Se pudessem voltar no tempo, 15% dos pais não teriam filhos (Folha)


Entre os que se arrependeram, 18% são mulheres e 11% deles, homens, com idades entre 16 e 24 anos; solteiros são maioria

Maioria dos "arrependidos" está no Sudeste e no Centro-Oeste; 33% responderam que teriam a mesma quantidade de filhos

ANTONIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Quando confrontados com a hipótese de poder voltar no tempo e mudar suas escolhas, um número significativo (15%) afirmou que não teria filho e 24% declararam que teriam tido menos, de acordo com a pesquisa Datafolha sobre fecundidade. Um terço (33%) disse que teria a mesma quantidade, enquanto 21% afirmaram que gostariam de mais.

Entre os que se arrependeram de ter tido filhos, 18% são mulheres e 11%, homens. Dos que, se pudessem, teriam deixado de ser pais, a maioria se concentra na faixa de 16 a 24 anos (31%), índice que vai caindo de acordo com a idade: 12% dos que estão com mais de 45 anos responderam que não teriam tido filhos.

Para o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Ence/IBGE, o número dos que se arrependem de ter tido filhos foi "a grande novidade revelada pela pesquisa Datafolha".

Ele considera o número elevado e chama a atenção para um dado específico da pesquisa. "Mesmo entre a população mais pobre e com curso médio, esse número ficou igual ou acima de 15%", afirma.

Os solteiros se arrependem mais (34%) dos que os casados (11%). Mais até do que os que se separaram, 19%. Quanto menos filhos, mais arrependimento. A pesquisa mostra que os que têm quatro filhos ou mais estão abaixo da média geral, com 11% de arrependimento. O percentual sobe para 38% dos que têm apenas um filho.

O número dos que não teriam filhos se pudessem voltar atrás varia de acordo com a região. A maioria se concentra no Sudeste, Norte e no Centro-Oeste (18% cada). No Sul, os que se arrependem somam 8% e no Nordeste, 12%. São Paulo está bem na média nacional, com 15%. No Rio de Janeiro, são 17%.


Classes mais ricas gostariam de ter famílias maiores

CLÁUDIA COLLUCCI
DA REPORTAGEM LOCAL

Um segundo casamento, uma vida financeira mais estável ou apenas o desejo de voltar a ter um bebê no momento em que a idade reprodutiva caminha para o fim. Essas são algumas das motivações que têm levado homens e mulheres com boa situação financeira a querer mais filhos, segundo especialistas em reprodução.

Na pesquisa Datafolha, 24% dos entrevistados mais ricos declararam que, se pudessem voltar no tempo e mudar suas escolhas, teriam mais filhos -contra 17% dos que disseram que teriam menos ou nenhum. Já entre os mais pobres, o percentual dos que teriam menos ou nenhum filho (45%) supera o dos que teriam mais (20%).

"Há casais que sentem saudade da época em que os filhos eram bebês. Mas o forte mesmo são mulheres que estão em novos relacionamentos e querem ter filhos na nova união", afirma o ginecologista e obstetra Arnaldo Cambiaghi.

É o caso de Thaís Cristina Araújo, 28. Mãe pela primeira vez aos 19 anos, ela se casou novamente há quatro anos. O marido tinha dois filhos do primeiro casamento e havia feito vasectomia. "Queríamos um filho nosso e corremos atrás desse sonho", diz ela, que deu à luz Vitória no último dia 8, após duas fertilizações in vitro.

Para o médico Dirceu Mendes de Almeida, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, muitos casais têm necessidade de ter filhos para "consolidar a nova união".

Outros motivos que levam mulheres a desejarem mais filhos são o crescimento da prole e a aproximação da menopausa. "Elas sentem um vazio, uma vontade enorme de voltar a trocar fraldas", brinca Almeida.

Ser mãe novamente na faixa dos 40 anos, quando em geral os filhos estão na adolescência, também é uma forma de as mulheres se sentirem rejuvenescidas, avalia o ginecologista Thomaz Gollop, professor livre-docente pela USP.

A advogada Sandra Sampaio, 42, assina embaixo. "Depois do nascimento do Lucas [2 anos], me sinto dez anos mais nova", diz ela, também mãe de dois adolescentes de 15 e 17 anos.

A partir do Censo 2000, a demógrafa Moema Guedes, doutora pela Unicamp, identificou que, nas mulheres com nível universitário de 40 a 49 anos, quanto maior a renda, maior o número de filhos. "É complicado atribuir causalidade entre os dois fenômenos, mas o resultado nesse grupo desconstrói a idéia difundida de que quem tem mais dinheiro sempre tem menos filhos."

A hipótese que ela sugere para explicar o comportamento é que, para quem tem mais escolaridade, ter um filho implica gastos maiores, como escolas privadas. É por isso que uma renda maior poderia explicar o fato de a mulher ter mais filhos.
Colaborou ANTONIO GOIS, da Sucursal do Rio


Católica, a empresária Isabella queria 14 filhos, mas teve "apenas" sete

LAURA MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Antes do casamento, a noiva já deixou bem claro: "Sou católica e não vou tomar pílula".

Ela queria 14 filhos, Deus quis que tivesse "apenas" sete. Ficou grávida dos 21 aos 31 anos, quando teve de tirar o útero. "Achava um desafio. Como a mulher pobre tem tanto filho e as ricas têm cada vez menos?", diz Isabella Gedeon Izar, 49, empresária.

Os Izar, que moram em um apartamento de 350 m2 em Cerqueira César (zona oeste), vão na contramão do fim da era da grande família, apontado pelo Datafolha.

