A história do pai que atirou seu bebê contra uma caminhonete (Estadão)

Crime em 2003 chocou o País; na semana passada, Alexandre Alvarenga foi libertado

Valdir Sanches

Alexandre Alvarenga voltou para casa para tentar reconstruir a vida depois de tudo o que fez a partir das 14h55 de 2 de fevereiro de 2003 numa rua de Campinas. Bateu o carro em outro que vinha em sentido contrário. Desceu e ficou batendo com a cabeça em seu próprio carro. Começou a andar pela rua. A mulher, Sara, o seguia, levando o filho de 1 ano nos braços e a filha de 6 anos pela mão. 'Anda, anda depressa', dizia para Sara. Em dado momento, tirou o bebê do colo dela. Uma caminhonete passava, a 30 km/h. Alexandre arremessou o filho contra o pára-brisa da caminhonete com tal força que estilhaçou o vidro. Foi parar no colo do motorista. Alexandre continuou andando, até chegar a um bosque. Pulou o alambrado, de metro e meio. Sara passou-lhe a filha e pulou também. Um vizinho do bosque foi atrás. Alexandre batia a cabeça da menina, com violência, contra uma árvore. Depois, ele próprio e Sara fizeram o mesmo. 'Eles gritavam rá, rá, pai, agora eles estão com você, só falta nós', contou um vizinho, que deu uma 'gravata' em Alexandre. 'Quase o estrangulei para contê-lo.' Uma equipe de socorro chegou e aplicou calmantes nele. Depois, levou o casal e as crianças ao hospital da PUC. A menina teve ferimentos leves. O bebê sofreu traumatismo craniano.

Até bater o carro, Alexandre levava vida próspera, de produtor musical bem-sucedido. Em seu estúdio, gravava músicas de artistas regionais famosos. Em casas de shows de Campinas, ele e a mulher eram a dupla Xandy e Sara. Não bebiam, não fumavam. Amigos e vizinhos viam o casal como pais exemplares. Na verdade, superprotetores. Se o menino ia brincar na casa de um amiguinho, não podia ficar no chão. 'Tinham medo de que pegasse vírus', contou uma vizinha.

Aos 36 anos, Alexandre deixou na segunda-feira o hospital de custódia e tratamento psiquiátrico de Franco da Rocha. Segundo seu advogado, Antonio Gazato Neto, tem vivido alternadamente com pais e tios, 'transitando entre os parentes', para evitar jornalistas. Está voltando a trabalhar na área de produção musical, mas não há mais chance de que um dia ele e Sara voltem a cantar em casas noturnas, como a dupla Xandy e Sara. 'Alexandre tem recomendação médica de não se expor a locais com muito ruído, muito som', diz o advogado

Está feliz? 'Está retornando à sua vida. Há uma boa perspectiva para sua vida social e familiar.' Em suma, diz o advogado, 'está bem'. 'Conversa bem, com boa fluência e cabeça tranqüila. É uma pessoa normal.' Poderá, um dia, voltar a viver com Sara e as crianças? 'É preciso dar tempo ao tempo', diz a avó materna, Neide Rosolen. 'As crianças adoram o pai, ele nunca havia sido agressivo com elas.'

Sara, de 37 anos, ficou 45 dias num presídio feminino, até seu advogado, Pedro Renato Lúcio Marcelino, conseguir libertá-la. Vive com os filhos na casa dos pais e fez cursos de computação e estética. É 'formada em artes', diz sua mãe, Neide Rosolen. Mas estagia como esteticista num salão de Campinas.

O menino, hoje com 6 anos, está no primeiro ano do curso fundamental. Quando foi atirado contra a caminhonete, tinha 1 ano. Seu estado era grave, preocupava. Hoje, diz a avó Neide, está bem, totalmente recuperado. 'As crianças estão ótimas.'

A menina, com 11 anos, está na 5ª série. Em dezembro de 2004, então com 7, escreveu em uma folha com desenhos infantis: 'Quero que meu pai volte, estou pedindo de coração. Fale para o juiz que eu quero meu pai (...). Mesmo que meu pai me bateu, vou sempre amar ele mesmo assim, eu sei que ele ficou doente.'

Os Rosolens estão bem. Mas, apesar da paz, ficaram as marcas. 'Sofremos muito. Foi muito difícil, houve muita mentira. Ficamos traumatizados', resume Neide.

> Caso Isabella.

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