Famílias ricas de São Paulo se mudam para condomínios que conjugam '4 em 1'

Os novos espaços chegam a custar R$ 17 milhões e conjugam moradia, compras, trabalho e diversão; arquitetos classificam a iniciativa como "artificial". A reportagem é de Rafael Balsemão e Leandro Nomura e está publicada na Folha de S.Paulo, 06-07-2008.

Uma minicidade está nascendo dentro de São Paulo. É um pequeno universo de sonhos, com promessa de segurança, espaços arborizados, sem engarrafamento e com todos os serviços à mão. Um luxo para os 275 paulistanos que já se dispuseram a pagar entre R$ 2 milhões e R$ 17,3 milhões por um apartamento no Parque Cidade Jardim, empreendimento que reúne prédios residenciais, comerciais e um dos shoppings mais luxuosos da cidade.

"Vou me mudar de um terreno de 2.000 m2 para um de 72 mil m2", compara Camilo Nader, 62, industrial que irá trocar sua casa no Morumbi, onde viveu nos últimos 25 anos, pelas amplas áreas verdes e serviços "prime" oferecidos pelo complexo. No mês que vem, quatro das nove torres do empreendimento na zona sul da capital começam a receber os primeiros moradores.

O Parque Cidade Jardim tem como inspiração grandes empreendimentos ao redor do mundo, como o Time Warner Center, em Nova York, na beira do Central Park. "O conceito de uso misto combina o divertir, o trabalhar, o morar e o comprar", explica Daniel Mcquoid, 51, vice-presidente da construtora JHSF. Em Kuala Lumpur, na Malásia, o Petronas Twin Towers, segundo edifício mais alto do mundo, e o Kuala Lumpur City Center são outros exemplos de empreendimentos dentro dessa filosofia. Além do Parque Cidade Jardim, também em São Paulo, será inaugurado o condomínio Parque Villa-Lobos, com características semelhantes.

O executivo Marcos Quintela, 37, que hoje mora no Morumbi, vai se mudar para um apartamento de 600 m2 no edifício Jabuticabeiras, um dos primeiros residenciais a ficar prontos no Parque Cidade Jardim. Casado com a empresária Débora, 35, e pai de três crianças, Marcos justifica a troca em busca de maior qualidade de vida. "Quero deixar de gastar tempo no trânsito para ficar mais com meus filhos", afirma.

A única preocupação é a superexposição dos filhos Pietra, oito meses, Caio, dois anos, e Luca, 5, ao apelo das vitrines. "No começo, a idéia de morar tão próxima de um shopping me deixou assustada", diz. "Mas a questão do consumo na vida das crianças depende da educação que os pais dão."

A família Quintela adquiriu ainda um escritório nas torres comerciais, que só devem ser entregues em 2010. "Não sei se vou trabalhar lá quando ficar pronto, mas o investimento foi feito", diz ele. Débora está de olho na sala comercial. Os Quintela vão, assim, viver de um novo jeito na metrópole, unindo moradia, trabalho, lazer e consumo.

Justificar a opção por mais comodidade, qualidade de vida e segurança não evita as críticas ao novo conceito "4 em 1" de moradia. "É uma tendência que mostra o empobrecimento da questão urbana. Quem vive isolado perde a riqueza de estímulos que a cidade tem", afirma a arquiteta e urbanista Maria Lucia Refinetti Martins, 56, da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo).

Quando o conceito ganha um quarto elemento, o consumo (lojas e serviços) no quintal de casa, os estudiosos da vida urbana ficam ainda mais temerosos em relação ao futuro da cidade como espaço de civilidade e de cidadania. "Se todo mundo se fechar em seus muros, a situação fora vai ficar muito pior", teme Maria Lucia.

Socialização

A mudança para um local com todas as facilidades de um shopping também vai marcar uma nova fase na vida do industrial Camilo Nader. Morar no Parque Cidade Jardim na terceira idade é encarado por ele como uma nova forma de socialização. "Lá, todo mundo se conhece. A gente vai ficando mais velho e sozinho. É muito animador saber que basta pegar um elevador para encontrar amigos, ver gente bela."

Almoço em casa

A violência da metrópole pesou também na decisão de Camilo de embarcar no conceito "4 em 1". "Apesar de eu morar em uma rua sem saída, trata-se de uma segurança muito mais frágil se comparada à do shopping e à dos prédios", diz ele, que calcula a economia que terá. "Vou desembolsar muito menos do que gastaria com seguranças particulares." Ele compara a despesa para dispor da mesma proteção na atual casa com os R$ 3.000 mensais que pagará no condomínio.

É um preço que embute mais que segurança. "Assim que as torres comerciais ficarem prontas, pretendo me transferir para lá. Vou trabalhar de carrinho de golfe e almoçar em casa todos os dias", planeja. "Qual morador de São Paulo tem o privilégio de fazer isso?"

Comentários

  1. O que eu tenho a dizer? SANTO DEUS! Que Deus tenha piedade desses ''humanos''...!

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  2. Há uma pequena parcela da sociedade que é tão, mas tão pobre que... Só tem dinheiro...! Senhor Camilo Nader, fora do seu mundinho fútil e consumista não existem pessoas belas? São vocês que excluem, que acumulam o que deveria ser bem distribuído, se isolam num mundo que pretensamente acreditam ser só de vocês e ainda tem a capacidade de perguntar: ''De onde vem tanta violência?''... Pois é...!

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