Depoimento de Lula sobre sua vida e trajetória política

Fonte: ABC de Lutas.

Identificação
Meu nome completo é Luiz Inácio Lula da Silva. O Lula entrou depois de 82, quando eu fui candidato ao Governo. Eu nasci no dia 27 de outubro de 1945, na cidade de Garanhuns. Há uma controvérsia porque no documento está dia 6 de outubro. Mas entre o documento e acreditar na minha mãe, que diz que eu nasci no dia 27, eu comemoro meu aniversário no dia 27 de outubro.

Família
Avós
Meus avós eram produtores rurais. Por parte de meu pai, eram caboclos mesmo. Acho que deviam ser descendentes de negros ou de índios porque são todos quase negros. Meu pai, inclusive, era um pouco mais moreno do que eu. E a minha mãe dizia que era neta de italiano, não é? Isso tem muita controvérsia também, porque a minha mulher não acredita que italianos fossem para Pernambuco naquela época. Mas devem ter ido porque Garanhuns era um grande centro, era entroncamento ferroviário no século passado e era grande produtor de café da região. Então, é bem possível que alguns italianos tivessem se desgarrado para Pernambuco. Minha mãe diz que a mãe dela era filha de italiano, então, ela era neta de italiano, não é? Mas é só isso que eu sei.

Não tive nenhuma convivência com meus avós, porque eu vim para são Paulo com 7 anos de idade. Só lembro que a mãe da minha mãe bebia um pouco. A imagem – engraçado – que eu tenho da mãe da minha mãe: ela, um dia, acho que bebeu demais, caiu no açude e quase morreu afogada. Eu era pequeno e fui com meus irmãos para tentar tirar ela de lá. Mas não tive nenhuma convivência com eles.

Família
Pais
O nome da minha mãe é Eurídice Ferreira de Melo e o do meu pai, Aristides Inácio da Silva. Minha mãe e meu pai nasceram em Garanhuns mesmo. Não sei como meus pais se conheceram, porque não tínhamos essa liberdade de conversar dessas coisas com meu pai. Eu sou de um tempo em que quando o pai estava conversando o filho não podia nem chegar perto. Ele só olhava, a gente queira sair para longe, com medo de apanhar. O que eu sei é que meu pai veio embora para São Paulo, em 1945, e deixou minha mãe grávida de mim. E deixou o irmão dele caçula, que é meu padrinho, tomando conta da minha mãe. Esse meu padrinho passava em casa, ele é que via se faltava alguma coisa. Se faltasse, ele ia levar.

Meu pai só foi me ver quando eu já tinha cinco anos de idade, na época em que ele voltou para Pernambuco, em 1950. Eu não lembro dessa volta do meu pai porque, quando voltou, ele ficou pouco tempo lá em casa, o tempo suficiente para engravidar minha mãe da minha irmã caçula. Aí, ele veio embora para São Paulo e trouxe o meu irmão Jaime, que é o segundo mais velho. Isso foi em 1950. Depois disso só fui ver meu pai quando viemos para São Paulo no pau-de-arara.

Meu pai era muito, muito ruim. Eu não sei se era apenas ruindade ou ignorância. Hoje eu consigo ver um pouco mais tranqüilo do que eu via quando era pequeno. Meus irmãos mais velhos não têm a mesma capacidade de perdoar que eu tenho. Meu pai era muito bruto, meu pai era quase uma pessoa irracional, mas trabalhava muito porque ele sustentava duas famílias. Ele trabalhava num armazém em Santos, carregando saco de café. Naquele tempo quem trabalhava num armazém, no porto, carregando saco de café, enchendo navio, ganhava muito dinheiro, não é? Como é que pode, um cara analfabeto, ele ganhava dinheiro e sustentava duas famílias, pagava dois aluguéis, e mantinha comida, não faltava comida. Não faltava o café da manhã, não faltava almoço, não faltava janta. Coisa simples mas não faltava, não é?

Meu pai não sabia ler um ‘o’, se você pegasse um ‘o’ e perguntasse que letra que era, ele não sabia. Mas todo santo dia ele comprava o jornal. Ele ia trabalhar todo bem vestido, de chapéu, não é? Sabe que eu tenho inveja da classe operária daquele tempo? Eu morro de inveja de ver aquelas assembléias com todo mundo de chapéu e gravata, ou seja, um negócio, não é? E meu pai ía lendo o jornal. Só não lia de cabeça para baixo porque tinha as figuras. Mas ele não compreendia nada, não lia nada. Acho que era o orgulho que ele tinha de ler, sabe? Acho que ele tinha vontade de aprender a ler.

De vez em quando ele bebia, mas não era de beber de ficar bêbado, não. Eu não lembro de meu pai bêbado, eu não lembro. Posso até lembrar dele alegre mas, bêbado, não lembro de meu pai. Ele era muito trabalhador, muito trabalhador. Isso, ele pode ter todo defeito do mundo, mas ele era muito trabalhador.

Meu pai era tão ruim que, ao todo, ele teve 20 e poucos filhos. Da minha mãe foram 12, morreram quatro. E da outra mulher deve ter tido 14, uma coisa assim. E morreram também uns quatro ou cinco. E ele morreu como indigente. Ele foi enterrado como indigente. Ele já não morava com a outra mulher quando morreu. Ela largou dele. Ele, ninguém agüentava. Meu irmão, Rubens, que é o segundo mais velho da outra mulher, meu pai batia nele de corrente. Batia de corrente e ainda amarrava e arrastava ele na rua. Nós fomos até buscar ele para morar com a gente porque ficamos com medo do meu pai matar o moleque. Quando ele chegou para morar com a gente na Vila Carioca, no Ipiranga, estava com as costas que era ferida pura, era um animal. E ele morou com a gente um tempo. Depois, ele voltou. Meu pai era muito ruim era – como é que se diz hoje? – sangue ruim. Meu pai era da gangue do mal. Tem esse lado, ele trabalhava muito, garantia o básico para todo mundo, mas não tinha moleza não.

Minha mãe era uma santa. Eu hoje fico pensando como é que uma mulher tinha a coragem que teve a minha mãe, de pegar um pau-de-arara sozinha com sete filhos e vir para São Paulo? Além disso, normalmente dizem que a mulher fica subordinada ao marido se ela não tem profissão, se não trabalha, por conta da família, por conta do dinheiro, por conta da comida. Eu fico imaginando minha mãe ter coragem de separar do meu pai e morar sozinha. E ela fez isso. Depois veio para São Paulo, sozinha. Quando nós morávamos em Santos, ela vinha para São Paulo tirar documentos para os meus irmãos, se perdia aqui na Praça João Mendes, passava o dia areada. Nós, nordestinos, costumamos falar, quando uma pessoa não se localiza, que ela está areada. E a minha mãe vinha sozinha, tirava documentos dos meus irmãos, se perdia, passava o dia perambulando por São Paulo, voltava para casa, lavava roupa para ganhar dinheiro, fazia comida para umas 20 pessoas que moravam lá em casa. Porque a gente, era uma miséria desgraçada, mas tinha gente mais miserável ainda, então, quando chegava um parente do nordeste, vinha lá para casa.

