terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dekasseguis protestam contra onda de demissões

por Andrea Vialli, do Estado de S.Paulo

A crise econômica está fazendo com que o sonho dekassegui se transforme em um pesadelo para os brasileiros no Japão. Com a piora da economia japonesa em dezembro, as ondas de demissões têm atingido os trabalhadores dekasseguis, em especial nas indústrias automobilística e de eletroeletrônicos. Além da perda do emprego, muitos acabam perdendo também a moradia, e já é percebido um aumento do número de brasileiros sem-teto nas ruas de grandes cidades como Tóquio.

“O quadro é dramático”, disse, por telefone, o sindicalista Francisco Freitas, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Estrangeiros no Japão e do Sindicato dos Metalúrgicos da província de Shizuoka. Na semana passada, Freitas reuniu, nas ruas de Hamamatsu, 250 trabalhadores brasileiros recém-demitidos em um protesto contra a perda do emprego. A ideia era sensibilizar o governo japonês.



Atualmente, os trabalhadores estrangeiros são 2% da população do Japão. Só brasileiros, são 320 mil contratados regularmente no país. Com a queda nas vendas da indústria de carros e eletroeletrônicos, os estrangeiros são os primeiros a serem demitidos. Em muitos casos são substituídos por estagiários do norte da China, Indonésia e Vietnã, que recebem US$ 3 por hora de trabalho. Os brasileiros e outros estrangeiros legalizados custam US$ 12 por hora para a indústria. “Como o emprego do cidadão japonês é protegido por leis rígidas, os estrangeiros são os primeiros a sentir os cortes”, disse Freitas.

Francisco Hirata mora em Minowa, na província de Nagano, que concentra fábricas de eletroeletrônicos e tem a terceira maior população de brasileiros do Japão. “Sabemos de pessoas que estão passando por privações”, disse, também por telefone, Hirata, que está de aviso prévio. A empresa para a qual trabalha até 31 de janeiro, a Anec, faz monitores para computadores e demitiu 80 trabalhadores. Sua esposa, Angela, trabalhou até 26 de dezembro.

Ambos vão procurar uma agência para estrangeiros e dar entrada no pedido de seguro desemprego. O benefício é garantido a estrangeiros em situação legal, mas não chega a 70% do salário da ocupação anterior. “Vamos tentar mais um pouco”, disse Hirata. Com uma filha de cinco anos nascida no Japão, o plano era ficar no país até 2011. Se não conseguirem, fazem as malas e voltam ao Brasil.

A brasileira Thaís Yamamoto também passou por um “kubi” (corte de pessoal). Foram 120 demitidos, entre brasileiros, chineses, filipinos e peruanos. Mas conseguiu ser recontratada. “De 120, restaram dois. Estou em uma situação privilegiada”, disse, por ainda ter emprego e por ter alugado a casa em que vive por conta própria, sem intermédio das empreiteiras, empresas que fornecem mão-de-obra estrangeira.

Thaís está no Japão há oito meses. Com ela, vivem o irmão Eduardo, a cunhada Elianee o sobrinho Pedro, de seis anos, além de um casal de brasileiros que também perdeu o emprego. “Íamos ficar quatro anos. Se a crise não amenizar, volto para o Brasil em outubro.” A cunhada de Thaís também foi demitida da Goyo, fabricante de telas para televisão - na empresa, 800 perderam o emprego.

Um dos efeitos colaterais mais penosos para os brasileiros que perdem o emprego no Japão é a perda simultânea de moradia. A maioria dos brasileiros trabalha por meio das empreiteiras, que fornecem apartamentos para os casados e alojamentos para os solteiros. Com as demissões, eles têm de desocupar os imóveis.

“Um desempregado, mesmo com dinheiro na mão, não atende às exigências de locação”, disse o sindicalista Francisco Freitas. “Muita gente está improvisando barracos sob viadutos. Era um cenário, há até pouco tempo, improvável no Japão”.

As manifestações realizadas pelos movimentos sindicais para sensibilizar a opinião pública começam a dar os primeiros resultados. Na província de Shizuoka, o governo ofereceu aos estrangeiros 125 apartamentos que podem ser alugados por até um ano, sem fiador ou caução, a valores subsidiados. Caso o número de inscritos supere o de imóveis, os inquilinos serão escolhidos por sorteio.

