O capitalismo obsceno

         image

Os recursos públicos destinados hoje para atingir os Dez Objetivos do Milênio, fixados pela ONU, estão na casa dos 28 bilhões de dólares. Para cumprir esses objetivos até 2015 seriam precisos US$ 1,2 trilhão. A crise financeira acaba de engolir o equivalente às somas necessárias para arrancar uma boa parte da humanidade da miséria. O artigo é de Michel Husson, economista, membro do Conselho Científico da Attac, e publicado pela Agência Carta Maior, 16-10-2008.

Eis o artigo.

O desastre financeiro levou, na sua queda, todo o edifício ideológico dos advogados da "mundialização feliz". Estão a ser feitas constatações óbvias: a financeirização é um cancro que apodrece a vida de milhares de milhões de seres humanos e que lhes inflige uma dupla penalização. Na verdade, tudo vai ser feito para que sejam as vítimas que paguem a louça partida, e que desencalhem a situação de uma minoria de delinqüentes sociais.

Os Dez Objetivos do Milênio para o desenvolvimento visam, daqui a 2015, fazer recuar a pobreza, a mortalidade infantil, garantir o acesso à água potável, etc. Qual é o seu custo de realização para o conjunto dos países do planeta? Seria necessário um fluxo de recursos que vai de 121 bilhões de dólares em 2006 até 189 bilhões em 2051 (1). É evidentemente mais que a ajuda pública consagrada a estes objetivos, que é hoje de 28 bilhões de dólares. Mas se acumularmos as necessidades estimadas daqui a 2015, chegamos a cerca de 1,2 trilhões. Dito de outra forma, a crise financeira acaba de engolir o equivalente às somas necessárias para arrancar uma boa parte da humanidade da miséria. Entramos na era do capitalismo obsceno, e o covarde alívio das Bolsas, com o anúncio de que as finanças serão suficientemente regadas de liquidez, é uma lição de coisas que teremos todo o tempo para meditar.

Porque nada está acabado, porque as diferentes crises encaixam-se como bonecas russas. A crise propriamente financeira levou o capitalismo à beira da embolia, mas é a crise econômica que recebe o testemunho: o que está a partir de agora na ordem do dia é simplesmente a recessão econômica. O FMI acaba de rever para baixo as suas previsões (2): em 2009, o crescimento será praticamente nulo (0,5%) nos países desenvolvidos, depois de uma forte desaceleração em 2008 (1,5%). O crescimento mundial, sustentado pelos países emergentes e em desenvolvimento cairia para 3%. Para o FMI, "a retomada ainda não está à vista" e só poderá ser "gradual, quando chegar". Um tal cenário é qualitativamente o único que podemos avançar. A saída da crise financeira será, e já é, extremamente custosa e a recessão tomará imediatamente o seu lugar.

Contrariamente a outros episódios semelhantes mas de menor amplitude, a retomada da normalidade vai demorar um tempo proporcional às somas absorvidas, e o mais provável cenário é à japonesa, com uma desaceleração durável. Tanto mais que é impossível voltar aos modelos de crescimento seguidos pelos Estados Unidos, a União Européia ou mesmo a China.

Os grandes críticos empoados do capitalismo financeiro vão rapidamente voltar-se, com a violência dos que sentiram ter escapado por muito pouco, contra os seus verdadeiros adversários: vão congelar os salários em nome da "unidade nacional", promover novas reduções dos orçamentos sociais porque é preciso enxugar todo o dinheiro público desbaratado, etc.

Acrescendo à crise econômica, paira a sombra da crise sócio-ambiental. Os preços do petróleo e das matérias-primas baixaram muito, mas será que isso apagou o aumento da fome e a corrida louca ao consumo de energia? Claro que não, mas a crise imediata vai ser um pretexto para relegar para mais tarde o esforço ecológico necessário, com o argumento de que essas preocupações são, apesar de tudo, uma espécie de luxo.

Tudo isto arrisca-se a não passar como uma carta no correio (privatizado): uma vez passado o efeito de choque, a realidade vai vir ao de cima. É justo congelar os salários para poder continuar a pagar os dividendos? É normal ganhar com o custo da crise? É razoável inundar os bancos [de liquidez] sem contrapartida, e fornecer-lhes a munição para a próxima bolha? Por que foi tão difícil encontrar 3 mil milhões para o RSA (Revenu de Solidarité Active, ou rendimento de solidariedade ativa, um fundo público de assistência social), quando bastou um estalar de dedos para encontrar a mesma quantia para salvar o banco Dexia? A partir de todas estas questões, um verdadeiro projeto de transformação social pode ganhar em credibilidade, a partir desta idéia simples: que não se pode mais confiar num sistema decididamente tão apodrecido e tóxico quanto os seus títulos financeiros.

Notas

(1) Investir no desenvolvimento: plano prático para realizar os objetivos do Milênio para o desenvolvimento. Ver na pág. XII a lista dos 10 objetivos, e a tabela 17.3 na pág. 300 para a avaliação do seu custo.

(2) FMI, World Economic Outlook, Outubro de 200

> Mais de 900 milhões de pessoas passam fome no mundo, diz ONU (setembro de 2008)

> Capitalismo virou cassino, diz Prêmio Nobel. (outubro de 2008)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Artigos de Luiz Felipe Pondé

O que muda na língua portuguesa com a reforma ortográfica

Europa tem 75 mil prostitutas do Brasil