A literatura que bebe da fonte bíblica

“Sua riqueza metafórica e imagística e sua capacidade narrativa foram alcançadas bem poucas vezes na tradição literária universal”, diz o escritor Marcelo Backes, vendo a Bíblia como uma das grandes obras literárias do mundo. Backes acaba de ministrar uma palestra sobre a relação da Bíblia com literatura na Casa do Saber, em São Paulo. AIHU On-Line conversou com ele sobre essa ligação e também sobre o uso e interpretação que outras obras e importantes escritores fazem da Bíblia. Assim, ele fala do pensamento, por exemplo, de José Saramago, que se considera ateu e comunista, mas, em um de seus principais livros, trata da vida de Jesus. “A problematização do maior ‘herói’ da cristandade é uma das grandes virtudes do romance de Saramago. Herói que, aliás, já na Bíblia se apresenta humano”, relata Backes. A entrevista foi realizada por e-mail.

Marcelo Backes é escritor, tradutor, professor e crítico literário. Doutor em Germanística e Romanística, pela Universidade de Friburgo, é autor de Estilhaços (Rio de Janeiro: Record, 2006) e de maisquememória (Rio de Janeiro: Record, 2007), entre outras obras. Em setembro, a mesma editora Record publicará sua tradução mais recente, o romance Crônica de uma vida de mulher, de Arthur Schnitzler.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você relaciona Bíblia e literatura e qual a influência dessa ligação nos conflitos da sociedade contemporânea?

Marcelo Backes – A arte em geral – e não apenas a literatura – gosta de beber da fonte bíblica. A quantidade de quadros geniais pintados sobre motivos bíblicos não é pouca. Na literatura, são várias as obras que tem a Bíblia como pano de fundo, clássicas e contemporâneas. Da peça Salomé, de Oscar Wilde, ao romance O evangelho segundo Jesus Cristo, de José Saramago [2], às vezes a literatura se contenta em usar uma grande história bíblica como metáfora (caso do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e às vezes chega a estender em muito a abrangência da história bíblica que a fundamenta, como no caso da tetralogia monumental sobre José e seus irmãos, de Thomas Mann [4]. A influência das relações entre Bíblia e literatura na sociedade contemporânea me parece escassa e absolutamente vaga. Prefiro pensar que, lendo a Bíblia, podemos nos dar conta, por exemplo, do caráter antigo – e arcaico – de vários conflitos importantes pelos quais o mundo está passando, coisa da qual a boa literatura por certo se dá conta. E é por isso, aliás, que ela continua se ocupando da Bíblia, que já é – por si só – boa literatura.

IHU On-Line – Alguns estudiosos afirmam que o Jesus saramaguiano não assume a condição de marionete nas mãos de Deus, ou seja, na literatura, Jesus é um herói hesitante, questionador e até considerado triste. Essa "lucidez" dada à imagem de Jesus se reflete na teologia atual?

Marcelo Backes – A problematização do maior “herói” da cristandade é uma das grandes virtudes do romance de Saramago. Herói que, aliás, já na Bíblia se apresenta humano, muito humano, em várias cenas; na mais famosa delas ataca os vendilhões do templo.

IHU On-Line – Saramago era ateu e a favor do comunismo. Como o senhor analisa um perfil como o do escritor e as aproximações que se faz com o mundo teológico?

Marcelo Backes – Acho que Saramago continua se proclamando ateu e defendendo o comunismo. Sua postura é honesta, e penso que ele é um homem de princípios, que não muda ao sabor da maré e tem lá suas convicções. Mas, sendo Saramago ou qualquer outro o autor em questão, eu me ocupo mesmo é de suas obras. E Saramago é – nesse sentido – autor de alguns dos belos romances da literatura recente em língua portuguesa.

IHU On-Line – Há um certo distanciamento entre teólogos e críticos literários. Por que isso acontece ainda hoje?

Marcelo Backes – Acredito – e estou quase apenas dando um chute – que os teólogos deixaram de ser grandes exegetas, que não temos mais exegetas como antigamente, que eles perderam, portanto, seu lado interessante de críticos literários em profundidade. Exegetas, aliás, com os quais os críticos literários de hoje, que nem sequer conhecem a Bíblia, também poderiam aprender muito. Para o que, aliás, precisariam também de muito amor, já que dinheiro não há, na medida em que a crítica literária – na condição de profissão paga – há tempo deixou de existir no Brasil.

IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre a Bíblia enquanto obra literária?

Marcelo Backes – A Bíblia é, indiscutivelmente, uma das grandes obras da literatura universal. Tanto que continua dando idéias a outras obras até hoje. Sua riqueza metafórica e imagística e sua capacidade narrativa foram alcançadas bem poucas vezes na tradição literária universal.

IHU On-Line – Como você considera que foi registrada na literatura a ideologia neoreligiosa da Revolução Francesa (o culto de Ser Supremo)?

Marcelo Backes – Estou longe de ser um expert no assunto, e mais uma vez assumo a condição de palpiteiro. De qualquer modo, pelo que sei, o chamado culto do “Ser Supremo” foi teorizado e defendido durante a Revolução Francesa, que percebeu de repente – depois de constatar o forte sentimento anticristão existente no país – que a religião, ou a religiosidade, poderia ter lá seu papel na estabilidade social de uma nação, de um Estado. E esse me parece um processo de racionalização e de controle semelhante a vários outros, que, aliás, fazem parte da condição de um Estado e soem ser malversados em favor de interesses, maiores ou menores. Mas eu não acho que proporcionar equilíbrio, estabilidade, seja uma das funções da literatura. Acho que a literatura tem de, muito antes, inquietar do que acalmar, desestabilizar do que estabilizar.

IHU On-Line – Como você vê que o bem e o mal estão retratados na literatura teológica?

Marcelo Backes – O bem e o mal é uma das grandes questões da Bíblia e assume condição central já em seu primeiro livro, o "Gênesis". Para falar de uma das obras que citei anteriormente, ela continua presente na história de Salomé, já no Novo Testamento, marcadamente na versão que lhe deu Oscar Wilde, um escritor, aliás, nada sacro. Salomé vive profundamente o embate entre pulsão de amor e pulsão de morte, e acaba pedindo a cabeça de João Batista numa bandeja depois de se apaixonar por ele e ser rechaçada. E se posicionando contra a política do Estado implementada porHerodes, que jogou João Batista no cárcere, mas temia sua força, e por isso não quis aceitar sua execução. Quer história mais interessante do que essa?

> Fonte: IHU Online.

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