Muitos brasileiros querem voltar e não conseguem. Como o custo de vida no Japão é alto, quem mora há pouco tempo no país encontra dificuldades para fazer poupança. Mesmo assim, há muitos tentando. Os voos de Tóquio a São Paulo estão praticamente esgotados até abril. “Só sobraram os assentos mais caros”, disse ao Estado um funcionário da Japan Airlines.

A solução encontrada pelos dekasseguis é recorrer à solidariedade. Há 15 anos no Japão, o padre Evaristo Higa acolhe e alimenta brasileiros empobrecidos. Com a crise, a distribuição de comida dobrou. Recentemente, uma equipe do Itamaraty acompanhou a distribuição de comida feita pelo padre.

Leico Haguino e o marido, Arney, passaram da condição de família classe média em Osaka para a de hóspedes na casa dos Yamamoto, em Ueno. Ela e o marido trabalhavam na Canon, fabricante de máquinas fotográficas. A linha de produção foi transferida para a China, atrás de mão-de-obra mais barata. Se conseguir se livrar de um financiamento de automóvel (uma dívida de 500 mil ienes, ou R$ 8 mil), o casal deixa o Japão. “Estamos loucos para voltar para o Brasil.”

> Recessão no Japão: dekasseguis são os primeiros nas listas de dispensa. (novembro de 2008)

> Brazucas.

Via Láctea é maior do que se pensava, sugere novo mapa

 

Da AP

Andrômeda que se cuide. Durante décadas, os astrônomos pensaram que a Via Láctea, galáxia que abriga o Sistema Solar, fosse uma irmã menor de Andrômeda, a galáxia vizinha. Isso acaba de mudar.

A Via Láctea é consideravelmente maior, mais pesada e gira mais depressa do que os pesquisadores imaginavam. Um mapa tridimensional mais detalhado da galáxia mostrou que ela é 15% mais larga. E, o mais importante, também é 50% mais densa. As novas medidas foram apresentadas ontem na convenção da Associação Astronômica Americana.

É uma diferença significativa, disse Mark Reid, astrônomo do Centro Harvard-Smithsonian de Astrofísica, em Cambridge (EUA), autor da medição. O cientista dá as próprias medidas como exemplo: é como se ele saísse dos seus atuais 1,65 m e 65 kg para 1,90 m e 95 kg. "Antes nós achávamos que Andrômeda fosse dominante e que nós [a Via Láctea] fôssemos sua irmãzinha menor", disse Reid. "Mas agora parece que somos gêmeas fraternas."

Isso não é necessariamente uma boa notícia. Uma Via Láctea maior e mais densa exerceria uma atração gravitacional maior, e poderia se chocar com Andrômeda mais cedo e de forma mais violenta do que o previsto. Mas não se preocupe: ainda assim, isso seria daqui a 2 bilhões ou 3 bilhões de anos.

Reid e seus colegas usaram um grande conjunto de dez radiotelescópios para medir as estrelas recém-nascidas mais brilhantes da galáxia em momentos diferentes do ano (ou seja, em posições diferentes da órbita da Terra ao redor do Sol). Eles fizeram um mapa dessas estrelas, levando em conta não só sua posição inicial mas também o tempo -algo que, segundo Reid, nunca havia sido feito.

Com isso, o grupo conseguiu determinar a velocidade com a qual a espiral da Via Láctea gira em torno de seu núcleo. Essa velocidade -cerca de 915 mil quilômetros por hora- é maior que os 792 mil quilômetros por hora que os cientistas vinham usando havia décadas. É um salto de 15% na velocidade radial, disse Reid.

Uma vez que a velocidade foi determinada, fórmulas complexas foram usadas para calcular a massa de toda a matéria escura da Via Láctea, o que deu a massa final da galáxia -a matéria escura, que não pode ser vista, é responsável pela maior parte da massa do Universo.

