quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Cientista estima que exista vida inteligente em 38 mil planetas

Da BBC Brasil

Há civilizações inteligentes fora da Terra e elas poderiam estar presentes em até quase 40 mil planetas, segundo novos cálculos feitos por Duncan Forgan, um astrofísico da Universidade de Edimburgo, na Escócia

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A descoberta de mais de 330 planetas fora de nosso sistema solar nos últimos anos, ajudou a redefinir o provável número de planetas habitados por alguma forma de vida, segundo um artigo de Forgan publicado na revista especializada International Journal of Astrobiology. As atuais pesquisas estimam que haja pelo menos 361 civilizações inteligentes em nossa galáxia, e possivelmente 38 mil fora dela.

Mesmo que haja quase 40 mil planetas com vida, no entanto, é muito pouco provável que seja estabelecido qualquer contato com vida alienígena.

Pesquisadores apresentam estimativas de vida inteligente fora da Terra com frequência, mas é um processo quase que de adivinhação - estimativas recentes variam entre um milhão e menos de um planeta com alguma forma de vida.

"É um processo para quantificar nossa ignorância", disse Forgan.

Em seu artigo, Forgan conta que criou uma simulação de uma galáxia parecida com a nossa, permitindo que ela desenvolva sistemas solares baseados no que se conhece a partir da existência dos planetas fora do nosso sistema solar - os chamados exoplanetas.

Esses mundos alienígenas simulados foram então submetidos a três cenários diferentes.

O primeiro cenário parte da premissa de que o surgimento da vida é difícil, mas sua evolução é fácil. Neste caso, haveria 361 civilizações inteligentes na galáxia.

O segundo parte do princípio de que a vida pode surgir facilmente, mas sua evolução para vida inteligente seria difícil. Nessas condições, a estimativa é de que haveria 31.513 outros planetas com alguma forma de vida.

O terceiro caso examina a possibilidade de que a vida poderia ter passado de um planeta para outro durante colisões de asteroides - uma teoria popular de como a vida surgiu na Terra.

Neste caso, a estimativa é de que haveria 37.964 civilizações inteligentes.

Se, por um lado, a descoberta de novos planetas distantes e desconhecidos pode ajudar em uma estimativa mais precisa sobre o número de planetas semelhantes à Terra, algumas variáveis nesses cálculos continuarão sendo meras suposições.

Por exemplo, o tempo entre a formação de um planeta e o surgimento das primeiras formas de vida, ou deste momento até a existência de vida inteligente, são grandes variáveis em uma suposição geral.

Nesses casos, afirma Forgan, teremos que continuar partindo do princípio de que a Terra não é uma exceção.

"É importante nos darmos conta de que o quadro que construímos ainda está incompleto", disse o astrofísico.

"Mesmo que existam formas de vida alienígenas, nós não necessariamente conseguiremos fazer contato com elas, e não temos nenhuma ideia de sua forma."

"A vida em outros planetas pode ser tão variada como na Terra e não podemos prever como são as formas de vida inteligente de outros planetas, ou como elas se comportam", conclui.

> Via Láctea é maior do que se pensava, sugere novo mapa. (janeiro de 2009)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Descoberto fóssil de cobra de 13 metros e uma tonelada

AP

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NOVA YORK - Esqueça a cobra que ameaçava Jennifer López no filme Anaconda, de 1997. Fósseis descobertos no nordeste da Colômbia revelam a maior serpente já encontrada: um monstro de 12,8 a 13,7 metros, pesando mais de 1,1 tonelada.

"Essa coisa pesa mais que um búfalo e é mais comprida que um ônibus urbano", disse o especialista em cobras Jack Conrad, do Museu de História Natural de Nova York. "Ela poderia facilmente comer algo do tamanho de uma vaca. Um ser humano estaria morto num instante".

"Se ela tentasse entrar no meu escritório para me pegar, teria sérias dificuldades em passar pela porta", reconheceu o paleontólogo Jason Head, da Universidade de Toronto Missisauga.

Na verdade, a fera provavelmente comia parentes antigos dos crocodilos, em florestas tropicais de 58 milhões a 60 milhões de anos atrás, disse ele.

Head é o principal autor do trabalho que descreve a descoberta, publicado na edição desta quinta-feira, 5, da revista Nature.

Os descobridores da cobra chamaram-na Titanoboa cerrejonensis, algo como "jiboia gigante de Cerrejon", a região onde foi descoberta.

Embora seja uma parente das jiboias modernas, ela vivia mais como uma sucuri, e passava a maior parte do tempo na água, diz Head. Era capaz de rastejar pela terra e de nadar.

Conrad, que não tomou parte na descoberta, chamou o achado de "inacreditável... Faz piada com nossos preconceitos sobre o tamanho que uma cobra poderia atingir".

A titanoboa bate o recorde de maior serpente já encontrada por 3,5 metros, superando uma criatura de 40 milhões de anos atrás, descoberta no Egito. Entre as espécies vivas, a maior contra conhecida é uma píton de nove metros, diz um dos autores do estudo, Jonathan Bloch.

Brasil ainda não tem legislação para o bebê de proveta

Por Simone Iwasso e Ana Paula Lacerda, do Estado de S.Paulo

Ao completar 25 anos do primeiro bebê de proveta brasileiro, o país ainda não tem uma legislação específica sobre a reprodução assistida. Isso quer dizer que, na prática, há poucos parâmetros legais e cabe a cada profissional decidir se faz ou não, e de qual maneira, escolha do sexo de crianças, doações de óvulos e esperma, uso de material genético de terceiros, fertilização em casais com HIV, congelamento de óvulos e descarte de embriões. Tampouco existem órgãos fiscalizadores próprios para isso, menos ainda comissões que acompanhem o que ocorrer nas clínicas privadas.

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“A falta de regras e fiscalização transformou o Brasil em um destino de turismo reprodutivo”, afirma o juiz Pedro Aurélio Pires Maringolo, professores de Direito do Mackenzie e estudioso do assunto. “Como temos uma capacidade técnica muito boa, estrangeiros vêm para cá fazer o que na Europa e nos Estados Unidos é proibido.”

A única regulamentação é uma resolução do Conselho Federal de (CFM) de 1992 – portanto há 17 anos, período no qual houve avanço das técnicas de reprodução, abrindo novas possibilidades de intervenção.

Por essa resolução, fica proibida a implantação de mais de quatro embriões (nos Estados Unidos e Europa e permitido apenas dois), a venda de óvulo ou sêmen e o pagamento de barriga de aluguel.

“A resolução é boa, mas muito se avançou na área. Deveria ter uma lei que detalhasse mais. Até porque a resolução atua só sobre o médico, não sobre o cidadão”, diz o obstetra Pablo Chacel, corregedor do CFM. Ele explica que, por se tratar de normas de um conselho de classe, infrações contra ela podem gerar punições para o médico, não sanção penal.

Além disso, segundo o urologista Jorge Hallak, especialista em infertilidade masculina, a falta de legislação e de um protocolo de conduta faz com que no país se usem técnicas de reprodução assistida em casais que não precisam. “Há pessoas muito sérias, mas há muita gente que não investiga as causas da infertilidade do casal. Desse modo, fazer uma fertilização in vitro sem saber por que a pessoa não engravida é como fazer um

transplante de coração sem ter feito um ecocardiograma. É absurdo e não traz resultados.

Hallak explica, por exemplo, que em dois terços dos casos de infertilidade masculina há tratamentos que resolvem o problema sem a fertilização.