Mesmo entre os mais pobres, é cada vez mais raro quem tenha muitos filhos. Só 16% da população têm quatro ou mais. Entre os que têm renda mensal familiar inferior a dois salários mínimos, são 21%. No outro extremo (renda superior a dez salários), 5%. E mais de 50% da população tem dois, um ou nenhum filho.

Justamente por isso, Isabella conta que sua família sempre foi vista com estranhamento e até preconceito. "As pessoas diziam: "Ah, é porque você é baiana". Perguntavam se não tinha TV em casa. Olhavam para mim como se eu tivesse tendo filho com os vizinhos. Eu morria de vergonha. Depois fui pensar: "Vergonha por quê?" E comecei a reagir."

Os filhos, quatro mulheres e três homens, hoje têm entre 18 e 27 anos. Duas estão casadas e cinco ainda moram com ela e o marido. "Da minha casa só sai casado ou morto", diz Isabella.

Se ela parece linha-dura, o marido, Jorge, 56, já foi capitão do Exército. Mas diz que não dá para estabelecer disciplina militar com uma família tão grande. "Vamos conduzindo conforme as coisas acontecem, conversamos muito e temos que trabalhar em equipe. Em casa, há muito trabalho. São duas geladeiras, duas máquinas de lavar roupa..."

Isabella diz que nunca teve babá, apenas empregada, e parou de trabalhar por alguns anos para cuidar das crianças. "E eles foram todos criados sem ver a Xuxa, que acaba com a infância. Levava o pessoal no parque, fazia brincadeiras."

Uma lembrança da infância dos herdeiros: "Eu nunca era convidada para festa de criança porque tinham medo que levasse os sete".

Os filhos dizem adorar ter muitos irmãos e querem também formar grandes famílias. "Em casa é divertido, onde eu vou, cruzo um", conta José Salim, 26, que há dois anos teve uma filha com uma namorada e quer mais. "Vou ter quantos Deus quiser." Amém.


Mãe de quatro, Iara afirma que, se fosse hoje, teria apenas dois

LAURA MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Nada contra nenhum dos quatro filhos, muito pelo contrário. Mas, se pudesse voltar no tempo "e tivesse a cabeça de hoje", a comerciante Iara Lana Machado, 64, teria tido só dois.

A caçula, Raquel, 30, brinca, fazendo cara de susto com a declaração da mãe. "Não, filha, imagina. Claro que amo todos, mas, se tivesse programado, teria os quatro em menos tempo. Foram muitos anos com bebê em casa. Ou, se pensasse com a cabeça de hoje, teria tido só dois", afirma Iara, moradora de Belo Horizonte.

A comerciante foi casada durante 33 anos e se separou há sete. Na primeira gravidez, um ano após o casamento, teve gêmeos, dois meninos. Depois de quatro anos, tentou uma menina e veio outro homem.

"Seis anos depois, eu não podia tomar anticoncepcional e engravidei sem querer. Veio a Raquel, a menina tão esperada", conta.

Sem tempo

A caçula, executiva de um banco em São Paulo, está casada há três anos e afirma que sempre teve "certeza de que não queria ter filhos".
Seu marido, empresário de 50 anos, já tem uma filha do primeiro casamento, mas quer ter um com Raquel.

"Eu nunca tive paciência com criança, não acho graça. Quando casei com um homem que já tinha filho, pensava: "Agora está ótimo"..."
Raquel conta que passou a cogitar a possibilidade de engravidar quando uma amiga teve um filho: "Eu curti a gravidez dela". Mas, se tiver, vai ser apenas um, "com certeza".


Sobra mais tempo para namorar e para fazer aventuras, diz relações-públicas

DA SUCURSAL DO RIO
DA REPORTAGEM LOCAL

No lugar de filhos, um casamento com clima de namoro, passeio de motocicleta, planador e saltos de asa delta. Foi essa a opção da relações-públicas Márcia Villela, 54, dos Jardins, bairro nobre de São Paulo.

"Eu e meu marido éramos líderes nos setores em que atuávamos. Tínhamos muito afazeres, viajávamos sempre e não havia folga nem no fim de semana. Ter filhos seria uma escolha complicada", diz ela, que ficou viúva há sete anos.

Ainda é uma opção de poucos. Segundo o DataFolha, dos brasileiros que não tem filhos, apenas 12% afirmam que querem continuar sem filhos.

"Cheguei a ficar grávida uma vez, mas perdi o bebê. Resolvemos não tentar de novo. Uma criança iria ser prejudicada e nos prejudicar", conta Márcia.

Assim, o casal tinha "tempo livre para namoro e aventura". "A gente dançava, curtia moto, planador, asa delta. Se tivesse filhos, acho que não teria sido tão feliz. De vez em quando, sinto falta da maternidade. Em compensação, tenho muita liberdade", afirma Márcia.

O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves tem pesquisado o crescimento da população sem filhos no país, fenômeno que acontece há mais tempo na Europa. A Pnad (IBGE) mostra que, de 1996 a 2006, o número de domicílios com casais sem filho cresceu 66%, e o de residências onde há só um morador cresceu 86%. Taxas maiores do que a variação no número total de domicílios: 37%.

Em parceria com Luiz Felipe Barros, o demógrafo mostra que os casais sem filhos têm maior rendimento: "Não tendo que cuidar da procriação, o casal pode dedicar mais tempo às atividades educacionais".

Alves lembra que o crescimento desses arranjos tende a baixar ainda mais a taxa de fecundidade. "Em um primeiro momento, teremos uma situação positiva, com o aumento do percentual de pessoas economicamente ativa. No entanto, em pouco tempo haverá crescimento maior da proporção de idosos. Os desafios não podem ser ignorados."

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