Segundo o astrofísico Mark Morris, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, o trabalho "faz sentido", mas ainda não é a palavra final sobre o tamanho da Via Láctea.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Médico e paciente devem escolher o melhor tratamento para câncer de próstata

 
MIGUEL SROUGI, especil para a Folha

O PASSAR dos anos, com suas desfigurações incontornáveis, é acompanhado de tamanha deterioração dos nossos genes que, se fosse dado ao homem o privilégio da imortalidade, o mundo seria inundado por seres altamente imperfeitos. Talvez por isso, a pressão evolucionista ou Deus (na ordem ou exclusividade que você preferir) tenha criado um mecanismo impiedoso para conter os anseios de perenidade da mente humana: o câncer da próstata, que atinge cerca de 10% dos homens com 50 anos, 30% daqueles com 70 anos e 100% dos que chegam aos cem anos.

Vivem atualmente no Brasil cerca de 12 milhões de homens com mais de 50 anos, e 2 milhões deles serão atingidos pelo câncer da próstata. Essa estatística alarmante contrapõe-se a outra mais alentadora. De cada 14 pacientes acometidos pelo mal, apenas 1 morrerá pela doença, o que produz uma conclusão óbvia. A maioria dos pacientes sobrevive ao câncer, alguns por portarem tumores indolentes, que não progridem, muitos outros graças às ações médicas reparadoras.

Duas condições aumentam os riscos de contrair o câncer da próstata: a raça e a ocorrência de casos na família. A frequência desse tumor é 70% menor em homens orientais. Por outro lado, negros têm o dobro da incidência e neles o tumor costuma ceifar mais vidas. Estudos recentes patrocinados pela American Cancer Society sugerem que esse comportamento está relacionado com certa tendência hereditária e com marginalização social e menor acesso aos tratamentos curativos, fenômeno perverso que, certamente, se repete numa sociedade tão injusta como a nossa.

Sabe-se, há muito, que a incidência do câncer da próstata aumenta entre duas e cinco vezes quando o pai ou o irmão são portadores do mal. Nos casos hereditários, o tumor manifesta-se em idades mais precoces. Por isso, homens com histórico familiar devem realizar exames preventivos da próstata a partir dos 40 anos, e não após os 45, como se recomenda hoje.

Obesidade, vasectomia e excesso de atividade sexual, lembrados como possíveis causadores do câncer da próstata, não parecem ter vínculo com a doença. Contudo o tumor em homens obesos costuma evoluir de forma mais desfavorável. Por outro lado, maior frequência de atividade sexual talvez até iniba o aparecimento do câncer da próstata.

Uma pesquisa que foi patrocinada pelo National Institute of Health dos EUA e envolveu 29 mil homens revelou que a incidência desse câncer é 33% menor nos indivíduos que ejaculam mais do que cinco vezes por semana. Alegro-me em relatar esse estudo, enfim uma boa notícia no meio de linhas tão áridas, lembrando que, ao se exercitar bastante, o homem também evita a obesidade, atenuando a gravidade da doença se ela insistir em aparecer.

Para explorar a presença de câncer da próstata, os especialistas recorrem ao exame de toque e às dosagens de PSA no sangue. Esses dois exames devem ser feitos conjuntamente, já que o toque e o PSA, isolados, falham, respectivamente, em 50% e 25% dos casos atingidos pela doença. Executando-se os dois testes, deixam de ser identificados apenas 7% ou 8% dos pacientes acometidos. A simplicidade dessas estatísticas poderia indicar que o diagnóstico do câncer da próstata é circundado por ideias consensuais. Infelizmente, isso está longe de ser real.

Em primeiro lugar, o toque da próstata gera assombros na mente masculina, sobre os quais têm sido dedicadas incontáveis linhas e intrincadas interpretações psicológicas.

A verdade é que o toque costuma ser realizado em quatro ou cinco segundos, de forma indolor; para os mais recalcitrantes, gostaria de dizer que muito pior do que o desconforto psicológico de alguns segundos é o flagelo que perdura por anos quando um câncer é descoberto tardiamente. Em segundo lugar, o PSA, produzido exclusivamente pela próstata, encontra-se aumentado nos pacientes com câncer, mas também pode elevar-se em alguns casos de crescimento benigno, de infecção da glândula ou até em homens sem nenhuma doença local. Níveis alterados de PSA exigem avaliação médica, mas não indicam, necessariamente, a existência de câncer. Conhecendo-se as taxas de PSA no sangue e o resultado do toque, é possível calcular as chances de câncer da próstata.

