Ele continua sem bater?

FOLHA - Eu perguntei se ele votaria na sra. para presidente. Primeiro, disse não. Depois, pediu para retificar dizendo que "depende com quem vai concorrer".


DILMA - Minha querida, pelo amor de Deus. A vida é um pouquinho mais complicada que isso. Mas respeito o que ele falou.

FOLHA - Ele participava das sessões [de tortura]?


DILMA - Ele era da equipe de busca, nunca participou. Mérito dele. Pelo menos enquanto estive na Oban. Não posso dizer depois. Você tinha aquele negócio de dar ponto para parar de apanhar, e ele levava as pessoas. Ele fez a busca em toda a minha casa. Pegava minhas coisas e perguntava sobre elas.

FOLHA - No depoimento à Justiça, a sra. cita ele como responsável pelas sessões de torturas.


DILMA - Que ele torturava pessoalmente, nunca vi. A mim não foi. Que ele entrava na sala e via tortura, tenho certeza. Qualquer um entrava. Te torturavam com a porta aberta.

FOLHA - Li uma entrevista em que a sra. diz que fez treinamento no exterior, mas não consegui encontrar o período em que isso pode ter acontecido. Deu tempo de sair do Brasil para treinar?


DILMA - Acho engraçadíssimo porque quando me perguntaram isso, eu neguei que tivesse feito. É que nem aquela lista que sai aí dizendo que eu fiz dez assaltos armados. Nunca fiz uma ação armada. Se tivesse feito, eu estaria condenada por isso. É a mesma coisa essa história do treinamento. Nunca fiz nem treinamento no exterior nem ação armada. É só perguntar para as pessoas.

FOLHA - Incomoda a sra. atribuírem essas ações a seu nome?


DILMA - É chato. Não sou supermulher para dizer que não me incomoda. Agora não perco a cabeça por isso. Estão mentindo, têm segunda intenção.

FOLHA - Não teve treinamento no exterior, mas o básico todo mundo sabia como montar e desmontar uma arma. Era questão de segurança do dia a dia?


DILMA - Sempre fui muito dedicada, mas não achava isso grande coisa. Nunca fiquei avaliando se devia fazer isso ou aquilo. Não se colocava assim para nós. Falavam assim: "Vai ali e aprende a montar e desmontar a arma". Você ia e aprendia. "Vai ali e escreve um documento." Você também ia.

FOLHA - Como era o dia a dia da prisão? Algumas companheiras de cela dizem que a sra. dava aula de macroeconomia, mas não gostava muito dos trabalhos manuais de tricô e crochê...


DILMA - Aprendi bem. Sei fazer tricô e crochê. Você sabe que faço tapete? Mas não aprendi tapete lá, não. Fazia muito bem crochê. Podem falar que eu não fazia... (risos) No fim, gostava de fazer crochê. A gente lia muito, escutava muita música, conversava muito, jogava vôlei. [As aulas] estão fantasiando...

FOLHA - A sra. tinha consciência que continuava na mira da polícia mesmo depois da prisão?


DILMA - Tinha. Não podia fazer aniversário que ficavam pendurados nas árvores, olhando.

FOLHA - Quando tem o racha, quem assume a VAR?


DILMA - Não me lembro. Se o Espinosa tá dizendo que eu estava... Não sei se fui, se não fui [do comando]. É um período muito pequeno até a queda. Fui uma das primeiras a cair. Eu lembro que eu fui em outubro para São Paulo e nunca mais voltei [ao Rio]. Fiquei lá junto com todo mundo que dirigia a VAR na época. Só me lembro do José Olavo e de mais um. Tinha mais. Tinha quatro.

FOLHA - Muita gente dizia que a sra. era a responsável pelo dinheiro da organização. A sra. era o caixa de São Paulo, para manter militantes, aparelhos?


DILMA - Também não me lembro disso, não, que eu era do dinheiro. Se eu fosse do dinheiro, eles tinham me matado a pau. Tudo o que eles queriam era o dinheiro. Não lembro isso, não. Não me lembro de ter caído com um tostão. Se eu tivesse dinheiro, ia ser um festival.

FOLHA - O delegado ficou bem impressionado com a sra. depois do interrogatório. A ponto de defini-la como uma pessoa com dotação intelectual apreciável.


DILMA - Interessante... Da onde ele tirou isso, né? Nem me lembro dele. A gente não dava importância para o delegado do Dops, só para a Oban. Deve ter vindo da Oban. Tinha um juiz auditor louco (risos). Ele fez uma denúncia dizendo que eu era a Joana d'Arc do terror. Era ridículo. Ele era dado a essas...

FOLHA - É muito divertido o perfil que o delegado traça.


DILMA - Essa parte não era pública, essa parte do delegado. Você conseguiu um documento único. A Oban classificava a gente pelo nível de perigo. O major Linguinha [Waldir Coelho] só interrogava quem ele achava que era direção. Ele falava comigo sempre.

FOLHA - A sra. não pegou o delegado Sérgio Fleury no Dops?


DILMA - Quando entrei no Dops, o Fleury estava em viagem. Passei quase um mês na Oban e um mês no Dops. Eu custei a ir embora da Oban. Achava estranho eu não ir embora. Todo mundo ia, e eu ficava. Eu não lembro a data. Vai ficando muito obscuro, como foi e como é que não foi.

FOLHA - Vocês passavam por um treinamento intensivo para deletar as coisas. Tinha que esquecer para não contar?


DILMA - Uma parte você tentava esquecer. Sabe que teve uma época em que eu falei uma coisa que eu achava que era verdade e não era. Era mentira que eu tinha contado e aí depois eu descobri que era mentira. Você conta e se convence.

FOLHA - Informação obtida sob tortura é de responsabilidade de quem tortura e não de quem fala? Dá para culpar a pessoa que falou?


DILMA - Não dá mesmo. Até porque ali, naquela hora, tinha uma coisa muito engraçada que eu vi. Aconteceu com muita gente, não foi só comigo. É por isso que aquela pergunta é absurda, a do senador [Agripino Maia, do DEM]. A mentira é uma imensa vitória e a verdade é a derrota. Na chegada do presídio [Tiradentes], estava escrito "Feliz do povo que não tem heróis", que era uma frase do Brecht que tem um sentido amplo. Esse fato de não precisar de heróis mostra uma grande civilidade. É preciso que cada um tenha um pouco de heroísmo.

FOLHA - Quando a sra. chegou à Oban, houve muitos gritos?


DILMA - Teve. Fazia parte do script. É uma luta eterna entre a sua autodestruição e sua luta para ficar inteiro psicologicamente. A palavra correta é uma disputa moral no sentido amplo da palavra moral. É uma disputa entre éticas diferentes, entre princípios diferentes. Uma pessoa que se dispõe a fazer a outra ter dor tem um processo de difícil identificação. Fico imaginando o que foi Abu Ghraib, porque bota de um lado americanos e de outro lado um outro mundo. Você tem de ser desqualificado como ser humano para ser torturado, santa, senão você não é.

FOLHA - E a família da sra., como reagiu a isso tudo?


DILMA - Minha mãe foi absolutamente fantástica. Eles tinham horror de mãe.

FOLHA - Só para deixar claro, a sra. não se recorda desse plano para sequestrar o Delfim?


