'Tudo o que está no mundo passa pelo corpo'

por Alina Mazzaferro, do jornal Página/ 12

Desde a sua chegada, David Le Breton causou uma pequena grande comoção dentro do mundinho acadêmico portenho. Uma centena de pessoas o seguem, há duas semanas, em seu itinerário de conferências programadas em diferentes pontos da cidade de Buenos Aires. Porque o sociólogo e antropólogo francês veio para apresentar um seminário intensivo de doutorado na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires e, enquanto isso, aproveitou para apresentar seu livro "El sabor del mundo. Una antropología de los sentidos" na Feira do Livro, palestrar na Manzana de las Luces e participar do colóquio internacional dedicado à obra de Roger Caillois que a Aliança Francesa e a Embaixada da França na Argentina organizaram recentemente.

mulher-tatto O interesse que sua obra suscitou – pelo menos a que foi traduzida e publicada na Argentina, composta de sete livros de uma extensa produção que inclui mais de 20 – revela o crescente atrativo de um campo de estudo que há duas décadas tinha poucos adeptos: a sociologia do corpo. Porque Le Breton, sociólogo e psicólogo de formação, se dedica há mais de 15 anos ao estudo da corporalidade humana, à qual entende não como mera biologia, mas, pelo contrário, como "fenômeno social e cultural, matéria simbólica, objeto de representações e de imaginários".

Para ele, não há nada natural no corpo: os gestos e as posturas corporais, o modo em que cada um vê, ouve e percebe o mundo que o rodeia, as maneiras pelas quais sofre e aproveita, as formas de se relacionar e de se comunicar com os outros, até as emoções e todo o conjunto das expressões corporais são modelados pelo contexto social e cultural em que cada ator se encontra submergido.

Assim, Le Breton se encarregou de estudar as diferentes concepções do corpo da sociedade tradicional e moderna, segundo múltiplos pontos de vista: desde os ritos de interação em diferentes sociedades e épocas, até os jogos da sedução e os modos diferenciais em que o homem e a mulher expressam seus sentimentos; desde as práticas do piercing e da tatuagem, até a arte contemporânea que envolve o corpo como material estético; desde o corpo do deficiente, até os homogêneos corpos cinematográficos e televisivos; desde a bulimia e a anorexia, até todo o conjunto de preocupações atuais com a beleza, a saúde e a aparência.

Todo um campo de estudo se abre diante de seus olhos a partir da consideração do corpo como matéria simbólica no lugar de pura biologia. "Antropología del cuerpo y Modernidad" (Nueva Visión, 1995), o primeiro de seus livros publicado na Argentina e o mais conhecido no país, é para o autor uma espécie de "caixa de ferramentas" que lhe permitiu desenvolver o resto da sua obra. Ali, apresenta em cada capítulo as temáticas que abordará depois em profundidade nos livros posteriores: o estudo dos sentidos é desenvolvido em "El sabor del mundo..." (Nueva Visión, 2007); "As Paixões ordinárias. Antropologia das emoções" (Vozes, 2009) se ocupa das emoções; a dor e o sofrimento é objeto de análise em "Antropología del dolor" (Seix Barral, 1998); a invenção moderna do corpo enquanto objeto separado do ser que o carrega e a história da anatomia são trabalhados em "La chair au vif" (Em carne viva, em tradução livre); o tema do rosto e da máscara é estudado em "Des visages. Essai d’antropologie" (Os rostos. Ensaio de antropologia); enquanto os corpos de um mundo voltado cada vez mais sobre a tecnologia são analisados em "Adeus ao corpo. Antropologia e sociedade" (Papirus, 2003).

Além disso, Le Breton publicou uma breve e esquemática mas útil genealogia das teorias que se ocupam do corpo – "A sociologia do corpo" (Vozes, 2008) – em que percorre todas as correntes sociológicas, filosóficas e antropológicas que, histórica, implícita ou explicitamente, abordaram as lógicas sociais e culturais do corpo, os imaginários em torno dele, o controle político da corporalidade (trabalhado especialmente por Michel Foucault) ou os vínculos entre o corpo e as classes sociais (tarefa encarada principalmente pela sociologia de Pierre Bourdieu a partir da sua noção de habitus).

O que é certo é que a abordagem de Le Breton está nos antípodas da obra de Foucault, Bourdieu ou de autores pós-marxistas, que encararam o estudo do corpo a partir de sua situação de classe. Le Breton desconfia da microfísica do poder, que suporia um controle invisível e disseminado em todos os âmbitos do social das ações corporais. Também não crê na existência de um habitus de classe (essas disposições que, com o tempo, vamos adquirindo a partir da experiência).

Para uma boa parte da intelectualidade argentina, essas suspeitas e descartes podem ser incômodos, levando-se em consideração a atração que esses autores ainda têm aqui. Mas Le Breton vem de outro ambiente acadêmico. Nessas duas semanas em Buenos Aires, conquistou um público e incomodou outro para o qual a experiência humana só tem sentido em termos de classe. Le Breton disse inscrever-se em uma corrente de pensamento muito diferente, de tradição norte-americana: o interacionismo simbólico, representado pelo sociólogo Erving Goffman, considerado o pai da microsociologia. Porque interessa a Le Breton estudar indivíduos e não classes fechadas e homogêneas, e essa teoria lhe permite dar conta da heterogeneidade do mundo social contemporâneo. Assim ele se expressou em uma extensa e profunda conversa com Página/12.

