Entrevista que Octavio Frias de Oliveira (1912-2007) deu ao AOL Notícias em 15 de outubro de 2003

Entrevista concedida a Jorge Feliz

Como o senhor vê a discussão sobre um socorro especial para a mídia por meio de empréstimos concedidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?

Octavio Frias de Oliveira –
Eu tenho receio. Eu tenho um receio muito grande. Isso tende a interferir. Para falar claramente... [Pausa, olhar perdido] nem sei se deveria dizer isso... [olha no olho no repórter e fala firme] em todo caso vou arriscar: o que interessa ao governo é a mídia de joelhos. Não uma mídia morta. Uma mídia independente não interessa a governo nenhum. Dentro desse princípio é difícil ver essa questão do BNDES. Por que criar um sistema assistencial, preferencial para os jornais, para mídia? Por quê? Se todo o empresariado está endividado, nunca vi uma situação tão difícil em toda a minha vida e estou apenas com 91 anos. Nunca vi uma situação igual. Mas nós vamos sair dela.

O senhor acredita no espetáculo do crescimento?

O.F.O. –
Não, não. Isso está mais distante do que se supõe.

O senhor é contra, então, que os jornais recorram a esse socorro oficial?

O.F.O. –
Acho lícito que eles recorram, mas devem ter o mesmo tratamento de todos os demais ramos da atividade industrial. Não entendo por que distinguir a mídia.

O senhor certamente teve grandes encontros com personagens do poder. Como foram os presidentes da República como interlocutores?

O.F.O. –
O que eu tive relações melhores foi o Fernando Henrique, que foi nosso colaborador por mais de dez anos escrevendo no jornal. Eu sempre me mantive afastado do poder. Para ser independente você tem que estar um pouco distante porque senão entra numa situação moral difícil. A independência no Brasil é muito mal compreendida ainda. Então não tenho histórias para contar a este respeito porque sempre procurei manter uma distância entre a posição do jornal, a minha pessoal e os dirigentes do país.

O senhor já teve alguma conversa com o presidente Lula?
O.F.O. –
Nunca tive nenhuma conversa com ele. Só um incidente que houve aqui na Folha.

Eu gostaria que o senhor contasse a sua versão para este episódio porque o senhor nunca falou e foi um encontro importante com quem está hoje na Presidência da República. Todo o meio jornalístico comentou muito sobre isso, mas pouco se sabe do que realmente ocorreu

O.F.O. –
Nós o convidamos para almoçar aqui na Folha [durante a campanha eleitoral], ele veio. Na conversa, o Otavio, meu filho [Otavio Frias Filho, diretor de redação do jornal] perguntou a ele como ele se sentia no que dizia respeito ao preparo para exercer a presidência uma vez que ele não tinha curso superior. Ele não gostou da pergunta. Achou a pergunta impertinente. Não entendi porque tinha respostas facílimas a serem dadas, não? E se levantou da mesa no meio do almoço e saiu. Eu tive que acompanhá-lo até a porta. [Ri] Foi isso. Até hoje não entendi. Depois eu sei que ele mandou recado para esquecermos isto.

E o senhor esqueceu?

O.F.O. –
Eu, da minha parte, esqueço. [Ri]

Voltando à questão do BNDES. O jornalista Alberto Dines, do Observatório de Imprensa, chegou a comentar que os jornais noticiaram o anúncio do socorro de uma forma muito tímida. Como o senhor vê essa postura dos jornais? Houve um tratamento privilegiado da mídia para com ela mesma?

O.F.O. –
É normal da parte dos jornais. Eu creio que eles pretendem isso [o tratamento especial] e eu sou contrário.

Como o senhor analisa para a imprensa a perda, este ano, de empresários como Roberto Marinho (dono das Organizações Globo), Nascimento Brito (ex-proprietário do Jornal do Brasil) e Ari de Carvalho (dono do jornal O Dia). O senhor acredita que o desaparecimento deles muda o cenário da imprensa?