Em terceiro lugar, novos exames para identificar a doença vêm sendo testados. Incluem-se aqui as proteínas PCA3, PGC e EPCA-2, que estão alteradas nos homens portadores da doença e que, talvez, sejam mais precisas do que o PSA. Confirmadas essas observações, estarão criados instrumentos adicionais para descortinar os novos casos de câncer da próstata. De forma auspiciosa para alguns, os urologistas talvez possam anunciar o fim do toque prostático. Finalmente, uma recomendação recente do Inca (Instituto Nacional de Câncer) desaconselhou os exames preventivos anuais da próstata. Segundo a nota, muitos casos de câncer da próstata são indolentes e, por isso, não progridem nem precisariam ser identificados.

Ações médicas contundentes nesses casos seriam desnecessárias e produziriam um sem-número de homens com a qualidade de vida comprometida pelas sequelas do tratamento.

Embora não tenha sido totalmente descabida, a recomendação do Inca, no mínimo, foi precipitada. Realmente, uma pesquisa publicada no ano passado pelo National Cancer Institute dos EUA concluiu que, entre os casos de câncer da próstata descobertos em exames preventivos, cerca de 15% são do tipo indolente, 25% já são avançados e incuráveis e 60% têm doença agressiva, mas curável se tratada a tempo.

Fica claro que, sob o argumento de evitar tratamentos desnecessários em 15% dos pacientes, serão prejudicados 60% dos homens com tumores potencialmente curáveis e que deixarão de ser identificados no momento propício.

Com a esperança de reduzir a incidência do câncer da próstata, dieta e suplementos têm sido recomendados pelos especialistas. Infelizmente, dados emergentes indicam que os três agentes mais difundidos, o licopeno (encontrado no tomate), a vitamina E e o selênio, não têm a ação protetora que lhes foi atribuída e, pior, talvez sejam nocivos. Pesquisas das Universidades do Texas (EUA) e McMaster (Canadá) demonstraram um aumento nos riscos de complicações cardíacas e de diabetes nos indivíduos que já tinham propensão a esses problemas e que receberam vitamina E e selênio para prevenir o câncer da próstata.

Os casos indolentes de câncer da próstata não precisam ser tratados. Por outro lado, quando se chega à conclusão de que a doença deve ser combatida, a terapêutica é selecionada em função da extensão do câncer. Os pacientes com doença restrita à próstata são tratados com cirurgia (prostatectomia radical) ou radioterapia. Já os tumores que se estendem para outros órgãos do corpo são controlados com medicações hormonais, orientação que também é usada nos casos mais simples, que não precisam de terapêutica radical.

Uma certa polêmica envolve o tratamento dos pacientes com câncer circunscrito à próstata, gerando aflição nos portadores da doença. Cirurgiões e radioterapeutas proclamam que a prostatectomia radical e a radioterapia representam, respectivamente, a melhor maneira para tratar tais casos.

Na verdade, até o presente, não foram publicados estudos convincentes comparando diretamente esses dois métodos. Pesquisas antigas e indiretas sugerem que as chances de cura com a cirurgia radical são cerca de 10% a 15% maiores do que as obtidas com a radioterapia. Ademais, dados recentes demonstraram que, quando o tumor está totalmente contido na glândula, os riscos de o paciente morrer em decorrência da doença são, respectivamente, de 2% e de 5% após o emprego da cirurgia e da radioterapia.

Outras angústias permeiam a mente dos homens atingidos pelo câncer da próstata. A prostatectomia radical é acompanhada de impotência sexual em 80% dos homens com 70 anos, em 50% dos indivíduos com 65 anos e em 15% dos pacientes com menos de 55 anos. Ademais, produz incontinência urinária em 3% a 35%, dependendo da experiência do cirurgião e da idade do paciente. A radioterapia associa-se a riscos um pouco inferiores de problemas sexuais, mas, em 10% a 15% dos casos, surgem complicações intestinais e urinárias que podem persistir por anos.

Conscientes desses problemas, os cirurgiões introduziram duas novas técnicas para executar a prostatectomia radical: o método laparoscópico e as intervenções auxiliadas por um robô, conhecido como "da Vinci". Os dois métodos são executados através de pequenos orifícios, evitando as incisões maiores. A cirurgia assistida por robô permite, adicionalmente, uma visão tridimensional ampliada da próstata e adjacências, é facilitada pela existência de um terceiro braço manipulado pelo cirurgião e permite manobras mais precisas, já que a mão do robô realiza sete movimentos, e a mão humana, apenas quatro. Apesar do apelo que envolve o uso dessas técnicas, ditas minimamente invasivas, existem questões relacionadas que não foram ainda respondidas.