Nesses casos, os casais ficam sem saber a quem recorrer, procurando o médico garantir mais resultados. “O casal com infertilidade apresenta uma fragilidade e está sob elementos psicossociais muito fortes. Se você falar para a mulher casal que ela vai engravidar se eles forem de ponta-cabeça e mindinhos esticados até a igreja do Bonfim, eles vão. O médico tem muito poder nessa situação”, diz Bela Zausner, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.

Com tudo isso em jogo, fica nas mãos de cada profissional o modo de agir. “O problema da falta de lei é que tudo acaba resvalando na moral e ética de cada médico para acontecer. Por exemplo, tenho muitos pacientes que chegam pedindo a sexagem, mas desestimulo no primeiro filho. É uma prática interessante em alguns casos, não para todos os casos que queiram”, diz. “É preciso ser flexível na discussão desse tema, e dos outros que envolvem a reprodução assistida, e não pensar em proibir totalmente.

A escolha do sexo dos filhos, contratação de assistentes para captar doadores de óvulos entre estudantes universitárias em troca de exames são práticas que foram defendidas publicamente no passado pelo médico Roger Abdelmassih, dono da maior clínica do país. Ele atualmente é investigado pelo Ministério Público e pela polícia por causa da acusação de ex-pacientes de suposto assédio sexual em sua clínica.

Em entrevista ao Estado no final do mês passado, Abdelmassih, ao comentar sobre críticas de que usaria técnicas para determinar o sexo do bebê, respondeu com uma pergunta: “Como eu posso dizer que não a um paciente árabe ou judeu que tem quatro filhas e não agüenta mais tentar ter um filho homem?”

> Caso Roger Abdelmassih.

Sonda acha menor planeta fora do Sistema Solar

Astro com duas vezes o tamanho da Terra tem temperatura de até 1.500C
Descoberta a 390 anos-luz do Sol veio de telescópio espacial francês que tem o Brasil entre os parceiros de construção e operação

por Rafael Garcia, da Folha de S.Paulo

Um grupo de astrônomos anunciou ontem a descoberta do menor planeta já detectado fora do Sistema Solar. Tendo mais ou menos o dobro do tamanho da Terra, o novo corpo extrassolar rochoso também é o mais rápido já conhecido. Lá, o "ano" -tempo que o planeta leva para dar uma volta completa em torno de sua estrela- dura apenas 20 horas.

Batizado apenas com o código Corot-Exo-7b, o novo "primo" da Terra fica a 390 anos-luz de distância daqui. Sua estrela-mãe é um pouco menos brilhante que o Sol.
A descoberta foi feita por uma das equipes que comandam o telescópio espacial francês Corot, que tem o Brasil entre os parceiros de construção e operação. A sonda-observatório é capaz de detectar planetas quando eles tapam parte da luz que emana de suas estrelas, fazendo a luminosidade diminuir -fenômeno chamado de "trânsito" pelos astrônomos.

Com esse método, foi possível estimar com precisão razoável o tamanho do novo planeta, mas não a sua massa. Os pesquisadores esperam descobri-la em breve, calculando a influência que a gravidade do astro tem sobre oscilação e distorção da luz da estrela-mãe.

Apesar de ter uma relativa semelhança com a Terra em termos de tamanho, o Corot-Exo-7b é bem mais quente porque sua órbita tem raio menor, deixando-o próximo de sua estrela-mãe. Sua temperatura média foi estimada entre 1.000C e 1.500C. Por isso, a possibilidade de haver condições para a vida local é remota.

"É improvável que exista água livre sob essas condições, mas, no limite, gelo subterrâneo é possível", disse à Folha Malcolm Fridlund, pesquisador da Agência Espacial Europeia que participou da descoberta. "Mas ainda não sabemos qual é a composição do planeta. Quando tivermos os dados sobre sua massa, a partir de espectroscopia [tipo de análise de luz] poderemos calcular sua densidade e descobrir que elementos estão presentes lá."

Outro planeta extrassolar relativamente similar à Terra já foi descoberto. Gliese 581 c, que orbita uma estrela anã-vermelha, mais fraca, tem massa 50% maior que a da Terra. Mas, em seu caso, o tamanho é que não é bem conhecido, porque o Observatório Europeu do Sul, que o detectou, usou uma técnica diferente. Pode ser que a massa do Corot-Exo-7b seja menor, afirma Fridlund.

> Via Láctea é maior do que se pensava, sugere novo mapa. (janeiro de 2009)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

‘Fui assediada pelo meu médico durante um tratamento para engravidar’

Depoimento da ex-paciente Sílvia (nome fictício) do médico Roger Abdelmassih (foto) publicado pela revista Marie Claire de fevereiro de 2009.

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Casei aos 25 anos e aos 28 ainda não tinha conseguido engravidar. Sempre tive sonho de ser mãe. Uma tia me indicou um médico especialista em fertilização, conhecido da família, dizendo que ele era o papa do assunto e que certamente iria me ajudar. O médico era o famoso Roger Abdelmassih. Dono de uma das mais bem-sucedida clínicas de fertilização de São Paulo. Na primeira consulta, fui acompanhada do meu marido. O dr. Roger foi muito simpático e conversou com a gente sobre vários assuntos. Nossa família é dona de fazendas e falamos bastante tempo sobre isso. Ficou contando vantagens – uma característica famosa do doutor. Fomos muito bem tratados. Ele se deu bem com o meu marido logo de cara. Engatavam longas conversas.

Comecei o tratamento de fertilização sem fazer exame nenhum para ver se era realmente necessário. O dr. Roger viu alguns exames antigos e me disse que eu estava apta a começar o tratamento. Falou para eu parar de sofrer tentando engravidar naturalmente. O procedimento artificial seria mais eficaz. Como eu era jovem, engravidaria num minutinho. Garantiu que ia resolver meu problema muito rápido. Só que não aconteceu bem assim... Foi uma longa trajetória até eu conseguir engravidar. Mas, no início, me empolguei com aquela solução que parecia fácil. Pagamos US$ 15 mil (cerca de R$ 30 mil) por três tentativas de fertilização, em um pacote. Saía mais barato comprar o pacote do que pagar por tentativa isolada (como se desse para vender filho em pacote...). Cada [tentativa] sozinha custava uns US$ 7 mil (algo em torno de R$ 15 mil). O tal pacote era uma jogada de marketing da clínica, criticada por outros médicos sérios com os quais me consultei depois. Há 15 anos, a chance de engravidar em uma fertilização era de 30%. Só que esse é um cálculo tosco, como o tempo provou mais tarde. Era uma liquidação de filhos. Aceitei fazer o tratamento.

Morávamos no interior do estado de São Paulo. Assim como na minha primeira consulta, meu marido me acompanhou em visitas mais importantes, como nas tentativas de fertilização e nos exames de sangue que revelariam o sucesso ou o fracasso da fecundação. Outras vezes, fui à clínica desacompanhada. Precisava tomar doloridas injeções de hormônio para induzir uma espécie de menopausa e fazer exames de sangue para checar a eficiência delas. Essa primeira etapa do tratamento durou cerca de uma semana. Depois, tomei mais injeções doloridas para estimular a produção de óvulos. Meu ovário era monitorada por exames de sangue e ultrassom. Cerca de dez dias depois, quando os meus 18 óvulos estavam maduros, passei por um procedimento cirúrgico. Fui sedada e o dr. Roger os aspirou.

