A família que a guerrilha destroçou (Estadão)

Gloria Polanco está há seis anos em poder das Farc, que mataram seu marido e seqüestraram 2 de seus 3 filhos

Ruth Costas, BOGOTÁ

A história da família Polanco Lozada é um dos retratos mais comoventes do drama humano criado pelo conflito colombiano. A mãe, a ex-congressista Gloria Polanco, é a mulher que há mais tempo está em cativeiro no mundo. Até agora, foram seis anos e meio nas mãos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). O pai, o ex-governador do Departamento de Huila Jaime Lozada, foi assassinado pela guerrilha em 2005 e dois dos três filhos já foram seqüestrados. 'Não sinto ódio pela guerrilha porque remoer esse sentimento seria algo que só me faria mal', disse ao Estado Jaime Felipe Lozada, de 23 anos, que hoje é, nas suas palavras, 'pai e mãe' de seus dois irmãos menores. 'Obviamente, o que mais queríamos hoje é que todos estivessem juntos, assistindo à TV na cama de meus pais ou conversando sobre as coisas do dia-a-dia, mas tentamos tocar a vida lutando pelo que ainda é possível: a libertação de minha mãe.'

Na casa da família, onde Jaime Felipe vive com Juan Sebastián, de 21 anos, e Daniel Julián, de 17 anos, uma parede está coberta de fotos do casal. O local é mantido em perfeita ordem e a decoração é a de uma casa de família tradicional da classe média. No centro da sala, um retrato da família unida, quando os três ainda eram crianças. 'Foram tempos de alegria', lembra o filho mais velho, poucos dias depois de receber das mãos da ex-refém Consuelo González de Perdomo, libertada no dia 10, fotos e cartas escritas por sua mãe em cativeiro. 'Havia quatro anos e meio eles não enviavam uma prova de vida.'

O drama dos Polanco Lozada começou numa noite de quinta-feira, em 2001, no episódio que ficaria conhecido como uma das ações mais ousadas das Farc. Simulando uma operação militar anti-seqüestro, cerca de 50 guerrilheiros da Frente Teófilo Forero invadiram o luxuoso edifício de Miraflores onde a família morava, na cidade de Neiva, a cerca de 300 quilômetros de Bogotá. 'Eram 11 da noite. Estávamos dormindo e de repente eles explodiram a porta e começamos a ouvir tiros, gritos e estrondos', conta Jaime Felipe. Os guerrilheiros buscavam Jaime, o pai, que na época era senador pelo Partido Liberal e costumava voltar para casa toda quinta-feira. Como naquele dia um contratempo fez com que o congressista tivesse de permanecer na capital, resolveram levar a mulher dele e os dois filhos mais velhos do casal, além de outros 12 vizinhos.

Os meninos ficaram os primeiros oito meses na companhia da mãe, mas depois disso ela foi levada para outro acampamento. 'A separação foi rápida e muito dolorosa, porque não sabíamos o que iam fazer com ela, se iam matá-la ou pôr a vida dela em risco de alguma maneira', diz o filho mais velho.

As condições de cativeiro, segundo ele, eram parecidas com as do grupo em que estava Consuelo. Eles dormiam ao relento, mesmo debaixo de chuva, caminhavam muito pela selva e tinham muito pouco para comer. Um vídeo tocante divulgado na época - no qual Gloria pede, entre lágrimas, que o chefe rebelde 'Mono Jojoy' lhe deixe ao menos ficar junto de seus filhos - chocou toda a Colômbia.

Enquanto isso, o chefe da família iniciava uma via-crúcis para conseguir que os três fossem libertados. Em 2002, ele levou adiante a candidatura da mulher ao Congresso e conseguiu elegê-la com a maior votação da Câmara colombiana. Dois anos depois, a guerrilha aceitou libertar seus dois filhos se ele pagasse 70% de uma imensa quantia não divulgada, e se comprometesse a pagar os outros 30% em parcelas nos anos seguintes. Gloria, porém, foi incluída no grupo de 44 reféns políticos que as Farc se dizem dispostas a trocar por 500 rebeldes presos num acordo humanitário com o governo. Era desse grupo que faziam parte Consuelo e Clara Rojas, a assessora da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt que também foi solta.