Família
Irmãos
Na minha família, ao todo, somos oito irmãos. Quando meu pai veio para São Paulo, em 1945 eram em seis já. Eu sou o caçula dos homens. Eu fui o sétimo. As mulheres são três. Duas mais velhas e uma mais nova do que eu.

Infância no Nordeste
Eu lembro muito pouco da minha vida em Pernambuco porque uma criança de cinco, seis anos de idade lembra muito pouco. Mas hoje, conhecendo o local como eu conheço, onde eu nasci havia pouca perspectiva de uma criança ter infância, porque era muito distante da cidade. Na verdade, o lugar em que eu nasci chamava-se Vargem Comprida, era sub-distrito de Garanhuns. Foi transformada numa cidade em 1962, numa cidade chamada Caetés. Para ir de Caetés a Garanhuns eram quase que seis léguas. Quanto é que dá? Cada légua tem 6km me parece, ou seja, era longe.

Então, eu vim a conhecer meu pai, a gente fazia o quê? Todos os meus irmãos trabalhavam na roça, minha mãe trabalhava na roça, eram desses pequenos agricultores que só plantavam para subsistência, mesmo. Como meu pai estava em São Paulo desde 1945, de vez em quando ele mandava recursos para minha mãe e era disso que a gente vivia um pouco.

Não tinha muita coisa para comer não. Eu lembro que, quando meu pai voltou de São Paulo, em 1950, foi que ele levou pão a primeira vez para comer, porque o café que a gente tomava de manhã – não sei se vocês sabem o que é uma cuia. É uma cabaça partida no meio, aquilo se transforma num cuia – era uma cuia de café com farinha. Colocava café preto, fazia um mingau e aquilo era o café da manhã da gente. E para comer – o que ainda hoje se come lá, as pessoas pobres – era feijão, arroz e farinha. Quando tinha carne, comia carne, quando não tinha carne, se meus irmãos conseguissem matar passarinho, a gente comia passarinho. Ou se conseguissem matar um preá, que é como se fosse um rato sem rabo, a gente comia aquilo. Quando a gente vê hoje na televisão uma criança pobre no Piauí comendo feijão e farinha, era aquilo que a gente comia. Arroz era uma coisa para doente, quando você estava doente você comia arroz. Não era uma comida de todo dia, pelo menos no meu mundo, não é? Era uma vida muito pobre, muito.

Da minha infância, eu tenho uma imagem muito forte de um açude que eu imaginava que era muito grande e depois que eu voltei lá, não era grande coisíssima nenhuma, era um buraquinho lá. Também lembro de um pé de murumbu, que é uma planta, e eu tinha a impressão que era uma planta de 50 metros de altura. Em 79, quando eu voltei lá a primeira vez, fiquei decepcionado porque era uma planta com um galho fino, acho que devia ter 3 metros, no máximo, de tamanho.

Infância no Nordeste
Casa da Infância em Pernambuco
A casa que a gente morava era de barro, aquelas casinhas construídas com taquara, com bambu amarrado e com barro prensado. Era aquilo, era uma meia água. Era chão batido.

Dormia todo mundo amontoado. Eu penso que a casa tinha um quarto, uma sala, uma cozinha. E dormia um monte na sala, aquilo não tinha luxo não. Eu nem sei se a cama não era feita de ripa, de pedaço de madeira, como, até hoje, ainda tem muita gente pobre que usa daquele jeito. Eu lembro que quando chovia – a gente morava numa descida – o tempo ameaçava chuva, a gente corria, fazia uma mureta de areia, que era para juntar água para beber. Aí, você pegava aquela água numa lata, colocava num pote e deixava assentar. Quando assentava toda a areia, então você bebia. Eu lembro também que a gente catava muita tanajura para comer. Aqui, tanajura chama içá. A gente comia, fritava aquilo colocava farinha e comia. Era aquilo, era isso. As casas eram muito distantes umas das outras, a gente não tinha quase que relação, era praticamente criado isolado. Ou seja, para as pessoas irem umas nas casas das outras, às vezes precisava ter um animal, um cavalo. Era tudo muito distante.

E minha mãe era católica porque estava cheio de santo lá em casa, não é? Eu fui batizado na Igreja católica. Naquele tempo a gente era menos registrado, a gente tinha uma coisa chamada batistério, que era a certidão do batistério que valia como documento. Mas minha mãe devia ser muito religiosa, como todo pobre é muito religioso no Brasil. Quanto mais pobre, mais religioso.

Nesse lugar que a gente morava, a coisa era tão atrasada que criança que não vivia, sem batizar, era chamada de pagão. Não era enterrada em cemitério normal, era enterrada em outro lugar, não é? Eu lembro que perto da minha casa tinha um lugar que enterrava pagão, ou seja, criancinha que nascia e que morria antes de batizar. E deviam ser muitas porque as crianças lá deviam morrer muito mais de fome, não é? Então, enterrava lá num caminho, que era entre a minha casa e a casa de um compadre da minha mãe.

Migração
A história de nossa vinda para São Paulo é a seguinte: meu pai estava em Santos desde 1945 e, em 1950, ele esteve em Pernambuco. Mas veio embora novamente e trouxe o meu irmão Jaime, que é o segundo mais velho. Quando meu irmão chegou aqui, descobriu que meu pai tinha outra mulher. E essa outra mulher era uma prima da minha mãe que tinha desaparecido quando meu pai veio embora, em 45. Ela tinha 15 anos de idade e desapareceu, não é? E aí, se descobriu depois que ela era a mulher do meu pai. Aí, meu irmão preparou uma cilada para o meu pai. Meu irmão escreveu uma carta para minha mãe, dizendo que era meu pai que estava chamando ela para vir para São Paulo. Ela estava com sete filhos lá, uma criança pequena e, então, vendeu tudo que a gente tinha, por 13 contos de réis. Não tenho noção de quanto era isso. Mas não era nada. Deu para pagar a passagem de sete filhos no pau-de-arara, e deu para comprar farinha e rapadura para vir comendo no caminho. E deve ter sobrado alguns vinténs.