No começo não percebia nada diferente ou estranho. O dr. Roger sempre era atencioso e me tratava bem. Com o passar do tempo, ele foi se tornando mais íntimo. Todas as vezes em que ia à clínica ele dizia que eu estava linda, ficava me galanteando. Tenho um porte atlético, pratico exercícios, não tenho celulite e estou sempre bronzeada. Me considero uma mulher bonita. Ele também entrava na sala em que eu fazia os exames de ultrassom, com outro médico, e pegava na minha mão quando eu estava deitada na maca. Fazia elogios na frente dos outros. Eu também não esperava para ser atendida na sala de espera com outros pacientes. Ficava sentada em uma sala de reunião. Às vezes, sozinha. Em outras, ele vinha conversar comigo. Outras vezes me chamava para tomar um café. Quando eu ia embora, ele sempre me dava um abraço de urso – longo e apertado – e um beijo babado no rosto.

Percebia que ele me tratava diferente das outras pacientes. Mas achava que essa deferência vinha do fato de a minha família ser conhecida da dele. Uma vez, uma amiga que me acompanhou em uma visita me disse que não gostava do jeito pegajoso dele. Depois que nos despedimos daquele jeito, ela disse que ele estava dando em cima de mim. No fundo, também achava que aquela era uma maneira um pouco esquisita de tratar uma paciente, mas não via maldade. Achava que ele era um bom profissional. Além disso, o dr. Roger era um senhor e eu era uma jovem. Encarava tudo aquilo como se fosse o jeito de um tio tratar uma sobrinha.

Comecei a fazer as fertilizações na clínica. Sentia muita dor durante a colocação dos óvulos fecundados no meu útero. Na primeira vez, reclamei. Ele disse que eu estava sendo mole e tascou a sonda em mim. Falou que era assim mesmo, que eu tinha de aguentar. Mas não fiquei grávida desta vez. Na segunda tentativa de fecundação, não foi só a dor que me incomodou. Eu estava deitada na maca, em posição ginecológica, com as pernas para o alto, e ele começou a pôr os óvulos fecundados no meu útero dentro do centro cirúrgico. Ele estava sentado no pé de minha maca e usava um aparelho que abre o colo do útero por dentro da vagina. Minhas pernas estavam cobertas por camisola. De repente, senti que ele estava passando as mãos nas minhas coxas. De dentro para fora. Deu uma alisada mesmo, com as duas mãos. Até tinha uma assistente na sala naquele momento, mas não estava olhando.

Achei estranho, me senti desconfortável, e não entendi direito o que tinha acontecido. Fez isso mais algumas vezes durante aquele procedimento. Achei que era sem querer. Demorei para acreditar que aquilo era um assédio. Continuei acreditando no seu profissionalismo. O dr. Roger agiu como se nada tivesse acontecido e disse que estava tudo terminado, que eu deveria voltar dali a alguns dias para ver se a fertilização havia dado certo. Fui para casa e procurei não pensar naquilo nos dias que se seguiram. Na terceira tentativa fiquei receosa, mas tudo correu normalmente, apesar da dor.

Não engravidei no pacote do dr. Roger e decidi que não iria mais fazer tratamento de fertilização. Estava frustrada, e os procedimentos tinham sido muito doloridos. Sempre que eu recebia a notícia de que não estava grávida entrava em depressão. Chorava por vários dias seguidos, me sentia a última das mulheres. Me perguntava por que aquilo estava acontecendo comigo. Achava que nunca ia conseguir realizar o sonho que desejava tanto. Tinha vontade de morrer. Depois de alguns meses, me prometia que não me submeteria a outro tratamento desgastante. Conversava com o meu marido e decidíamos aproveitar a vida a dois.

Com tudo isso, naquele momento existia outro incômodo. Não contei para ninguém o que aconteceu durante a segunda tentativa de fecundação. Ainda tinha dúvidas se dele de fato tinha me assediado. De qualquer forma, fiquei bem fragilizada. A única certeza que tinha era de ter enjoado do dr. Roger. Não queria mais vê-lo na minha frente. Ele era muito pegajoso.

Passados o cansaço e o desgaste das primeiras fertilizações, me animei a tentar engravidar novamente. Depois de alguns meses, procurei outro médico. Foi esse segundo profissional que eu tinha alguns problemas que precisavam ser tratados antes de fazer a fertilização – informação que o dr. Roger não sabia ou ignorou. Quando fui fazer a colocação dos óvulos, o médico me sedou. Acordei com ele dizendo que não podia realizar o procedimento. Falou que o colo do meu útero era muito estreito. Perguntou se eu dava autorização para alargar um pouco a passagem com uma cirurgia. Daí em diante, a colocação dos óvulos sempre foi feita sob sedação. Fizemos mais três tentativas com o segundo médico, e elas também não deram certo.

Meu marido queria voltar à clínica do dr. Roger. Quando pensava nessa possibilidade, sentia um mal-estar, mas achava que estava implicando com o médico. Topei, porque afinal ele era considerado o melhor em sua área. Na consulta, disse que só faria o tratamento sob sedação. As duas primeiras tentativas foram frustradas. Não sei se ele me assediou, não vi se ele deu aquelas passadas de mão porque estava sedada. Foi na terceira tentativa que aconteceu o pior... Depois da transferência de óvulos, fui deslocada para um dos dois quartos da clínica dele, ainda sedada. Estava nua, vestida apenas com uma camisola cirúrgica. Quando acordei, o dr. Roger estava segurando a minha mão. Vestido de camisa, gravata e o jaleco branco, ele se inclinou sobre a cama e me deu um beijo na boca, tipo um selinho. Eu ainda estava zonza. Senti apenas aquele bigodão horroroso encostando no meu rosto. Empurrei sua mão e perguntei o que ele estava fazendo. Disse para pare com aquilo. Pedi pelo amor de Deus. Ele disse que estava loucamente apaixonado por mim. Me perguntou o que poder fazer com o que estava sentindo. Eu só dizia para ele parar.

Meu marido estava do lado de fora da sala. O dr. Roger saiu rapidamente do quarto, como se nada tivesse acontecido. Até hoje me vem à memória aquela cara de cínico. Antes de sair pela porta, olhou para trás e deu uma risadinha de conquistador. O clichê do cafajeste. Aquilo me deu um mal-estar, uma coisa horrorosa. Foi aí que caiu a minha ficha: o que aconteceu antes não tinha sido uma alucinação criada pela minha cabeça. Fiquei pensando como tinha sido bobinha todo aquele tempo. Mas não contei nada para ninguém, nem para o meu marido.

Ficava me questionando se eu tinha dado trela para ele em algum momento. Se tinha sido simpática demais, se dei a entender algo que, na verdade, não queria. Sentia culpa e vergonha e ficava muito constrangida com aquelas lembranças. Voltamos à clínica depois de 12 dias para saber se eu tinha engravidado. Mais uma vez o tratamento do dr. Roger deu errado. Eu disse que não queria mais tentar engravidar. Ele nos pediu para não resistir. Disse que faria de graça quantas fertilizações fossem necessárias até eu engravidar. Se desse certo, acertaríamos o valor depois. Neguei. Meu marido não entendeu o motivo de minha recusa. Disse que eu tinha pegado implicância com o dr. Roger, que eu o achava mau caráter, mas não entrei em detalhes. De qualquer forma, ele sabe que eu jamais daria em cima de alguém.