O.F.O. -
Não acredito. Acho que Roberto Marinho tinha uma posição ímpar. Admirava muito o Roberto. Nascimento Brito, menos. Ari de Carvalho... tinha um jornal menor em importância. Eu tinha muito boas relações com o Roberto Marinho. Quase cometo uma indiscrição aqui, contando isso, mas uma vez fomos ao Pará, uma inauguração de uma indústria de alumínio, e voltamos juntos. Na volta sentamos lado a lado no avião. Conversando com ele, lá pelas tantas, ele disse: "Seu Frias, um dia ainda vou fazer um jornal como o seu". Foi o maior elogio que já recebi na minha vida.

E o senhor acha que ele conseguiu?

O.F.O –
Tentou fazer. O que caracteriza a Folha é a independência, né? E disso, nós não abrimos mão. A razão maior da existência da Folha é a independência e eu atribuo à independência o sucesso que o jornal tem tido. Somos hoje o maior jornal da América do Sul. No Hemisfério Sul temos uma posição bastante confortável. E isso se deve à independência que a Folha cultiva sempre. O Globo procura ser hoje um jornal independente, mas a situação financeira da Globo hoje é muito difícil. Isso atrapalha muito.

Por que o senhor disse que admirava menos o doutor Nascimento Brito?

O.F.O –
Não, menos importante como dono de jornal, quis dizer. Roberto Marinho fez um trabalho fantástico. Construiu, de longe, o grupo de maior expressão no país. Já o Nascimento Brito pegou um jornal já feito, ainda que tenha fortalecido a posição do Jornal do Brasil. Mas acabou mal. O Jornal do Brasil hoje está em posição muito difícil.

Como o senhor analisa o papel do empresário Nelson Tanure [empresário dono de empreiteira que ganhou notoriedade do período Collor, depois de ficar amigo da ex-ministra da Economia, Zélia Cardoso] que tem surpreendido com um fôlego...

O.F.O –
Eu tenho para mim que ele quer ser o Chateaubriand moderno [ri]. Eu me dava bem com o Chateaubriand. Uma vez também, eu vinha do Rio, o Chatô sempre sentava no último banco do DC3, daqueles antigos. E no aeroporto Santos Dummont eu entrei e ele estava lá no último banco. "Seu Frias sente-se aqui", falou. Eu não tinha jornal ainda. Acho que foi em 60 e eu comprei a Folha em 62. Conversamos, o avião decolou e imediatamente ele começou a dormir. Fomos voando baixo, como faziam os DC3s antigos e quando chegou aqui em São Bernardo o avião começou a agitar um pouco, a balançar um pouco. O Chatô acordou, olhou para baixo e imediatamente me disse "Seu Frias precisamos organizar uma expedição punitiva contra esses paulistas aqui" [risos]. Ou seja, precisamos tomar o dinheiro deles. Achei engraçado porque foi instantânea a reação.

E o senhor acha que o Tanure quer fazer também um conglomerado?

O.F.O –
[Sério] Eu acho, acho. Não conheço o Tanure. Mas acho que sim. O Chatô fez um império que, depois, não resistiu à morte dele. Mas fez um império. Mas lembro do Chatô com as coisas curiosas. O Edmundo Monteiro, o homem dele em São Paulo, me contava algumas passagens. Chatô comprou muitos objetos de arte. Ele comprava viajando pela Europa, telegrafava para o Edmundo e falava que precisava pagar tanto no dia seguinte. Chegou ao extremo de um dia chegar aos Diários Associados e falar: "Edmundo preciso de dinheiro". E o Edmundo: "O que tem aí seu Chatô é pagar a folha de salários amanhã". E o Chatô falava: "Então você me dá e depois você se vira".

Foi um sonhador irresponsável?

O.F.O –
Não, de sonhador, não tinha nada. Era muito prático. Audacioso.

Tem que ter muita audácia para se construir um jornal?

O.F.O –
Creio que não.

O senhor fez essa comparação do Nelson Tanure, o que o senhor diria para um empresário que está se aventurando no segmento com essas dificuldades todas?

O.F.O –
Ele está querendo comprar a Gazeta Mercantil. Comprou já o JB, então, acho que tem outros objetivos. Não sei, não o conheço.

Mas o que move um empresário a comprar um jornal e o que o senhor diria para ele?

