sábado, 29 de novembro de 2008

Soldados não choram. A vida de um casal homossexual no Exército

sargentos_gays
Trecho capítulo do livro-depoimento de Fernando Alcântara de Figueiredo (à direita) a Roldão Arruda
A armadilha


Já era noite de terça-feira quando desembarquei em Congonhas. Cansado, suado e com fome. Meu tempo era curto. Tinha apenas duas horas até a entrevista, marcada para as dez da noite.

Saí à procura do motorista da tv que já deveria estar lá, à minha espera, na área de desembarque. Foram quase vinte minutos de busca pelos corredores do aeroporto, até receber uma ligação:

– Fernando, cadê você?! Nosso motorista está à sua procura.

Ele está vestindo uma camiseta preta.

Era o pessoal da produção. Orientado por eles, encontrei enfim o motorista, um rapaz negro, forte, que se aproximou me chamando pelo nome. Embarcamos num Gol com a logomarca da Redetv! e rumamos para Alphaville, para a sede da emissora. Seria uma viagem de uns quarenta minutos, segundo o motorista, que logo se mostrou comunicativo e me explicou que Alphaville é uma espécie de supercondomínio, quase uma cidade, localizado em Barueri, na Grande São Paulo. Ele quis esticar a conversa e começou a falar de sua família, do tempo em que morou no Rio, das passagens de sua vida por outros estados.


Eu tentava ouvir, mas não conseguia, preocupado com outras coisas: o que me esperava no programa da Luciana Gimenez?

Não fazia a menor idéia. Nunca havia assistido a um programa dela. Meu companheiro Laci e eu a conhecemos por meio de um telefonema, uma chamada que ela mesma fizera para nós no dia anterior, segunda-feira. No domingo, uma foto nossa havia sido exposta nas bancas de jornais de todo o país, na capa da revista
 
Época, com a manchete: “Exclusivo. Eles são do Exército. Eles são parceiros. Eles são gays”. Mais abaixo, em duas linhas, com letras menores, o complemento: “A história do primeiro casal de militares brasileiros a assumir sua homossexualidade”.

No interior da revista, em sete páginas, vinha a história de nós dois, os sargentos de infantaria Fernando Alcântara de Figueiredo e Laci Marinho de Araújo, desde os tempos em que nos conhecemos em Brasília, em 1995. A reportagem terminava de  maneira esperançosa, afirmando que nossa atitude, assumindo publicamente a relação, poderia ser um primeiro passo para se tentar acabar com a rejeição à homossexualidade que se verifica na “rígida cultura militar”.

A revista circulou no domingo. Na segunda, a Luciana ligou. Queria que fôssemos ao seu programa. O Laci não se entusiasmou. Nem eu. Acreditávamos que Época já havia dado publicidade suficiente ao caso de perseguição que estávamos sofrendo no Exército, desde que decidimos assumir que formávamos um casal. Por outro lado, existia uma ordem de prisão contra o Laci, injustamente acusado como desertor,
após ter faltado ao serviço por motivo de doença. Cada movimento nosso era vigiado. Apenas esperavam o melhor momento para capturá-lo. A viagem poderia ser esse momento.

Diante da recusa, Luciana pediu a uma de suas produtoras, chamada Ana Paula, que insistisse conosco. Expusemos nossos receios. Ela enfatizou que dificilmente ocorreria qualquer tentativa de prisão em São Paulo, mesmo com a transmissão  do programa ao vivo, porque o quartel militar mais próximo distava pelo menos quarenta minutos de Alphaville. Até que houvesse alguma mobilização e os militares chegassem à emissora, nós já estaríamos fora. A produtora chegou a dizer, com o intuito de nos tranqüilizar, que existiam três portas de saída para serem usadas em caso de emergência; e que, numa eventualidade extrema, Laci poderia sair escondido no porta-malas de algum automóvel.

Antes da resposta final, liguei para Rodrigo Rangel, o jornalista da Época que, junto com Solange Azevedo, fizera a reportagem, e pedi a opinião dele. Respondeu que a revista e o programa da tv tinham públicos diferentes.