DILMA - Não. Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. E acho que não compadece com a época, entendeu? Nós acabamos de rachar com um grupo, houve um racha contra a ação armada e vai sequestrar o Delfim? Tem dó de mim. Alguém da VAR que você entrevistou lembrava-se disso? Isso é por conta do Espinosa, santa. Ao meu conhecimento jamais chegou. Não me lembro disso, minha filha. E duvido que alguém lembre. Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim. Agora é o sequestro do Delfim? Ele vai morrer de rir.

FOLHA - De qualquer forma, obrigada por tocar nesse assunto delicado...

DILMA
- Eu estou te fazendo uma negativa peremptória. Para mim, não disseram. Tá?




ATUALIZAÇÃO em 8/4/2009

Jornal publica resposta de Espinosa

"Em respeito à inteligência dos leitores, e para amenizar os danos à imagem e à honra da ministra Dilma Rousseff aceitei a proposta do editor deste "Painel do Leitor" para escrever uma nova carta, num espaço exíguo, mas sob o compromisso de publicação na íntegra.

Segundo seu editor, o "Painel do Leitor" só publica cartas inéditas, e a que enviei, ainda no domingo, mas não publicada na edição de segunda-feira, como seria de esperar de um jornal sério, já repercutiu reproduzida em outros veículos de imprensa, cuja leitura recomendo.

Sob o título geral “Grupo de Dilma planejou seqüestro de Delfim Netto”( 5/4), a Folha utilizou-se de uma entrevista por telefone a uma jovem repórter. Lamento que o maior jornal brasileiro use a fonoportagem, o lamentável e preguiçoso vício da "investigação" por telefone.

Segundo os editores, o sequestro de Delfim Netto em 1969 "chegou a ter data e local definidos". A que hora e em que local, então, ocorreria? A Folha não informa.

O mais grave: acusa a ministra pela ação, lançando uma sórdida anticampanha contra a sua virtual candidatura a presidente. É possível que Dilma, pelas suas tarefas na organização, sequer tenha sido informada sobre o levantamento realizado. Entretanto, a edição oportunista transformou um não fato do passado (o sequestro que não houve) num factoide do presente (o início de uma sórdida campanha), que vai desacreditar ainda mais o jornal da "ditabranda".

Esclareço que Dilma pertencia, sim, à VAR-Palmares, e era uma militante séria, corajosa e humana, mas que era uma militante somente com ação política, ou seja, sem envolvimento em empreendimentos armados. E digo isso com a autoridade de quem era o responsável pelo setor militar da organização, assumindo a responsabilidade política e moral pelas iniciativas da VAR-Palmares.

Por isso, desafio a Folha a esclarecer todos os pontos nebulosos da reportagem de domingo e a publicar a íntegra da entrevista, de mais de três horas, para que os leitores a comparem com a imundície publicada, que constitui um dos momentos mais tristes da liberdade de imprensa e uma vergonha para a imprensa brasileira."

Antonio Roberto Espinosa, jornalista, doutorando em ciência política pela USP

Resposta da repórter Fernanda Odilla

A reportagem não afirmou que Dilma Rousseff planejou o sequestro de Delfim Netto. Trouxe, sim, declarações do ex-dirigente da VAR-Palmares, que, pela primeira vez, assumiu que o plano existia e que ele foi seu coordenador. À Folha, Espinosa disse que, no final de 1969, todas as tarefas (as "políticas" e o "foco guerrilheiro") da VAR "eram do comando nacional", citou três vezes Dilma Rousseff como um dos cinco integrantes desse colegiado e, indagado pela Folha em diferentes momentos, afirmou que "os cinco sabiam" do plano de sequestro e que "não houve nenhum veto" deles à ideia. Todas as suas declarações estão gravadas. Na entrevista, Espinosa informou que o sequestro ocorreria num sítio no interior de São Paulo em dezembro de 1969 -informação que reiterou, com mais detalhes, em posterior troca de e-mails com esta repórter.

Nota da Redação

A primeira carta do missivista chegou à Redação às 21h58 do domingo; o "Painel do Leitor" fecha às 20h.

Autenticidade de ficha de Dilma não é provada
da Folha, em 25 de abril de 2009



A Folha cometeu dois erros na edição do dia 5 de abril, ao publicar a reprodução de uma ficha criminal relatando a participação da hoje ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) no planejamento ou na execução de ações armadas contra a ditadura militar (1964-85).



O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o "arquivo [do] Dops". Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada -bem como não pode ser descartada.
A ficha datilografada em papel em tom amarelo foi publicada na íntegra na página A10 e em parte na Primeira Página, acompanhada de texto intitulado "Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto".
Internamente, foi editada junto com entrevista da ministra sobre sua militância na juventude. Sob a imagem, uma legenda ressaltou a incorreção dos crimes relacionados: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".

O foco da reportagem não era a ficha, mas o plano de sequestro em 1969 do então ministro Delfim Netto (Fazenda) pela organização guerrilheira à qual a ministra pertencia, a VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Ela afirma que desconhecia o plano.


Em carta enviada ao ombudsman da Folha anteontem, Dilma escreve: "Apesar da minha negativa durante a entrevista telefônica de 30 de março (...) a matéria publicada tinha como título de capa "Grupo de Dilma planejou sequestro do Delfim". O título, que não levou em consideração a minha veemente negativa, tem características de "factóide", uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu. Tal procedimento não parece ser o padrão da Folha."

A reportagem da Folha se baseou em entrevista gravada de Antonio Roberto Espinosa, ex-dirigente da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) e da VAR-Palmares, que assumiu ter coordenado o plano do sequestro do ex-ministro e dito que a direção da organização tinha conhecimento dele.

Três dias depois da publicação da reportagem, Dilma telefonou à Folha pedindo detalhes da ficha. Dizia desconfiar de que os arquivos oficiais da ditadura poderiam estar sendo manipulados ou falsificados.

O jornal imediatamente destacou repórteres para esclarecer o caso. A reportagem voltou ao Arquivo Público do Estado de São Paulo, que guarda os documentos do Dops. O acervo, porém, foi fechado para consulta porque a Casa Civil havia encomendado uma varredura nas pastas. A Folha só teve acesso de novo aos papéis cinco dias depois.

No dia 17, a ministra afirmou à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, que a ficha é uma "manipulação recente".
Na carta que enviou ao ombudsman, Dilma escreveu: "Solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 5.abr.2009.

Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S. Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação. Repito, sequer fui interrogada, sob tortura ou não, sobre aqueles fatos."

A ministra escreveu ainda: "O mais grave é que o jornal Folha de S.Paulo estampou na página A10, acompanhando o texto da reportagem, uma ficha policial falsa sobre mim. Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br ("terrorismo nunca mais"), atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa."

Fontes

Dilma integrou organizações de oposição aos governos militares, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. A ministra não participou, no entanto, das ações descritas na ficha. "Nunca fiz uma ação armada", disse na entrevista à Folha de 5 de abril. Devido à militância, foi presa e torturada.

Na apuração da reportagem do dia 5, o jornal obteve centenas de documentos com fontes diversas: Superior Tribunal Militar, Arquivo Público do Estado de São Paulo, Arquivo Público Mineiro, ex-militantes da luta armada e ex-funcionários de órgãos de segurança que combateram a guerrilha.

Ao classificar a origem de cada documento, o jornal cometeu um erro técnico: incluiu a reprodução digital da ficha em papel amarelo em uma pasta de nome "Arquivo de SP", quando era originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte.

No arquivo paulista está o acervo do antigo Dops, sigla que teve vários significados, dos quais o mais marcante foi Departamento de Ordem Política e Social. Na ditadura, era a polícia política estadual.