O.F.O –
Depende dos objetivos dele. Ele quer exercer influência política ou não? Quer usar essa alavanca para arranjar dinheiro ou não? Depende disso. Se for com esse objetivo já está condenado a não ter grande sucesso, acho eu.

Depois de três anos, como o senhor avalia a sua inusitada sociedade com as Organizações Globo para criação do jornal Valor Econômico?

O.F.O –
Muito bem. Nossa relação sempre foi cordial. Nenhum problema maior.

Mas como negócio. O jornal Valor passa por uma grande dificuldade...

O.F.O –
Está passando. Nossa expectativa é que o jornal Valor alcance o equilíbrio financeiro no ano que vem. O mais difícil já passou e nós dividimos as dificuldades. Cada um arcou com a sua parte.

O jornal está à venda?

O.F.O –
O jornal não está à venda. Nós temos a combinação de admitirmos um sócio, com 30% do capital. Dentro disso têm sido feitas algumas gestões mas até agora, sem nenhum resultado prático.

Essa questão dos 30% é muito polêmica porque no setor de mídia só se permite este percentual. A lei diz isso porque os donos de jornais nunca querem abrir mão do controle?

O.F.O –
É uma questão legal que impede uma participação maior, estrangeira. E eu acho correto. Não sei se interessa ao país ter uma abertura completa da mídia. Não sei se isso é conveniente.

Isso não afasta o capital estrangeiro?

O.F.O –
Afasta da atividade de mídia, mas os outros setores estão abertos.

Como o senhor avalia o ensaio das Organizações Globo de entrar no mercado de São Paulo com a compra do jornal Diário de S. Paulo?

O.F.O –
Acho um direito sagrado deles. O problema é deles. Graças a Deus não é meu, é deles. Mas acho normal. Nada contra, não.

Falaram que isso tinha arranhado um pouco as relações da sociedade...

O.F.O –
De jeito nenhum. É um direito sagrado deles.

Se o senhor trabalhasse no telemarketing da Folha e tivesse que convencer uma pessoa a assinar o jornal, qual argumento o senhor usaria?

O.F.O –
A independência do jornal. Tenho um fanatismo pela independência da Folha. Tenho um episódio curioso. Na época da ditadura, acho que no governo Médici, o chefe da Casa Militar, com quem eu tinha certa relação, não me lembro o nome dele, me telefona e diz: "Ô Frias aqui quem fala não é o seu amigo não, é o chefe da Casa Militar Ou você muda esse jornal aí ou nós vamos fechar." Eu mudei. O Cláudio Abramo era nosso diretor de redação. Eu chamei o Cláudio e disse: "Cláudio, vai pra Paris como nosso representante e depois você volta". Chamei o Boris Casoy, que era um homem tido mais como conservador para diretor de redação. Foi o que eu fiz. Depois o Cláudio voltou. Gostava muito do Cláudio, nos ajudou muito aqui, foi um homem muito importante na Folha. Ele veio do Estado, você sabe, né? Também saiu do Estado por causa daquele lado esquerdista dele, em 1964, quando se preparava o movimento revolucionário aqui e o Estado achava que com a direção esquerdista dele não era possível e o demitiram da função. Eu, então, o contratei e foi um passo acertadíssimo que eu dei porque ele ajudou muito. Uma figura muito importante aqui. De uma correção exemplar. Divergíamos politicamente, mas nunca tivemos nenhum atrito. Nunca. Foi sempre corretíssimo, corretíssimo.

O senhor já teve que fazer outras substituições por causa de questões políticas?

O.F.O –
Não, só essa.

As pessoas falam muito do seu vigor e do fato de o senhor manter sua rotina até hoje aqui no jornal.

O.F.O –
Continuo trabalhando aqui normalmente. Os médicos me dizem "não pare senão você se estrepa". Estão estou aqui todos os dias até oito e meia, nove horas da noite. Se tem almoço, chego uma e meia, se não tem, chego duas e meia, três horas. Tenho meu filho na redação, o Otavio, que é ótimo. E o Luís na parte comercial, que é o presidente da empresa. Graças a Deus são vocações diferentes e não há atrito.

