Lucília, uma comunista nata e de carteirinha (Estado de S.Paulo)

Aos 95 anos e doente, ela exige enterro em assentamento de sem-terra

João Domingos, UBERABA

Lucília Rosa viveu os extremos. Foi ensinada a ser comunista antes da revolução comunista russa de 1917, viu o fim da União Soviética, a queda do Muro de Berlim, a derrocada do sonho socialista, mas não desistiu. Vai morrer comunista. Aos 95 anos, muito doente, mas lúcida ainda, faz sua última exigência política, a de ser enterrada num assentamento de sem-terra, em Campo Florido, cidade a 70 quilômetros de Uberaba.

A história de Lucília está sendo resgatada e será contada em livro pelo jornalista Luiz Alberto Molinar e pela historiadora Luciana Maluf Vilela. O lançamento deverá ocorrer neste mês.

Em 1947, cumprindo missão do Partido Comunista, o velho PCB, então abrigado no PSD, Lucília foi eleita vereadora de Campo Florido, com quase 20% dos votos. Sua campanha foi toda voltada para as mulheres trabalhadoras rurais. Lia para elas obras de Monteiro Lobato. E falava de uma perspectiva utópica para a época, a cidadania.

“Nasci em berço ateu. Sou comunista convicta e assim vou morrer”, disse Lucília ao Estado, na casa construída por seu avô há mais de cem anos, antiga Rua Caçu, atual Alexandre Barbosa, centro de Uberaba. Seu pai, o alfaiate Calisto Rosa, era do movimento anarquista. Liderou uma greve em Uberaba em 1919 e, pouco depois, participou da fundação do PCB no Triângulo Mineiro.

Anticlerical numa cidade de predominância católica, Calisto Rosa era provocador. Arrumou um cão perdigueiro e deu-lhe o nome de Lutero, em homenagem a Martinho Lutero, o monge alemão que no século 16 se rebelou contra a venda do perdão pela cúpula da Igreja Católica e fundou o protestantismo. Quando havia uma procissão, Calisto punha o cachorro na janela, para que latisse e assustasse os fiéis passantes.

Nesse clima de confronto romântico com a Igreja Católica, o movimento comunista chamou a atenção de um padre francês de esquerda, que morou em Uberaba no início do século passado, contou Lucília. O padre fez amizade com os sindicalistas. Ao voltar à França, passou a lhes enviar exemplares do jornal comunista L’Humanitè.

Exemplares chegavam por navios. Eram distribuídos em São Paulo, nas cidades do litoral e também no interior de Minas Gerais. Um deles trouxe a letra e as partituras da Internacional Socialista, da qual os comunistas de Uberaba mal tinham ouvido falar. Músicos simpatizantes do partido gastaram semanas para interpretar aquilo e, enfim, fazer chegar ao povo os acordes do hino que durante décadas alimentou o sonho dos socialistas.

Em 1951, foi a Uberlândia participar de um protesto contra o alistamento de soldados brasileiros para a Guerra da Coréia. Houve choque com a polícia. Acabou presa. “O soldado me bateu. Queria que eu chorasse. Respondi que para ele não derramaria uma lágrima.” Em 2002, já adoentada, escreveu um carta para o embaixador da Coréia do Norte. Contou que, 51 anos atrás, tinha tentado impedir a ida de soldados para combater ao lado dos Estados Unidos.

Com o segundo grau completo, idéias diferentes e avançadas para a época, tanto na política quanto no comportamento, fez um contrato legal de convivência com um homem que fora casado. Teve dois filhos - Calixto e Moyzés, ambos dentistas - e resolveu, mais uma vez, envolver-se num escândalo - fazer ligadura das trompas. A Igreja a criticou. Para Lucília, foi a glória. Arrumara encrenca com sua maior adversária. “Isso aconteceu em 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia. Durante a operação, o médico elogiou Hitler. Tive medo de que ele me me matasse.” Na carteira de identidade, consta que Lucília é solteira.

De 1952 a 1973 ela viveu em São Paulo. Deixou os filhos em Uberaba e foi trabalhar de cozinheira para políticos, um deles, Ivete Vargas, filha de Getúlio Vargas. Sua atuação no Triângulo Mineiro chamara a atenção de Luís Carlos Prestes. Levada para a casa do líder comunista, tornou-se, principalmente, amiga de Anita Leocádia, filha de Prestes com Olga, a alemã judia que o governo de Getúlio entregou aos nazistas e foi morta na câmara de gás.

A casa onde Lucília mora está quase caindo aos pedaços. “É uma casa de comunista”, disse ela. “Não tem nada.” Não tem quase nada mesmo. Na sala da casa sem estuque, e com teias de aranha tomando conta de tudo, há apenas um sofá, uma mesa e uma cadeira, todos caindo aos pedaços.

No seu quarto, uma TV com problemas na imagem, um ventilador que vai pifar a qualquer momento e uma cama de solteiro, com um colchão fino de espuma. Para sua tristeza, o vizinho resolveu construir um muro bem em frente à porta da sala. Tirou-lhe a visão da rua. Além do mais, derrubou um pé de romã que iria fazer uns 50 anos. “Todo mundo que passava aqui pedia romãs. E eu as dava, porque elas fazem bem para a garganta.”

Para o vizinho que lhe prejudicou a vista da rua, reserva uma ameaça: “Ainda vou esganá-lo.”

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