Entre as imagens reproduzidas pelo arquivo, a pedido da Folha, não estava a ficha. "Essa ficha não existe no acervo", diz o coordenador do arquivo, Carlos de Almeida Prado Bacellar. "Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece."

Pelo menos desde novembro a ficha está na internet, destacadamente em sites que se opõem à provável candidatura presidencial de Dilma.

O Grupo Inconfidência, de Minas Gerais, mantém no ar uma reprodução da ficha. A entidade reúne militares e civis que defendem o regime instaurado em 1964. Seu criador, o tenente-coronel reformado do Exército Carlos Claudio Miguez, afirma que a ficha "está circulando na internet há mais de ano". Sobre a autenticidade, comentou: "Não posso garantir. Não fomos nós que a botamos na internet".

Pesquisadores acadêmicos, opositores da ditadura e ex-agentes de segurança, se dividem. Há quem identifique indícios de fraude e quem aponte sinais de autenticidade da ficha. Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados.

> Informações sobre a ditadura militar brasileira.


sábado, 4 de abril de 2009

Sexo cada vez mais cedo

Vídeo erótico com crianças veiculado na internet provoca escândalo e alerta para os riscos da sexualidade precoce
por Suzane Frutuoso, de Ibirubá (RS), da Istoé

A pequena cidade gaúcha de Ibirubá é um daqueles lugares onde o tempo parece passar mais devagar. Lá todas as famílias se conhecem, as pessoas se cumprimentam pelo nome e a população pode circular à vontade pelas ruas, com praças arborizadas e casas coloridas que ajudam a compor um cenário bucólico.

sexo_precoce Tamanha placidez foi abalada há três semanas, quando explodiu na internet um vídeo de sexo explícito cujos protagonistas eram moradores da cidade: A., um garoto de 14 anos, e K., uma menina de 11. Durante as férias escolares, numa tar de quente de fevereiro, o adolescente se reuniu com três companheiros da mesma idade para jogar videogame na casa de um deles. Não havia adultos no local, os pais do menino estavam trabalhando. Minutos depois, a menina K. ligou para um dos garotos, perguntando se poderia encontrá- los.

Chegando lá, o casal foi para o quarto e chamou um dos amigos para filmar a "brincadeira" com o celular. Dias depois, o vídeo de 12 minutos vazava na internet e a inconsequência do gesto passou a ser de domínio público. A história que abalou o município de 19 mil habitantes choca pela tenra idade dos envolvidos e pelo conhecimento deles sobre um ato que requer maturidade física e psicológica para ser realizado com prazer e segurança. E ecoa no País como um alerta para a urgência de a sociedade refletir sobre o acesso das crianças a informações que estimulam a sexualidade precoce.

O caso de Ibirubá tomou grandes proporções porque o vídeo foi parar na internet. Mas não é uma situação isolada. De acordo com dados do Ministério da Saúde, de 1996 a 2006 o percentual de garotas que perderam a virgindade até os 15 anos saltou de 11% para 33%. Nesta mesma faixa, 47% dos meninos já tiveram sua iniciação. "A erotização está começando cada vez mais cedo e de forma intensa", afirma a psicopedagoga Qué zia Bombonatto, de São Paulo. "A fase de experimentação começa mais cedo e tudo é permitido."

Essa vontade de experimentar, aliada à irresponsabilidade inerente a esta faixa etária, mudou de forma devastadora a vida dos garotos envolvidos no caso. "A história tomou uma dimensão tão grande que a família da menina, por pressão, teve que ir embora", contou a conselheira tutelar Salete Spengler, que acompanha o caso. Logo depois da veiculação do vídeo, eles começaram a receber bilhetes por baixo da porta com insultos. Até pedras foram arremessadas em direção a sua casa.

No dia 17 de março, se mudaram para outra cidade. Nem mesmo o conselho tutelar sabe dizer o local. Apenas que a garota teve os cabelos cortados e trocou de nome para não ser reconhecida. Já os meninos que participaram da filmagem são apontados na rua e excluídos do grupo de amigos -por orientação dos pais das outras crianças. O constrangimento é geral na cidade. "A gurizada que se meteu no ocorrido está andando de cabeça baixa", disse a estudante Jéssica Klaessner, 18 anos.

A reportagem de ISTOÉ esteve na quinta-feira 26 nas casas de dois deles. Na do menino A., que aparece fazendo sexo no vídeo, os pais mal tiravam os olhos do chão. "É uma vergonha", disse o pai. "Só peço que esqueçam", completou a mãe. Enquanto isso, com um semblante preocupado, A. espiava por uma fresta na porta do quarto. "A gente desta terra esquece que todo mundo tem telhado de vidro", afirmou, irritado, o pai do garoto C., que registrou o vídeo com seu celular. Segundo o menino, ele e os amigos não tinham a intenção de divulgar o filme. "Só passamos para dois colegas que não estavam com a gente na casa.

Não colocamos na internet." Segundo a delegada da cidade, Diná Aroldi, ainda não se sabe se o vídeo foi postado na rede por um adulto. "O sigilo do provedor foi quebrado e apreendemos os celulares de todos os envolvidos", afirma.

Especialistas são unânimes: na esteira do contato prematuro com o sexo vem uma série de problemas. Entre eles, não ter prazer (e se cobrar por isso), associar o sexo a algo errado e ruim, a gravidez indesejada, doenças sexualmente transmissíveis e dificuldades de relacionamento. A situação causa até impactos fisiológicos, acelerando a ebulição hormonal. A primeira menstruação das meninas, por exemplo, cai cerca de seis meses a cada geração. Hoje está em 12 anos, segundo o Ministério da Saúde. K., a garota de Ibirubá, por exemplo, tem 11 anos, mas corpo de uma moça de 15. "Uma vida sexual saudável abaixo dos 14 anos é muito difícil", explica o ginecologista Gerson Lopes, coordenador da Associação S.a.b.e.r. - Saúde, Amor, Bemestar e Responsabilidade. "Eles não estão preparados e a primeira vez acontece sem privacidade, carinho e prevenção." É preocupante observar que o "ficar" está incluindo o sexo, afirma o médico. "Os jovens estão virando prisioneiros da própria liberdade, com angústias por não alcançarem o ideal distorcido de sexo que estão aprendendo."

Tanta insegurança os leva a cometer erros mais facilmente, como esquecer de usar o preservativo. No caso das meninas, é comum que procurem o médico apenas três anos depois do início da atividade sexual. Geralmente por suspeita de gravidez.

A estudante carioca M., 17 anos, conheceu o ex-namorado aos 13, num baile. Apaixonou-se e viveu a primeira relação sexual. Ainda com 13 anos, engravidou. Não se casou, teve o filho - hoje com 4 anos - e mora com a mãe. "Sinto falta de poder sair para me divertir", diz a menina, que perdeu dois anos de escola. Se hoje M. sente o peso da responsabilidade, acreditar que iniciar a vida sexual trará amadurecimento é um equívoco de parte considerável dos adolescentes.

Para temor dos pais, Carol Conde, 16 anos, de Mogi das Cruzes, São Paulo, sempre avisou a todos sobre seu desejo de ser mãe cedo. Cumpriu o discurso antes do que planejara. Perdeu a virgindade aos 14 anos e, aos 15, engravidou de Pedro, agora com 1 ano. "Não acho que minha primeira vez foi precoce, me sentia preparada", afirma. "A gravidez, sim. Reconheço que deveria ter terminado os estudos antes." Assim que pensou em ter relações sexuais, Carol conversou com a mãe, que a levou ao médico para receber informações sobre gravidez e preservativos.