Já que o senhor falou em família, como o senhor analisa a situação do seu principal concorrente, o Estado de S.Paulo, que também passa por uma reestruturação? Como o senhor avalia esse tipo de administração familiar que caracteriza tanto a mídia brasileira?

O.F.O –
Eu procuro fazer aqui uma administração independente de família. Como disse, tenho dois filhos aqui comigo, o resto não se interfere. Aqui é tudo independente de família. Acho que o Estado não fez isso, acho que se arrependeu. Está numa situação hoje extremamente difícil, deve 500 milhões. Estão lutando, estão lutando.

Como o senhor, como jornalista, analisa esses casos na imprensa nacional e internacional de repórteres que mentem, como o Jayson Blair, o caso Kelly, na Inglaterra, e aqui esse episódio do apresentador Gugu Liberato?

O.F.O –
Acho muito bom porque é um progresso [o fato de os casos virem a público]. O caso do Gugu é menor, televisão não é uma coisa muito... é complicado. Eu já tive televisão, mas o meu sócio, meu querido amigo Caldeira, não gostou. Afinal decidimos vender. Era a maior televisão da ocasião, não me lembro o nome... é Excelsior.

Vamos falar do boom da internet. A Folha entrou nessa onda quase como pioneira, depois assistimos ao estouro da bolha que criou conseqüências para os jornais...

O.F.O –
Acho normal. Não nos arrependemos, não. Acho que para o futuro será um negócio mais importante de todos. Estamos satisfeitos. No ano que vem o UOL alcança o equilíbrio. Os resultados são bastante animadores e não nos trazem preocupação maior.

Quem o doutor Frias...

O.F.O –
[Interrompe] Eu não sou doutor, o senhor está me dando um título que eu não tenho.

Quem o "Seu" Frias nunca deixa de ler no seu jornal?

O.F.O –
Eu leio todo o jornal, todos os dias.

Mas não tem um colunista, um articulista de sua preferência?

O.F.O –
Não, leio todos sem distinção. Aqui e o restante da mídia. Leio quatro jornais todos os dia. Leio a Folha, óbvio, leio o Agora, que também é nosso, leio o Valor e o Estado de S.Paulo. Leio o Globo aqui na Folha, quando posso.

Nessa crise toda da mídia, a distância entre os departamentos comerciais e a redação...

O.F.O –
[Interrompendo] Aqui é sagrado. Sagrado! Tem um muro de Berlim. Intransponível. A publicidade não interfere no jornal de jeito nenhum.

Mas outro dia, só para citar um exemplo, a Revista da Folha saiu com uma edição especial sobre escolas e quase todos os anunciantes eram instituições educacionais privadas, então ali, para qualquer leitor minimamente...

O.F.O –
Esclarecido.

Exato. Percebe-se essa troca de informações...

O.F.O –
Entendi. Apenas a redação informou à publicidade que iria fazer um especial de escolas. E as escolas quiseram participar.

O senhor acha que esse é um limite aceitável?

O.F.O –
Aceitável não, ideal. Às vezes o comercial chora as mágoas, mas paciência.

Em meio à crise econômica, como o senhor analisa o atual momento para a mídia brasileira?

O.F.O
–Nunca vi a mídia tão endividada como hoje. Mas acho que é fruto da situação geral que não é fácil. Não só nacional, como mundial. O mundo atravessa uma crise econômica. Os Estados Unidos beiram uma situação de indecisão. Não se sabe ainda se vai entrar num período de recuperação ou se a recessão se agrava. A Europa vai mal, a Alemanha vai mal, o Japão vai mal. Aqui no Sul, não vou nem falar. E o Brasil não pode ser exceção, vai mal também. Então eu vejo um quadro difícil.

O senhor já vê algum tipo de conseqüência dessa crise econômica para a liberdade de imprensa e para a democracia?

O.F.O –
Esse risco ainda não vejo. Acho que vai ser um fim de ano difícil, mas no ano que vem ainda continuará sendo. Talvez um pouco menos difícil, mas ainda difícil. Não vejo um futuro róseo, não, a luta vai continuar.

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