A invisibilidade da violência contra o idoso


Do Instituto Humanitas Unisinos


A violência contra idosos é uma realidade. Entender como ela é denunciada era o objetivo da pesquisadora Amanda Marques em sua tese intitulada "A feminização da velhice e a invisibilidade da violência contra o idoso".

Um estudo sobre o atendimento de velhos nas delegacias de polícia", Amanda busca identificar o perfil das ocorrências e dos envolvidos nos casos de violência contra pessoas com mais de 60 anos. “Os policiais operam uma feminização da velhice, na medida em que pensam o idoso violentado associado invariavelmente a um pólo feminino”, relata Amanda em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Amanda Marques de Oliveira é graduada em Ciências Sociais e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp.


IHU On-Line – Em sua pesquisa é possível visualizar como os policiais entendem a feminização da velhice? A feminização da velhice, atualmente, é acompanhada, ainda, da queda na qualidade de vida em relação às outras fases da vida?

Amanda Marques – Na minha pesquisa de mestrado, o objetivo foi identificar, além do perfil das ocorrências e dos envolvidos nos casos com vítima idosa, qual era a maneira como os policiais compreendiam a violência contra idosos. A pesquisa revelou que os policiais, em geral, consideravam só haver casos de violência contra idosos com vítimas mulheres, sempre aludindo às delegacias de mulheres como o lócus específico para onde tais casos seriam encaminhados. No entanto, ao analisar a documentação referente aos boletins de ocorrência com vítima com 60 anos ou mais, ficou evidente que os homens também denunciam a violência que sofrem, principalmente, no ambiente doméstico. Assim, concluiu-se que os policiais operam uma feminização da velhice, na medida em que pensam o idoso violentado associado invariavelmente a um pólo feminino.

Em relação à queda da qualidade de vida dos idosos em relação às outras fases da vida, os dados obtidos e observação feita no ambiente policial contrariam esta perspectiva. A observação mostrou que, em geral, os idosos que denunciam a violência sofrida possuem renda oriunda de aposentadoria ou de alguma outra forma de trabalho, e em alguns casos possuem bens materiais e imóveis. Além disso, os idosos observados eram, em boa parte dos casos, os mantenedores das residências onde viviam com os familiares agressores. Essa conjuntura representa uma reconfiguração das famílias na atualidade, as quais têm no idoso uma base financeira (por menor que seja) relacionada ao direito de aposentadoria.

IHU On-Line – Como a feminização da velhice se dá hoje? E como ela é analisada pela sociedade?

Amanda Marques – Trato da questão da velhice em relação à representação dos policiais sobre o que é o idoso violentado, sempre associado a uma imagem de fragilidade e dependência relacionada às mulheres e, portanto, às delegacias de mulheres. Essa representação dos policiais pode ser considerada fruto de um conjunto de convenções de toda a sociedade, que associam a pessoa idosa às características como dependência e fragilidade física, bem como relacionam tais características ao universo feminino.

IHU On-Line – Por que acontece a invisibilidade da violência contra o idoso?

Amanda Marques – A invisibilidade da violência contra o idoso foi percebida pelo fato dos policias das delegacias investigadas considerarem que tais ocorrências praticamente inexistiriam. Quando iniciei as pesquisas, os agentes policiais sempre afirmavam que havia pouquíssimas ocorrências desse tipo, o que, ao analisar a documentação, não se confirmou. Os boletins de ocorrência analisados demonstraram haver representativo número de ocorrências com vítima idosa, em geral, contra algum familiar do idoso. Assim, percebeu-se haver uma invisibilidade da violência contra o idoso na medida em que, embora em número expressivo, quando questionados os agentes eram unânimes em considerar tais denúncias praticamente inexistentes. É bastante complexo supor as motivações que levam a tal invisibilização. Nesse caso, acredito que tal fato se dê pelos policiais, bem como a sociedade como um todo, associarem a idéia do que é o idoso violentado às representações de fragilidade, doença e dependência, diferentemente do perfil dos idosos que denunciam a violência. Esse idoso, doente e fragilizado, não corresponde ao idoso que vai às delegacias registrar ocorrências, e isso pode explicar o porquê dos policiais invisibilizarem tais denúncias.