Não adiantou. Ela errou na conta do anticoncepcional. Além de sofrerem mais com os problemas, sendo o mais latente a gravidez, as meninas despertam mais cedo para a sexualidade do que os meninos. "Elas estão realmente tomando a dianteira", diz a psicóloga Clara Freiberg, do Colégio Sion, em São Paulo. "Amadurecem antes e pedem aos garotos para ficar com eles." A sociedade atual também contribui.
"Existe uma crença de que a mulher sexy e bela se dá bem na vida, tem mais chances de sucesso", diz a psicopedagoga Maria Irene Maluf. "É um mecanismo que alimenta a sexualidade antes da hora."
Não é possível apontar um responsável pela sexualidade precoce das novas gerações. Muito menos o caso de eleger culpados. Mas há uma conjunção de fatores que levaram a esse quadro que culminou com histórias como a do sexo quase infantil de Ibirubá. A dificuldade dos pais em impor limites, a falta de orientação sexual eficiente nas escolas e uma cultura de massa extremamente erotizada são fortes estímulos. A internet também é decisiva na hora de facilitar o acesso das crianças a conteúdos proibidos. Na conversa com a conselheira tutelar, a menina K. disse que aprendeu o que aparece fazendo no vídeo em filmes pornôs que assistiu pelo computador.

"Os gatilhos para o despertar da erotização estão em níveis sem precedentes", afirma Maria Irene. "A criança absorve tudo o que deseja a qualquer momento." Os pais têm medo de reprimir e perdem o controle do que os filhos fazem. "Aqueles que têm hoje filhos de 10 anos são da geração da década de 70", lembra a psicopedagoga Quézia. "Eles tendem a ver as imposições como um problema, não como parte fundamental da educação."

Os adolescentes percebem essa insegurança e jogam com ela usando argumentos como "os pais dos meus amigos deixam". Outro equívoco das famílias é incentivar posturas ligadas à vida adulta. "É comum ver mães achando engraçadinho vestir menina de mulher e pais elogiando o menino que tem fama de pegador", ressalta.

Há ainda uma falha de percepção de muitos pais, que os faz perder as rédeas da situação. A mãe do menino C., que registrou o vídeo, disse que nem sonhava que o filho tivesse algum interesse sobre sexo. "E em casa a gente cuida, não deixa ver determinadas coisas na tevê", afirmou a dona de casa. "Mas ele pede para ir à casa dos amigos e lá não faço ideia do que está acontecendo." O padrasto da menina K., a quem chamava de pai, segurança, ficou sabendo do vídeo por um colega de trabalho. "Imagina que é minha filha", teria dito. A mãe, dona de um movimentado salão de beleza local, chorava junto com a filha (que se dizia arrependida) na delegacia, sem entender como isso teria acontecido. "É importante que os pais lembrem que não basta dar exemplo", diz a psicopedagoga Maria Irene. "Tem que interferir na educação, conversar." Proibir também não é a melhor solução.

A estudante Nadja Pancelli, 16 anos, de Mogi das Cruzes, namorou escondido por um ano Gabriel, oito anos mais velho, por medo da reprovação dos pais. "Achava que 12 anos não era idade para namorar e proibi os dois de se encontrarem", lembra a mãe, Regina Oliveira. "Hoje me arrependo de tê-la tratado como criança, e não como uma adolescente que está se descobrindo." Nadja perdeu a virgindade aos 13 anos, engravidou aos 14 e deu à luz Izadora aos 15.

A pouca ou nenhuma orientação ministrada nas escolas também é uma lacuna significativa. Desde 1998, o Ministério da Educação sugere que a educação sexual seja introduzida nas instituições de ensino. Por não ser uma disciplina curricular, algumas acolhem, outras não. Mesmo nos colégios particulares, ela só é mais frequente nos grandes centros. Na escola pública, entra como tema transversal - quando é acrescentada ao contexto de uma disciplina oficial da grade. Não é o caso de jogar a responsabilidade inteiramente para os educadores. "Os valores vêm da família, a escola passa conhecimento", lembra a conselheira tutelar Salete. Mas é no colégio que a garotada troca informações e até vive experiências como o primeiro beijo.

O Bandeirantes, em São Paulo, desenvolveu um programa de educação sexual, iniciado em 1992, reconhecido como um bom exemplo. Alunos a partir de 11 anos frequentam um curso semanal, com turmas divididas por faixa etária. Os temas variam com a idade. Professores foram capacitados para abordar a sexualidade em sala de aula. Os debates incluem assuntos como mudanças no corpo, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis e relacionamentos.

Além das aulas, há um serviço no site do colégio chamado "Sex Tips", em que os estudantes enviam dúvidas com garantia de anonimato. "Recebemos uma média de 80 e-mails por mês", afirma a coordenadora de orientação sexual Estela Zanini.

A orientadora educacional Sandra Gianoccaro, do Colégio Sion, diz que o desenvolvimento físico é um sinal. "Acontece mais cedo hoje, por volta dos 11 anos, justamente por causa da erotização precoce." O interesse pelo sexo oposto é outro indicativo (essa observação também deve ser feita pelos pais). O que importa é a educação sexual não tratar apenas o lado biológico, esquecendo o comportamental.

"Sem discutir o que sente, o jovem não dá conta de questões ligadas ao social", diz a psicóloga Isabel Theodoro, coordenadora do Projeto de Orientação Sexual e Prevenção às Drogas do colégio paulistano Pio XII
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Ainda que família e escola se esforcem, uma cultura popular recheada de apelos sexuais complica a situação. Letras de música, filmes, novelas, seriados de tevê apimentados e até o excesso de vaidade na busca por perfeição física permeiam o cotidiano de crianças e adolescentes. "E o tesão é uma força avassaladora da natureza", diz a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, de São Paulo. A saída para que esse sentimento poderoso aflore na hora certa é impedir ao máximo que a garotada tenha contato com o bombardeio erótico. Como essa pode ser uma tarefa inglória, os pais devem ficar atentos aos sinais de interesse pelo sexo que os filhos demonstrem e usar a oportunidade para conversar (leia quadro).
Cuidados com a internet, o celular e as câmeras digitais devem ser redobrados. Por mais que meninos e meninas mostrem desenvoltura ao lidar com tecnologia, não significa que eles entendam quanto podem se expor.

Muitos não calculam o real alcance do que cai na rede. "Eles confundem público com privado, vivem na era da imagem e acabam se comprometendo demais. Uma menina que tira foto nua ou seminua e manda para o namorado não é tão raro. Acontece em cada vez mais escolas", diz Estela Zanini, do Colégio Bandeirantes. "É mais ingenuidade do que onipotência." É possível instalar programas no computador que bloqueiam determinados sites. Quanto ao celular e às câmeras, basta não ceder aos apelos dos menores (até 12 anos) e procurar orientar ao máximo os mais velhos. "Tem criança de 7 anos com celular de última geração. Pais querem compensar a ausência dando tudo. Eles precisam de tempo para entender os filhos", diz a conselheira tutelar Salete. Sexo nunca foi tabu na casa da professora carioca Sandra Oliveira, 44 anos.
"Sempre mostrei onde ficavam as camisinhas e falei desde a pré-adolescência sobre prevenção", afirma.

