O massacre de Tlateloco. 40 anos depois

No dia 2 de outubro foi lembrado o massacre que o governo mexicano levou a cabo há quatro décadas, na Praça das Três Culturas, de Tlatelolco, para terminar abruptamente o Movimento Estudantil-Popular, de 1968. Esse foi um dos crimes de Estado mais aterradores que se registram na história do México contemporâneo.

O artigo é de Gilberto López y Rivas, publicado no jornal mexicano La Jornada, 03-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O ataque contra uma multidão pacífica e indefesa foi realizado com todos os agravantes da lei: premeditação, aleivosia e vantagem, e nele o Exército uniformizado e sem uniforme, isto é, o grupo paramilitar denominado Batalhão Olímpia e os franco-atiradores posicionados nos terraços dos edifícios próximos, os diversos corpos policiais e de inteligência da época participaram como autores materiais. Os autores intelectuais mais indicados são o ex-presidente da República, Gustavo Díaz Ordaz; seu secretário de Governo, Luis Echeverría Alvarez; os comandos militares da Secretaria da Defesa Nacional (Sedena) e o Estado Maior Presidencial, assim como diversos altos funcionários da polícia e do então Departamento do Distrito Federal. Nenhum dos responsáveis materiais e intelectuais foi culpado por esse delito de lesa humanidade, pelo qual há 40 anos impera a impunidade. Esse acontecimento marcou para sempre uma geração que guarda em sua memória uma lição indelével: a classe no poder recorre ao uso da violência genocida, se considera seus interesses e privilégios ameaçados.

O movimento de 1968 é a culminação de uma década de intensas lutas populares que se iniciou a partir da repressão da greve ferroviária de 1959; o assassinato de Rubén Jaramillo, em 1962; o ativismo do Movimento Revolucionário do Magistério; os movimentos grevistas dos telegrafistas e dos médicos; e as ações de uma parte importante de grupos que optavam pela luta armada sob a influência do triunfo daRevolução Cubana. A década de 60 é uma fábrica de ações, debates, acontecimentos que colocam a possibilidade da revolução no centro: lembremos que nesses anos a compreensão equívoca da experiência cubana deriva em muitos casos em um foquismo esquemático e tem amplas repercussões que culminam com o aprisionamento e assassinato de Ernesto Che Guevara, na Bolívia de 1967. O subcontinente latino-americano era um rosário de movimentos guerrilheiros e de grupos armados, em preparação aos quais o México não escapa. A discussão sobre o reformismo dos partidos comunistas tradicionais se “corrigia” em muitos países com grupos clandestinos que tinham como meta a ação armada.

O movimento estudantil pegou de surpresa os militares profissionais dessas organizações revolucionárias, dado que suas perspectivas apontavam setores “estratégicos”: a classe operária e, como aliado “secundário”, o campesinato. Os estudantes, ainda que constituíssem uma das fontes importantes de recrutamento desses organismos, não eram apreciados como um sujeito revolucionário capaz de impulsionar um processo da envergadura do que iniciou no dia 26 de julho de 1968, na raiz de uma violenta repressão policial contra a manifestação de apoio à Cuba revolucionária nessa data significativa.

Antes de o movimento estourar, as chamadas “sociedades de alunos” eram uma forma organizativa muito comum entre os estudantes, mesmo naqueles centros educativos com hegemonia da esquerda. O movimento tornou obsoletas essas estruturas que, em alguns casos, eram utilizadas pelo partido oficial para a cooptação de dirigentes estudantis, surgindo em seu lugar os comitês de luta nomeados em assembléias gerais, cujos delegados integrariam o Conselho Nacional da Greve, uma forma democrática de organização que funcionou até o final inesperado do movimento.

O ano de 68 se caracterizou por suas grandes e combativas marchas: as de agosto e setembro, a do silêncio, a das tochas; é lembrado pela generosidade, alegria, irreverência e imaginação dessa geração marcada por um movimento que lhe deu um sinal de identidade. Esse movimento foi integrado principalmente por estudantes e professores (mas também por pais e mães solidários) das diferentes escolas e faculdades da UNAM, oPolitécnico, a Escola Nacional de Antropologia e História, ainda que alunos da educação média e superior de escolas e universidades de diversas procedências sociais se somassem rapidamente, e incluíam a não poucos estudantes de centros universitários privados incorporados às brigadas de informação e propaganda que percorriam a cidade e constituíam um efetivo meio de comunicação que enfrentou com êxito os grandes meios controlados pelo governo.

O ano de 68 foi um acontecimento histórico de grande magnitude que impactou em grandes setores sociais, mediante os jovens estudantes, que sentiram como nunca o carinho popular não somente na cidade do México e seus arredores, mas também em todos os estados aonde o movimento se expandiu. Demandavam-se mínimas liberdades democráticas, a liberdade dos presos políticos e o fim de um regime autoritário por parte de um Estado que nunca esteve disposto a resolver o conflito. Chegou-se até o final trágico decidido pelo poder, até Tlatelolco, onde se aprendeu o significado da dignidade e da luta que não fraquejam e que frutificam até os nossos dias.

Sempre recordarei, nesse dia fatídico, de uma mulher imperturbável e erguida no meio das balas, dos gritos dos feridos e da angústia das pessoas que freneticamente buscava se proteger. Ela levantou lentamente seus braços, fazendo com seus dedos o sinal do V da vitória que o movimento adotou, enquanto a praça se enchia de morte, dor e luto.

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