'Enquanto falamos, mulheres são violentadas'

“O pior para mulheres que foram estupradas e tiveram maridos assassinados na guerra é serem discriminadas pela própria população”, diz a médica Monika Hauser, que acaba de receber o Right Livelihood Award (RLA), conhecido como Nobel alternativo, e que em 1993 fundou a ONG “Medica Mondiale”.

A reportagem e a entrevista é de Graça Magalhães-Ruether e publicada pelo jornal O Globo, 05-10-2008.

Eis a entrevista.

O que significa receber o Nobel alternativo?

Significa um grande reconhecimento para poder continuar com o meu trabalho de ajuda às vitimas da violência sexual. Estou de viagem para o Kosovo, onde encontrarei mulheres que ajudamos desde o final da guerra. Seus maridos foram presos e assassinados e elas, estupradas por soldados sérvios. Ainda hoje muitas sofrem com o trauma psicológico e com a escassez material. Depois de acompanharmos as mulheres psicologicamente, iniciamos um programa para que consigam ter uma renda própria. Cada mulher recebeu vacas e um trator para trabalhar na agricultura. Hoje elas são independentes. Deixaram de ser vítimas ao adquirir uma perspectiva de vida. São 120 viúvas que participam desse programa. Além disso, temos milhares de mulheres que ainda recebem assistência psicológica para superar o trauma da violência sexual na guerra.

O que é pior para essas mulheres, a necessidade material ou o trauma do estupro?

O pior para elas é, depois de suportarem o trauma da violência, serem estigmatizadas pela sociedade. A sociedade condena as vítimas, e não os criminosos. Nós procuramos com nosso trabalho conscientizar a sociedade para que ajudem na reabilitação dessas mulheres.

A senhora fundou a “Medica Mondiale” na guerra da Bósnia, quando acusou tropas sérvias de usarem o estupro como arma. Pode explicar melhor?

É verdade que os estupros em massa fizeram parte da estratégia militar durante as guerras da Iugoslávia. Eles foram praticados por sérvios e croatas. Durante a guerra da Bósnia, os sérvios pegavam as mulheres da elite da cidade, a mulher do prefeito, por exemplo, e as estupravam em praça pública. O estupro significava para as pessoas uma vergonha tão grande que a população ia embora, com medo, e a estrutura social era destruída. Dizia-se naquela época que estupros ajudavam a economizar bombas.

Onde a violência sexual é ainda usada como arma?

No momento, o Congo é o pior caso registrado pela nossa organização. Neste momento, enquanto conversamos, há mulheres sendo violentadas. No Afeganistão e na Libéria o problema também existe.

O Conselho de Segurança da ONU denunciou a violência sexual de guerra. Isso ajudou a proteger as mulheres?

Houve duas resoluções muito importantes. A lei internacional proíbe esse tipo de violência. Mas assim mesmo tropas internacionais de paz ainda não começaram a ter como prioridade a proteção de mulheres contra a violência sexual.

Durante seu trabalho nas regiões de conflito, a senhora chegou a ter medo de morrer?

Uma época muito perigosa foi durante a guerra da Bósnia. Não tive medo. Éramos um time forte. O medo eu vim sentir mais tarde, já na Alemanha. Sofri um colapso completo naquela época, no final de 1995. Tinha arritmia cardíaca.

A senhora conhece casos no Afeganistão de homens que são estuprados?

Isso acontece no mundo inteiro. Houve processos no Tribunal Penal Internacional de Haia sobre o estupro de homens nas guerras da Iugoslávia. Houve também na Guerra do Golfo, no Afeganistão.

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