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‘Caro Bento 16, por que calas diante da violência contra os gays?’

do IHU On-Line

Bento16 "Em matéria de condenação das violências contra os homossexuais creio realmente que tenha chegado o tempo de falar, para não se tornar inconscientemente cúmplices daqueles desgraçados que, como o agressor de sexta-feira passada [de um jovem italiano que, por causa dos ferimentos, ainda está hospitalizado], se esquecem de sua humanidade quando vêem dois homens que trocam um beijo".

Essa é a opinião de Gianni Geraci, formado em estatística pela Universidade de Pádua. Depois de ter participado ativamente na vida de algumas associações católicas, entrou em contato com o Gruppo del Guado de Milão, um grupo de pesquisas sobre fé e homossexualidade. Em 1996, foi nomeado porta-voz da Coordenação de Grupos de Homossexuais Cristãos na Itália. O artigo foi publicado no jornal Il Guado, 25-08-2009. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o texto.

Já sei que muitos se escandalizarão quando lerem esta carta. Outros se porão a rir e me dirão que sou o costumeiro ingênuo que procura mudar o mundo escrevendo cartas inúteis. Algum anticlerical me acusará, depois, de alimentar a ilusão que haja em minha igreja alguém que escuta os homossexuais crentes como eu. Algum outro ainda excluirá o email com o qual decidi tornar público este meu texto e talvez me solicite não mais importuná-lo com aquelas que ele considera “lamúrias”.

Como vês, caro Papa, escrevendo-te corro o risco de causar incômodo a muitos.

Entre estes também poderias estar, pois espero realmente que eu possa pôr-te à escuta daquilo que escrevo, transformando assim, graças à ação misteriosa do Espírito, as pobres palavras que compõem minha carta naquilo que tu precisas saber para dar uma resposta eficaz a tantos homossexuais católicos que olham para ti com esperança.

Certamente terás sabido sobre Dino, aquele jovem homossexual que está baixado no hospital Santo Eugênio pelas feridas que sofreu por causa de uma agressão que se deu em Roma sexta-feira passada. A pessoa que o feriu não aprovava o fato de que Dino trocasse publicamente alguns sinais de ternura com outro jovem que conhecera naquela tarde. Essa pessoa os apostrofou, voaram palavras pesadas e, por fim, os agrediu ferindo-os com uma arma de corte.

Certamente não aprovas esta agressão, embora, provavelmente, com mérito na oportunidade de certas manifestações públicas de ternura entre duas pessoas do mesmo sexo, poderias pensar a coisa mais ou menos como o desgraçado que a praticou. Quando ainda eras Prefeito da Congregação para a doutrina da Fé, de fato tornaste público um documento no qual se lê, entre outras coisas, que “As pessoas homossexuais que declaram sua homossexualidade são em geral precisamente aquelas que consideram que o comportamento ou o estilo de vida homossexual seja indiferente ou mesmo bom e por isso digno de aprovação pública”, criticando aqueles projetos de lei que pretendiam tutelá-los (cf. Carta aos bispos dos Estados Unidos, de 23 de julho de 1992: Direitos sociais das pessoas homossexuais).

Seja claro, para evitar equívocos, que de fato não estou te comparando com o agressor de Dino. Tu o terias censurado educadamente e jamais terias aprovado a violência. O fato é que tuas admoestações, quando são lidas por um exaltado, correm o risco de se tornar uma desculpa que pode justificar uma homofobia que é tão mais perigosa quanto menos é reconhecida por aquilo que é. Digo isto porque foram tantas as pessoas que criticaram as vigílias de oração pelas vítimas da homofobia que os grupos de homossexuais italianos crentes organizaram nos últimos dois anos. Em geral diziam que não tinha sentido falar de uma violência homofóbica que só estava em nossas cabeças, porém algum deles chegou mesmo a negar a própria existência da homofobia e, citando o dicionário que o Pontifício Conselho para a Família publicou em 2003, se afirmou que a homofobia não é senão um instrumento de que se serve o lobby dos homossexuais para propagandear sua confusão psíquica.

A eles. A aqueles que, como o agressor do jovem Dino, não se envergonham pelos instintos violentos que neles suscita a imagem de dois homens ou de duas mulheres que trocam um beijo. A todos aqueles que correm o risco de transformar a condenação moral dos anti-homossexuais num sentimento de desprezo ou numa atitude de marginalização ante lésbicas e gays, creio que se devam recordar estas palavras da Congregação para a Doutrina da Fé: “É deplorado com firmeza que as pessoas homossexuais tenham sido e ainda sejam objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da igreja, onde quer que se verifiquem. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros, que  é lesiva dos princípios elementares sobre os quais se baseia uma sã convivência civil. A dignidade própria de cada pessoa deve ser sempre respeitada nas palavras, nas ações e na legislação” (Carta Pessoa Humana, sobre algumas questões de ética sexual, de 29 de dezembro de 1975).

E é em obediência a estas palavras que te peço intervir para expressar tua solidariedade ao pobre Dino, para condenar o episódio de violência que se desencadeou em tua diocese e para condenar todos os episódios análogos que se desencadeiam em toda parte do mundo.

Como escreve o livro da Sabedoria, “Há um tempo para falar e um tempo para calar”. Em matéria de condenação das violências contra os homossexuais creio realmente que tenha chegado o tempo de falar, para não se tornar inconscientemente cúmplices daqueles desgraçados que, como o agressor de sexta-feira passada, se esquecem de sua humanidade quando vêem dois homens que trocam um beijo.

Com o afeto de uma pessoa que te considera sempre e realmente como um pai na Fé, te saúdo e peço tua bênção sobre mim e sobre todos os homossexuais católicos.

Gianni Geraci

PS.: Alguém me fez notar que o ministério do Papa é universal e que ele realmente não pode correr atrás dos fatos de crônica que ocorrem em Roma. Esta observação, correta, me fez, no entanto, pensar que, precisamente por este motivo, o Santo Padre tem um cardeal Vicário que exerce de fato o ministério episcopal na cidade. As palavras de solidariedade e de condenação poderiam vir dele. E este Vigário, que também poderia estar muito empenhado, tem três bispos auxiliares que o ajudam na gestão da Diocese de Roma. Se ele realmente não tem tempo de intervir, poderia encarregar um destes três bispos. Querendo ou não, uma solução capaz de fazer entender que a Igreja de Romanão aprova a violência homofóbica que se consumou na cidade, certamente lá se encontra. Naturalmente é preciso querê-lo.

> Papa diz que camisinha ‘piora o problema’ da Aids. (março de 2009)

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