A pressão era imensa. Na semana anterior, logo após termos concedido a entrevista à revista, e ainda aguardando a sua publicação, um grupo de militares, escudado pela ordem de prisão contra o Laci, invadiu nosso apartamento e quebrou quase tudo.

Foi um ato bem planejado. Agentes do Exército fizeram sondagens na vizinhança para saber de nossos hábitos, se ainda morávamos ali, o que fazíamos. Prepararam tudo. No dia da invasão, esperaram que eu saísse para o trabalho, às 7h50, como sempre fazia, e arrombaram a porta, certos de que lá encontrariam o Laci. Fracassaram. Prevendo a invasão, eu tinha retirado o Laci de casa dias antes.

Foi nesse clima de tensão, agora agravado com a publicação da reportagem, que aceitamos o convite do programa. Ficou acertado que a entrevista iria ao ar no dia seguinte, na terça. Foi um erro. Um grande erro, como se verá adiante.

Tomamos todas as precauções. Sabendo que o aeroporto de Brasília estava sendo monitorado e vigiado pelo Exército e que o Laci inevitavelmente seria preso se tentasse sair por ali, decidimos que ele viajaria de ônibus até Goiânia, a duzentos quilômetros de distância do Distrito Federal, e lá pegaria um avião rumo a São Paulo. Também resolvemos que não viajaria sozinho. Ele saiu acompanhado por um amigo, Rherman Radicchi – guitarrista da banda que acompanhava o Laci no show Eu queria ser Cássia Eller, apresentado em boates de Brasília.

Desembarcaram em São Paulo pela manhã. Desde o início as coisas não foram bem. Em vez de conduzirem o Laci para o hotel, para que pudesse descansar, uma vez que não estava bem de saúde, o levaram diretamente para a emissora, onde passou o dia gravando chamadas para o programa, além de trechos de conversas para outros programas da emissora. Não era isso o que tínhamos combinado com a produção.
Ao chegar, à noite, percebi que ele estava cansado, estressado, mas não pude lhe dar atenção, porque também me mobilizaram para gravações. Só depois disso é que pude ficar ao lado dele, num camarim. Um camarim sujo, com restos de comida, pedaços de esfirra espalhados pelas mesas, e atulhado de caixas vazias. Um lugar tão deprimente que pedimos à produção que mandasse alguém limpar, pelo menos. Não
fomos atendidos, porque logo nos encaminharam para a sala da maquiagem.

Ao passar por nós no corredor, a Luciana, tão gentil e interessada durante a conversa por telefone, mal nos cumprimentou. Estava muito apressada.

O Rherman, que também apareceria ao nosso lado na entrevista, relutou quando chegou a vez dele na maquiagem. Penso que talvez temesse que aquilo pudesse manchar sua heterossexualidade. Mas acabou aceitando – só uma camada de pó para evitar o brilho do rosto sob as luzes do estúdio. Ele estava quase pronto, quando uma moça da produção lhe perguntou por que não trouxera o namorado.

– Ele não é gay – respondi, tomando a frente do guitarrista, que parecia muito encabulado.

– Nunca se sabe. Aqui só tem gay – respondeu a moça, apontando ao redor, para os cinco profissionais da sala de maquiagem.

Ao pentearem o Laci, aplicaram um produto que deixou seus cabelos em pé, como se tivesse acabado de acordar. Achei horrível e pedi que mudassem, mas o próprio Laci, cuja excitação e nervosismo aumentavam minuto a minuto, não quis. Seria bom aparecer de maneira menos formal, argumentou. Não me convenci, mas era tarde: já estavam nos levando para a coxia do estúdio. Ali recebemos uma espécie de rascunho das perguntas que seriam feitas pela apresentadora.

Li e ainda tentei combinar com o Laci algumas respostas. Mas ele não conseguia se concentrar em mais nada. O efeito do ansiolítico que vinha tomando submergira completamente diante do estresse da viagem e da preocupação com a entrevista.
 