Migração
Viagem
Viemos de Pernambuco para São Paulo num caminhão pau-de-arara. Esse caminhão saía de um lugar que eu fui visitar recentemente. Eu fui ver onde era a famosa "Bodega de Tozinho". Tozinho era um cara bem de vida naquele tempo, o dono do armazém que supria as pessoas. Então, quando a gente saiu de casa, nós ficamos dois dias nessa bodega esperando o pau-de-arara chegar. E aí, quando o pau-de-arara chegou, nós fomos para Garanhuns e, de Garanhuns, saímos para São Paulo. Demoramos 13 dias

Tem um episódio muito triste nesse negócio todo. Primeiro, meu irmão Vavá não queria vir, ele se escondeu para não vir, ele não queria vir para São Paulo. Depois, tinha a história de um cachorro que a gente tinha chamado Lobo, que o meu irmão, na carta que escreveu como se fosse meu pai, pediu que a gente trouxesse para São Paulo. Mas também, quem vai trazer o cachorro para São Paulo num pau-de-arara? E a gente saiu escondido desse cachorro, deixamos ele na casa de um compadre da minha mãe. E esse cachorro morreu logo depois, acho que morreu de tristeza, sei lá.

O pau-de-arara é um caminhão, com umas tábuas atravessadas e você vem sentado ali, coberto com encerado, não é? Então viemos, minha mãe e sete filhos, porque o segundo mais velho já estava aqui. E veio um tio meu, a mulher dele e dois filhos, viemos para cá no pau-de-arara. O caminhão estava lotado, então, quando você tinha que ir no banheiro, tinha que parar. Ou você estava na cidade, ou parava no meio do mato para as pessoas irem no banheiro. Você cozinhava quando parava, cozinhava alguma coisa nos panelões que as pessoas traziam. Ou fazia pirão de farinha pegando água do São Francisco – certamente menos poluída do que é hoje – fazia o pirão ali e você comia. Você dormia embaixo do caminhão, dormia na calçada e, quando chegava no lugar que estava chovendo muito, aí então, ía para uma pensão dormir. A estrada era toda de terra, não tinha asfalto. Foram 13 dias de viagem. Banho, era coisa de rico.

Lembrança que eu tenho é com a viagem... mesmo para um moleque de sete anos que até nem sofria muito porque sete anos... mas as pessoas se queixavam muito porque não tinha nem encosto. As pessoas vinham sentadas no caminhão, imagina, andar dez horas por dia num caminhão e saber que tinha que andar mais dez e mais dez... ou seja, era uma viagem muito, muito ruim.

Eu lembro da viagem, que um dia eu e meu irmão Frei Chico estávamos com dor de barriga. Nós fomos no mato e o caminhão foi embora e largou a gente. E nós saímos correndo atrás desse caminhão e esse caminhão parou. Lembro de um dia que meu tio caiu do caminhão, o caminhão passou numa pedra e...

E lembro que tinha uma ponte – não sei em que cidade era – que a gente tinha que parar, todo mundo atravessar a pé e o caminhão atravessar sozinho, porque senão era muito peso. E aí, você entrava no caminhão. No caminho, passava pelas cidades grandes. Passava por Feira de Santana, eu não lembro de todas as cidades, mas eu sei que passava em muita cidade grande não é? Mas naquela época, cidade grande no Brasil era tão raro, 1952, era muito raro ter cidade grande. Mas cidades que hoje são grandes, a principal delas que eu lembro é Feira de Santana. Depois a gente passou em Minas Gerais, passava em Governador Valadares, não é? Eu já fiz o mesmo percurso de ônibus, mas fiz recentemente de ônibus-leito, nas caravanas, com asfalto e com tudo. Eu fico imaginando o que o pessoal sofria naquela época.

Quando chegamos aqui em São Paulo, pegamos um taxi e fomos para Santos, porque o meu pai morava lá. De taxi, todo mundo de taxi. Nós sete, mais meu tio, a mulher e dois filhos. Onze num taxi. O taxi naquele tempo era melhor do que agora, maior. E também, quem tinha vindo 13 dias de pau-de-arara, andar mais 2 horas de carro até Santos.

Infância em São Paulo
Minha mãe ficou só um ano com meu pai depois que nós viemos de Pernambuco. Porque meu pai era muito ruim, não é? O meu pai, ele não queria que as minhas irmãs fossem para a escola. Eu tinha um irmão com 18 anos que ele não deixava sair de noite, que ele não deixava ir no cinema, que ele não deixava fumar, que ele não deixava nada.

Eu lembro de uma cena: meu pai, ele comprava pão para nós, pão comum. E para ele, comprava uma broa de pão doce. Ele comia o pedaço da broa dele e guardava o restante numa lata, ninguém mexia. Minha irmã de dois anos podia chorar querendo pão que a minha mãe não pegava aquele pão dele para dar para minha irmã. E quando ele chegava de noite, ele ficava jogando pedaço de pão para os cachorros e a minha irmã pedindo e ele jogando para os cachorros, sabe? Era assim.

Um dia, minha mãe resolveu separar do meu pai. Meu pai, um dia, mandou a gente ir olhar um barco, a gente morava num lugar ali perto da base aérea de Santos e entre a base aérea e a nossa casa, andava-se acho que alguns quilômetros, chegava no aeroporto. Aí, do aeroporto, tinha o rio Caraú e meu pai tinha uma chata, que é uma espécie de barcaça. Ele pediu para a gente olhar a chata e nós não fomos porque choveu muito, ficamos com medo. Mas chegamos em casa de noite, falamos que tínhamos ido ver a chata. No outro dia meu pai vai trabalhar e encontra um amigo dele no barco, que diz para o meu pai: "Olha roubaram a tua barca. Ontem ela estava em tal lugar." E nós tínhamos dito que a barca estava lá e que estava tudo bem.

Aí, quando meu pai chegou, ele deu uma surra no meu irmão, Frei Chico, que eu lembro até hoje, o coitadinho apanhando de mangueira. E aí, quando meu pai cansou de bater no Frei Chico – ele até se urinou todo –, meu pai veio para cima de mim. Aí minha mãe não deixou. Eu tinha oito anos. Ele pegou e deu uma mangueirada na cabeça da minha mãe. Era para dar em mim, pegou na minha mãe.

Foi a gota d’água. A minha mãe, no dia seguinte, foi procurar uma casa, achou um barraco e, de noite, comunicou ao meu pai que a gente ia sair de casa. Aí, ele não acreditou que a gente ia sair, não é? Foi no armazém, comprou um monte de coisas, comprou bacalhau, comprou carne seca. Bacalhau naquele tempo era comida de pobre, não era coisa de rico. Eu lembro que tudo que é pobre comia bacalhau. Hoje virou comida de rico, não é? Mas meu pai comprou um monte de coisas, acho que ele fez a maior despesa que alguém já fez com a família, para tentar ganhar minha mãe. Mas não teve jeito. Minha mãe, no dia seguinte de manhã, saiu de casa. Eu, minha mãe, minha irmã caçula Tiana, minha irmã Maria e o Ziza, que estávamos em casa. E deixou em casa minha irmã mais velha, Marinete, para avisar para o meu pai que a gente tinha ido embora. E nós saímos de casa.