Como o senhor começou a se preocupar pelo corpo?

Escrevi sobre o corpo porque eu era um jovem que se sentia mal em sua própria pele. Estava começando a realizar a minha tese doutoral sobre a constituição social e cultural do corpo, quando decidi partir para o Brasil, com a vontade de me perder, de desaparecer. Estive ali durante meses, viajando a pé e em barco, atravessando todo o país, inclusive o Amazonas, até que finalmente decidi voltar para a França para terminar minha tese de sociologia. Foi nessa época que comecei a escrever sobre as condutas de risco dos jovens e também sobre o corpo.

Nesse momento, a sociologia não prestava atenção ao corpo?

O corpo havia sido objeto de análise de Michel Foucault, mas de um ponto de vista mais histórico. O etnólogo François Loux já havia trabalhado sobre o corpo na sociedade popular francesa, mas em geral a pesquisa sobre o corpo não era valorizada nessa época. Para muitos de meus colegas, o corpo não era mais do que uma forma biológica sobre a qual não havia nada para se dizer. Obviamente, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, havia um certo número de sociólogos e antropólogos que já trabalhavam esse tema, mas eram os inícios. Eu tentei aplicar os critérios de análise da antropologia cultural à questão do corpo.

Como se aborda uma antropologia do corpo?

Tenta-se interrogar-se. Dou um exemplo: a questão das cores. Poderíamos pensar que, para vê-las, só seria preciso usar os olhos. Mas, na realidade, uma criança vai aprendendo a reconhecê-las progressivamente. Primeiro aprende a reconhecer o rosto de sua mãe, de seu pai, dos objetos que lhe são próximos, depois o jardim e a rua e o mundo que o rodeia. Se seu pai o estimular a reconhecer as formas das aves, ele o fará. O que significa que nosso olhar está orientado, do mesmo modo que o nosso ouvido e o nosso paladar.

Então, não há nada natural, tudo é construído culturalmente...

Exato. Tudo é construído culturalmente por meio da interação de uma criança com seus pais. Uma criança que sempre come o mesmo prato de arroz terá pouco sentido do paladar. Em troca, se uma criança aprende a preparar e a temperar pratos ao lado de sua mãe, será uma grande cozinheira, com um grande sentido do sabor.

Essa é a tese do livro que o senhor veio apresentar na Feira do Livro?

Em "El sabor del mundo...", dediquei-me a compreender como vivemos no mundo, porque tudo o que está nele passa pelo corpo: devemos escutar o mundo, tocá-lo, cheirá-lo, senti-lo. Não há mundo mais do que através do corpo. Aproximamo-nos do mundo por meio da mediação dos sentidos. E não só dos cinco sentidos que conhecemos, que são os que herdamos da tradição grega, mas também de outros sentidos. Porque há outras sociedades humanas com outras percepções sensoriais.

Acontece algo semelhantes com as emoções?

Em "As paixões ordinárias...", tento demonstrar que todas as emoções provêm da cultura. Quer dizer que há uma cultura afetiva dentro da qual crescemos e dentro da qual vamos nos situar, com nossos modos pessoais de ser, obviamente, porque não somos clones nem robôs. Sempre há uma variável pessoal no emocional, mas, quando passamos de uma cultura a outra, vemos claramente como a cultura afetiva muda, a maneira em que os sujeitos sentem e demonstram as emoções varia. Há sociedades em que os sujeitos permanecem estóicos diante da dor, porque a ritualização da dor implica em guardar o sofrimento para si. E há outras em que as pessoas choram, gemem, gritam diante da dor.

E por que o "Adeus ao corpo"?

Não sou eu que digo adeus ao corpo! Nesse livro, tento analisar o imaginário do corpo no mundo de hoje, que considera que o corpo é insuficiente, imperfeito, que nos faz perder tempo, sobre ele recai a morte e a enfermidade. Então, crê-se que se pudéssemos nos desfazer dele seria melhor. Crê-se que a tecnologia poderá nos libertar da morte, nos dará uma juventude eterna, uma crença que substitui hoje a que propunha a existência de um Deus e de uma eternidade no paraíso. Tento compreender o porquê dessa exigência de transformar o corpo no mundo contemporâneo, por que sempre é preciso fazer regime e esportes, por que não temos mais direito de ser nós mesmos e de estar com gosto em nossa pele.

Quais são os problemas que essa crença a favor da tecnologia nos trará no futuro?

Vejo uma grande iniquidade entre as sociedades mais ricas e as mais pobres. A tecnologia do ciborg e a robotização se desenvolverá entre os mais ricos. Dentro de vários anos, assistiremos a essa fusão entre a tecnologia e a carne, o desenvolvimento da clonagem, um mundo em que escolheremos o nosso filho em uma revista. Um mundo profundamente injusto, porque as tecnologias serão para os ricos e contribuirão com a iniquidade. (tradução de Moisés Sbardelotto)

04-05-2009

> "O ser humano deseja ser máquina; já somos híbridos" (junho de 2008)

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