IHU On-Line – Como você realizou a pesquisa sobre o atendimento de velhos nas delegacias de polícia?

Amanda Marques – A pesquisa foi realizada em um Distrito Policial comum e em uma delegacia de defesa da mulher de uma cidade do interior de São Paulo. Optou-se por não identificar qual o município estudado pelo fato de se tratar de documentação policial, a qual, para que pudesse ser acessada, exigiu sigilo. A cidade possui cerca de 180 mil habitantes e dista cerca de 200 km da capital paulista. Nessas duas delegacias, foram analisados os boletins de ocorrência com vítima idosa registrados ao longo de um ano (na delegacia da mulher no ano de 2006, e no distrito policial no ano de 2004). Além disso, foi empreendida a observação participante no ambiente policial, através da qual foi possível observar vítimas e policiais em interação.

IHU On-Line – Quais são os casos mais registrados contra o idoso nessas delegacias?

Amanda Marques – Tanto no Distrito Policial quanto na Delegacia de Defesa da Mulher as principais ocorrências registradas foram ameaças e lesões corporais dolosas. Vale ressaltar o fato de haver pouquíssimas denúncias de maus-tratos, delito em geral muito noticiado pela mídia. O fato de haver poucos registros de maus-tratos não significa que este crime ocorra pouco, mas sim revela a dificuldade em tornar pública tal situação. Como já colocado, a maioria das denúncias, no caso as referentes às ameaças e lesões corporais, são registradas por idosos autônomos e independentes, que vão eles mesmos aos plantões policias registrar os BOs. No caso dos maus-tratos, as vítimas são em geral doentes e dependentes, e por isso ficam impossibilitadas de irem registrar ocorrências, o que pode explicar a pouca presença desse tipo de registro nas estatísticas.

IHU On-Line - Como esse atendimento é feito? Ele é adequado?

Amanda Marques - O atendimento da polícia é bastante heterogêneo, variando grandemente de uma delegacia para a outra. Desse modo, é importante salientar a impossibilidade de se generalizar as conclusões retiradas da observação nas delegacias por mim estudadas. Feita tal observação, em relação ao ambiente por mim estudado o atendimento ficou bastante aquém do desejável, contrariando a expectativa das vítimas que ali chegavam. Num geral, não se percebia nenhuma espécie de solidariedade por parte dos policiais em relação aos conflitos trazidos pelos idosos, bem como havia certa desvalorização dos agentes em relação a esses conflitos pelo fato de envolverem familiares. Os policiais traziam certa descrença frente aos conflitos domésticos, considerando serem situações passíveis de se resolverem sem a intervenção da polícia.

IHU On-Line - A professora da Unicamp Guita Grin Debert afirmou que o agente que mais recebe denúncias de violência, seja ela qual for, não é a Delegacia Especial de Proteção ao Idoso, nem a Justiça propriamente dita, por meio dos Juizados Especiais Criminais ou Ministério Público, mas sim a mídia. Qual é o papel social que a mídia tem hoje na vida desses idosos, em sua opinião? De que forma ela deveria agir para amenizar a situação de violência sofrida?

Amanda Marques - Sem dúvida, a mídia aparece, não só em relação a violência contra o idoso, como a principal denunciadora de qualquer forma de delito em nossa sociedade, Tanto em relação à violência urbana em geral, passando pelas denúncias de desrespeito aos direitos do consumidor, pelos casos de corrupção em estatais etc., a mídia consegue trazer à tona e tornar evidente toda e qualquer forma de questão que afete a sociedade. Em relação à violência doméstica, e, no caso específico da violência contra o idoso, considero haver um duplo papel dos meios de comunicação; por um lado, a mídia atua como divulgadora dos direitos sociais conquistados por determinados grupos, funcionando como meio conscientizador da necessidade dos cidadãos buscarem os direitos adquiridos. Por outro lado, a mídia também tem a importante função de cobrar e denunciar os órgão públicos em relação ao mau ou nenhum cumprimento dos deveres do Estado, como no caso do combate à violência doméstica contra o idoso. A atuação das secretarias de segurança pública, por exemplo, em relação às iniciativas de combate às diferentes formas de violência doméstica, tem nos meios de comunicação importante voz da sociedade no sentido de visibilizar em que medida tal atuação tem sido satisfatória.

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