Ainda assim, ao descobrir que o caçula L., 15 anos, já tinha vivido a primeira relação sexual com a namorada, de apenas 14 anos, ficou preocupada. "Não é fora do padrão, mas poderia ter esperado mais um pouco", diz. O menino L. liga todos os dias para sua eleita a fim de lembrá-la do anticoncepcional. "O compromisso é dos dois", acredita o adolescente, que também usa preservativo. "Ele tem de se cuidar porque sabe que aqui em casa tem informação, não dá para vacilar", destaca Sandra.

Mas informação à disposição não é garantia de vida sexual saudável quando se trata de crianças e adolescentes. Pode ser que os pré-adolescentes envolvidos na história de Ibirubá tenham recebido orientação em casa. Ou que estejam sofrendo justamente pelo excesso de "conhecimento" que encontraram por caminhos tortuosos. A certeza hoje é de que eles precisam de tratamento psicológico e da compreensão da sociedade para superarem o trauma de terem a infância roubada por aquilo que consideraram uma brincadeira. Porque seus olhares e expressões continuam refletindo feições de crianças. Agora, assustadas, tristes e sob o peso da difamação. Tão precoce quanto sua iniciação sexual. (Colaboraram: João Loes, Renata Cabral e Verônica Mambrini)

Casos de sexo na adolescência.

> Casos de sexting.

Sexting é usado para vinganças digitais

por Fernanda Colavitti e Andres Vera, da Época

Pouco mais de duas décadas atrás, quando um grupo de adolescentes se reunia no vestiário da escola ou do clube, o máximo de erotismo a que eles tinham acesso era uma revista que mostrava fotos de mulheres com os seios de fora. Nu frontal, só em publicações estrangeiras. Imagens de sexo explícito só apareciam nas histórias pornográficas desenhadas por Carlos Zéfiro.

Hoje, quando o sinal do intervalo dispara e um grupo de alunos deixa a sala de aula para colocar em dia a conversa com os colegas, muitos têm algo bem mais picante para mostrar no visor do celular. O que os excita são as cenas de adolescentes nuas ou praticando sexo. Não se trata de cenas baixadas da internet, mas gravadas por colegas e distribuídas por tecnologias a que todo celular hoje em dia tem acesso, como o Bluetooth. O fenômeno de fotografar ou filmar a si próprio em momentos de intimidade e transmitir as imagens por celular nasceu nos Estados Unidos, onde é chamado de “sexting” – neologismo que une sex (sexo) etexting (a troca de mensagem de texto pelo telefone). Em pouco tempo, a mania se espalhou como vírus.

sexting Uma pesquisa publicada em dezembro passado comprova que, nos EUA, o sexting é mais comum do que imaginam os pais. Segundo o estudo, um em cada cinco jovens americanos com idade entre 13 e 19 anos já enviou pelo celular algum tipo de foto ou vídeo de si mesmo nu ou seminu. Para chegar ao resultado, a organização não governamental National Campaign to Prevent Teen and Unplanned Pregnancy (Campanha Nacional para Prevenção dos Jovens e Gravidez Não Planejada) ouviu 1.280 adolescentes americanos entre 13 e 26 anos. Entre os jovens de 20 a 26 anos, o fenômeno é ainda mais comum: um terço dos entrevistados declarou já ter praticado o sexting. As histórias nem sempre têm desfecho inocente – a brincadeira que costuma oscilar entre a travessura e a pornografia está virando um problema para pais e os próprios adolescentes. No Brasil ainda não há dados sobre a extensão do fenômeno, mas já existem vídeos que se tornaram sucesso de público. Um deles foi colocado na internet com um link que pode ser acessado pela comunidade da torcida do Flamengo no site de relacionamentos Orkut.

Brincadeiras de mau gosto desse tipo fazem parte de outro fenômeno – o espírito vingativo de ex-namorados que passam a divulgar imagens da intimidade do antigo parceiro como forma de manchar sua reputação. A prática da vingança digital teve início quando um ex de Paris Hilton colocou na internet o vídeo em que os dois fazem sexo. Paris Hilton só ficou mais famosa depois do episódio, mas nem sempre o final da história é tão simples.

Em julho do ano passado, uma adolescente americana se suicidou depois de um escândalo de sexting. Jessica Logan, então com 18 anos, queria presentear o namorado. Fotografou-se sem roupa e enviou pelo celular as imagens para o garoto. Quando o relacionamento de dois meses terminou, o jovem não hesitou em compartilhar as imagens da ex-namorada, uma líder de torcida loira, extrovertida e atraente, com os amigos de seu colégio, na cidade de Cincinnati. Em pouco tempo, a foto de Jessica percorreu sete colégios. A garota não aguentou as provocações.

Chamada de “piranha” e “vagabunda”, entrou em depressão e começou a faltar às aulas. Até que se enforcou. Hoje, seus pais lutam por uma legislação específica para julgar os desdobramentos do sexting. “É uma epidemia nacional. Ninguém está fazendo nada – nem as escolas, nem a polícia, nem os adultos, nem os advogados, ninguém”, disse Cynthia Logan, mãe de Jessica, às vésperas do lançamento de uma campanha nacional nos Estados Unidos que pretende conscientizar escolas e alunos sobre o problema. Quatro Estados americanos já classificam o sexting como crime de pornografia infantil ou exploração sexual de menores.

Em fevereiro, 17 adolescentes americanos que praticaram o sexting foram acusados pelo crime de pornografia infantil – embora as imagens divulgadas fossem deles mesmos. Na semana passada, um juiz federal da Pensilvânia, EUA, suspendeu o andamento de um processo que acusa três garotas de pornografia infantil. As meninas aparecem nuas em fotos que estavam em seus telefones celulares, apreendidos por funcionários de uma escola de Wyoming County, na Pensilvânia.

No Brasil, o adolescente que virou refém de suas próprias fotos ou vídeos ainda encontra dificuldade para ver o culpado punido. “Eu queria que meu ex-namorado pagasse pelo que fez porque não consigo mais emprego depois que toda a cidade viu minhas fotos”, diz Tayla Predalla, uma estudante de biologia de 20 anos de Penápolis, cidade de 56 mil habitantes, no interior de São Paulo.

Tayla tinha 17 anos e cursava o ensino médio quando seu então namorado a fotografou enquanto faziam sexo. O namoro terminou em chantagem, e o garoto enviou as imagens para todos os nomes de sua lista de e-mail. Três anos depois, em setembro do ano passado, Tayla e o ex foram convocados para depor. Não houve punição. “Terei de conviver para sempre com pessoas que vão comentar sobre o que fiz com 17 anos”, diz ela.

Segundo o advogado Marcel Leonard, especialista em Direito Eletrônico, os casos de difamação na internet estão cada vez mais frequentes, ainda que poucas vítimas levem o problema aos tribunais, por medo da exposição. “A vítima é, geralmente, a moça cujo marido ou namorado conseguiu convencê-la a se deixar filmar ou fotografar”, diz Leonard.

Em janeiro de 2006, a jornalista Rose Leonel, de 38 anos, que vive em Maringá, no Paraná, encontrou na internet 480 fotos e um vídeo com cenas íntimas feitas por um ex-namorado, junto com números de telefone dela (o celular, o da casa e o do trabalho). Além de exibir as imagens, a página da internet dizia que a garota era uma prostituta. “Perdi meu emprego e passei a receber ligações até de fora do país: Holanda, Portugal, Estados Unidos”, diz ela.

“Depois de mais de um ano de ataques incessantes, ele começou a colocar minhas imagens em sites de pornografia, no Brasil e no exterior.”

Ela contratou um especialista em segurança da informação que conseguiu provar de onde partiram as imagens e informações. “Movi um processo criminal contra ele e o técnico de informática que o ajudou. Pagaram ínfimos R$ 3 mil. Depois de três anos, eu era uma figurinha comum nos sites de prostituição.”

