Aos cem anos, umbanda ainda sofre preconceito. 20% menos que em 1991

O problema já foi a perseguição da extinta Delegacia de Costumes, no século passado. Atualmente, aos cem anos de sua fundação, comemorada ontem, as acusações de charlatanismo e curandeirismo fazem parte do passado da umbanda. Uma história de obstáculos e desconfianças para se consolidar como a primeira religião criada no Brasil. Porém, se a polícia já não incomoda mais, a intolerância de outras crenças continua presente na vida de pais, mães e filhos-de-santo no Brasil.

A reportagem é de Emilio Sant’Anna e Ricardo Muniz e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 16-11-2008.

Nem mesmo a proteção das entidades e orixás parece ter sido capaz de conter os ataques a centros de umbanda e candomblé. Os casos se acumularam nos últimos anos na mesma velocidade com que a demonização das religiões de matrizes africanas avançou nos veículos de comunicação controlados por evangélicos radicais.

Há quem acredite que a repetição dos casos de intolerância afasta os fiéis e impede a afirmação da crença. De acordo com o censo de 2000 do IBGE, 432 mil brasileiros se declaram umbandistas. Em 1991, eram 542 mil. “Hoje, existem pessoas se escondendo de sua fé por causa da intolerância religiosa”, lamenta pai Guimarães de Ogum, presidente da Associação Brasileira dos Templos de Umbanda e Candomblé (Abratu) e coordenador-geral do Movimento Chega! - organização contra a perseguição religiosa dos terreiros de umbanda.

Segundo o sociólogo Flávio Pierucci, livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), o discurso agressivo contra a umbanda e o candomblé surte efeito. “O número de adeptos de religiões afro-brasileiras está caindo vertiginosamente, o que significa que a contrapropaganda está funcionando. Essa demonização dos orixás funciona, porque as pessoas têm medo. Com pastores sistematicamente na televisão ou no rádio dizendo que aquilo é o demônio, realmente as pessoas começam a achar que existem religiões demoníacas no Brasil”, afirma.

A outra face da intolerância se revela na vergonha dos perseguidos. “Não temos dados consolidados do número de ataques nos últimos anos porque muitas pessoas acabam se escondendo com medo de novas retaliações”, diz pai Guimarães. “Existem casos de templos que são invadidos por evangélicos e quando ele (o umbandista) vai à delegacia, acaba sendo alvo de gozações.”

Alguns ataques, porém, acabaram na Justiça. Uma decisão do Tribunal Regional Federal de São Paulo concedeu ao Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (Souesp) o direito de resposta por ofensa e difamação de um programa (Sessão de Descarrego) da Rede Record de Televisão. O direito de resposta foi proposto em Ação Civil Pública interposta pelo Ministério Público Federal em novembro de 2004. A resposta deveria ser veiculada pela emissora durante uma semana, por uma hora, em horário nobre. “Não temos problemas com os evangélicos. Nosso problema se chama Edir Macedo (bispo e fundador da Igreja Universal)”, reclama Antônio Basílio Filho, diretor jurídico e ex-presidente do Souesp.

Em sua sentença, a juíza federal Marisa Cláudia Gonçalves Cucio, da 5ª Vara Federal Cível de São Paulo, escreve: “entendo que é possível a identificação dos ataques à religião com o intuito de menosprezar quem as pratica, referidos como bruxos, feiticeiros, pais de encosto.”

A emissora recorreu e o caso aguarda uma definição do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Procurada pela reportagem, a Rede Record não se manifestou. “Eles induzem a sociedade a se voltar contra, ou pelo menos ter medo, das casas de caridade de umbanda”, diz Basílio.

Para Pierucci, há um limite jurídico para essas iniciativas. “Esse movimento todo que teve até a participação do Ministério Público de responsabilizar a Rede Record por estar veiculando que os orixás são demônios pecou por querer que o Estado resolvesse questões teológicas. Os juristas brasileiros têm aquele raciocínio lógico-formal, pensam: ‘não é da nossa competência dizer ao Edir Macedo que ele está ofendendo um orixá chamando-o de demônio, isso é um discurso religioso, e o que o Estado tem a dizer sobre um discurso religioso?’”

Para os seguidores da religião, a primeira manifestação da umbanda sem vínculos com o kardecismo ou com o candomblé ocorreu em São Gonçalo, no Rio, em 15 de novembro de 1908. Nesse dia, na Tenda Nossa Senhora da Piedade, o médium Zélio Fernandino de Moraes, então com 17 anos, recebeu o Caboclo Sete Encruzilhadas. Estava fundada a religião e o primeiro terreiro de umbanda, oficialmente reconhecidos dali em diante.

Hoje, terreiros se espalham por todo o País, além de Portugal, Argentina e Inglaterra. Em São Paulo, são dezenas de templos, congregados pela Souesp.

Na avaliação de Pierucci, as religiões afro-brasileiras não estão sabendo reagir aos ataques, especialmente por carecer de foros de discussão. “O que estamos vendo é que essas religiões são muito frágeis, não têm organização nem muita unidade. De repente eles recebem um bombardeio de uma igreja que é gigantesca, que é a Igreja Universal.”

Em um contexto de acirrada concorrência por clientela, diz o sociólogo, a diversidade religiosa não tem crescido com a liberdade religiosa. “Essa liberdade religiosa deu origem a uma concorrência livre no sentido de que o Estado não regula mais o campo religioso, ele deixa as feras lutarem entre si. Ele se isenta, se ausenta.”

> Evangélicos quebram imagens de umbanda. (junho de 2008)

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