Artigo profético de McLuhan aborda o poder hipnótico das novas mídias eletrônicas

Do IHU Online:

O jornal La Repubblica, 21-01-2009, publicou um artigo de 1963 de autoria do filósofo canadense Marshall McLuhan. No texto, o pensador afirma que, "na era eletrônica, a própria natureza instantânea da coexistência entre os nossos instrumentos tecnológicos tem dado lugar a uma crise totalmente inédita na história humana". Para ele, "assim como somos inconscientes da natureza das novas formas eletrônicas, também somos manipulados por elas". A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

mcluhan Com o telégrafo, o homem ocidental iniciou a estender os seus nervos para fora do próprio corpo. As tecnologias anteriores foram extensões de órgãos físicos: a estrada é um prolongamento dos pés; os muros das cidades são uma exteriorização coletiva da pele. Os meios eletrônicos, pelo contrário, são extensões do sistema nervoso central, ou seja, um âmbito inclusivo e simultâneo. A partir do telégrafo, estendemos o cérebro e os nervos do homem todo o globo. Consequentemente, a era eletrônica comporta um mal-estar total, como o que uma pessoa que tivesse o cérebro fora da caixa craniana poderia experimentar. Tornamo-nos particularmente vulneráveis. O ano em que o telégrafo comercial foi introduzido na América, em 1844, foi também o ano em que Kierkegaard publicou o conceito da angústia.

A característica de todas as extensões sociais do corpo é que elas voltam a atormentar os seus inventores em uma espécie de remorso de consciência. Justamente como Narciso, que se apaixonou por uma exteriorização (projeção, extensão) de si mesmo, o homem parece apaixonar-se invariavelmente pelo último objeto ou dispositivo, que, na realidade, nada mais é do que uma extensão do seu próprio corpo.

Quando dirigimos o carro ou assistimos à televisão, tendemos a nos esquecer de que aquilo com o que nos relacionamos é apenas uma parte de nós mesmos colocada lá fora. Desse modo, tornamo-nos servomecanismos [circuito mecânico controlado eletroeletronicamente. Basicamente, é a associação da mecânica com a eletrônica] das nossas próprias criações e respondemos a elas do modo imediato e mecânico que elas requerem. O ponto central do mito de Narciso não é que os indivíduos tendem a se apaixonar da própria imagem, mas que se apaixonam das próprias extensões, convencidos de que não são suas extensões. Penso que essa seja uma imagem bem precisa de todas as nossas tecnologias, e nos convida a refletir sobre uma questão fundamental: a idolatria da tecnologia comporta um entorpecimento psíquico. Aos olhos de observadores sucessivos, toda geração suspensa frente a uma grande mudança parece ter sido totalmente inconsciente da iminência e dos pontos fundamentais do próprio evento. Mas é necessário compreender o poder que as tecnologias têm de isolar os sentidos uns dos outros e, assim, hipnotizar a sociedade.

A fórmula da hipnose é “um sentido por vez”. Os nossos sentidos privados não são sistemas fechados, mas são incessantemente traduzidos uns nos outros naquela experiência sinestésica que chamamos de consciência. Os nossos sentidos difusos, instrumentos ou tecnologias são, pelo contrário, sistemas fechados, incapazes de interação. Toda nova tecnologia diminui a interação e a consciência dos sentidos justamente na área à qual essa tecnologia se dirige: verifica-se uma espécie de identificação entre observador e objeto. (...)

A nova tecnologia eletrônica, porém, não é um sistema fechado. Enquanto extensão do sistema nervoso central, ela tem a ver justamente com a consciência, com a interação e com o diálogo. Na era eletrônica, a própria natureza instantânea da coexistência entre os nossos instrumentos tecnológicos tem dado lugar a uma crise totalmente inédita na história humana. As nossas faculdades e os nossos sentidos difusos já constituem um único campo de experiência, e isso requer que eles se tornem coletivamente conscientes, como o próprio sistema nervoso central. A fragmentação e a especialização, traços característicos do mecanismo, são ausentes. Assim como somos inconscientes da natureza das novas formas eletrônicas, também somos manipulados por elas.

(...) Os modos de pensar gerados pela cultura tecnológica são muito diferentes dos modos favoritos da cultura da imprensa. A partir do Renascimento, a maior parte dos métodos e dos procedimentos objetivou fortemente enfatizar a organização e a aplicação visual do saber. Os pressupostos latentes na segmentação tipográfica se manifestam na fragmentação das funções e na especialização das atividades sociais.

