Caso Isabella: não há nada de errado com o povo

Do blog de Reinaldo Azevedo:

Marco Antônio não fez aquele fantástico discurso, que está na peça Júlio César, de Shakespeare, diante do corpo do tirano. Até porque era um soldado meio abrutalhado. Tinha mais habilidade matando pessoas do que matando a lógica dos assassinos do ditador. Mas se sabe que fez, sim, proselitismo junto à plebe rude, talvez usando a túnica ensangüentada do morto como um fetiche. Os romanos já se chocavam e se mobilizavam contra certos eventos trágicos. Shakespeare escreve uma de suas passagens mais notáveis séculos depois porque também conhecia esse, vamos dizer, temperamento das massas. É de se supor que até os hunos se comoviam, não é?

Por que isso tudo? É impressionante como alguns pensadores e jornalistas da esquerda, sob o pretexto de fazer um pouco de media criticism, tornam-se subitamente demofóbicos, coisa de que costumam acusar a direita. E a verdade é bem outra, não? Para um esquerdista, “povo” é sempre “povo organizado”, os “cumpanhero”, a turma do “partido”, do “movimento social”. O único povo que lhe interessa é o “consciente”, o “mobilizado”. Já o “povo” da direita, da democrática ao menos, é essa voz comum das ruas. E é dessa gente que a esquerda tem verdadeiro horror.

Essas pessoas é que estão nas ruas pedindo justiça no caso da menina Isabella já estavam lá às portas do Senado de Roma — aliás, César sabia manipulá-las como poucos, para horror do “reacionário” Cícero, não é? A malta estava na peça do bardo inglês e se deixou inflamar pela retórica de Marco Antônio, tornado um intelectual. Aqui e mundo afora — vejam o caso dos portugueses, bem mais sóbrios do que o nosso povaréu, chegado num bundalelê, diante do sumiço da menininha inglesa —, casos assim mobilizam a opinião pública. E mobilizam com razão. Trata-se de uma reação de autodefesa, que se dá em ao menos três esferas: a pública (do Poder Público), a social (os valores) e a individual (psíquica).

Na esfera pública, teme-se a impunidade — e quem seria idiota a ponto de negar que as evidências contra o pai e a madrasta são fortes? Os crimes comuns, quando identificados os autores, ficam menos impunes no país do que nos parece. Mas há aí uma contaminação com o que acontece com os políticos criminosos: andam livres, lépidos e fagueiros.

Na esfera social, deve-se levar em conta que “proteger as crianças”, os filhotes, é um valor coletivo e também um traço da espécie — aliás, de quase todas as espécies. Tivesse o crime sido cometido contra um adolescente, a reação seria, certamente, menos emocional. A condição da vítima, absolutamente indefesa, em contraste com a de seu agressor (ou agressores), açula o sentimento de vingança e punição mesmo em quem, sei lá, saia dali e vá cometer seus próprios crimes.

Há a esfera psicológica, apontada com correção por alguns especialistas da área. Um crime assim nos confronta com a nossa própria agressividade e nos enche de medo. Por mais que apostemos na maldade ou na psicopatia do assassino, sabemos que ele é alguém, em princípio, igual a nós. Puni-lo — ou puni-los — corresponde a uma eliminação do mal (ou do risco) em nós mesmos. Se ele estiver na cadeia, no hospício ou morto, então voltamos a confortar a mansidão que julgamos ter: “Agora ele já é diferente; agora ele já é um outro”.

O que há de estranho com esse povo? Nada! Estranho seria não reagir.

Ademais, há, sim, o noticiário das TVs, dos jornais, das revistas. Há os programas “da tarde”, dedicados à gritaria e ao mundo-canismo, com “psicólogos” e “psiquiatras” iletrados dizendo as maiores barbaridades? Há, sim. Mas convenham: cada um de nós, individualmente, com ou sem perícia técnica, vê furos imensos na versão do casal acusado. Os detalhes da perícia parecem reforçar o chamado senso comum, o pensamento do vulgo, o que vai nas ruas.

A imprensa digna deste nome está tomando cuidados. E muitos. Está até um tanto acuada — ver texto abaixo —, como se ela também estivesse sendo acusada de alguma coisa. Na TV, acompanhei o caso pela Globo, que julgo estar fazendo um trabalho exemplar — à entrevista do Fantástico, ontem, faço restrições, mas que vão na contramão de alguns que deram agora para censurar o povaréu.

Eu prefiro uma sociedade que reaja assim a um caso hediondo como esse a uma outra que desse de ombros: “Ih, essa menininha já encheu”. E procurasse logo o próximo corpo que cai. É evidente que isso nada tem a ver com o incentivo a linchamentos ou sei lá o quê. Tampouco a Polícia e a Justiça devem ser pautadas pelo chamado “clamor público” — não, ao menos, contra as provas, contra as evidências técnicas, contra os fatos. Se estes coincidirem com a vontade das ruas, nem por isso se tornam menos provas, menos evidências, menos fatos.

[...]

Agora, noto, há gente achando a “culpa do povo” — coitado! — no caso Isabella. Dadas as informações que tem, que não são muito diferentes das que todos temos, ele está pedindo justiça. Não há nada de doente ou de excepcional nisso. Claro! Terá de ser tratado segundo a lei. Ele tem de saber que será a Justiça a decidir as culpas. E que nada pode ser feito fora dela.

Querer impedir, no entanto, que ele fique chocado num caso assim, bem, aí já é demais! É impressionante: a esquerda ainda não desistiu de ensinar o povo a ser povo! É por isso que existem tantas ONGs que ensinam a meninada a bater lata, a fazer malabarismo em farol, a fazer rap...

Ninguém quer ensinar o povo a tocar violino.

> Caso Isabella.

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