Depois de muitas tentativas em vão para engravidar e de viver um assédio, tive síndrome de pânico. Durante as crises, suava frio, tremia e sentia as mãos e a boca adormecerem. Acha que ia morrer. Foram várias crises seguidas. Tomei remédio controlado por um ano. Me sentia usado e desrespeitada. Peguei pavor de fazer outro tratamento. Uma vez, fiquei sabendo que o dr. Roger faria uma palestra na cidade em que eu morava. Fiquei arrepiada só de pensar na possibilidade de ver aquele homem em minha frente de novo. Fiquei com nojo e horror.

ScannedImage-2 Só contei o que aconteceu na clínica do dr. Roger para o meu marido quando começaram a aparecer denúncias de outras moças assediadas por ele. Estávamos lendo o jornal de manhã quando ele comentou a notícia. Descreveu cenas idênticas de assédio às que tinha acontecido comigo dentro daquela clínica. Tive um ataque de choro e aquele sentimento ruim voltou. Disse ao meu marido que ele tinha feito tudo aquilo comigo. Ele foi muito compreensível. Vai me ajudar a procurar um advogado para fazer uma denúncia de assédio. Tinha medo de que as pessoas pensassem que eu estava com dor-de-cotovelo, que só estava falando mal dele porque não tinha conseguido engravidar. Ele era rico e famoso e eu não era ninguém. Passaria por louca. Quando comecei a fazer o tratamento, há 15 anos, nem todo mundo falava que se submetia à fertilização. Muitos casais faziam no sigilo. Esse procedimento não era tão aceito como hoje. Só contei o que aconteceu para algumas poucas mulheres que vieram pedir minha opinião sobre o dr. Roger. Muitas delas não acreditavam. Uma parente próxima achou que eu estava mentindo e fez um tratamento com ele. Felizmente, não aconteceu nada com ela.

Depois do dr. Roger, encontrei um médico sério. Ao todo foram 13 tentativas até conseguir finalmente engravidar da minha filha, que hoje tem sete anos. Foram nove anos de trabalho, e a maioria do tempo nas mãos do ‘excelentíssimo’ dr. Roger. Foram anos perdidos. Nos próximos dias vou para São Paulo prestar depoimento e me aliar às mulheres que tiveram coragem de denunciar os abusos. Ela ainda dizendo por aí que nem sabe se essas pessoas que o acusam foram suas pacientes. Que estão fazendo uma campanha de difamação contra ele. Mas tenho todos os documentos que provam que passei pela clínica. O que ele fez comigo e com outras pacientes é imperdoável.(Depoimento à jornalista Maria Laura Neves)

> Caso Roger Abdelmassih.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Novelas provocam queda de natalidade no Brasil

Da BBC Brasil:

A queda na taxa de natalidade no Brasil está relacionada com a audiência das telenovelas, segundo sugere um estudo realizado no Centro de Pesquisas para Política Econômica da Grã-Bretanha (CEPR, na sigla em inglês).

Segundo o estudo, publicado neste mês, o tamanho pequeno das famílias representadas nas tramas das novelas brasileiras seria distante da realidade e influenciaria as mulheres a desejar poucos filhos.

Dados do Censo indicam que a taxa de natalidade caiu de 6,3 crianças por cada mulher em 1960 para 2,3 em 2000.

De acordo com a pesquisa, esse declínio se deve não apenas pelo hábito de assistir televisão, mas especificamente pela audiência das telenovelas produzidas pela Rede Globo.

“Descobrimos que as mulheres que vivem em áreas cobertas pelo sinal da Globo apresentaram taxa de natalidade muito menor. As novelas mexicanas e importadas transmitidas por outros canais não causaram impacto na natalidade", diz o estudo, conduzido pelos pesquisadores Eliana La Ferrara, Alberto Chong e Suzanne Duryea.

Os pesquisadores analisaram o conteúdo de 115 novelas transmitidas pela Globo em dois horários diferentes entre 1965 e 1999 e descobriram que 72% das personagens femininas com idade até 50 anos não tinham filhos, comparados com 21% das personagens que eram mães.

Para alcançar os resultados, a equipe comparou os dados das novelas com o índice de natalidade do país e o alcance do sinal da emissora em diversas áreas.

O estudo indica que há uma relação entre o alcance do sinal da emissora e uma diminuição nas taxas de natalidade das mulheres que vivem nas áreas cobertas pelo canal. Segundo a pesquisa, o impacto é maior em mulheres com nível sócio-econômico mais baixo e na fase central e mais adiantada do ciclo de fertilidade.

Além da análise do impacto no índice de natalidade, a pesquisa aponta ainda que as personagens femininas influenciam de maneira “surpreendente” as escolhas dos nomes dos filhos.

"As mães que vivem em áreas cobertas pela Rede Globo são quatro vezes mais propensas a batizar seus filhos com o nome de um dos personagens das telenovelas", diz a pesquisa.

Os pesquisadores compararam 15 nomes de estudantes do ensino fundamental recolhidos no Ministério da Educação em 2005. A equipe comparou os padrões dos nomes mais comuns com os nomes dos personagens principais das telenovelas da Globo no ano em que as crianças nasceram – a maioria em 1994.

Depois da análise, os pesquisadores descobriram, entre os 20 nomes mais comuns de bebês nascidos em 1994, pelo menos um era também o nome de um personagem de alguma novela transmitida naquele ano.

"Acreditamos que estes dados sobre o padrão dos nomes sugere uma relação forte entre o conteúdo da novela e o comportamento da audiência", diz o estudo.

Para os pesquisadores, o impacto das telenovelas na população pode ter implicações importantes para os governos elaborarem suas políticas públicas em países em desenvolvimento, onde a taxa de analfabetismo é elevada.

"Nosso trabalho sugere que os programas direcionados para a população local têm potencial para atingir um número enorme de pessoas a um custo muito baixo", diz a pesquisa.

Para os pesquisadores, questões como a educação infantil, a Aids e os direitos das minorias podem ser levantadas em programas de televisão para alertar a população.

Antídoto ao amor pode prevenir paixão cega

John Tierney, do The New York Time

Numa edição recente da revista “Nature”, o neurocientista Larry Young propõe uma grande teoria unificada do amor. Depois de analisar a química cerebral da formação de vínculos entre casais de mamíferos, Young prevê que em breve um pretendente inescrupuloso poderá colocar uma poção de amor farmacêutica no drinque da pessoa cortejada.

Mas também pode ser que surja um antídoto ao amor —uma vacina que impeça você de ficar cego de paixão e agir como idiota.

É o que os humanos procuram desde que Ulisses mandou os tripulantes de seu navio amarrarem-no ao mastro quando o barco passou pelas sereias da mitologia grega. Estava claro que o amor era uma doença perigosa.

Larry Young fez pesquisas com ratos-calunga na Universidade Emory, em Atlanta. Esses bichinhos semelhantes a camundongos fazem parte de uma pequena minoria dos mamíferos —menos de 5%— que compartilham a propensão humana pela monogamia.

Quando o cérebro de uma rata-calunga recebe uma infusão artificial de oxitocina (hormônio que produz algumas das mesmas recompensas neurais que a nicotina e a cocaína), ela rapidamente forma vínculos com o primeiro macho que estiver por perto. Um hormônio relacionado, a vasopressina, quando injetado em ratos-calunga machos (ou quando ativado naturalmente pela atividade sexual), cria desejos de formação de vínculos e ninhos.

Depois de Young ter descoberto que os ratos-calunga machos com reação geneticamente limitada à vasopressina tinham menos probabilidade de encontrar parceiras, pesquisadores suecos relataram que homens dotados de tendência genética semelhante têm menos tendência a se casar. Young especula que o amor humano pode ser desencadeado por uma “cadeia de eventos bioquímicos” que evoluiu de vínculos entre mãe e filho, formação essa estimulada nos mamíferos pela liberação de oxitocina durante o trabalho de parto e a amamentação.

