Sai em Portugal o primeiro dicionário com a nova ortografia (JB)

O novo acordo ortográfico da língua portuguesa nem bem saiu do papel e o primeiro dicionário com todas as mudanças agrupadas já está à venda. Trata-se do Novo dicionário da língua portuguesa, sob consultoria de João Malaca Casteleiro, da Texto Editores, uma das 10 empresas que fazem parte do grupo Leya. A editora portuguesa sai na frente das brasileiras, que ainda avaliam de que forma vão reeditar seus dicionários quando o acordo for decidido, o que deve acontecer até o fim deste mês

A editora Positivo, responsável pelos dicionários Aurélio, já trabalha para uma nova edição a ser lançada ainda este ano e prepara cartilhas para atualizar os professores. Boa parte do material didático comprado pelo governo para utilização nas escolas públicas é produzido pela editora paranaense.

– Muito se fala nas mudanças de letras e acentos. mas é preciso pensar também nos professores, que deverão ser reciclados antes que as mudanças sejam adotadas – lembra o diretor de livros e periódicos da Positivo, Emerson Santos.

A Academia Brasileira de Letras (ABL), que acabou de finalizar seu primeiro dicionário escolar, a ser publicado pela Editora Nacional, teve de correr para "parar as máquinas". Quando o livro ficou pronto, os lexicógrafos perceberam que as mudanças já seriam uma realidade à época do lançamento. E decidiram elaborar um suplemento com as alterações, encartado, até que o acordo vire lei.

O livrão do bruxo

A ABL, aliás, engatou a primeira dos dicionários: depois do escolar, a equipe composta por cinco lexicógrafos prepara um dicionário de Machado de Assis. A partir de 17 obras, chegaram a um universo de 9 mil palavras. A lista compilada é uma amostra significativa da linguagem usada na virada do século 19.

– O vocabulário de Machado de Assis não é precioso mas é refinado – explica Bechara. – Um português rico, mas sem arcaismos.

Entre as palavras encontradas, curiosidades como "camborça" (amante), "gamenho" (elegante) ou "urtigar" (castigar com urtigas).

– Ao ler Machado, é preciso atentar para algumas especificidades da época, que se refletiam na língua. Almoço, por exemplo, não é a refeição que hoje entendemos por almoço, ao meio-dia, mas o desjejum. A palavra vem do latim, ad mordium, que significa a primeira mordida, a quebra do jejum. E, naquela época, as pessoas faziam as refeições mais cedo. São nuances como esta que atribuem outros significados ao romance – explica o lexicógrafo Claudio Mello.

A história

O primeiro dicionário de língua portuguesa foi feito no século 19 por Rafael Bluteau. Depois dele, houve a tentativa da Academia Real de Ciências de Lisboa, mas não conseguiram passar da letra A. O lingüista Antônio de Morais e Silva fez então o que viria a ser o mais importante do século 19, segundo especialistas, o Diccionário da língua portuguesa. Vieram então o Caldas Aulete, que foi editado pela primeira vez em Lisboa, em 1880, e o Laudelino Freire, já no século 20.

Hoje, cada dicionário tem um estilo claro. O Houaiss, por exemplo, é o mais erudito, voltado para a origem etimológica. E o Aurélio, um dicionário de abonação, repleto de exemplos do uso, principalmente da literatura.


Loucos por dicionários, uma espécie em profusão


A paixão pelo pai-dos-burros, quando não é genética, é incurável

Mariana Filgueiras

Ainda menino, o hoje imortal Evanildo Bechara recebeu a recomendação de um professor: todas as vezes que fosse procurar uma palavra no dicionário, que lesse quatro verbetes acima e quatro abaixo da palavra procurada. A dica virou vício. Hoje Bechara não vai atrás de uma "boiçununga-maracabóia" – se você não sabe o que é, corra para o dicionário antes de ser picado! – sem passar pelo "boicininga" e "boicotiara", verbetes parentes.