Hoje, o caso está novamente na Justiça, e seu advogado pede uma indenização de R$ 500 mil. “Sei que minha vida nunca mais será a mesma”, diz Rose. “Mas as pessoas precisam saber que crimes assim podem ser rastreados, desvendados e punidos.” Wanderson Castilho, o especialista em segurança da informação que conseguiu provar que foi o ex de Rose quem divulgou os vídeos na internet, diz que, de cem casos de difamação e atentado contra a honra na internet, apenas dois são solucionados no Brasil.

Apesar de ainda serem raros nos tribunais brasileiros, os processos desse tipo estão gerando indenizações expressivas. A mais alta até agora ficou em R$ 100 mil, fixada por um tribunal de Minas Gerais. Mas, nesse caso, não se trata de uma vingança de ex. A vítima, que mora em São Paulo, recebeu e-mails anônimos com as fotografias, que, segundo ela, são montagens feitas com seu rosto.

As mensagens foram enviadas durante dez meses para diversos endereços eletrônicos, a partir de uma conta de e-mail criada com o nome dela. Depois de muita insistência, a vítima conseguiu na Justiça que a operadora de telefonia fornecesse os dados do usuário do computador de onde partiram os e-mails. Com isso foi possível rastrear as mensagens eletrônicas e chegar a um computador na cidade de Teófilo Otoni. A primeira sentença estipulou uma indenização de R$ 5 mil. Mas a vítima recorreu, e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais elevou o valor em 20 vezes. “Isso pode ser uma maneira de compensar a falta de uma legislação mais rígida para esse tipo de caso”, diz o advogado Renato Opice Blum. “O grande diferencial da internet é que um e-mail atinge milhares de pessoas em questão de minutos.”

Para os psicólogos, duas questões se combinam quando a tecnologia abre espaço para manifestações da sexualidade. A primeira é a competição acirrada pelo poder dentro de um grupo, sobretudo na adolescência. “A menina que se fotografa nua está, na verdade, lutando com outras garotas para promover sua popularidade”, afirma a psicóloga americana Susan Lipkins. Ela está conduzindo um estudo com 300 jovens para entender o fenômeno do sexting. Os resultados da pesquisa serão divulgados em um mês, mas Lipkins adianta alguns traços comuns entre os adolescentes envolvidos. “Quem envia esse tipo de imagem a um pretendente está inconscientemente testando seu valor de mercado dentro de um grupo.”

A segunda questão é a frágil noção de privacidade dos adolescentes. Para a psicóloga Leila Tardivo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, “o jovem precisa saber que tudo o que ele faz nessa extensão virtual de sua vida pode ter impactos na vida real”. Para evitar os problemas como os que infernizaram a vida da paranaense Rose e da paulista Tayla, vale um conselho: não se deixar filmar nem fotografar na intimidade. E evitar fazer isso mesmo sozinha ou sozinho. Nunca se sabe quem vai ter acesso à memória de seu computador.

Ao ser filmado, não sorria

Uma ONG de prevenção à gravidez nos EUA diz como evitar embaraços on-line

PARA OS ADOLESCENTES

Saiba que as mensagens e fotos que você postou na internet podem ser passadas adiante

Nunca repasse fotos ou vídeos com conteúdo sexual. Resista à pressão de amigos curiosos que desejam ver as imagens ou vídeos eróticos que chegaram até você

Se você é uma garota, não ceda aos pedidos dos meninos para escrever conteúdo erótico ou mostrar partes do corpo pela webcam ou por fotos

Leve em consideração a reação de quem receberá sua mensagem ou foto. Um comentário com conteúdo sexual parece engraçado para quem escreve, mas pode soar ofensivo para outros

Lembre-se de que nenhum conteúdo que circula pelo celular ou pela internet é realmente anônimo. Fotos, mensagens e informações como e-mail e telefone podem cair na mão de estranhos que querem bisbilhotar sua vida

PARA OS PAIS

Converse com seu filho para saber o que ele faz na internet. Os jovens devem entender que imagens enviadas pela internet ou pelo celular não são anônimas

Zele pelo bom comportamento on-line de seu filho. É impossível apagar os vestígios de uma foto ou vídeo que circularam pela rede

Conheça as amizades virtuais de seu filho. É tão importante quanto conhecer os amigos de verdade. Os adolescentes costumam tratar como “amigo” qualquer um de sua lista de contatos

Avalie a necessidade de restringir o tempo que seu filho passa no celular ou computador. Evite que o jovem passe a madrugada navegando

Saiba o que seu filho está postando publicamente. Visitar o perfil dele no Orkut ou Facebook não é bisbilhotice. A informação mostra se o jovem tem noção de privacidade

> Casos de sexting.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

‘A Igreja excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista’

por Marta Fantini, produtora e apresentadora do programa “Le Brésil en Noir & Blanc”, na Rádio Campus Bordeaux, França.

A polêmica sobre a decisão do arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, que excomunhou os médicos que realizaram o aborto no episódio da menina estuprada pelo pai ganhou repercussão internacional.

Para o filósofo francês Michel Onfray, a decisão é coerente com o pensamento oficial da Igreja Católica de hoje:

”A ideologia da Igreja é reacionária, conservadora e insuportável. A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista”, critica Onfray.

O filósofo francês Michel Onfray, iniciador da Universidade Popular de Caen , autor de 51 livros, traduzidos em mais de 20 línguas, e de uma coleção de 12 CDs, aposta na Filosofia como meio de vencer o lado irrracional do ser humano:

“Apesar do sofrimento da existência humana, que sempre existiu e existirá, é preciso viver em pé, com dignidade e não ajoelhado. O filósofo tem a obrigação de construir um movimento universal de elevação da condição humana”.

Por ocasião da sua passagem por Bordeaux, para o lançamento de seu último livro, “Contra-história da Filosofia: as radicalidades existenciais” , Michel Onfray nos concedeu uma entrevista sobre o lastimável episódio do aborto terapêutico, ocorrido em Recife.

Marta Fantini: O sofrimento de uma família, que deveria permanecer na esfera privada, acabou se tornando um evento midiático de repercursão internacional, devido a uma punição da Igreja Católica que parece sair das “entranhas da Idade Média”: a excomunhão.

michel_onfray-noirMichel Onfray (na pintura): A decisão parece da Idade Média, mas ela está inscrita no corpus do pensamento oficial da Igreja de hoje. Não se pode ignorá-la: a Igreja diz claramente que o aborto é proibido, que é um pecado e o clero aplica o que a Igreja professa. Na minha opinião, não há incoêrencia entre a excomunhão, que é insignificante, e a ideologia da Igreja, que é reacionária, conservadora e insuportável.

A Igreja apresenta indignações seletivas. Durante e após a II Guerra Mundial, ela excomungou todos os comunistas e nunca excomungou um único nazista. Hitler nunca foi excomungado assim como os ideólogos do nazismo e os membros do partido. A Igreja somente demonstra o que ela foi e é, colocando-se sempre ao lado dos fortes, dos poderosos, da colaboração. Ela não resiste. Ela não se preocupa com os pobres. Ela não demonstrou misericórdia a este ser frágil que foi violentado pelo padrasto. Ela não apoiou esta menina. Ao contrário, ela ainda a afligiu, considerando-a até culpada e responsável.