Young observou que as preliminares e as relações sexuais estimulam as mesmas regiões do corpo das mulheres que as envolvidas no dar à luz e na amamentação. Essa hipótese hormonal ajudaria a explicar algumas diferenças entre os humanos e os mamíferos menos monógamos: o desejo feminino de fazer sexo mesmo quando fora de seu período fértil e o fascínio erótico masculino com os seios. Sexo mais frequente e mais atenção aos seios, disse Young, ajudariam a construir vínculos de longo prazo.

Pesquisadores obtiveram resultados semelhantes borrifando oxitocina nas narinas de pessoas, que parece intensificar sentimentos de confiança e empatia. Young disse que pode haver drogas que aumentem o desejo das pessoas de se apaixonarem.

Mas uma vacina que possa impedir as pessoas de ficarem cegas de paixão parece mais simples. “Um bloqueador de oxitocina faz com que as ratas-calunga passem a agir como 95% dos mamíferos: não formam vínculos. Elas acasalam e, se outro macho aparece, a fila anda. Se o amor tem base bioquímica semelhante, então, teoricamente, devemos ser capazes de suprimi-lo de modo semelhante”, disse Young.

Artigo profético de McLuhan aborda o poder hipnótico das novas mídias eletrônicas

Do IHU Online:

O jornal La Repubblica, 21-01-2009, publicou um artigo de 1963 de autoria do filósofo canadense Marshall McLuhan. No texto, o pensador afirma que, "na era eletrônica, a própria natureza instantânea da coexistência entre os nossos instrumentos tecnológicos tem dado lugar a uma crise totalmente inédita na história humana". Para ele, "assim como somos inconscientes da natureza das novas formas eletrônicas, também somos manipulados por elas". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

mcluhan Com o telégrafo, o homem ocidental iniciou a estender os seus nervos para fora do próprio corpo. As tecnologias anteriores foram extensões de órgãos físicos: a estrada é um prolongamento dos pés; os muros das cidades são uma exteriorização coletiva da pele. Os meios eletrônicos, pelo contrário, são extensões do sistema nervoso central, ou seja, um âmbito inclusivo e simultâneo. A partir do telégrafo, estendemos o cérebro e os nervos do homem todo o globo. Consequentemente, a era eletrônica comporta um mal-estar total, como o que uma pessoa que tivesse o cérebro fora da caixa craniana poderia experimentar. Tornamo-nos particularmente vulneráveis. O ano em que o telégrafo comercial foi introduzido na América, em 1844, foi também o ano em que Kierkegaard publicou o conceito da angústia.

A característica de todas as extensões sociais do corpo é que elas voltam a atormentar os seus inventores em uma espécie de remorso de consciência. Justamente como Narciso, que se apaixonou por uma exteriorização (projeção, extensão) de si mesmo, o homem parece apaixonar-se invariavelmente pelo último objeto ou dispositivo, que, na realidade, nada mais é do que uma extensão do seu próprio corpo.

Quando dirigimos o carro ou assistimos à televisão, tendemos a nos esquecer de que aquilo com o que nos relacionamos é apenas uma parte de nós mesmos colocada lá fora. Desse modo, tornamo-nos servomecanismos [circuito mecânico controlado eletroeletronicamente. Basicamente, é a associação da mecânica com a eletrônica] das nossas próprias criações e respondemos a elas do modo imediato e mecânico que elas requerem. O ponto central do mito de Narciso não é que os indivíduos tendem a se apaixonar da própria imagem, mas que se apaixonam das próprias extensões, convencidos de que não são suas extensões. Penso que essa seja uma imagem bem precisa de todas as nossas tecnologias, e nos convida a refletir sobre uma questão fundamental: a idolatria da tecnologia comporta um entorpecimento psíquico. Aos olhos de observadores sucessivos, toda geração suspensa frente a uma grande mudança parece ter sido totalmente inconsciente da iminência e dos pontos fundamentais do próprio evento. Mas é necessário compreender o poder que as tecnologias têm de isolar os sentidos uns dos outros e, assim, hipnotizar a sociedade.

A fórmula da hipnose é “um sentido por vez”. Os nossos sentidos privados não são sistemas fechados, mas são incessantemente traduzidos uns nos outros naquela experiência sinestésica que chamamos de consciência. Os nossos sentidos difusos, instrumentos ou tecnologias são, pelo contrário, sistemas fechados, incapazes de interação. Toda nova tecnologia diminui a interação e a consciência dos sentidos justamente na área à qual essa tecnologia se dirige: verifica-se uma espécie de identificação entre observador e objeto. (...)

A nova tecnologia eletrônica, porém, não é um sistema fechado. Enquanto extensão do sistema nervoso central, ela tem a ver justamente com a consciência, com a interação e com o diálogo. Na era eletrônica, a própria natureza instantânea da coexistência entre os nossos instrumentos tecnológicos tem dado lugar a uma crise totalmente inédita na história humana. As nossas faculdades e os nossos sentidos difusos já constituem um único campo de experiência, e isso requer que eles se tornem coletivamente conscientes, como o próprio sistema nervoso central. A fragmentação e a especialização, traços característicos do mecanismo, são ausentes. Assim como somos inconscientes da natureza das novas formas eletrônicas, também somos manipulados por elas.

(...) Os modos de pensar gerados pela cultura tecnológica são muito diferentes dos modos favoritos da cultura da imprensa. A partir do Renascimento, a maior parte dos métodos e dos procedimentos objetivou fortemente enfatizar a organização e a aplicação visual do saber. Os pressupostos latentes na segmentação tipográfica se manifestam na fragmentação das funções e na especialização das atividades sociais.

A escrita favorece a linearidade, ou seja, uma consciência e um modo de operar segundo o princípio “uma coisa por vez”. Daí deriva a cadeia de montagem e a ordem de batalha, a hierarquia administrativa e a divisão em departamentos que caracterizam as estruturas acadêmicas. Gutenberg nos deu análises e explosão. Fragmentando o campo da percepção e da informação em segmentos estáticos, realizamos coisas maravilhosas.

As mídias eletrônicas operam, entretanto, de um modo diferente. A televisão, o rádio e o jornal (que, por sua vez, estava ligado ao telégrafo) têm a ver com o espaço acústico, isto é, com a esfera de relações simultâneas criada pelo ato de escutar. Nós ouvimos sons provenientes de todas as direções no mesmo momento. Isso cria um espaço único, não visualizável. A simultaneidade do espaço acústico é exatamente o contrário da linearidade, do fazer uma coisa por vez. É muito desconcertante dar-se conta que o mosaico de uma página de jornal é “acústico” na sua estrutura fundamental.

Isso, porém, quer dizer apenas que qualquer estrutura – cujos componentes coexistam sem conexões ou ligações diretas e lineares, e criem um campo de relações simultâneas – é acústica, mesmo que alguns dos seus aspectos possam ser visualizáveis. As notícias e a publicidade que se encontram sob a data de um jornal são tidas em conjunto apenas pela data. Não tem nenhuma interconexão de natureza lógica ou discursiva. E, no entanto, formam um mosaico ligado à imagem empresarial, cujas partes se compenetram entre si. Esse é também o tipo de ordem que tende a se constituir em uma cidade ou em uma cultura. É uma unidade de tipo orquestral e vibrante, não a unidade do discurso lógico.