Estávamos para ser chamados, quando a moça da produção que nos acompanhava nos disse que era parente de militar, um coronel de São Paulo. Fiquei preocupado com aquela informação tardia. Ela ainda chamou a atenção para as minhas unhas, que, na correria, eu esquecera de cortar.

– Você poderia ter pedido para alguém cortar – falou, em tom de bronca.

– Poderia. Mas vocês mal nos deram tempo para respirar – retruquei.

Da coxia ouvimos anunciarem nossa presença, exibindo a capa da Época e fotos de nós dois. Entramos. Ao nos cumprimentar, a apresentadora tentou parecer simpática. Não me convenceu. Era uma falsa simpatia, um biombo a ocultar alguma coisa, algo antipático. Cumprimentou e correu de volta para seus gatos persas, que pareciam merecer mais a atenção dela que nós dois, os entrevistados.

Na tela da tv, a Luciana parece uma moça bonita, alta, de traços finos. Ao vivo, porém, não é bem assim. Tudo nela soa desproporcional: os ombros são estreitos demais e a cabeça muito pequena, se comparada ao corpão.

No início, ela seguiu o que estava no roteiro, com perguntas sobre as perseguições que vínhamos sofrendo. Estranhei apenas o fato de dirigir a maior parte das perguntas ao Laci, o mais nervoso de nós dois. De repente, o foco mudou. Ela queria saber da nossa vida íntima, da maneira como encarávamos a questão da procriação, como poderíamos viver sem filhos... O Laci não gostou e, diante de uma pergunta que não o agradou, respondeu sarcasticamente, o que não é incomum nele:
– Tudo vai depender da ferramenta.

Dali para a frente a coisa degringolou, com perguntas ruins e respostas piores. Fiquei preocupado. Desejei muito a entrada de um intervalo comercial, um corte, para eu poder conversar com o Laci e acalmá-lo. Mas, misteriosamente, Luciana esticava a conversa, sem intervalos, o que tornou mais aguda minha sensação de algo muito errado no ar.

De repente, uma produtora entrou no estúdio e cochichou no ouvido da apresentadora, que fez uma cara de espanto, uma  máscara teatral nada convincente, e disse que não podia acreditar, que se recusava, se recusava a acreditar no que estava ouvindo.

Então percebi: havíamos caído na armadilha que tanto tentáramos evitar. Percebi antes que ela se virasse para a câmera e dissesse, com todo o dramatismo que sua capacidade lhe permite:
– Eles estão aí.

Em seguida mostraram num telão imagens da área externa da emissora, confirmando o que eu previa: veículos do Exército chegavam ao local. Câmeras estrategicamente posicionadas sobre os muros captavam as imagens lá fora.

A apresentadora então se virou para nós e disse que não havia nada que pudesse fazer.
– Não vou me entregar. Vou vazar – gritou Laci, já descontrolado.

Em seguida virou para a câmera do estúdio e, de modo desesperado, implorou: – Eu faço um apelo nacional: não deixem me pegarem. Porque, se pegarem, me matam.
 
A Luciana, em vez de acalmá-lo, jogou mais lenha na fogueira. Havia até uma música de suspense tocando no fundo, quando disse:

– Falaram que têm um mandado de prisão. E estão armados...

Instantes depois ela se despediu de nós, desejou boa sorte e, finalmente, chamou o intervalo comercial. Saí em busca de uma das três saídas mencionadas nas negociações com a produção.

Mas fui barrado pelo chefe da segurança, muito taxativo:

– Cercaram tudo. Eu já fui do Exército e sei que cercaram todo o prédio.

Raiva. Indignação. Medo. Foi o que senti naquele momento. O episódio não me parecia fruto do acaso. Teria sido um circo armado em nome da audiência?

Temi pela integridade física do meu companheiro. O Exército vinha nos tratando como inimigos e eu sabia o que isso poderia significar, sabia de histórias que circulavam na caserna sobre famílias de militares que receberam os cadáveres de parentes com explicações pouco convincentes sobre suas mortes, algumas delas registradas como suicídio. Para que todo aquele aparato lá fora? Para que homens armados com fuzis, pistolas, escopetas, coletes à prova de balas? Tanta gente para prender um homem desarmado e doente? Queriam nos caracterizar como perigosos?