Complicações pós-operatórias mais graves têm sido observadas após a cirurgia laparoscópica, uma vez que o acesso mínimo nem sempre se traduz pela agressão mínima aos tecidos.

No caso da prostatectomia radical robótica, a principal limitação para a disseminação do seu uso é o elevado custo do equipamento. Seu valor atual, da ordem de US$ 2,5 milhões, torna-o inacessível à maioria dos centros brasileiros. Por isso, e enquanto não surgirem dados consistentes que demonstrem índices mais elevados de cura e de preservação da qualidade de vida dos pacientes tratados, deve continuar prevalecendo, em nosso meio, a indicação da cirurgia aberta. Por outro lado, é razoável que sejam instalados no país cinco ou dez centros dotados de robô, envolvendo cirurgiões experimentados, de modo que a técnica seja avaliada cientificamente. Comprovada sua superioridade, estaria justificada, dos pontos de vista médico e econômico, sua dispersão.

Como corolário, vale lembrar uma ideia consensual entre os especialistas: o sucesso na execução da prostatectomia radical está mais ligado à experiência do cirurgião e menos ao método cirúrgico utilizado. Lida de outra forma, mais importante do que a técnica escolhida é o técnico envolvido.

Os pacientes tratados com medicações hormonais podem deixar de reagir a esses tratamentos após alguns anos e, para eles, existe uma notícia auspiciosa. Uma nova droga, a abiraterona, foi recentemente testada na Inglaterra em pacientes com formas agressivas de câncer da próstata e mostrou intensa atividade antitumoral, inclusive nos casos resistentes aos tratamentos convencionais. Com baixa toxicidade, a droga fez a doença regredir em quase 70% dos pacientes, e muitos se mantinham bem quando o estudo foi publicado, em outubro último. Ainda indisponível, constitui uma esperança real na luta contra o mal.

Nestas linhas, fica claro que, ao dirigir um olhar para o câncer da próstata, vislumbram-se boas e más notícias, números decifráveis e estatísticas emblemáticas. Mais do que isso, percebe-se que, no entorno do câncer da próstata, existem seres humanos inseguros com o porvir, com aflições exacerbadas pelas divergências entre os especialistas e pelas incertezas dos tratamentos, que curam um grande número de pacientes, mas que podem comprometer a qualidade de vida desses indivíduos. Por esses motivos, um médico só exercerá com grandeza o seu papel de guardião do corpo e da alma se, tanto na saída como na chegada, levar em conta não apenas a doença mas também os sentimentos e os direitos de todos os seres de controlar seu próprio destino.

Com isso, quero dizer que médicos e doentes, num certo conluio durante a travessia, devem optar pela terapêutica mais eficiente quando a sobrevida for a questão mais relevante e escolher o tratamento menos agressivo quando as complicações possíveis forem intoleráveis para esse paciente -realidade que Riobaldo, o jagunço filósofo de Guimarães Rosa, sabia muito bem como descortinar: "Digo, o real não está na saída ou na chegada, ele se dispõe para a gente no meio da travessia".

MIGUEL SROUGI , 62, é pós-graduado em urologia pela Harvard Medical School (EUA) e professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo)

Nova droga contra câncer de próstata é 'maior avanço em 70 anos. (julho de 2008)

Travesti vence preconceito e faz doutorado

Cearense é 1ª pessoa nessa situação a alcançar um nível acadêmico tão alto no país, segundo entidade de defesa de gays

Luma Andrade estuda, em seu doutorado em educação na Universidade Federal do Ceará, o preconceito sofrido na escola pelos travestis

KAMILA FERNANDES, da Agência Folha, em Fortaleza

Desde os nove anos, João Filho Nogueira de Andrade sofre preconceito por ser "diferente". Agora, aos 31, para compreender essa rejeição, João Filho -ou melhor, Luma Andrade, como prefere ser chamada- ingressou no doutorado em educação na Universidade Federal do Ceará, tornando-se, oficialmente, o primeiro travesti a alcançar esse nível da carreira acadêmica no país, de acordo com a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Luma também é servidora concursada do Estado, na Secretaria da Educação. Coordena 28 escolas em 13 municípios do interior do Ceará.