O poder tribalizante das novas mídias eletrônicas, o modo pela qual elas se reportam à dimensão unificada das antigas culturas orais, à coesão tribal e a esquemas de pensamento pré-individualistas não foi realmente compreendido. O tribalismo é o sentimento de uma profunda ligação de família, é a sociedade fechada como norma da comunidade. A escrita, enquanto tecnologia visual, dissolveu a magia tribal, colocando o acento na fragmentação e na especialização, e criou o indivíduo. Por outro lado, as mídias eletrônicas são formas de grupo. As mídias eletrônicas do homem de uma sociedade alfabetizada reduzem o mundo a uma tribo ou a um vilarejo em que tudo ocorre no mesmo momento: todo mundo conhece e, portanto, participa de todas as coisas que ocorrem no momento em que elas ocorrem.

(...) Tornamo-nos como o homem paleolítico mais primitivo, novamente vagabundos globais. Mas somos agora coletores de informação, mais do que de alimento. De agora em diante, a fonte de alimento, de riqueza e da própria vida será a informação. Transformar tal informação em produto, neste momento, é um problema que se refere aos especialistas de automação e não é mais uma questão que comporta a máxima divisão do trabalho e das capacidades humanas. A automação, como todos sabemos, permite não levar em conta a força de trabalho. Isso aterroriza o homem mecânico porque ele não sabe o que fazer na fase de transição, mas significa simplesmente que o trabalho acabou, morreu e foi sepultado.

(...) Quando novas tecnologias se impõem na sociedade habituada há muito tempo a tecnologias mais antigas, nascem ansiedades de todo o gênero. O nosso mundo eletrônico necessita, então, de um campo unificado de consciência global. A consciência privada, adaptada ao homem da era da imprensa, pode se considerar como um nó insuportável com relação à consciência coletiva requerida pelo fluxo eletrônico de informações. Nesse impasse, a única resposta adequada pareceria ser a suspensão de todos os reflexos condicionados. Penso que, em todas as mídias, os artistas respondem antes de tudo aos desafios impostos pelas novas pressões. Gostaria que eles nos mostrassem também modos de viver com a nova tecnologia sem destruir as formas e as conquistas anteriores. Por outro lado, as novas mídias não são brinquedos e não deverão ser colocados nas mãos da Mamãe Ganso ou do Peter Pan. Podem ser confiadas só aos novos artistas.

> No Brasil, a cada cinco casas, uma tem acesso à internet. (setembro de 2008)

‘O Ocidente não deve impor a sua visão de mundo a outras culturas’

Do IHU Online

Philippe Descola tem esse ar inconfundível dos exploradores de boa vontade que se dão ao trabalho de pesquisar as sociedades primitivas com a intenção de aprender de outras culturas e sem vaidades de superioridade.

Nascido em Paris em 1949, discípulo do célebre Claude Lévi-Strauss e um dos melhores antropólogos culturais do mundo, procede de uma família de hispânicos em que seu avô lhe ensinou algo tão fundamental para a vida como os nomes das flores e das estrelas. Fruto de seu conhecimento do espanhol e de seu gosto pela natureza, o jovem antropólogo Descola se embrenhou com apenas 25 anos na Amazônia equatoriana para estudar uma sociedade de jivaros que apenas havia sido contatada.

A reportagem é de Miguel Ángel Villena e publicada no jornal espanhol El País, 29-01-2009. A tradução é do Cepat.

“Ali me encontrei com uma sociedade muito primitiva”, lembra Descola no Instituto Francês de Madri, onde, nesta semana, deu uma conferência. “Apenas um rapaz falava algumas poucas palavras em espanhol”, prossegue, “no final de alguns meses aprendi algo do idioma nativo e comecei a compreender que na sua forma de ver as coisas não existe a separação entre cultura e natureza.

De fato, eles não distinguem entre humanos e não humanos, porque os animais e as plantas também dispõem do que poderíamos entender como alma. Por exemplo, muitos povos amazônicos não tratam as plantas em termos utilitaristas de cultivo ou de produção, mas que as mulheres mantêm uma relação materno-filial com as árvores ou as flores. Entretanto, os homens se relacionam com os animais como se fizessem parte da família”.

Na opinião do antropólogo, todas as cosmologias – desde aquelas entesouradas por tribos em selvas isoladas até aquelas observadas em sociedades da China ou da Índia na atualidade – integram cultura e natureza. Todas, salvo o Ocidente. Descola, um autêntico especialista nesta matéria, sobre a qual publicou vários livros, argumenta que a revolução científica do século XVII na Europa significou o surgimento de descobertas, como o microscópio ou o telescópio, que permitiram converter a natureza em algo autônomo e observável. “A partir de então”, aponta com seu tom didático, “nossa cosmologia serviu como modelo para entender as cosmologias de outros povos. Pois bem, nossa cosmologia não pode ser uma pauta e o Ocidente não deve impor sua visão de mundo a outras culturas”.

Sem nenhum alarde de catastrofismo, mas com a firmeza de um cientista, Descolavaticina que o planeta caminha para o desastre caso não se respeitar a natureza. “É preciso parar essa corrida louca de ataques ao meio ambiente”, sentencia o autor do livro Para além de natureza e cultura (Gallimard, 2005), que será publicado em breve na Espanha.

Na sua opinião, a consciência ecológica que se desenvolveu nas últimas décadas contribuiu, sem dúvida, para aumentar a preocupação sobre problemas como a biodiversidade ou o aquecimento global. “Não obstante”, matiza o antropólogo francês, “nossa forma ocidental de conceber a natureza como algo da sociedade e da cultura segue marcando os esquemas mentais da maioria das pessoas”.

Para Philippe Descola, “é preciso defender a diversidade biológica e a diversidade cultural porque, em última instância, são a mesma coisa”. “Para viver num mundo em que valha a pena viver”, assinala, “devemos surpreender-nos com uma enorme diversidade de respostas para diferentes desafios. Essa aspiração a se deixar surpreender é aquilo que dá sabor à vida e que age como um antídoto contra a uniformidade e a rotina”.

Quando se pergunta pelo que aprendeu dos índios amazônicos, Descola não vacila: “Que cada dia amanhece para eles com uma total virgindade”.

Fotos de índios no Acre chamam a atenção para tribos na Amazônia e têm repercussão internacional. (maio de 2008)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Pesquisador estima que existem no mundo 29 milhões de escravos

Autor de "Tráfico Sexual", Siddharth Kara desenvolve modelo para calcular receitas e despesas da atividade e estima em mais de US$ 35 bilhões ao ano o lucro da escravidão sexual

Pedro Dias Leite, de Londres, da Folha de S.Paulo

A escravidão sexual é um negócio como outro qualquer e, para combatê-la, o modo mais eficaz é atacar o problema pelo lado econômico, diz Siddharth Kara, autor de "Sex Trafficking -Inside the Business of Modern Slavery" (Tráfico Sexual -Por Dentro do Negócio da Escravidão Moderna, Columbia University Press, 320 págs., US$ 24,95, R$ 57).

Em entrevista à Folha, ele analisa o tema pelo lado da oferta e da procura, das receitas e das despesas, isto é, do lucro. Com mais de 400 entrevistas, viagens por 14 países e seis anos de análises, Kara construiu modelos para chegar ao número de escravos no mundo, destrinchar esse mercado e buscar formas de combater o problema.

Em suas contas, existem 29 milhões de escravos no mundo, 1,3 milhão explorados sexualmente. Apesar de responderem por 4% do total, sua atividade gera 40% dos lucros da escravidão moderna atualmente. Por ano, ao menos 500.000 novas pessoas são vítimas de tráfico sexual.