Os meninos caminharam oito dias pela selva antes de serem entregues ao tio, Gustavo Polanco, em San Vicente del Caguán, mas nem quiseram comemorar a liberdade. 'Eles disseram que não querem festa nem nada além de esperar que a mãe seja solta', afirmou Jaime na época. Pouco depois, o ex-senador começou a receber ameaças das Farc porque não estaria conseguindo cumprir com o pagamento das 'parcelas' acordadas. 'Tive de vender a fazenda e meu rebanho, além de conseguir diversos empréstimos, mas as parcelas que tenho de continuar pagando para as Farc são muito altas e não estou conseguindo cumpri-las', tinha declarado.

Poucos meses depois, outro golpe: Jaime foi assassinado em uma emboscada na estrada para Neiva, quando voltava de uma reunião. Seu filho, Jaime Felipe, estava com ele e foi baleado na perna. 'Tentamos levá-lo a um hospital, mas já era tarde', diz. 'Meu irmão menor foi o que mais ficou abalado, porque nesses anos em que o restante da família esteve em cativeiro ele se apegou muito ao pai.'

O crime nunca foi totalmente esclarecido. Segundo a família, Jaime havia conseguido pôr em dia as parcelas do resgate. Em 2007, um membro da guerrilha que participou da ação disse que a morte de Jaime foi um erro, pois o ataque se destinava a outro político.

Na carta que chegou às mãos dos três irmãos na semana passada, Gloria comenta pela primeira vez a morte do marido. 'Ela nos pede que sejamos fortes e diz o quanto sentiu quando ele foi assassinado', diz Jaime Felipe, acrescentando que, apesar da tragédia, pretende seguir o caminho do pai na política. Em uma das fotos, a ex-congressista aparece com um mascote, algo que comoveu principalmente o filho mais jovem, Daniel Julián. Todos estão muito preocupados com a saúde da mãe porque ela diz ter graves problemas, alguns típicos da selva e outros relacionados a uma disfunção na tireóide.

'Hoje eu dedico todo o meu tempo para fazer o que está a meu alcance para que minha mãe seja libertada. Já falei com o presidente (Álvaro) Uribe e se tivesse oportunidade não hesitaria em ir até a selva para falar com (Manuel) Marulanda (o líder máximo das Farc)', diz Jaime Felipe, que na sexta-feira viajou para a Venezuela para encontrar, junto com outros parentes de reféns, o presidente Hugo Chávez. 'Acho que tudo que puder ajudar para um acordo humanitário deve ser feito, mas se as Farc quiserem deixar de ser chamadas de terroristas, poderiam colaborar soltando os reféns. Não faz sentido manter uma mulher seqüestrada por tanto tempo, como eles fazem com minha mãe.'

Para ele, o governo brasileiro poderia ter um papel mais ativo nas negociações com a guerrilha: 'O governo do Brasil é de esquerda. Seguramente ele tem em seus quadros muitas pessoas que seriam bem recebidas pela guerrilha e teriam uma boa interlocução com ela', afirma, lembrando o exemplo do ministro venezuelano de Interior e Justiça, Ramón Rodríguez Chacín, cérebro da libertação de Clara e Consuelo, que tem uma relação de longa data com as Farc. 'Também gostaria muito que o presidente Lula nos recebesse para que pudéssemos falar com ele sobre o assunto. Precisamos do seu apoio para exigir que as Farc libertem os reféns e o governo colombiano busque sempre o diálogo.'

FRASES

Jaime Felipe Lozada
Filho mais velho de Gloria Polanco

'O que mais queríamos hoje é que todos estivessem juntos, conversando sobre as coisas do dia-a-dia, mas tentamos tocar a vida lutando pelo que ainda é possível: a libertação de minha mãe'

'O governo do Brasil é de esquerda. Seguramente ele tem em seus quadros muitas pessoas que seriam bem recebidas pela guerrilha e teriam uma boa interlocução com ela'

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