Eu li na imprensa francesa que, para o bispo de Recife, o estrupo é menos grave que o aborto. Quando alguém lhe perguntou porque o padastro não foi excomungado, ele respondeu que “dar a morte é mais grave”. Dar a morte a um feto é mais grave que o estupro e a pedofilia? O feto é um ser potencialmente vivo que está programado para se tornar uma pessoa, mas não é uma pessoa. Antes que se torne um ser humano, pode-se praticar o aborto, e sobretudo, nestas condições, parece-me um ato evidente.

MF : Como explicar esta insistência em preservar a vida se, por outro lado, a Igreja sempre legitimou a violência dos Estados?

MO: Ela pretende defender a vida, mas ela não a defende. Onde está a dignidade nesta aventura? O que se pode chamar de vida? Onde ela se encontra? Numa manifestação biológica? Neste caso a simples ejaculação, na hora da masturbação, é um genocídio! É preciso parar com isso. O espermatozóide é matéria viva. Neste caso, ela deveria excomungar todos os homens que se masturbam, pois os espermatozóides vão terminar no fundo de um vaso sanitário e não na destinação prevista que é a fecundação do óvulo! É um delírio total esta posição da Igreja que se diz defensora da vida e, ao mesmo tempo, justifica a pena de morte no “Catecismo da Igreja Católica”.

Eu até ganhei uma caixa de champanhe numa aposta com alguém que não acreditava que isso fosse possível! No “Catecismo da Igreja Católica” está escrito, explicitamente, que, em alguns casos extremos, pode-se aplicar a pena de morte. Sinto muito, é uma questão de princípio: não se defende a pena de morte quando se é cristão. E ainda querem que acreditemos que defendem a vida quando se defende, ao mesmo tempo, a pena de morte?

A Igreja defendeu a vida ao dar a bênção às bombas atômicas que explodiram em Hiroxima e Nagasaki? Ela defendeu a vida ao dar a bênção às armas que serviram para assassinar os republicanos espanhóis durante a Guerra da Espanha?. A Igreja pretende defender a vida, mas o que ela defende é o poder em vigor. Na verdade, o que fascina a Igreja é a morte. É a morte que lhe interessa.

MF: O que a imprensa francesa não citou, nos inúmeros artigos sobre este trágico evento, é que a Igreja, no Brasil, enfrenta uma queda de braço com o Estado. A República democrática brasileira se moderniza: a pesquisa sobre as células troncos foi liberada, a legalização do aborto está em discussão, a população se beneficia da distribuição gratuita de preservativos e pílulas do dia seguinte. Como explicar que esta Igreja, que não consegue acompanhar a evolução dos costumes morais e o progresso da Ciência, está se tornando cada vez mais fundamentalista?

MO : A questão não é o que ela está se tornando, o problema é que ela sempre foi e é fundamentalista. Acredito que, ultimamente, a Igreja está tentando colocar as coisas no seu eixo original. Com o recente retorno do islamismo, no mercado intelectual, ideológico e espiritual, ela diz que nem tudo está perdido para as religiões. Ela constata que, finalmente, ainda existem pessoas que acreditam em Deus e que em nome de Alá são capazes de morrer por ele, de lutar por ele, de viver por ele, que se comportam, na existência de uma vida cotidiana, de acordo com os preceitos que teriam sido ditados por ele. Penso que a Igreja está numa lógica de reconquista e que é o momento ideal de avançar seus peões. O papa Bento XVI, começou a avançá-los, por exemplo, com a reabilitação dos bispos negacionistas. Quando percebeu que esta estratégia estava provocando muito debate na imprensa internacional, ele recuou.

Acredito que há uma espécie de desejo de reconquistar a fé em escala planetária. Eu li no Le Figaro, o único jornal disponível no hotel, uma página inteira consagrada ao Papa e à carta que ele enviou aos bispos. Ele cita que o desejo de São Pedro era fazer proselitismo. O cristianismo e o número 1 dos cristãos, Bento XVI, concluem: se o Islã faz proselitismo e obtem resultados positivos, porque a Igreja Católica também não o faria? É uma maneira de reconquistar o terreno perdido, em todos os países.

É o que aconteceu na Itália. Recentemente, houve uma eleição ultra politizada, uma espécie de referendumsobre a questão do aborto, do reembolso deste tipo de intervenção, de células troncos, etc. A Igreja pediu a abstenção. Uma boa tática que se revelaria na hora da contagem dos votos, uma prova que a abstenção seria a Igreja, com um número considerável de vozes. A era de João Paulo II, da mediatização do tipo «rock star» e das viagens planetárias, terminou. O eucumenismo, da época em que se dançava com os aborígines, na Austrália, como pretexto de comunhão com o sagrado, tudo isso acabou. O único objetivo da Igreja atual é o retorno à antiga boa fé católica apostólica romana. Neste período de niilismo generalizado, ela se impõe uma posição mais rígida. A suspensão da excomunhão dos bispos negacionistas, o que se passou na Itália e no Brasil, são, para mim, sinais convergentes.

MF : Com a crise, o fundamentalismo pode piorar no seio das três grandes religiões monoteístas? A micro resistência, à qual você sempre faz alusão, não seria uma esperança como foi a Teoria da Libertação ou os Movimentos Pastorais na América Latina?

MO: As microresistências são a única solução possível. Eu penso que há cristãos que não estão de acordo com esta opção de direita à extrema direita da Igreja. Na “Golias”, uma excelente revista, publicada por católicos franceses de esquerda, pode-se encontrar artigos extremamente inteligentes. No último número, por exemplo, publicaram análises interessantes sobre o caso do bispos negacionistas. Há sempre uma categoria de católicos de esquerda com a qual se pode contar. Há sempre alguém que não aceita o inaceitável, que não se submete. Há esta esperança e há também a esperança no avanço do combate ateu.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra as obras sobre o ateísmo fazem muito sucesso. «O Tratado da Ateologia» foi best seller na Austrália, Espanha e Itália, quer dizer, se fizermos avançar o combate ateu, obteremos soluções. Evidentemente, sem repetir o erro do «ser ateu» do século XIX: anticlerical , mas fabricante de uma espécie de igreja atéia, de clero ateu. Seria o pior que poderia acontecer, ou seja, querer destruir, utilizando os mesmos métodos. É preciso avançar argumentos, debater questões como as dos tratamentos paliativos, da eutanásia… A França está com muito atraso em relação a estes assuntos. Porque a eutanásia não avança, mas sim os tratamentos paliativos? Porque o lobby cristão é potente para interferir nas decisões dos deputados e dos senadores e impedir que a lei sobre a eutanásia seja votada?

MF: Seus livros estão traduzidos em mais de vinte línguas e a venda de seus CDs atingiram 50 mil exemplares. Parece-me um número impressionante, em se tratando de conteúdo filosófico. Este sucesso seria a prova que a Filosofia preenche um vazio deixado pela religião que já não satisfaz a busca espiritual do ser humano do século XXI ?

MO: Minha proposta é sair da era religiosa e teológica para entrar na era filosófica. É preciso parar de projetar a vida em universos inexistentes para construir a sua existência. Devemos nos contentar com este mundo real, examinar o que podemos fazer de nossas existências nesta vida que é pós moderna, pós industrial, pós fascista, pós comunista e pós cristã, seguramente.

O que podemos fazer num período de niilismo? Somente a Filosofia poderá trazer as respostas. Gostaria que os livros de catecismo fossem substituídos, nas escolas, por ateliers de Filosofia, gostaria que todos nós refletíssemos juntos para, pelo menos, provocar a vontade de adquirir conhecimento. Sobretudo para aqueles que ficaram às margens, pois um dia, alguém disse que a Filosofia não era para eles; que ela foi feita para a elite, para a aristocracia e quem não fizesse parte dela, não teria direito a ela.