Sabe qual era a mudança que a gente tinha, além da roupa do corpo? Era uma tina – que é uma barrica cortada no meio que você utiliza para lavar roupa – uma lata de leite Mococa vazia que era para guardar as coisas e uma faca. Essa era a mudança da minha mãe. E o orgulho... Ela deixou tudo lá, saímos com a roupa do corpo, não é? E acho que era uma coisa de muito orgulho da minha mãe, não admitir que o marido batesse nela. Ela saiu e todos os filhos foram atrás, todos.

Quando meu pai chegou de noite, a minha irmã disse para ele que a gente tinha mudado. Ele ficou muito puto da vida, muito nervoso, e chamou meus irmãos que moravam aqui em São Paulo para ir para Santos; foram tentar convencer minha mãe a voltar. Minha mãe não quis mais voltar. Eu lembro que a minha mãe contava que ele ficava rodeando muito a casa da gente lá, pedindo para ela voltar, ela não quis voltar.

Mas uma das coisas que fez minha mãe também largar meu pai é que meu pai não queria que minhas irmãs namorassem... A impressão que eu tenho é que ele gostava mais dos cachorros. Ele tinha muito cachorro, ele caçava todo sábado e domingo. Ou ele ia caçar e levava a gente junto, ou ele ia caçar ali no Sítio da Viúva, no rio da Diana. Quem vai hoje para o Guarujá, ainda tem uma placa lá.

Rio da Diana, que era um rio de água doce. Meu pai pegava aquele rio a remo. E meu pai ia, tinha uma cachoeira, tinha uma casa velha, e a gente ficava lá dois dias. E meu pai matava anta, matava tatu, matava veado, matava porco-espinho; matava todo final de semana, e obrigava a gente a ir, não é? Tinha uma casa velha, tinha muita coral, muita cobra coral. Então meu pai saía, passava um dia e meio, ele saía de noite e não voltava, ficava no meio do mato. E ele então, para a gente ficar dentro de casa, acendia a fogueira na sala, na cozinha – porque era tudo de chão batido – para as cobras não entrarem. E deixava a gente lá.

Outras vezes ele levava a gente para o mangue. O mangue era ruim porque a gente entrava, aquela lama até aqui na canela, cheio de pedaço de pau, a gente se espetava todo. A gente ia buscar marisco e lenha. Então, eu de vez em quando falo que não tenho pescoço de tanta lenha que eu carreguei, feixe de lenha na cabeça. E meu pai era tão ruim que, um dia, ele tinha uma chata, ela vinha lotada de madeira e começou a entrar água. Estava eu, meu pai, meu irmão Vavá, e meu irmão Frei Chico. Ele mandou os dois pularem e eles pularam porque sabiam nadar. E aí, ele mandou eu pular e eu não pulei porque eu não sabia nadar, vou pular para onde? Ele me derrubou na água com o remo. Acredita que ele me deu uma remada na cabeça que eu caí na água? E, se não fosse o Frei Chico e o Vavá eu teria morrido. Sabe, ele era assim. Ele era tão ignorante que uma vez uma cachorra se engasgou com um osso, sabe o que ele fez? Ele pegou o talo de uma cacho de banana, mandava a gente abrir a boca da cachorra e enfiava, tentando empurrar o osso. Quer dizer, matou a cachorra, matou a cachorra. Obviamente, deve ter rasgado a garganta da cachorra inteira. Meu pai era assim.

Eu me lembro que na minha infância, quando meu pai não estava, a gente brincava de futebol, jogava bola. Mas quando ele não estava porque, quando ele chegava, filho nenhum podia ficar para fora do portão. Se ele estivesse em casa sábado e domingo, era em casa sábado e domingo. A gente ficava dentro, sabe? Porque ele não deixava sair, não deixava fazer nada, não deixava fazer absolutamente nada. Era uma figura esquisita.

Mas quando minha mãe se separou de meu pai nossa vida mudou muito. A gente podia ir no cinema! Sabe o que é poder ir no cinema? A gente podia brincar na rua, não tinha mais aquele patrulhamento que tinha com ele, percebe? Foi liberdade, liberdade! Nos ficamos numa má economicamente, porque realmente era duro sobreviver, mas a gente morou nesse barraco. Um dia, nós fomos para o cinema, quando voltamos o barraco tinha caído, estava minha mãe sentada numa cadeira chorando. O barraco despencou. Aí, nós alugamos uma casa maior e fomos morar. Os meus irmãos já ganhavam, acho que um pouquinho mais que o salário mínimo, e nós moramos mais um tempo lá.

Porque, nessa época, eram os meus irmãos que sustentavam a casa. Eu estava para a escola. Os meus irmãos quase todos estudavam à noite. De dia estudávamos eu, Maria e Frei Chico. E, depois, a gente vendia bugigangas na rua. A gente vendia tapioca, vendia laranja, o outro meu irmão, o Jaime vendia sardinha. E esse negócio de vender era muito ruim porque eu não gritava, eu tinha vergonha de gritar: "Olha a tapioca!" Meu irmão Frei Chico, gritava o tempo inteiro e quando chegava minha vez de gritar, eu tinha vergonha de gritar, ele me dava cascudo que era para eu gritar. A gente vendia na rua de Vicente de Carvalho.

De vez em quando a gente ia no Guarujá. Mas no Guarujá, a gente ia para a praia. A gente pegava o trenzinho que tinha, na época custava, acho que 50 centavos, sei lá o quê. Normalmente a gente não pagava porque ia correndo de vagão em vagão quando vinha o cobrador para não pagar. Chegava no Guarujá, tomava banho, e voltava. Não tinha casa no Guarujá, não tinha nada, aquilo tudo era mato.

E a vida era essa. A gente ia para a escola de manhã e saía para vender as coisas de tarde. E meus irmãos trabalhavam, um no estaleiro, outro de carvoeiro, outro trabalhava num bar. E daí, dava para ir tocando a vida.

Quando criança, eu era muito – não é mandão – mas brigava muito pelas coisas que eu queria, desde moleque. Então, se era para jogar bola eu mandava no time. Eu não era o dono da bola porque eu não tinha bola – a minha primeira bola, eu ganhei com 18 anos de idade. Eu nunca tinha tido o direito de ter uma bola, porque não tinha dinheiro para comprar, mesmo – mas não sei porque, eu era uma espécie de referência da molecada que jogava bola ali. Era assim em Santos e depois, aqui em São Paulo, foi a mesma coisa. Não sei se porque eu falava meio rouco ou falava bravo demais. Mas eu tinha uma boa relação com a molecada, eu sempre tive grandes relações de amizade. Eu não recordo de um inimigo, eu não recordo.

Na minha vida nunca briguei. Eu não me lembro de ter tido um inimigo na vida. Eu sei que tem muitas pessoas que não gostam de mim, mas eu nunca tive um inimigo assim de dizer: "Olha eu briguei com o fulano." Tanto quando jogava bolinha de gude, quanto quando jogava bafo. Hoje a molecada nem conhece o que é jogar bafo, jogar bolinha de gude. Eu sempre tinha uma boa relação. Eu acho que eu era alegre, eu acho. Era um outro tipo de vida, não é?