O interesse pelo assunto surgiu quando Kara foi voluntário, por alguns meses, num programa de ajuda a refugiados na Guerra da Bósnia (1992-95), e o livro começou a ser produzido num MBA na Universidade Columbia, a partir de 2000. Leia abaixo as ideias e as explicações do autor.

FOLHA - Por que fazer análise econômica de um problema tão diretamente ligado aos direitos humanos?

SIDDHARTH KARA - Escravidão é obviamente uma violação dos direitos humanos, mas é também fundamentalmente um crime econômico, que procura maximizar os lucros ao diminuir os custos do trabalho. Para entender, analisar e combater a escravidão moderna, até agora não tinha sido feito um estudo econômico do problema, o que resulta em políticas falhas e desordenadas.

FOLHA - Como funciona a análise?

KARA - Criei um modelo financeiro -com base em minhas viagens, análises e estatísticas- para construir um panorama econômico geral da escravidão moderna. O livro enfoca o tráfico sexual, que é a mais grotesca e selvagem forma de escravidão contemporânea. Apesar de apenas 4% dos escravos no mundo serem sexuais, eles geram quase 40% do lucro para os donos de escravos do mundo todo.

FOLHA - Como é possível saber isso, já que a escravidão não é um negócio transparente, que permita esse tipo de cálculo?

KARA - O modelo que criei analisa país por país, região por região: como se faz dinheiro, quanto dinheiro se ganha e quais os custos da atividade.

FOLHA - Como assim?

KARA - Vou dar um exemplo. Na América do Norte, normalmente os escravos sexuais são utilizados em bordéis ou casas de massagem. Do lado da receita, temos quatro, cinco ou seis escravos, que vão fazer em média de 15 a 20 atos sexuais por dia. Em todos os meus cálculos, tento ser extremamente conservador, então colocaria algo entre oito e dez relações, considerando-se que alguns escravos podem ficar doentes ou tentar fugir. Também há coleta de dados sobre o preço médio da compra de um ato sexual comercial, o que nos EUA é de US$ 27 a US$ 30 para um escravo. Em outros países, um bordel venderia camisinhas, salgadinhos, bebidas, mas você dificilmente encontraria isso nos EUA, então sua receita está limitada basicamente aos escravos. No lado dos custos, você tem o óbvio: aluguel, alimentação para os escravos, funcionários -como um contador e seguranças-, pagamentos para o crime organizado em alguns países, propinas para agentes do governo e por aí vai. Isso dá um relatório de receitas e despesas. Entram também contas mais complexas, como a aquisição e depreciação do escravo, além do custo de investimento, como camas.

FOLHA - E qual o resultado?

KARA - No final, você chega ao lucro líquido. Na escravidão sexual, fica em torno de 70% -entre 65% e 75%, dependendo de onde você está no mundo. Isso se compara com uma margem total em torno de 60% em todas as formas de escravidão. A taxa que eu calculei é de crescimento anual de 3,5%, globalmente, da escravidão sexual, enquanto as outras formas crescem de 0,5% a 1%. Há cerca de 29 milhões de escravos no mundo hoje em dia. Desses, 1,3 milhão são sexuais. O lucro total gerado por todas as formas de escravidão em 2007 foi de US$ 91,2 bilhões. O de escravidão sexual foi US$ 35,7 bilhões, quase 40%.

FOLHA - E o que esses dados dizem sobre como combater o problema?

KARA - Se você entender a mecânica econômica do tráfico sexual, fica claro que o apelo global do tráfico sexual é impulsionado pela capacidade de gerar imensos lucros sem quase nenhum risco. Quando escrevi meu livro, na Índia, por exemplo, a única punição econômica relevante prevista para o uso de escravos sexuais era uma multa de US$ 44 por explorar um bordel. Em minha análise, isso é comparado com o lucro de US$ 12.900 por escravo, por ano, nesse mesmo bordel, pela exploração dessa pessoa. Em países como a Itália e a Tailândia não existe nenhuma pena econômica associada à exploração de escravos sexuais. Claro que em todos os países há previsão de prisão, mas as penas são curtas. Mesmo em países que têm duras punições econômicas contra esses crimes, como EUA e Holanda, o nível de investigação, processo e condenação é tão minúsculo que o risco real associado a esses crimes é próximo de zero, contra os enormes lucros de dezenas de milhares de dólares por escravo. É preciso inverter essa relação, para uma resposta abolicionista global, com intervenção, recursos e proteção aos ex-escravos.

FOLHA - Mas o que disse tem fins práticos? Cooperação global é um termo muito usado, mas com poucos resultados concretos.

KARA - Essa indústria é como qualquer outra, movida por oferta e procura. Do lado da oferta, é beneficiada por pobreza, doença, conflitos militares, instabilidade social, com viés agudo de gênero e etnicidade. Essas são forças enormes, que levarão tempo para serem confrontadas. Se formos erradicar a escravidão no longo prazo, esses problemas terão de ser resolvidos. Já o lado da demanda nos dá a oportunidade de ações de mais curto prazo. Ele é movido por: 1. demanda masculina por sexo; 2. demanda dos donos dos escravos por lucro; 3. demanda do consumidor por um preço menor de venda. Essas duas últimas são as que nos dão uma chance de intervenção. Em todos os países que visitei, o preço do ato sexual caiu constantemente em razão do crescente uso de escravos. A escravidão permite um custo quase zero do trabalho, que normalmente é o maior custo de um negócio. Assim, quanto mais baixo é o preço, mais consumidores. Quanto mais consumidores, maior o desejo do dono de escravos por mais escravos, e é isso que é preciso atacar. É necessária uma coalizão para atacar a lucratividade e aumentar os riscos.
Calculei quantas horas de trabalho, com base no PIB per capita de cada país, são necessárias para comprar uma hora de sexo comercial de um escravo. Nunca leva mais de duas horas, e isso diz quase tudo o que se precisa saber sobre a mortal lei da oferta e da procura nesse negócio.

Supervalorizada, escrava do Brasil vale 5.000

Os escravos sexuais brasileiros, na maioria mulheres jovens de zonas rurais, têm um valor relativamente mais alto no mercado internacional, especialmente na Itália, tanto para aquisição quanto em termos de preço do "ato sexual comercial", diz Siddharth Kara.

Uma comparação entre 12 países revela que o Brasil lidera no preço de compra da escrava e na hora cobrada no mercado italiano.

Segundo tabela que consta do livro lançado pelo pesquisador, a mulher brasileira é vendida em média por 5.000 (cerca de R$ 15 mil), e seu "ato sexual comercial" custa em torno de 40. O país aparece à frente de Rússia ( 3.500 pela mulher, 30 pela relação sexual), Romênia ( 2.000 e 20, respectivamente) e mais nove países, a maioria do Leste Europeu.

De acordo com o autor, as brasileiras acabam vítimas de um mecanismo mais "sofisticado" desenvolvido no país, em que as escravas sexuais passam por uma "triagem" ou "estágio" nos grandes centros urbanos antes de serem "exportadas".

"O processo em duas etapas -tráfico interno seguido de tráfico internacional- é um desenvolvimento novo, baseado num modelo de negócio mais sofisticado. As escravas ficam menos resistentes, então se avalia quais serão mais facilmente exploradas no exterior -com menos chances de escapar", diz. "Outras são traficadas internacionalmente desde o início."