Em todos os movimentos que ainda fiz para encontrar uma saída ouvi vozes, admoestando:
– Não adianta. Está tudo cercado.

Fui até os fundos da emissora. Não havia soldados por ali, mas nem precisava: a passagem era impedida por um muro de quase sete metros de altura. Mesmo que conseguisse colocar o Laci lá em cima, ele se machucaria ao pular para o outro lado.
 
Nessa hora ainda me lembrei de outra coisa importante que atrapalharia nossa fuga: a produção do programa só nos havia enviado passagens para a vinda a São Paulo. Não tínhamos os bilhetes para o retorno.
O programa voltou ao ar e, na frente das câmeras, com olhos esbugalhados, ao vivo, Laci pedia socorro, dizia que iam matá-lo, que fariam queima de arquivo, que não sairia vivo da prisão, ao mesmo tempo que vertia as primeiras lágrimas.

Acho que esperavam por isso. Porque nesse momento uma produtora me puxou de lado, para fora do alcance das câmeras, e começou a falar comigo. Uma conversa sem sentido. Notei que o objetivo dela era me afastar do Laci, para que ele continuasse gritando, aumentando a audiência.

O primeiro coronel entrou em cena: um homem de cabelos brancos, indicando os muitos anos de serviços prestados ao Exército. Com voz impostada, tentou impor a rendição do Laci.

Os arcanjos


Tudo parecia perdido. Mas de repente os acontecimentos começaram a fugir do script e do controle da produção. Identifico a mudança em três momentos. O primeiro foi quando respondi ao coronel, com a energia que consegui arregimentar naquela hora, e disse que não haveria rendição. O segundo foi a piora acelerada de Laci. O estado emocional dele desandou tanto que a produção saiu correndo atrás de algum médico, um especialista em transtornos emocionais, antes que houvesse uma síncope, uma apoplexia fulminante, qualquer coisa assim.

Trouxeram um senhor de cavanhaque, alto, corpulento, trajando uma incrível casaca à la Sherlock Holmes, que se apresentou como psicanalista. Não me senti tranqüilo com a presença dele, porque revelou prestar serviços há muito tempo para a emissora; e porque parecia não ter noção clara do problema que enfrentávamos, sugerindo que o Exército saberia tratar o Laci com respeito, que seu transtorno emocional seria levado em conta.

Dias depois eu tive uma impressão positiva daquele profissional. Ele realmente se esforçou para ajudar o Laci e esteve ao lado dele enquanto pôde. Mas, no estúdio, no primeiro instante, considerei-o ingênuo.

O terceiro momento – com o qual a produção do programa e o Exército certamente não contaram – foi a intervenção dos telespectadores. Alguns, ao verem o Laci, ao vivo, gritando que seria morto caso o levassem, tomaram a iniciativa de ligar para o Condepe, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Estado de São Paulo.

Enxerguei finalmente um pouco de luz com a rápida chegada ao estúdio dos advogados Ariel de Castro Alves, secretário do conselho, e Francisco Lúcio França, conselheiro. Pareciam dois arcanjos enviados para nos socorrer.

O primeiro a entrar foi o dr. Lúcio, que de imediato invocou os direitos constitucionais do Laci. Em seguida, o dr. Ariel. Nunca tinha visto os dois. Mas me pareceram imediatamente confiáveis. O primeiro falava devagar e de forma compassada, demonstrando segurança. O segundo pouco se expressava, mas quando o fazia era com firmeza. Uma característica do dr. Ariel que chamou a minha atenção foi seu rosto inalterado. Não sorriu em momento algum. Manteve-se calmo e impassível mesmo quando cercado por jornalistas alvoroçados e ansiosos  por declarações.