Eu lembro que, quando eu morava em Vicente de Carvalho, naquele tempo eu acho que em quase todas as cidades, as prefeituras davam presente em época de Natal. Então, eu lembro que a minha mãe enfrentava filas enormes para pegar presente, e ganhava presentes bons. Ganhava carrinho de correr, naquele tempo carrinho de correr era de mola. Você dava corda no bicho e soltava, ele andava meio metro e parava. Então minha mãe pegava fila todo ano para pegar presente para gente. Isso, ainda em Vicente de Carvalho.

O que é que eu lembro mais de Vicente de Carvalho para contar? A gente, de vez em quando, ia roubar banana. Tinha muita plantação de banana lá e a gente ia roubar. E, de vez em quando, a gente tomava uma corrida do dono do bananal, ele saía de tiro de chumbo atrás da gente, nós corríamos que nem desgraçados.

Infância em São Paulo
São Paulo
Depois de um tempo que tinha se separado de meu pai, minha mãe resolveu vir embora para São Paulo. Ela resolveu subir a serra. Mais ou menos em 54, 55, uma coisa assim. Ela resolveu subir porque, como meus irmãos trabalhavam, em Santos, nós ficamos vivendo disso. Então, quando ela veio embora, eu e o Frei Chico ficamos com meu pai. A minha irmã Maria ficou trabalhando de empregada doméstica numa casa e a minha irmã mais velha ficou também trabalhando de empregada doméstica. Veio minha mãe, a caçulinha e os três irmãos mais velhos: o Vavá, o Jaime e o Zé. Depois que eles arrumaram emprego, aí ela foi buscar o restante. Aí vim eu, Frei Chico, minha irmã Maria e a minha irmã Tiana. Eu já tinha 10 anos.

Quando a gente mudou para São Paulo, nós fomos morar na Vila Carioca. Fica depois do Ipiranga. Descendo o Sacomã você vai sair na Vila Carioca, onde fica a Shell. Ali tem a Presidente Wilson, fica quase que na divisa com São Caetano. A Vila Carioca não enchia de água, mas a Avenida Presidente Wilson ficava quase intransitável na época das enchentes.

Eu morava na Rua Albino de Morais. A Rua Albino de Morais era uma rua de areia preta. E a gente foi morar no fundo de um bar. Moramos lá quase dois anos. A gente morava num quarto e cozinha. Tinha o bar e tinha o corredor do lado do bar. E o quarto e cozinha era entre o bar e o banheiro. Para ir no banheiro, tinha que passar na porta da minha casa. E aí é que a porca entorta o rabo. Porque as pessoas bebiam e iam para o banheiro, que era o mesmo banheiro da minha família. Então nego defecava fora, nego mijava fora, nego vomitava. Era aquele banheiro que a gente utilizava, eu, minha mãe e minhas irmãs.

Morávamos em 13 pessoas nesse quarto e cozinha. Porque, além de todos nós que morávamos com a minha mãe – aí já estávamos os oito morando com a minha mãe –, tinha mais um primo chamado Luiz Graxa e outro primo chamado Zé Graxa. Zé Graxa e Luiz Graxa pelo seguinte: como tinha pouca comida, então minha mãe comprava carne de segunda para fazer no molho, colocava bastante água e colocava aquela carne gorda, que ficava bem gordurosa. Então, aquele molho, você ia colocando farinha e colocava aquela graxa, colocava farinha para aumentar a quantidade de comida, para poder dar sustança para os barrigudinhos. Então, esses meus dois primos chamavam Zé Graxa e Luís Graxa porque eles comiam três quilos de farinha pondo graxa. Morava um outro primo meu, chamado Leoni, e morava um outro, chamado Luiz.

A barra era pesada porque dormia no quarto: minha mãe, eu, Frei Chico e minhas duas irmãs, que éramos os menores. A minha irmã mais velha já estava namorando e ficou trabalhando numa casa em Itapema – naquele tempo era Itapema, hoje é Vicente de Carvalho. E na cozinha tinha um corredor, era como se fosse um ‘L’, então ali, de noite, meus irmãos abriam aquelas caminhas de mola. Naquilo lá, você amanhece quebrado, mas abria as caminhas e todo mundo dormia.

O dono do bar era meu tio. Ele alugou para nós o quarto e cozinha. Esse meu tio era interessante porque, de vez em quando, ele pedia para eu ficar tomando conta do bar para ele ir no banheiro. Ai como eu adorava, rapaz! Tinha umas balinhas chamadas Embaré, rapaz! Meu tio pedia para eu tomar conta, eu pá! já roubava uma caixinha, acho que tinha umas 100 balas daquelas. Olhava pela janela, aí meu tio voltava, eu ía para dentro de casa e tome chupar bala!

Eu lembro de um fato que aconteceu nessa casa. Tinha um médico na Vila Carioca, chamado Dr. Raul e, um dia, meu irmão teve, acho que pneumonia. Você acredita que o médico chegou em casa e pediu uma cadeira, a gente não tinha uma cadeira para ele sentar? Aí, eu e a minha irmã ficamos com vergonha, saímos correndo. O médico teve que fazer a consulta em pé. Tinha uns bancos grandes, era aqueles que a gente usava para almoçar. Nessa casa a gente tinha um fogão de querosene. Todo dia esse fogão pegava fogo. A minha irmã caçula ficava tomando conta do fogão. Eu acho que a coitadinha é traumatizada até hoje porque de vez em quando incendiava aquele fogão, não ficava ninguém dentro de casa, bicho.

A gente tomava banho de bacia. Tinha uma torneira do lado de fora, a gente enchia, esquentava a água, colocava na bacia... todo dia. Todo dia? Ninguém é louco de tomar banho todo o dia, não é? Hoje a gente toma até mais que um por dia, mas naquele tempo... Eu brinco sempre, eu tinha um cascão preto que era um "barro preto". Era um cascão preto no pé que, aquilo, fazia um mês que eu não tirava.

Mas, olha, era um tempo bom. Eu jogava bola, engraxava sapato. Vocês acreditam que tinha gente que dava o cano? Tinha cara que chegava lá, colocava o pezão engraxava, ia embora e não pagava. "Ah, depois eu pago." Não pagava. Eu adorava engraxar, porque aí, eu ia no bar, comprava meia bengala de pão, mandava encher de mortadela, comprava uma Tubaína, puta merda, fantástico! Eu me deliciava.