– Comecei a ler a coluna de verbetes inteira, depois a página. Às vezes me perco lendo o dicionário como um romance – diverte-se o acadêmico, um verdadeiro louco por dicionários.

Em sua sala, atulhada de livrões em edições raríssimas, vocabulários – espécie de dicionário de palavras afins – e, claro, muitos dicionários, Bechara caminha com intimidade, abre um, mostra outro, olha este, aponta o Morais: "Não é uma beleza?", até encontrar uma raridade: O dicionário dos dicionários, de autoria do austríaco Dieter Messner.

O livro não se encontra em sebos ou leilões, ainda, porque sequer foi lançado no Brasil. Estudioso da língua portuguesa, o professor Messner tem um ousado projeto de vida: compilar, em quantos volumes forem necessários, todos os verbetes da língua portuguesa, na maneira como cada um fora explicado nos principais dicionários da língua. Assim, a palavra "maçã", por exemplo, traz a definição dada pelo Aurélio, pelo Houaiss, pelo Laudelino Freire...

– Ele já está no nono volume e ainda não saiu da letra A! – conta Bechara, amigo pessoal de Messner, de quem recebe as edições com exclusividade, à medida que ficam prontas.

O vício de corrigir

Outro aficionado pelo pai-dos-burros é o artista Cassio Loredano. De tanto fuçar livrarias, já ocupou uma parede inteira de casa com eles. De línguas estrangeiras, de estrangeirismos, dicionários técnicos, de sinônimos, antônimos, a fixação pela palavrinha em negrito é quase uma obsessão. Um exemplar do Houaiss já foi até liberado para as filhas desenharem: – É para criar intimidade desde cedo – justifica.

A paixão é tão grande que virou mania: Loredano desenvolveu o hábito de buscar erros. Em uma enciclopédia que herdou do pai, encontrou no verbete Machado de Assis o nome completo do escritor com um José no lugar do Joaquim Maria Machado de Assis, e no verbete Rio de Janeiro, um mapa com a cidade beirando um suspeito Oceano Pacífico.

– Tenho um amigo que já virou três noites corrigindo o Houaiss. Quando ele viu que as palavras-guia da direita (aquelas que ficam no canto superior da página para facilitar a busca) não indicavam a última palavra da página, mas a primeira da coluna, ficou maluco, e passou as noites copiando as palavras corretas – conta o ilustrador.

Corrigir dicionários não é mania só do ilustrador. Na autobiografia Viver para contar, Gabriel García Márquez fala de um amigo, Alfonso, que costumava passar o tempo corrigindo a última edição do dicionário da Real Academia de Espanha: "Era seu ócio favorito desde que encontrou um erro casual num dicionário de inglês, e mandou a correção documentada aos editores em Londres, talvez sem outra gratificação além de fazer uma das nossas piadas na carta que acompanhou tudo: ‘Finalmente a Inglaterra deve um favor a nós, colombianos’".

Preciosismo? O escritor Millôr Fernandes aceitou um desafio proposto por Loredano: encontrar a origem do sufixo "mônio", presente em matrimônio.

– E não é que ele tirou um livrão do alto da estante que tinha a resposta? Mônio vem de moneta, monetário. Encomendei um exemplar imediatamente do Origins: a short etymological dictionary of modern english, de Eric Partridge – conta Loredano.

Cheirar dicionários?

Da turma de loucos, faz parte também o escritor João Ubaldo Ribeiro. Em seus textos, sempre encontra um jeito de salpicar palavras incomuns para forçar o leitor ao que ele chama de "exercício dos domingos" – ir ao dicionário. Ubaldo conta que, quando garoto, aprendeu inglês só de ler no dicionário. E que, goleiro do time do bairro, por vezes esquecia-se da bola para folhear os livrões. Em um trecho de Um brasileiro em Berlim, a peculiaridade é aproveitada na construção de um dos personagens:

"– Seu filho está doido. Ele não larga os livros. Hoje ele estava abrindo os livros daquela estante que vai cair para cheirar.