O dr. Lúcio parecia ser velho conhecido das arbitrariedades do Exército. Em menos de uma hora de conversa ele já tinha entendido nossa história, inteiramente documentada, porque o Laci levava com ele um envelope com os documentos que registravam cada passo da doença dele, da nossa perseguição. Sempre tínhamos aquele envelope à mão, para rebater as mentiras do Exército, que tentava reduzir toda a história a um suposto crime de deserção.

A discussão se arrastou. Do lado de fora da sala onde estávamos começaram a se juntar cinegrafistas, fotógrafos, radialistas, repórteres. Lá dentro, o impasse ficava mais agudo, com o coronel exigindo a rendição de maneira incondicional, enquanto os representantes do Condepe argumentavam que nem mandato de prisão eles tinham.
Numa certa altura, o dr. Lúcio anunciou:

– Os direitos dos dois têm que ser garantidos. O rapaz está doente: vamos levá-lo para a Santa Casa de Misericórdia.

– Ele é um desertor. Não precisamos de mandato. Vamos levá-lo conosco de qualquer jeito – retrucou o coronel.

– Já pedi uma vez e vou pedir de novo: apresentem as provas de que ele é desertor.

– Não preciso fazer isso.

– Sob ordens de quem o senhor está executando esse mandado de prisão?

– Do general.

– Do comandante militar do Leste?

– Do general.

É costume entre as patentes blindar seus superiores a qualquer preço, mesmo que isso depois lhes custe a cabeça. O coronel tinha uma ordem a cumprir.

– Tenho autoridade para levá-lo comigo.

– Aí é que o senhor se engana, coronel. Quem está fora da legalidade não possui autoridade, pois a autoridade emana da lei que lhe é conferida.

Não sei se foram exatamente essas as palavras trocadas por eles, mas foi o que guardei daquele diálogo tenso. Eles ainda debatiam quando entrou um senhor magro, alto, de nariz pontiagudo, sotaque de gaúcho e modos arrogantes. Dirigiu-se ao Laci, chamando-o pelo nome com que é conhecido no Exército:
– De Araújo, vim buscá-lo!

Era o chefe do Estado-Maior, arriscando uma cartada para nos intimidar. Também fracassou. Parecia que, quanto mais investidas faziam, mais forças encontrávamos.

A discussão avançou pela madrugada. Deu tempo para chegar à emissora, às quatro horas, o mandato de prisão. Chegou pelo aparelho de fax da emissora.

Acho que tiveram que sair à cata de algum juiz para assiná-lo, porque a Justiça Militar não possui juiz de plantão. Vale a pena abrir aqui um parêntese para dizer que a essa altura a apresentadora, nossa anfitriã, já tinha ido embora fazia muito tempo.

Finalmente os militares e os advogados concordaram que a única maneira de nos tirar dali seria encaminhando o Laci para um hospital – e não para a prisão – para que recebesse tratamento médico. Nossos defensores queriam um hospital civil. Mas acabaram aceitando a contraproposta de um hospital militar.

Pouco tempo depois Laci embarcou num Santana escuro, na companhia do dr. Lúcio, do psicanalista, do coronel e de um outro militar, na direção. Segui atrás, no veículo do dr. Ariel. Pelo combinado, deveríamos passar antes pelo Instituto Médico-Legal, no bairro de Pinheiros, onde examinariam o Laci. Era uma precaução, como se estivéssemos dizendo a eles: estamos entregando o meu companheiro inteiro e o queremos de volta do mesmo jeito.

Apesar de termos saído algum tempo após o Santana, chegamos antes deles. Mais tarde o dr. Lúcio nos contou que o motorista do Santana passou pelo iml e deu algumas voltas, como se esperasse alguma coisa, alguma ordem, até se decidir e entrar de uma vez na área do Instituto.

Do iml seguimos para o bairro do Cambuci, para a emergência do Hospital Geral de São Paulo, controlado pelo Exército. Uma equipe já nos esperava. Estava lá um psiquiatra, um médico militar, que havia tratado o Laci em Brasília. Parecia amedrontado.