Nessa época – aí eu já estou falando de 1956, 57 –, a gente ia para o cinema também, no Sacomã. Tinha dois cinemas importantes: o Anchieta e o Cine Samaroni. Naquele tempo, para a gente ir no cinema tinha que ter paletó. Não entrava sem paletó, mesmo criança. Tinha um tal de Cláudio, um menino – eu nem sei se ele já morreu – ele tinha uma deficiência física, andava com muita dificuldade e, para eu trazer ele para o cinema, ele me emprestava o paletó. Um dia nós brigamos e ele queria me tomar o paletó. Como ele não podia andar, coitado, eu saí correndo. Mas, aí, eu fiquei com dó, voltei, entreguei o paletó dele e falei: "Se você quiser nós vamos para o cinema, senão, voltamos para casa, agora." Aí fomos para o cinema. Naquele tempo tinha filme, tinha seriado do Zorro, tinha seriado do Batman, ah!, era muito bom! Eu adorava o Cavaleiro Negro, Roy Rogers. A gente acompanhava seriado como se fosse uma novela no cinema. A gente ía para o cinema sábado e domingo, à tarde. Minha mãe deixava a gente sair. Minha mãe era uma santa mulher. Sabe que eu não lembro da minha mãe reclamar da vida? Mesmo quando não tinha nada para comer, mesmo quando a situação era muito, mas muito desgraçada, minha mãe não reclamava da vida.

A outra coisa gostosa desse tempo é que eu tinha um irmão que trabalhava na padaria e, de vez em quando, acho que ele pegava – a palavra não pode ser roubar – aquele rolão de mortadela e levava para casa. Quando ele chegava com aquilo em casa, era como se tivesse um pote de caviar, de lagosta, na minha frente. A gente comia mortadela até...

Depois a gente mudou dessa casa, a gente foi morar noutra casa, mas próxima, no começo da Vila Carioca. Moramos lá uns dois anos. Aí, nós já tínhamos melhorado de vida, meus irmãos todos já trabalhavam. Eu ainda não trabalhava, estava na escola. Me lembro que quando a gente mudou a primeira vez, que minha mãe se separou do meu pai, ela levou uma tina, uma faca e uma lata. Dessa vez a gente pegou um caminhão. Sabe o que a gente tinha? Um fogão de duas bocas. Quando compramos o fogão de duas bocas, já era chiquérrimo. Já estou falando de 1957. Eu lembro até hoje o endereço dessa casa: Rua Auriverde, 1156, na frente dos armazéns do IBC. Ficava na travessa Auriverde - Vemag, onde tinha a Vemag.

Nessa casa morava minha mãe, minha irmã Maria, minha irmã Tiana, eu, o Ziza, que é o Frei Chico, o Vavá, o Jaime, o Zé, meu primo Luiz, Zé Graxa, Luiz Graxa, Leoni, tudo nessa casa. Essa casa já era melhor. Tinha dois quartos e cozinha. Ficava a cozinha no meio, um quarto para cá, outro quarto para lá. No fundo morava meu tio, a mulher e uma filha e, mais nos fundos, era um cortiço, aí morava o outro meu tio, a mulher e dois filhos. No outro morava um senhor chamado Cícero, a mulher e dois filhos.

Então, eu estou falando que moravam quantos? Quatorze lá da minha casa, ou 13, três do meu tio, mais 7 do outro meu tio, mais quatro do outro meu tio, mais quatro do Seu Cícero. Tinha um banheiro só. Um banheiro para todo mundo. Não tinha chuveiro. Era um poço e o banheiro. Era um banheiro alto assim, mas era de cimento, não tinha como sentar. E todo mundo usava aquele banheiro. De manhã, das 6 às 7, quando todo mundo levantava para ir trabalhar, imagina o inferno! Hoje eu fico pensando... é muito triste.

Era um tempo que a gente sofria muito, passava muita fome mas tinha uma total liberdade, jogava bola de manhã, de tarde, de noite. Chegava da escola ao meio-dia, ía para o campo jogar bola. Aí, o mundo era da gente. Jogava bola, jogava bolinha de gude, jogava pião, empinava papagaio, de noite brincava de esconder, sabe? Não tinha limitação de tempo, nem repressão. E eu já era corintiano, virei corintiano muito novo. Cheguei em Santos em 52, o Corinthians, em 54, foi campeão no IV Centenário, e eu virei corintiano.

Eu acho que, no tempo em que fui criança e jovem, a gente era mais feliz. Eu tiro pelos meus filhos hoje, que têm medo de assalto, têm medo disso, têm medo daquilo. Naquele tempo a gente não tinha medo de nada. Não tinha carro, não tinha asfalto nas ruas, não tinha, era campo de futebol para tudo quanto é lado, não é? Só para se ter uma idéia, quando eu era menino, onde é a favela de Heliópolis hoje, era só campo de futebol, ali devia ter uns 30 campos de futebol. Então, eu saía de Vila Carioca para jogar bola ali. Então, era outro mundo. Eu tenho pena da molecada de hoje, porque vive muito presa, muito. E sai para a rua de noite, alguém mata, ou a polícia ou o bandido. Então, eu falo sempre assim: que, embora a gente fosse pobre, a infância é uma coisa tão gostosa, a gente vivia melhor.

Depois que viemos para São Paulo, meus irmãos de vez em quando iam ver meu pai. Eu nunca mais tive contato com meu pai. Até porque não tinha nenhuma saudade do meu pai, não tinha porque ficar atrás do meu pai. Minha mãe não queria. Minha mãe, inclusive, sofreu muito porque a gente trouxe o meu irmão Rubens, filho da outra mulher do meu pai, para morar com a gente. Como ele apanhava muito, a gente pegou ele para morar com a gente. Ficamos com ele um tempo, não deu certo porque ele tinha uma reação quase que animalesca, quando chegava alguém na minha casa ele desaparecia. Às vezes era meia noite, uma hora da manhã, eu estava andando na rua atrás dele. Aí, quando encontrava com ele, me pegava de pau com ele também. Ele era um negócio maluco.

Hoje ele é um coitado. Está trabalhando num açougue, mas ele chegou a ser mendigo. Na minha campanha para a presidência, de 89, a direita foi na Ilha Bela procurar ele; ele estava dormindo na rua. Aí, queriam que ele falasse mal de mim. Ele falou: "Por que eu vou falar mal do Lula? Não estou assim por causa do Lula. Estou assim porque eu estou assim." Nunca aceitou um favor, nunca. Meus irmãos foram levar roupa para ele: "não estou precisando disso. Eu estou assim porque eu quero." Sabe? Tem dignidade, tem. Mas ele morou com a gente uns dois anos. Depois não deu certo, levamos ele de volta.

Adolescência
Passei praticamente toda a minha adolescência na casa da rua Auriverde. De 57 até 63, 64, a gente morou nessa casa. Foi aí que eu comecei a trabalhar. Isso foi em 57, eu estava com 12 anos. Em 58 eu comecei a trabalhar de tintureiro. E logo depois, entrei no Senai, onde estudei durante três anos. Era uma situação muito complicada, muito complicada, porque na medida em que meus irmãos iam ficando velhos, eles iam casando, saindo de casa e largando minha mãe na mesma situação. E eu ganhava pouco na época porque, nos três anos que eu estudava no Senai, eu ganhava um salário mínimo praticamente. Eu só fui ganhar um pouco mais quando pedi a conta da empresa e fui para a outra fábrica, não é?

