Fumo ajudou a eleger 13 congressista

MARIA CLARA CABRAL, da Sucursal de Brasília da Folha

A atual ofensiva contra o tabagismo enfrenta, no campo de batalha da legislação, o lobby da indústria do fumo. Só na última eleição, em 2006, a indústria do fumo aplicou R$ 1,7 milhão em campanhas de candidatos.

E o interesse das empresas do fumo na política aumentou consideravelmente se comparado com a eleição anterior, quando as empresas fabricantes de cigarros ou produtoras de fumo doaram apenas cerca de R$ 255 mil.

Do montante doado no último pleito, cerca de R$ 750 mil ajudaram a eleger congressistas. Entre os 102 candidatos a cargos federais -deputados e senadores- que receberam doações, 13 conseguiram chegar ao Congresso.
Lá eles poderão ter que analisar mais de 20 projetos que tramitam sobre o assunto.

cigarrojpg As propostas tentam, por exemplo, proibir o motorista de fumar no carro ou ainda proibir o cigarro em locais onde se pratica esportes.
Um outro texto, também de âmbito nacional e que está pronto para ser votado no plenário da Câmara, assemelha-se à proposta do governador de São Paulo, José Serra, de acabar com todos os fumódromos em lugares fechados.


Sem prioridade

O deputado Cândido Vacarezza (PT-SP), que recebeu R$ 60 mil de uma empresa do setor, afirmou que, quando o assunto chegar na pauta da Câmara, não terá nenhuma objeção em votar contra o interesse de seu doador.

Ele disse que é favorável à proibição do cigarro em locais fechados, mas que hoje os deputados têm assuntos mais importantes para discutir.

Segundo Vacarezza, o dinheiro foi doado porque o dono da empresa é seu amigo de infância, não por qualquer tipo de relação com o setor.

Já o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS), que recebeu cerca de R$ 72 mil em doações, admite ser, na Câmara, um dos maiores defensores da produção do fumo no país. Ele classifica os fumódromos como bons, "porque permitem o fumo àqueles que têm vontade de fumar".

O parlamentar não fuma, mas disse defender os interesses do setor, pois a sua região -Santa Cruz do Sul (RS), a 155 km de Porto Alegre, de onde Moraes já foi prefeito- é a maior produtora do país.

Segundo dados do Sindifumo (Sindicato da Indústria do Fumo), cerca de 190 mil famílias vivem da produção do fumo na região. Esse é o argumento do deputado. "Não podemos simplesmente acabar com o emprego. E acredito que acabar com os fumódromos pode prejudicar a nossa produção."

Outro deputado da região, Luis Carlos Heinze (PTB-RS), foi o parlamentar que mais recebeu doação de campanha do setor. Foram R$ 120 mil.

Ele admite que pediu dinheiro para as empresas, já que é um grande defensor da produção de fumo na região. "Não ajudo o setor porque vão ajudar minha campanha, mas é pela atividade econômica que defendo. Não vou defender nunca coisas que prejudiquem os produtores", disse.

Em resposta a um projeto que limitava a área de produção do fumo, ele foi autor de um substitutivo na Câmara que autorizava o cultivo do produto em todo o país. O seu texto foi aprovado e, conseqüentemente, o projeto que tentava limitar a produção foi arquivado no ano passado.

Empresas

As empresas que mais doaram na última eleição foram a beneficiadora de fumo Alliance One (R$ 555 mil) e a fabricante de cigarro Sudamax (R$ 522,5 mil). As duas não receberam autorização da Anvisa para funcionar neste ano.

Representantes da Alliance não foram encontrados. Já o advogado da Sudamax disse que a empresa teve que demitir cerca de 500 funcionários, pois a liminar de funcionamento da empresa encontra-se suspensa.

Se comparado com um setor mais forte e maior, o das bebidas, que colocou quase R$ 2 milhões na campanha de deputados eleitos, a participação da indústria do fumo na política não é tão forte.

O presidente do Sindifumo, Iro Schunke, no entanto, admite que o setor acompanha o andamento de projetos de interesse no Congresso.

Segundo ele, a doação de campanha é natural. "Não temos uma bancada do fumo, assim como em outros setores. O que temos são alguns deputados que conhecem a nossa economia e sabem da importância do fumo, por isso não há problema nenhum em fazer doações", afirmou.

> Brasileiros apóiam a proibição do cigarro em lugares fechados. (setembro de 2008)

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