A função permite que ela intervenha em casos como o de uma diretora que chamou os pais para reclamar que o filho era gay e de outra que queria impedir a entrada de alunos travestis que usassem batom.

"Falei que isso não era certo, que era imoral. É preciso que entendam que a própria Constituição garante o direito de todos à educação, sem discriminação", disse Luma, que sempre viveu em cidades do interior. Hoje, mora em Russas (165 km de Fortaleza).

O caminho de Luma, de acordo com ela mesma, tem sido bem diferente do vivido pela maioria dos travestis. Filha de analfabetos pobres, ela disse que já chegou até a receber convites para "fazer programas", mas que decidiu estudar para ajudar a família.

A primeira dificuldade enfrentada por ela foi na terceira série, quando, por só brincar com meninas, apanhou de um colega da sala.

"Quando fui chorando contar para a professora, ela virou e disse: "Bem feito, quem manda você ser desse jeito?" Eu era uma criança, mas percebi, então, que ela me via diferente e que me condenava."

Gracejos e pequenas agressões cometidas por colegas a acompanharam em todo o seu percurso escolar, o que só diminuía perto das provas, quando a procuravam para que ensinasse matemática.

Formada em ciências, com habilitação em biologia e química, pela Universidade Estadual do Ceará, Luma também sofreu para conseguir ser professora. Um diretor, segundo ela, ficou um mês a espiando dar aulas, enquanto outro tentou impedir sua posse, apesar das boas notas no concurso.

Entre os alunos, também há reações de estranhamento. "É sempre um choque quando chego. Daí tento mostrar que tudo bem, sou um travesti, mas sou, acima de tudo, um ser humano, com valores."

Luma lembra que viveu um de seus piores momentos quando entrou numa escola em Tabuleiro do Norte (211 km de Fortaleza). "Entrei na quadra e começou um coro dos alunos: "Veado, veado". Cheguei a ficar com um desespero, mas vi que não podia sair, que eles não tinham culpa, e então comecei um discurso para mostrar que não importa o que cada um é."

Para Luma, o preconceito reproduzido no ambiente escolar acaba por afastar os jovens travestis da sala de aula, condenando-os muitas vezes às ruas.
Para entender esse processo de exclusão social, ela começou a pesquisar, para a sua tese, casos de travestis que freqüentam escolas públicas. Ela deve concluir o doutorado até 2012.

Em trabalhos, Luma precisa assinar João

Ter um travesti entre os alunos foi uma novidade para o sociólogo da Universidade Federal do Ceará André Haguette, que leciona há 42 anos.

"Fora o aspecto físico, entre ela e os outros alunos não há diferença. Como é bom que uma pessoa nessa condição chegue aonde ela está chegando."

O estranhamento de professores, colegas e funcionários da universidade foi sentido por Luma Andrade logo nas primeiras aulas do doutorado, em agosto. Mas de uma forma menos agressiva do que em outros tempos -só olhares de espanto. Para ela, o status de doutoranda lhe atribui mais respeito.

"Essa surpresa que a gente está tendo é bacana, uma surpresa de acolhida. Mas ainda é uma surpresa, porque a Luma é inusitada. Espero que logo deixe de ser surpresa e passe a ser comum ver outros travestis em sala de aula", disse o colega Henrique Beltrão. "É nesse encontro com o outro que a gente vai superando preconceitos."

Luma usou um seminário em que tinha de apresentar o filósofo Karl Popper (1902-1994) para diminuir o estranhamento. "Demonstrei que, pelo método da indução de Popper, chega-se à conclusão de que todo travesti faz programa. Mas eu sou travesti e não faço programa e, por isso, é preciso desconstruir todas essas determinações e ver que há, sim, outras possibilidades."

Na vivência acadêmica, porém, há ainda um elemento que gera constrangimento: o uso de seu nome de batismo em publicações de artigos e apresentações. No seminário de abertura do doutorado, ao ser anunciada como João Filho, colegas tentaram corrigir o professor, aos sussurros: "É Luma".
"O nome me constrange. O sexo, não", disse ela, que agora vai recorrer à Justiça para tentar mudar o nome. (KB)

> Caso dos sargentos gays do Exército.