Na escravidão em geral, o Brasil é um dos países mais lucrativos para o crime: os escravos que trabalham em carvoarias são a terceira categoria mais lucrativa no mundo, só atrás dos que são explorados sexualmente e dos que são usados para o tráfico de órgãos. Os lucros da escravidão nas carvoarias do país são de US$ 7.500 por ano, por escravo, pelos cálculos do autor.

"No Brasil, a escravidão por dívida é uma das principais formas e ocorre principalmente na agricultura e nas carvoarias, nas zonas rurais do país", diz Kara.

 

Prostitutas não querem ser salvas, afirma socióloga

Ernane Guimarães Neto, da Folha de S.Paulo

Leis duras penalizando clientes da prostituição e operações para fechar bordéis clandestinos são alguns dos esforços para combater a escravidão sexual; mas a maior parte dos trabalhadores estrangeiros resgatados não é escrava e não quer ser salva, defende uma socióloga que há cerca de 15 anos trabalha com ONGs de prevenção da Aids e de organização comunitária pelo mundo.

Para Laura Agustín, autora de "Sex at the Margins - Migration, Labour Markets and the Rescue Industry" [Sexo nas Margens - Migração, Mercados de Trabalho e a Indústria do Resgate, Zed Books, 224 págs., US$ 31,95, R$ 73], o Primeiro Mundo impõe a vitimização e a criminalização das prostitutas migrantes, pessoas que, em geral, se enquadram melhor no perfil de migrantes ilegais do que de escravos.

"É culpa do feminismo. Nem todas as feministas pensam assim, mas há o "feminismo fundamentalista", para o qual a prostituição é sempre uma violência, portanto não pode ser tolerada."

Acrescenta que a prevalência da ideia de que o sexo deve ser exclusivamente associado ao amor é um empecilho ao tratamento legal adequado para o vasto mercado do sexo -do "nu artístico" ao sexo por telefone e internet.

Agustín conta que, embora não tenham originalmente a intenção de trabalhar na indústria do sexo, as prostitutas migrantes em geral fazem uma opção consciente -já que as alternativas de trabalho equivalem a não ganhar o suficiente para ajudar suas famílias.

FOLHA - A sra. diz que transita pelas "zonas cinzentas" entre as ideias de prostituição como violência e de sexo como opção de trabalho. Por que não defende simplesmente a formalização da prostituição?

LAURA AGUSTÍN - Porque trabalho com migrantes. Muitas não se veem como prostitutas ou "trabalhadoras do sexo". Dizem: "Eu trabalho à noite", "trabalho num bar", elas têm vergonha. Mas escolheram esse trabalho, não foram forçadas.

FOLHA - Que casos de regulamentação dos trabalhadores do sexo podem ser considerados exemplares?

AGUSTÍN - Quanto à questão do preconceito contra imigrantes, é sempre um problema; se você já tem a documentação e o direito de circular no país, a situação é outra. Na Alemanha e na Holanda, há as regiões legalizadas, mas ainda são experimentais, portanto cheias de problemas. Em alguns casos, as pessoas simplesmente evitam a legalidade para não pagar impostos.

Na Espanha, onde há muitas mulheres e muitos travestis brasileiros, não há lei proibindo a prostituição; por outro lado não há regulamentação.

FOLHA - Brasileiras que viajam sozinhas à Europa frequentemente reclamam de preconceito...

AGUSTÍN - É verdade, o estereótipo existe, embora não haja hoje mais prostitutas brasileiras do que ucranianas, por exemplo. O fato é que as brasileiras chegaram antes, nos anos 1980. Nos últimos cinco ou dez anos, chegam pessoas de outros países do Leste Europeu, estonianas loiras e altas. Mas diga às brasileiras que seria pior se fossem dominicanas. Como a migração da República Dominicana estabeleceu-se desde o início dos anos 80, há uma séria associação da nacionalidade com a prostituição.

FOLHA - Em artigo da semana passada, a sra. critica a estatística, recém-publicada pelo governo dos EUA, segundo a qual apenas 10% dos casos de tráfico de trabalhadores relatados no país [1.229 incidentes de janeiro de 2007 a outubro de 2008, 83% no mercado de sexo] foram comprovados como "tráfico". A maioria deveria ser considerada contrabando de pessoas, migração ilegal, em vez de tráfico?

AGUSTÍN - Não sei. Há o terrível tráfico, mas há o contrabando. O que impressiona é que, se tão poucos casos foram provados, algo está errado: o número maior é um arbítrio? Ou as pessoas envolvidas não quiseram denunciar esse "tráfico"?

FOLHA - Isso nos leva ao caso das prostitutas na Tailândia, que defenderam o direito de não serem "resgatadas".

AGUSTÍN - Acontece que não há alternativa. Elas mesmas dizem que, das opções que existem, preferem a prostituição. Poderíamos criticar a política social da Tailândia ou de Mianmar, mas isso não adiantaria.

FOLHA - Parece o mesmo que dizer que, se o tráfico de drogas tem clientes dispostos a comprar, movimenta a economia e dá opções a crianças de favela, deve-se admitir que continue assim.

AGUSTÍN - Sim, é a mesma coisa. O que se enfatiza em nossa sociedade é a proibição. Não há prova de que a proibição funcione, de que vai afastar as pessoas do sexo ou da droga. Meu interesse é descobrir alternativas. Tenho investigado essa indústria do resgate, que diz: "Vamos salvá-lo, queira ou não".
Você tira mulheres de um lugar onde ganhavam dinheiro, prende num "abrigo" e lhes dá um sermão. É loucura.

FOLHA - A sra. acusa o Primeiro Mundo de exportar a falsa premissa de que o sexo tem de ser acompanhado sempre de amor, o que não é necessariamente verdade em outras culturas...
AGUSTÍN
- Sim, é uma premissa falsa.

FOLHA - Mas isso não é uma contradição com o fato de o Primeiro Mundo protestante ser muito mais liberal do que países católicos, como os da América Latina, que fornecem a mão-de-obra para o sexo?

AGUSTÍN - Não acho que a religião seja o fator mais importante nesse caso. O que há é que alguns impõem valores aos outros. Em países como Noruega e Suécia, as pessoas acreditam que estão no topo do mundo; fizeram leis que criminalizam o cliente [da prostituição], justamente por causa da utopia de igualdade defendida pelas feministas fundamentalistas. Eles se adiantam à opinião pública, pois nem todos pensam assim, e a lei não muda a cultura de um dia para o outro. No entanto os legisladores fizeram isso. Essas pessoas pensam em termos de preto ou branco, sem zonas cinzentas. Não há provas de que proibir explicitamente a prostituição nos EUA -as duas exceções são Nevada e Rhode Island- tenha ajudado em alguma coisa. Não diminuiu a demanda, mas as pessoas são presas por isso. O que é necessário é uma mudança cultural. Por isso meu foco passou a ser não os migrantes que vendem sexo, mas as pessoas que os ajudam. Elas fazem o que é "certo" de acordo com suas próprias identidades. Querem ajudar os desafortunados, mas acabaram impondo seus valores.

FOLHA - O novo presidente dos EUA, Barack Obama, é um símbolo dessa "mudança cultural"?

AGUSTÍN - Ele fez uma coisa significativa: acabou com a "mordaça global", norma segundo a qual, se quisesse receber financiamento para combater a Aids, uma ONG teria de se declarar contra a prostituição, entre outros requisitos. No caso do tráfico de pessoas, não espero muita diferença. Quanto aos direitos para trabalhadores do sexo, isso é legislação estadual, portanto nada vai mudar.

> Europa tem 75 mil prostitutas brasileiras (maio de 2008)