'Antes o íntimo era secreto, agora se torna público na Internet'

 

image O privado fez-se espetáculo, abrindo-se às câmeras a cotidianeidade banal e também aquela que antes se resguardava com pudor. Blogs e fotologs acentuam essa tendência.

Mostrar-se seja como for é a divisa que predomina em nossa época. E isso faz com que se transtorne a relação público/privado. Paula Sibilia, autora dos livros “O Homem Pós-Orgânico. Corpo, subjetividade e tecnologias digitais” (Relume-Dumará, 2002) e“La intimidad como espectáculo” [A intimidade como espetáculo] (FCE, 2008), é uma atenta estudiosa das metamorfoses da cultura contemporânea.

Segue a entrevista com Claudio Martyniuk, do jornal argentino Clarín, 21-09-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A intimidade está em crise?

Há uma crise da intimidade, que, como pertencente ao âmbito privado, já não se opõe ao âmbito público, porque passa a se exibir. No século XVIII, privilegiou-se o espaço público. Foi o século do homem público. E a privacidade, nesse contexto em que começa a se configurar a divisão entre o público e o privado, ficou como o âmbito da família e da mulher. No século XIX, houve uma inflamação do espaço privado, e o espaço público começou a ser estigmatizado, temido por enganoso, hipócrita. E o espaço da intimidade passou a ser o da verdade e da autenticidade, onde se podia estar sem máscaras e que era moralmente superior. A moralidade privilegiada era a do lar, das relações familiares, íntimas. Essa superioridade moral da intimidade não terminou. O âmbito público está cada vez mais estigmatizado, mais asfixiado. Nas décadas de 1960 e 70, algo começou a mudar de uma forma complexa, borrando a fronteira entre o privado e o público. Desde então, a intimidade passou a se mostrar no espaço público.

O que aconteceu com a família com essa mudança da intimidade?

A família mudou, como quase tudo. Está em crise. Era uma instituição disciplinar, um espaço fechado, mas já se abriu à mudança, não está formada de uma vez para sempre. Antes, o espaço familiar era tipicamente o âmbito da mulher, e era pouco o que se podia mudar. Agora, há um estímulo à mudança. E mostrar a intimidade tem a ver com o fato de que isso é o mais valioso, ainda que se trate de coisas banais: como nos lavamos os dentes, como é a decoração da minha casa, meu estilo. Então, o que mais se valoriza é o íntimo. Mas em algum ponto deixou de ser íntimo, porque perdeu seu oposto, o público. Antes, o íntimo era secreto, agora se torna público na Internet. O pudor, o oculto formavam parte da definição do íntimo, tinha-se que fechar as janelas e as portas. Agora, põe-se uma webcam que mostra tudo o que se faz dentro de uma casa. O que se mostra na Internet deixa de ser íntimo.

O domínio da visibilidade estende o campo da confissão?

A confissão é um dispositivo de poder sumamente eficaz, mais eficaz que a censura, porque a censura faz calar. A confissão é mais sutil, porque é menos evidente e porque faz falar. Ela nasce com a Igreja, é desenvolvida pela Justiça e é usada nos séculos XIX e XX pela psicologia, pela psiquiatria e pela medicina e agora se torna midiática, aparece exacerbadamente nos meios de comunicação. E isso faz com que a confissão, que era feita em um âmbito fechado, agora se torne pública. Antes, predominavam os segredos de confissão e profissionais. Agora, não só não se solicita essa reserva, mas também se roga que não se guarde o segredo. Existem sites na Internet onde se podem confessar segredos para que todo o mundo os veja. A graça é confessar algo privado. Fala-se, mas são monólogos. Estamos diante do eclipse da cultura da conversação?

Fala-se até pelos cotovelos, fala-se em todas as partes. Os telefones celulares parecem ter levado isso ao paroxismo, e, no entanto, como sinalou Guy Debord em “A sociedade do espetáculo”, há quarenta anos, a arte da conversação está morta. A conversação, como uma arte, não é o que fazemos no celular.

Exibindo o íntimo, como o “eu” fica configurado?

O “eu” tem que elaborar suas experiências e compreender o sentido do que lhe acontece, e para isso precisa de exercícios de introspecção e de confissão íntima, diário íntimo, cartas, leitura, escritura. Essas práticas tinham lugar na interioridade. Guardavam-se dentro de cada um, dando uma riqueza enorme, mas também uma atadura, já que era aquilo que estava dentro de alguém e ninguém podia tirar. Aí ficava, por exemplo, aquela culpa nascida quando criança. Ainda que alguém tenha se esquecido, permanecia e podia reaparecer; nos condenava. Agora, há um deslocamento que desinfla a interioridade, tirando seus conteúdos, e o eixo e o centro do que somos deixa de estar aí dentro para mostrar-se, para estar visível, e isso faz com que a estabilidade do “eu” se perca, com o bem e com o mal que isso implica. Lutou-se muito para não ter que estar condenado a uma identidade imposta, para poder autocriar-se. Hoje, temos a possibilidade de romper condicionamentos de origem, com o idioma, a profissão do pai, com tudo o que antes estávamos condenados.