O desejo da filosofia é o desejo da sabedoria, da necessidade de ética, de reflexão e de moral. Almejo uma Filosofia que esclareça, que simplifique sem se empobrecer. Quando me deparo, nos meus cursos da Universidade Popular de Caen, com anfiteatros lotados, com mais de mil pessoas, com transmissão em vídeo no saguão, para aqueles que não conseguiram entrar, eu constato que é possível, que a Filosofia poderá vencer o irracional.

> Caso da gravidez e aborto da menina estuprada (2009)

Podemos deter o envelhecimento?

por Philip Hunter, para o Prospect

A velhice quase não existe nos animais selvagens. Acidente, doença ou predação geralmente os matam muito antes de alcançarem seu período de vida potencial. Os seres humanos, porém, especialmente no mundo desenvolvido, estão chegando em números cada vez maiores à duração máxima de vida, considerada pela maioria dos gerontologistas em 120 anos.

A ciência do envelhecimento se dividiu entre otimistas e pessimistas desde que surgiram as primeiras teorias modernas, em meados do século 19. Os pessimistas afirmam que o envelhecimento é causado pela mesma decomposição inevitável que aflige as máquinas e os objetos inanimados.

Eles concordam que a biologia desenvolveu mecanismos de reparo para atenuar os danos, mas insistem que estes meramente retardam a morte o suficiente para garantir a sobrevivência reprodutiva do organismo.

Os otimistas afirmam que todos os animais têm células reprodutivas imortais ("linhagens germinais") e que o envelhecimento e a longevidade são geneticamente determinados por programas que em princípio podem ser corrigidos. Eles indicam que a biologia tem as ferramentas para enfrentar o desgaste quase indefinidamente, se houvesse um caminho evolucionário para chegar lá.

Velhice Hoje os otimistas estão em alta, reforçados recentemente por experimentos que prolongaram a expectativa de vida de ratos de cerca de 2 para 3 anos, com alguns relatos de até 5. Esses progressos são improváveis nos seres humanos, para os quais a evolução já aumentou o período de vida muito além de mamíferos de tamanho comparável. Mas o trabalho esclarece alguns dos mecanismos envolvidos.

O recente progresso com ratos foi feito com a aplicação da descoberta, que data dos anos 1930, de que a duração da vida poderia ser prolongada drasticamente em quase todos os animais através de uma dieta baixa em calorias, mas incluindo todos os nutrientes vitais. Esta continua sendo uma estratégia comprovada para aumentar a expectativa de vida e desacelerar o envelhecimento em uma ampla gama de espécies.

Mas a dieta com baixo teor de calorias não é a única maneira de prolongar a vida de um rato. O mesmo efeito pode ser conseguido com uma dieta normal em calorias mas reduzida em proteínas. Além disso, parece que não é a proteína que importa, mas um componente específico: a metionina, um dos aminoácidos essenciais. Uma dieta totalmente deficiente em metionina mataria um rato em poucas semanas, embora seu nível ideal pareça ser menor do que o ingerido numa dieta normal.

Não se sabe exatamente como a restrição de metionina prolonga a vida, mas a resposta pode estar ligada à teoria do envelhecimento oxidativo, ou dos radicais livres. A metionina é o aminoácido mais inclinado a perder elétrons através da oxidação, e por isso restringi-lo na dieta talvez convença o organismo a usar outro aminoácido quando possível, assim reduzindo sua suscetibilidade geral à oxidação.

Alguns pesquisadores, porém, afirmam que os radicais livres são meros mediadores do envelhecimento, e não sua causa subjacente, com seu papel sendo controlado por genes que orquestram um "programa de morte".

Há certas evidências de que os radicais livres são manipulados por esses programas em animais nos quais o envelhecimento ocorre subitamente. Um dos exemplos mais estudados é o salmão, do qual muitas variedades parecem envelhecer rapidamente e morrem depois de aproximadamente três anos, seguindo uma gloriosa orgia de reprodução. Os radicais livres aumentam rapidamente durante esse período, mas o fato de que eles parecem ser contidos até que o salmão tenha se reproduzido sugere que há um programa subjacente em ação.

Nem todos os gerontologistas concordam com a teoria do programa de morte. Alguns afirmam que a morte repentina do salmão do Atlântico é apenas a conseqüência natural de um fenômeno evolucionário extremo chamado "semiparidade", que significa ter todos os filhos ao mesmo tempo. O argumento é que esses organismos investem toda a sua energia de vida em um único evento reprodutivo, depois do qual não há motivo para resistir ao envelhecimento.

Mas uma descoberta de 2005 parece ter inclinado decisivamente a discussão a favor de um programa de envelhecimento. Um estudo da Academia de Ciências Russa descobriu que o salmão pode viver muito mais quando infectado por larvas do mexilhão perolado - em alguns casos, a infecção desse parasita prolonga sua vida quatro vezes, para 13 anos. O fato de as larvas aumentarem tanto a vida do salmão indica que normalmente deve haver algum mecanismo que apressa o processo de envelhecimento.

Mas permanece outra questão. Todos os animais têm linhas germinais imortais (seqüências de células sexuais, como o esperma ou o óvulo) que são mantidos separados das células somáticas do corpo; os artefatos do envelhecimento não são transmitidos para nossos descendentes. Então, algum animal explorou a imortalidade de sua linha germinal para resistir indefinidamente ao envelhecimento? A resposta é sim.

Alguns exemplos foram encontrados entre organismos mais simples, sendo um dos mais estudados a hidra, um pequeno animal de água doce de até 20 mm de comprimento. A hidra parece ser capaz de se regenerar indefinidamente, sem qualquer sinal identificável de envelhecimento. Isso é possível porque seus corpos são permeados por células germinais cujo objetivo básico é formar rebentos que se desprendem para gerar descendentes. Essas células germinais também criam novos tecidos no corpo, que na verdade são os próprios descendentes, constantemente formando novas células para substituir as velhas. A diferença entre reprodução e regeneração é imprecisa.

Embora os animais superiores não tenham esses poderes regenerativos, há muitos exemplos de órgãos individuais que são substituídos dessa maneira.

Alguns tubarões substituem seus dentes várias vezes durante a vida para continuar se alimentando e prolongar suas vidas reprodutivas. Por que a evolução não usou a regeneração de modo mais ambicioso para prolongar a vida reprodutiva? A resposta está no alto risco de morte por acidente ou predação. Em um animal como o rato, a morte por fatores adversos torna-se inevitável depois de alguns anos, por isso há pequena pressão seletiva a favor de indivíduos de vida mais longa. Em vez disso, a evolução seleciona os organismos que são altamente reprodutivos durante suas curtas vidas.

Existe um potencial para os humanos imitarem a hidra, biologicamente imortal, explorando nossas células-tronco na regeneração de órgãos danificados por doenças ligadas ao envelhecimento. Essa regeneração poderia não aumentar imediatamente a duração da vida, mas deveria melhorar muito sua qualidade na idade avançada. De fato, para os humanos o principal alvo deveria ser a qualidade da vida, mais que a longevidade absoluta. Pelo menos por enquanto, poucas pessoas querem viver mais que 120 anos, mas gostaríamos de continuar gozando a boa vida ao máximo dentro desse prazo.

> Qualidade de vida do idoso.