Mas eu falo sempre assim: a minha adolescência, esse período da infância e depois a adolescência, até os 17 anos, que eu morei na Vila Carioca, embora fosse de muita pobreza, eu penso que a gente era mais feliz do que as crianças de hoje. As crianças de hoje, se quiserem jogar bola têm que ir numa escolinha, pagar. Eu não tinha televisão, não é? Só fui ter televisão a partir de 70, depois que eu casei, então, você não ficava em casa, não tinha video-game, não tinha nada, era rua mesmo. Então tinha ‘n’ brincadeiras, a gente fazia guerra de mamona com estilingue, guerra entre vilas, guerra de pedra de vila contra vila, sabe? A gente fazia isso com o maior prazer, e eu adorava jogar bola.

Jogava bola, sábado de manhã, sábado à tarde, domingo de manhã, domingo à tarde e, se sobrasse tempo, jogava ainda dia de semana, sabe? Eu já estou falando de 58, eu já tinha 13 anos de idade. Nessa época, meu ídolo no futebol já era Garrincha, já era Pelé, já era Didi, Vavá, Mazola, Gilmar. Já era a seleção brasileira, que foi campeã do mundo. Meu programa de jovem, até uns 18, 19 anos, era jogar bola. A gente jogava bola o dia inteiro e, de noite, a gente ficava 20, 30 moleques numa esquina, falando do jogo da tarde. No dia seguinte ia jogar, ficava o tempo inteiro. Nos tempos da Vila Carioca, a gente montou um time de futebol chamado Náutico. Depois eu joguei no Flamenguinho, depois no Bangu, depois no Cruzeiro. Eu jogava bem. Quer dizer, mais ou menos. Eu era meia-direita. Hoje as pessoas não falam mais meia-direita, mas é que eu jogava com a camisa número oito. Mas era minha diversão. E de noite a gente, então, comprava batida de amendoim, e a gente vinha, o grande passeio nosso – hoje em dia a molecada vai para o Shopping – naquele tempo a gente ía pro Sacomã. A gente comprava um ou dois litros de batida, vinha 12, 13,15, 20 moleques, a gente ía bebendo no gargalo, dava a volta no Sacomã, voltava para casa e estava feito o passeio. E depois era muita brincadeira, muita, muita brincadeira. A gente vivia uma vida pobre mas uma vida alegre. Eu vivia legal, gostava de jogar bola, me dava bem com os meus companheiros, não tinha por que reclamar, não tinha por que reclamar.

Nessa época eu não tinha namorada. Eu namorei muito pouco. Eu só fiquei esperto para namorar depois que eu fiquei viúvo. Antes eu não era namorador, eu tinha vergonha de falar com as mulheres. Eu só fiquei esperto depois que eu fiquei viúvo.

Eu fui começar a dançar já depois de 18 anos, eu tinha mudado para a Ponte Preta. Pelo menos na minha vida isso não aconteceu até os 17, 18 anos. Porque era uma dosagem de responsabilidade muito grande. Na verdade você tinha quase que uma família para cuidar, então não tinha tempo para essas coisas. Somente quando eu mudei para a Ponte Preta, já em 1964, é que, então, eu conheci o Lambari, conheci a minha primeira esposa, a gente era muito amigo. Aí sim, nós começamos a namorar, começamos a ir para bailes, mas aí eu já estava com 18 anos de idade.

Mas também era um período gostoso, aí sim, eu aprendi a dançar, eu comecei a arrumar namorada. Minha primeira namorada era uma japonesinha, chamava-se Mitiko. Ela era bonitinha, mas sabe o que acontece? Eu, entre a bola e a namorada, ia jogar bola. Era fanático por futebol.

E também, tinha dois cunhados que tocavam música sertaneja, então, o que eu fazia? Eu era empresário deles. Mas empresário assim, a gente ia numa casa, chegava, oferecia a dupla: "Olha, está aqui o Toninho e o Jacinto." O que o cara tinha que oferecer para a gente? Cachaça e petisco. Então, a gente contratava a casa, chegava lá de manhã, o cara arrumava o violão e a gente ia lá e colocava a cachaça na mesa, colocava lá algumas coisa para mastigar, cantava até duas horas da tarde, já ficava meio bêbado, aí, ia pra casa, dormia, às seis horas levantava e ia para a missa. Nós íamos para a missa para a esperar as meninas sair, para ver se paquerava as meninas. Esse tempo foi muito bom!

Em 64 nós mudamos de lá. Nós fomos para a Ponte Preta. Ai, uma casa novinha, tão legal! Era uma casa alugada, mas era uma casa sozinha, assim. Dos meus primos que moravam conosco, uns foram, outros não. Mas foi só a minha família. Alguns irmãos já tinham casado. Nós fomos morar lá e qual foi minha tristeza? Deu a primeira enchente. Eu tive contato pela primeira vez com uma enchente dentro de casa, um metro de água dentro de casa. Era rato, era fezes, era barata, era cama molhando e você ter que levantar de noite, bicho, e ter que começar a levantar o fogão, começar a levantar cama. Aí pegamos três enchentes.

Quando a gente tem 20 anos de idade essas coisas não doem, porque você está com o corpo preparado pra tudo. Então, eu e outro moleque da minha idade, a gente pegava câmara de pneu e ia nas casas de noite, pra ver se tinha gente precisando de socorro, pra gente ajudar a tirar de dentro de casa, ajudar a levantar geladeira, ajudar a levantar televisão. Aí, depois, a gente ia para um salão que tinha e dormia todo mundo lá. Pra nós era uma farra, não é? Só o fato de ter lá um monte de moleque, um monte de menina junto – todo mundo já pensando em sacanagem – já era uma farra geral. Os coitados dos mais velhos é que sofriam porque tinham que dormir fora de casa.

Eu morei nessa casa, acho que três anos, e todo ano pegava enchente, já não agüentava mais. Todo ano era uma enchente maior que a outra. E depois, limpar no dia seguinte? Era um metro de lama que ficava aquilo, aquela lama. Eu não sei como é que a gente não pegou tifo. Aí, tinha que lavar aquilo tudo, limpar tudo. Vida de pobre é uma desgraça, viu? Hoje, quando eu vejo na televisão isso, eu fico lembrando o quê que a gente passou. E não mudou nada. Lamentavelmente, não mudou nada.

Na nossa rua, na Ponte Preta, não tinha asfalto. Era uma rua encostada na Cerâmica São Caetano, ali na divisa de São Caetano com São Paulo. E quando o céu ficava preto a gente já sabia: chovia em São Bernardo enchia lá. Não precisava nem chover lá, se chovesse em São Bernardo já enchia o lugar que a gente morava. E você vê, a água vem, vem, vem e não tem jeito, não tem o que fazer! Ela vem, quando você fecha tudo, a gente fez um muro mais alto no portão, ela entra pelo vaso sanitário, é um negócio.

