Aonde quer chegar o "complexo Universal"? (Comunique-se)

por Milton Coelho da Graça (*)

A Universal é uma complexa organização igreja-empresa-partido político, que também comanda o jornal semanal impresso de maior circulação do país (superior ao triplo da edição dominical do diário mais vendido do país).

Em nome da liberdade de crença determinada pela República, cresceu com métodos não-convencionais de conversão e marketing, chegando em poucas décadas ao terceiro lugar em número de adeptos do país (abaixo apenas da Igreja Católica e da Assembléia de Deus). Com a obrigatoriedade do pagamento do dízimo (uma característica comum das igrejas evangélicas, mas cobrada sem o mesmo rigor pelas outras), construiu rapidamente um enorme patrimônio, que lhe permitiu construção de templos em quase todos os municípios, alguns deles imponentes “catedrais”; a compra da Rede Record, com a simpatia da ditadura, na época interessada em deter a crescente participação de fortes setores católicos no movimento de resistência democrática; e, finalmente, adotou a prática de apoiar a eleição de parlamentares até conseguir criar um partido – o Partido Republicano da República (PRB) – hoje sob o comando formal do Vice-Presidente da República, mas sob o comando de fato do senador Marcelo Crivella.

O que chamo de “métodos não-convencionais” de conversão incluiu inicialmente até atos de violência contra “terreiros” de Umbanda, que exigiram pedido de garantias à Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, prontamente asseguradas pelo então Secretário, general Cerqueira. Sabiamente, a Igreja Universal logo mudou sua tática e, em vez de condenar, passou a se utilizar de exorcização, “sessões de limpeza” etc , que se tornaram práticas diárias em suas igrejas.

Além de tudo isso, o complexo Universal está há algum tempo procurando assumir um papel mais importante na mídia impressa e online. Comprou há alguns anos o jornal mineiro Hoje em Dia e começou a imprimir em Belo Horizonte seu jornal semanal – Folha Universal - distribuído aos fiéis e usado como material de atração de novos adeptos. São freqüentes os boatos sobre tentativas de compra de outros jornais, especialmente O Dia, dono de um parque gráfico moderníssimo mas que enfrenta óbvios problemas.

O claramente articulado ataque na Justiça contra a Folha insinua sintomas de não se tratar apenas de reação intimidativas a reportagens críticas do jornal. Curiosamente, ele ocorre com o esforço da Record para se livrar do controle religioso. Os programas evangélicos estão sendo eliminados da grade – alguns deles até sendo contratados com outras emissoras. A Record procura obter uma posição cada vez mais forte nas áreas de noticiosos e entretenimento, buscando uma imagem “laica” e consolidação de adversária mais forte da Globo. A montagem de um poderoso esquema de mídia jornal-tv-rádio, com objetivos mais políticos do que religiosos, merece ser cogitada no mínimo como hipótese. Não se deve esquecer que a Folha Universal toma parte ativa no debate sobre a descriminalização do aborto, naturalmente, na mesma atitude política do Complexo em relação a todos os governos – desde a ditadura até Lula, passando por Sarney, Collor e Fernando Henrique: sempre a favor.

Detalhe interessantíssimo na campanha do senador Crivella para a Prefeitura do Rio: O PRB tem como candidato a vereador um dos mais combativos líderes comunitários - William, da Rocinha – que não tinha, pelo menos até recentemente, qualquer ligação com a Igreja Universal. Um possível sinal de que a ação estritamente política também começa a ter relevo maior e independente na estratégia do Complexo.

(*) Milton Coelho da Graça, 76, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

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