– Que é que tem isso? É normal, eu também cheiro muito os livros daquela estante. São livros velhos, alguns têm um cheiro ótimo.

– Ontem ele passou a tarde inteira lendo um dicionário.

– Normalíssimo. Eu também leio dicionários, distrai muito. Que dicionário ele estava lendo?

– O Lello.

– Ah, isso é que não pode. Ele tem que ler o Laudelino Freire, que é muito melhor. Eu vou ter uma conversa com esse rapaz, ele não entende nada de dicionários. Ele está cheirando os livros certos, mas lendo o dicionário errado, precisa de orientação."

O Dicionário enciclopédico Lello, aliás, foi o primeiro presente que o hoje editor da Mauad, Jorge Alberto, ganhou do pai, aos – pasmem! – 2 anos de idade (A julgar pelas histórias, o mal é genético).

– No dia que achei este dicionário em casa, com dedicatória, até chorei. Engraçado isso. Me pergunto se este tipo de coisa pode influenciar uma criança. Mas adquiri o hábito de, sempre que estou lendo algum livro, não importa se é um ensaio, um romanção daqueles, ter sempre um dicionário e um lápis. Até hoje leio o dicionário de latim para dormir – conta Jorge Alberto, que entrega mais um do time, Luiz Eduardo Vasconcelos, dono da editora Contracapa.

O transe etimológico

O dicionário preferido de Luiz é o mais importante do século 19, o do lingüista Antônio de Morais e Silva. Foi nele que o editor descobriu que a palavra "sintoma" tinha significado completamente diferente na época de Bentinho e Capitu.

– Grafada com Y e dois T, a palavra era explicada como acidente produzido pela doença da qual se tira algum presságio ou conseqüência – detalha Luiz. – Hoje, sintoma significa a suposta causa, ou seja, o significado foi modificado com o uso.

São estes clarões etimológicos que fazem a alegria de um louco por dicionário. O sintoma é claro: nenhum deles continua prestando atenção na conversa depois de se deter em algum verbete.

Tem quem se orgulhe da loucura e a compartilhe de bom grado. O fascínio pela etimologia fez com que o escritor Sérgio Rodrigues criasse a coluna "A palavra é..." . Ali, ele explica a origem de palavras da moda, como foi na época do mensalão e, na última semana, travesti. O escritor perdeu as contas de quantos dicionários tem em casa:

– Incluindo na conta os etimológicos, os de línguas estrangeiras, os de citações, os de regência, os de palavrões e outros mais idiossincráticos, acredito que 50. Os meus preferidos ultimamente têm sido um muito novo e um muito velho: o Houaiss, um dicionário espetacular, e o Vocabulário português e latino de Rafael Bluteau, do início do século 18, o primeiro grande dicionário da língua portuguesa.

Que acabou de ser disponibilizado on-line pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo.

Enquanto uns reaparecem, outros parecem completamente esquecidos: Rodrigues lembra que não existe sequer previsão de lançamento de um bom dicionário analógico (de idéias afins) no país.

– Diz a lenda que Chico Buarque deve sua carreira de letrista genial a um desses, que teria ganho de seu pai quando era garoto. Não sei se é verdade, mas acho que esta é uma das formas mais infalíveis de medir a inteligência coletiva de um país: a quantidade e a qualidade de seus dicionários analógicos. Infelizmente, por esse critério estamos mal.

Rato de sebo

Rodrigues tem razão. Quem quiser um Carlos Spitzer ou um Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, dois dos principais dicionários analógicos já lançados no Brasil, vai ter de virar rato de sebo, vibrar com uma edição mais esborcelada – que tal um exercício para o sábado? – ou desistir de se tornar um Chico Buarque...


> Reforma ortográfica começa sem a adesão de Portugal.

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