Que conseqüências isso traz?

É uma conquista que gerou monstros. A partir da década de 60, desajustam-se os valores tradicionais e há uma reivindicação da espontaneidade, da criatividade, da informalidade, da juventude, da possibilidade de mudar. São conquistas diante do trabalhador industrial típico, representado pela figura de Chaplin em "Tempos Modernos", que adquire os ritmos da máquina, que faz sempre o mesmo e sai alienado. O que o mercado de trabalho oferece hoje não é exatamente isso, ainda que isso siga ocorrendo com muita gente, e não só na China. O capitalismo contemporâneo requer pessoas criativas, dispostas a mudar, espontâneas, ávidas, ansiosas e com muitos desejos não reprimidos.

Por que a intimidade se transforma em uma tirania?

A tirania da intimidade é um fenômeno do século XIX. Foi uma imposição sutil, prazerosa, foi o desejo intenso de se fechar na privacidade e cultivar as relação afetivas, as emoções. Seu modo de expressão característico é a novela. Há hoje uma tirania da intimidade diferente, que não se apóia no universo da cultura letrada para alimentar a intimidade. Agora, à tirania da intimidade se sobrepôs a tirania da visibilidade, outra tirania não ditatorial. Ou seja, ninguém obriga que os meninos se mostrem no fotolog, ou que ponham uma webcam em sua cama ou em seu banheiro, ou que vejam ou estejam nos reality shows. A tirania da intimidade atual promove cultivar a intimidade, mas contanto que seja visível, porque, se não é visível, talvez não exista. Nossa lógica é a da sociedade do espetáculo: só existe o que se vê. Não somente são pessoas que querem se mostrar, mas também há gente que quer ver. Então, esses personagens que aparecem estereotipados tomam visibilidade, e é a tela a que lhes dá existência, e todo mundo sabe quem são. Alguns conseguem seguir visíveis um pouco mais. Podem fazê-lo como modelos, apresentadores, mas o que interessa é manter a visibilidade.

Agora todos nós nos transformamos em leitores e escritores?

Pela Internet, todos nós podemos ser emissores, todos nós podemos dar a conhecer o que fazemos, todos nós podemos mostrar nossos vídeos, nossas imagens, todos nós podemos nos transformar em jornalistas, em escritores. Nem todos têm acesso à Internet, mas os que têm definem as tendências, são os mesmos os que publicam os fotologs e os que lêem. E, de fato, formam-se correntes: os que têm blogs põem, à margem do seu, links a outros blogs, e isso se transforma em uma espécie de rede, e uns lêem os outros. O fato de que estejam conectados entre si é o que permite que existam os comentários. Um blog só existe porque é visto. Senão, não o publicariam. Não é como o diário íntimo que, pelo contrário, tinha que ser guardado na gaveta. Se alguém escreve um blog ou se alguém põe um vídeo no Youtube, ou publica fotos, é porque pensa que vão ser vistos.  Se são publicados, se esses meios são escolhidos para dar a conhecer alguma coisa, é porque se pensa que alguém vai ver. Mas se ninguém o vê, provavelmente, esse blog desapareça. O rating dos blogs é medido pela quantidade de comentários. O que fazem os comentários, ainda que digam “que linda ficou essa foto”, é confirmar a existência do autor do blog. Não são autores de obras, por mais que ponham fotos, textos, vídeos. Essas produções estão aí na maioria dos casos para ornamentar o “eu” do autor. Os comentários cumprem a função de confirmar a existência desse autor e seu grau de visibilidade. E esse autor que recebe os comentários comenta ao comentador, e há um regime de correspondências e reciprocidades. Então, não há uma separação tão radical entre autores e leitores.

A Internet seria como “O Aleph”, de [Jorge Luis] Borges?

Sim. Contos de Borges como “O Aleph” ou “O jardim dos caminhos que se bifurcam”servem como metáforas do que a Internet é, um espaço que não tem espacialidade, ou que tem uma espacialidade virtual, e que, no entanto, é capaz de hospedar tudo, tem uma vocação de totalidade: entram todos os livros do mundo, todas as imagens, todos os filmes, todas as besteiras também, ou seja, tudo. Tudo o que é importante, e o não importante também. A Internet seria “A biblioteca de Babel”. A Internet parece realizar esses impossíveis borgeanos.

E que características tem a web 2.0?

Quando o Youtube, os fotologs e o conjunto de sistemas nos quais os usuários são os principais colaboradores – são os que produzem o conteúdo – começaram a aparecer, deu-se a mudança. A web original, que era a famosa web.com, explodiu. Nela, as pontocom eram as grandes empresas que produziam o conteúdo, e os usuários eram simplesmente consumidores, expectadores, leitores. Então, na web 2 os usuários colaboram com as empresas. Fazem-se amigos, em troca de receber publicidade.

> Fonte: IHU Onlinte.

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