A escrita favorece a linearidade, ou seja, uma consciência e um modo de operar segundo o princípio “uma coisa por vez”. Daí deriva a cadeia de montagem e a ordem de batalha, a hierarquia administrativa e a divisão em departamentos que caracterizam as estruturas acadêmicas. Gutenberg nos deu análises e explosão. Fragmentando o campo da percepção e da informação em segmentos estáticos, realizamos coisas maravilhosas.

As mídias eletrônicas operam, entretanto, de um modo diferente. A televisão, o rádio e o jornal (que, por sua vez, estava ligado ao telégrafo) têm a ver com o espaço acústico, isto é, com a esfera de relações simultâneas criada pelo ato de escutar. Nós ouvimos sons provenientes de todas as direções no mesmo momento. Isso cria um espaço único, não visualizável. A simultaneidade do espaço acústico é exatamente o contrário da linearidade, do fazer uma coisa por vez. É muito desconcertante dar-se conta que o mosaico de uma página de jornal é “acústico” na sua estrutura fundamental.

Isso, porém, quer dizer apenas que qualquer estrutura – cujos componentes coexistam sem conexões ou ligações diretas e lineares, e criem um campo de relações simultâneas – é acústica, mesmo que alguns dos seus aspectos possam ser visualizáveis. As notícias e a publicidade que se encontram sob a data de um jornal são tidas em conjunto apenas pela data. Não tem nenhuma interconexão de natureza lógica ou discursiva. E, no entanto, formam um mosaico ligado à imagem empresarial, cujas partes se compenetram entre si. Esse é também o tipo de ordem que tende a se constituir em uma cidade ou em uma cultura. É uma unidade de tipo orquestral e vibrante, não a unidade do discurso lógico.

O poder tribalizante das novas mídias eletrônicas, o modo pela qual elas se reportam à dimensão unificada das antigas culturas orais, à coesão tribal e a esquemas de pensamento pré-individualistas não foi realmente compreendido. O tribalismo é o sentimento de uma profunda ligação de família, é a sociedade fechada como norma da comunidade. A escrita, enquanto tecnologia visual, dissolveu a magia tribal, colocando o acento na fragmentação e na especialização, e criou o indivíduo. Por outro lado, as mídias eletrônicas são formas de grupo. As mídias eletrônicas do homem de uma sociedade alfabetizada reduzem o mundo a uma tribo ou a um vilarejo em que tudo ocorre no mesmo momento: todo mundo conhece e, portanto, participa de todas as coisas que ocorrem no momento em que elas ocorrem.

(...) Tornamo-nos como o homem paleolítico mais primitivo, novamente vagabundos globais. Mas somos agora coletores de informação, mais do que de alimento. De agora em diante, a fonte de alimento, de riqueza e da própria vida será a informação. Transformar tal informação em produto, neste momento, é um problema que se refere aos especialistas de automação e não é mais uma questão que comporta a máxima divisão do trabalho e das capacidades humanas. A automação, como todos sabemos, permite não levar em conta a força de trabalho. Isso aterroriza o homem mecânico porque ele não sabe o que fazer na fase de transição, mas significa simplesmente que o trabalho acabou, morreu e foi sepultado.

(...) Quando novas tecnologias se impõem na sociedade habituada há muito tempo a tecnologias mais antigas, nascem ansiedades de todo o gênero. O nosso mundo eletrônico necessita, então, de um campo unificado de consciência global. A consciência privada, adaptada ao homem da era da imprensa, pode se considerar como um nó insuportável com relação à consciência coletiva requerida pelo fluxo eletrônico de informações. Nesse impasse, a única resposta adequada pareceria ser a suspensão de todos os reflexos condicionados. Penso que, em todas as mídias, os artistas respondem antes de tudo aos desafios impostos pelas novas pressões. Gostaria que eles nos mostrassem também modos de viver com a nova tecnologia sem destruir as formas e as conquistas anteriores. Por outro lado, as novas mídias não são brinquedos e não deverão ser colocados nas mãos da Mamãe Ganso ou do Peter Pan. Podem ser confiadas só aos novos artistas.

> No Brasil, a cada cinco casas, uma tem acesso à internet. (setembro de 2008)

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