Após ficar um tempo a sós com o Laci, o psiquiatra determinou sua internação, no quarto andar do hospital – um local onde os quartos ficam dispostos em círculo, com uma espécie de clarabóia no vão central. O dr. Lúcio permaneceu conosco até o momento em que fomos encaminhados para o quarto andar. Pelo acordo feito entre os representantes do Condepe e dos militares, eu poderia ficar com o enfermo, assistindo-o, em todos os momentos. Mas, assim que chegamos ao andar indicado, nos puseram em quartos separados. Não fariam isso, certamente, se fôssemos um casal heterossexual.

“Ordens são ordens”


No dia seguinte, no fim da tarde, o dr. Lúcio voltou a nos ver. Desta vez acompanhado pelo psiquiatra César Sampaio, membro do Conselho Regional de São Paulo, e do ex-deputado petista Renato Simões, o qual, eu soube mais tarde, é antigo militante da defesa dos direitos humanos. Após examinar o Laci, o psiquiatra
recomendou que fosse submetido a tratamento, em São Paulo.

Ficou acertado com a direção do hospital que não seguiríamos para Brasília antes que ele melhorasse. O momento da transferência seria definido por meio de exames que contariam com a presença de um profissional isento, isto é, um médico que não fosse da corporação militar.

No dia seguinte, porém, o hospital já amanheceu cercado por soldados armados. Eu estava no quarto do Laci quando, às 6h50, uma enfermeira entrou e disse que ele se trocasse logo e tomasse café, porque era aguardado por uma junta médica. Era outra arapuca. Ele teria alta hospitalar de qualquer forma e seria despachado para Brasília, sem que pudéssemos falar com o pessoal do Condepe.

Minutos depois, o diretor do hospital, um coronel, chegou e disse que estávamos demorando muito e que não haveria tempo para o café. Foi a deixa para eu dizer que estávamos sendo vítimas de uma trama, que a inspeção não seria isenta. O Laci também começou a reagir, como sempre fazia nos momentos de tensão e medo: aos brados, aos xingamentos. O coronel chamou as enfermeiras que aguardavam do lado de fora e ameaçou: se houvesse resistência, Laci seria amarrado e sedado.

Notei que estava presente no quarto um representante do Ministério Público Militar. Já fazia muito tempo que eu não confiava nessa instituição, por causa de seus vínculos estreitos com os generais, mas ainda assim me dirigi a ele, pedindo que nos protegesse e adiasse o exame até a chegada do especialista do Condepe. Ele respondeu que “ordens são ordens” e que a conduta do diretor estava dentro dos padrões de conduta do Exército.

A inspeção médica foi rápida. Do lado de fora ouvi Laci chorando, acusando os médicos de estarem envolvidos num esquema contra ele. Depois nos deixaram numa sala, isolados, por cerca de vinte minutos.
Tremi, apavorado, quando ouvi o ronco de um helicóptero se aproximando, até pousar no pátio do hospital. Liguei para o dr. Lúcio França e ele me disse para não arredarmos pé dali. Era impossível atendê-lo.

Um militar me apresentou um termo de compromisso, no qual eu dizia que viajava para Brasília, com o Laci, de livre e espontânea vontade. Não era verdade, mas claro que assinei. Jamais deixaria meu companheiro seguir sozinho. No meio dessa movimentação, enquanto ainda estávamos nas instalações utilizadas pela junta médica, um senhor, bem velho, começou a nos insultar, a nos xingar de canalhas. Ninguém o interrompeu. Mas, quando retrucamos, um dos militares que nos escoltava mandou o Laci calar a boca, afirmando que não iria permitir que um prisioneiro dele se comportasse daquela maneira.

Hierarquicamente ele estava numa posição inferior à nossa: era um terceiro sargento. Lembrei isso a ele. Calou-se.

Embarcaram conosco o representante do Ministério Público Militar e o psiquiatra vindo de Brasília, que havia examinado o Laci no dia anterior. No helicóptero já se encontravam dois sargentos, um tenente e quatro soldados.

