Igreja Católica beatifica 188 mártires japoneses em Nagasaki

por Philippe Pons, do Le Monde,

É a primeira beatificação no Japão e a mais importante – com a participação estimada de 30 mil pessoas – já organizada na Ásia. Os “beatos” são leigos (salvo quatro padres e uma irmã): indivíduos, mas também famílias inteiras, mulheres e crianças, martirizados em 16 lugares diferentes do país. A Igreja católica japonesa conta com 42 santos e 205 beatos, mas até agora tratava-se sobretudo de religiosos. “É após o concílio de 1981 dos bispos locais com o Papa João Paulo II, para dar a conhecer ao mundo os primeiros cristãos japoneses, que os bispos tomaram a iniciativa de juntar os documentos históricos e de enviar pela primeira vez um pedido de beatificação à Santa Sé”, explicou dom José Saraiva Martins. As pesquisas duraram 26 anos.

Os suplícios dos quais foram vítimas, entre 1603 e 1639, indicam a segunda fase da perseguição. Eles começaram no tempo de Hideyoshi, senhor da guerra, que unificou o país. Em 1597, preocupado com o proselitismo dos missionários que chegaram junto comFrancesco Saverio, que desembarcou em Kagoshima (sul) em 1549, querendo impor sua autoridade, Hideyoshi manda torturar 26 cristãos em Nagasaki. Contavam-se então entre 300 mil e 400 mil os cristãos, lembra Églises d'Asie em um número especial sobre o Japão (novembro) que trata, entre outras coisas, das perseguições.

Tendo começado no sul do país, a evangelização havia alcançado em poucas décadas o norte da região de Honshu. O primeiro shogun, Tokugawa, ordena em 1614 o exílio dos missionários, percebidos como a vanguarda de potências estrangeiras, e proíbe o cristianismo. Fechamento do país, expulsão dos padres e perseguições sistemáticas dos fiéis são efetuados logo depois. Aqueles se se negavam a abjurar eram mortos: milhares foram decapitados, crucificados ou queimados vivos. Alguns conservaram, apesar de tudo, a fé. Privados de padres, de igrejas, de sacramentos, praticaram durante dois séculos e meio um culto secreto.

Depois da instauração da liberdade religiosa, em 1873, os missionários estrangeiros que retornaram ao Japão descobriram 26 mil descendentes dos “cristãos escondidos”. Alguns se reinseriram na Igreja; outros permaneceram fiéis a um tipo de culto transmitido oralmente, cujos antepassados já estavam mortos, mas que, muito distante do dogma, não foi reconhecido por Roma. Alguns milhares permaneceram nas ilhas ao longo deNagasaki, a cidade mais católica do arquipélago (4,5% da população, com relação a uma média nacional que não supera os 0,3%).

O cristianismo é pouco difundido no Japão. Contam-se menos de dois milhões de cristãos, dos quais 500 mil são católicos, em 128 milhões de habitantes. Difundiu-se sobretudo nas classes altas: o primeiro-ministro, Taro Aso, é católico. “Essa beatificação convida a reavivar a nossa fé. A nossa Igreja se reconstruiu com a ajuda dos missionários. Deve ‘japonizar-se’ mais”, defende domOsamu Mizobé, presidente da comissão de preparação à beatificação. (Tradução de Moisés Sbardelotto, para o IHU Online)

> Vaticano manda exumar corpo de Newman, o cardeal gay. (agosto de 2008)

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