Olhando para fora, vi os clarões de flashes disparados em nossa direção. A imprensa. No dia anterior, no hospital, eu havia conversado bastante com os jornalistas, contado nossa história e falado das pressões que sofríamos. Acho que essa entrevista foi um dos motivos que levaram os militares a nos tirar dali com tanta rapidez.

Ninguém disse para onde iríamos. A desinformação era angustiante. Lembrei de mais histórias, essas datadas dos anos 1970, os anos mais duros da ditadura militar, quando inimigos políticos do regime eram embarcados em helicópteros militares para serem jogados no mar.

É claro que a situação política do Brasil agora era muito diferente e não seria tão fácil cometer atos como aqueles. Mas desde a invasão dos estúdios da emissora eu passara a desconfiar que a instituição estava ignorando a opinião pública. Cheguei a pensar que não sairíamos vivos.

Nossa primeira parada foi na base militar que fica atrás do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Um Bandeirante já nos esperava. Laci não queria embarcar e insistia em saber para onde nos levavam. Um dos soldados encarregados de nos escoltar se irritou e, de modo ríspido, mandou que ele calasse a boca. Laci retrucou, ordenando que o soldado se identificasse, mas este não respondeu. Achei que era o tenente que comandava o grupo.

Todos mantinham sua identidade em segredo. O colete à prova de balas estava sobreposto aos sutaches – os identificadores com os nomes dos militares – e as insígnias indicativas das patentes haviam sido propositadamente retiradas. Era tudo tenebroso.

No decorrer da viagem as coisas se acalmaram. Laci e eu fomos, devagar, puxando fios de conversa com os militares. Aos poucos, todos se identificaram. O tenente não era o militar que tinha sido ríspido, como eu pensara, mas um outro sujeito, humilde e doce. Conduzia sua equipe com sobriedade e até certa benevolência, sem contudo perder a autoridade.

Ficamos mais à vontade e, para desanuviar o ambiente, perguntei em tom de brincadeira ao soldado marrentinho, o ríspido, se ele fazia a sobrancelha. De tão certinha, tão bem desenhada que era. Ele negou, veemente, e contou meio sem jeito que na Companhia da Polícia Especial, à qual pertencia, já haviam feito esse mesmo tipo de comentário. Todos riram.

Após cerca de uma hora de vôo descemos em Uberlândia, interior de Minas, para abastecer. Àquela altura já sabíamos que estávamos sendo levados para Brasília.

No restante do trajeto, o convívio foi amistoso. Até apelidamos o soldado que inicialmente confundi com o comandante da equipe de “soldado gatinho”. Ele ficou constrangido, mas também lisonjeado. O Laci ainda brincou, dizendo que, se um dia escrevêssemos um livro, ele seria mencionado.

> Caso dos sargentos gays do Exército.

6 comentários:

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  2. sinto muito pot tudo o q aconteceu com vcs.nao mereciam passar por isso.quando tomei conhecimento do caso,nao foi atravez do programa,mas pela revista e confesso q achei muito lindo o sentimento q um tem pelo outro,por outro lado fiquei c/ o coração partido,pq ninguem merece isso tudo q vc sofreram. vcs sao dois guerreiros.estou torcendo pelos dois.recebam meu sincero e grande abraço!!

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  3. O povo do Brasil inteiro esta torcendo por vocês, isso sim que e leva as pessoas a serio, o que adianta esses pessoas terem preconceito se o amor sempre vence.

    p_ricardo_sampa@hotmail.com
    add ai quem quiser trocar mais informação...
    bjs!!!

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  4. Que nojo da "midia"! Gente sem escrupulos que com a miséria dos outros engordam seus cofrinhos...Lamentavel.

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  5. felicidades ao casal sinto muito que tudo isso tenha acontecido com vcs,resumindo a juliana gimenez..é uam ridícula que prescisou engravidar de um famoso pra char que é xiqueeee
    brega ao extremo..sem palavras pra essa pessoa sem coração que de verdade vai pagar essa ruindade que fizerão com vcs com Deus. bjussss felicidades...Elisa

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