Aí, mudamos de lá para São Caetano, para a Vila São José. A gente mudou para essa Vila São José, porque meu irmão tinha ido para Pernambuco e tinha ganho um bingo. E com o dinheiro do bingo ele e o meu primo, o Zé Graxa, compraram a casa de sócios. Aí nós aumentamos a casa, fizemos mais um ou dois quartos, não sei. Nunca tinha dado enchente na Vila São José. Nós mudamos, no ano que nós mudamos, teve um metro e meio de água dentro de casa! Um metro e meio! Sabe por que? A Vila São José é vizinha da Ponte Preta. Mas, como a Ponte Preta dava muita enchente e todo mundo ia aterrando a rua, aterrando a rua, aterrando a rua, terminou que a Ponte Preta ficou mais alta que a Vila São José. Aí, enchia a Ponte Preta, enchia a Vila São José. Entrou um metro e meio de água dentro da minha casa.

Eu lembro como se fosse hoje a cena. Minha mãe estava com os pés dentro de uma bacia d’água quente, a gente saiu na rua e viu que a água vinha crescendo, aí pegamos um monte de tijolos e resolvemos fazer uma muretinha de emergência ali. Fizemos cimento na hora, fizemos a muretinha e vai vindo água e vai vindo água, quando a água estava no meio da mureta, bicho, arrebentou a mureta. A água pegou a minha mãe com os pés dentro da água quente na bacia. E, quando entra, não tem mais jeito. Aí, tiramos a minha mãe de lá e a água ficou dois dias lá. Depois, a Prefeitura de São Caetano, para reparar os prejuízos, deu colchão de capim pra gente.

Bem, acontece que quando você tem 20 anos de idade, tudo é farra, não é? Eu já estava querendo namorar a minha primeira mulher e, quando dava uma enchente, eu já sabia que a gente ia dormir junto lá no clube. Então, já ficava até torcendo para a chuva vir, para ver se facilitava a nossa vida.

Formação Escolar
Formação Escolar
Eu lembro da escola porque teve um ano que eu, Maria e Frei Chico passamos em primeiro lugar, cada um numa classe diferente. E teve uma entrega de prêmio pros primeiros colocados e esqueceram de comprar o meu prêmio. Meu irmão Frei Chico ganhou um livro bonito chamado No Reino de Liliput, e minha irmã ganhou um estojo. E meu presente não veio até hoje, disseram que iam dar depois e não deram. Quando eu vim pra cá, a professora chamava-se Dona Terezinha, ela queria ficar comigo, ela achava que a mamãe devia deixar eu ficar um tempo com ela, mas a minha mãe também não queria, não queria separar dos filhos e trouxe todo mundo pra cá.

Formação Escolar
Senai
Eu estava na Colúmbia quando surgiu uma vaga no Senai. Avisaram para a minha mãe que tinha uma fábrica, a Fábrica de Parafusos Marte, perto de casa que estava precisando de um menino para mandar para o Senai. Aí, o Senai era tudo o que a gente desejava. Nessa época eu tinha terminado o primário. Tinha feito a 5a série e comecei a trabalhar. Fui fazer teste no Senai, passei e comecei a trabalhar nessa fábrica. Aí já foi – meu Deus do céu! – já foi 1960. Aí, era metade do tempo na fábrica e metade no Senai. Não dava seis a seis meses porque tinha as férias. Eu fiz dois anos no Senai do Ipiranga e o último ano no Senai Roberto Simonsen, no Brás.

Mas aí, já foi o paraíso! O Senai foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Por que? Porque aí, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ter uma profissão, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ganhar mais que o salário mínimo, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ter uma casa, eu fui o primeiro a ter um carro, eu fui o primeiro a ter uma televisão, eu fui o primeiro a ter uma geladeira. Tudo por conta dessa profissão, de torneiro mecânico, por causa do Senai.

O período que eu passei no Senai, talvez tenha sido o mais importante período na minha vida. Primeiro porque eu estava aprendendo uma profissão, segundo porque acho que foi a primeira vez que eu tive contato com a cidadania. Sabe aquele negócio de você estar numa escola de boa qualidade, de você almoçar, de você tomar café decentemente? Acho que foi a primeira vez que eu alcancei a cidadania, porque, fora do Senai a vida era muito dura e no Senai a gente tinha o aventalzinho da gente, a gente tinha a comida na hora certa, de boa qualidade, tinha café, tinha futebol de salão, tinha basquete. Então era uma coisa grã-fina para mim. Era uma coisa, eu lembro daquele período com muita recordação. Me lembro que era meio período de teoria e meio de período prática. Na sala de aula não tem liderança, a liderança é do professor e na oficina também não tinha.

Eu quase não jogava bola lá no Senai, porque normalmente quem jogava muito eram os mais velhos. Você entrava no primeiro ano, a turma do terceiro era a turma que mandava. Você era como se fosse recruta, um soldado novo no quartel. Mas foi um período extraordinário na minha vida. Eu tenho como uma grande recordação. O ambiente era gostoso, os professores eram amigos e eu sentia que estava progredindo na vida, que eu ia ser alguém na vida. E neste país, na década de 60, você ter um diploma de ferramenteiro, de torneiro, de fresador, de mandrilador, era uma coisa. Eu digo sempre assim, hoje, quando vou fazer debate em faculdade: "Oh, vocês com diploma universitário hoje, não têm a mesma facilidade que eu tinha de arrumar emprego com meu diploma de torneiro mecânico, não é? Era uma coisa boa.

Trabalho
Primeiro Emprego
Meu primeiro emprego foi como tintureiro. Eu estava com 13 anos, em 1958. Antes disso eu já engraxava sapatos, mas trabalhar de tintureiro foi o meu primeiro emprego. Eu trabalhava numa tinturaria, eu ajudava a colocar roupa na máquina. Eu, de sábado, ía entregar os ternos. Já faz alguns anos, aconteceu uma coisa fantástica. Eu fui na porta da Ford fazer uma assembléia e encontrei um cara que eu chamava de compadre. Ele era um grandão que trabalhava na Ford, ele morava na rua Vemag e eu era baixinho, colocava um cabo de vassoura nas costas e um monte de cabide de cada lado. E eu saía entregando de casa em casa. Só que o paletó desse cara era muito grande e eu fui atravessar uma rua, tinha chovido e o paletó dele foi arrastando. Eu não vi e, quando fui entregar, a mulher viu. E foi a primeira vez que fui tratado condignamente. A mulher, ao invés de me dar bronca, pediu para eu levar o terno de volta e lavar, que não tinha problema nenhum. E ainda me deu uma gorjeta. Nessa tinturaria eu não era registrado. Trabalhei lá quase um ano. E o dinheiro, eu entregava tudo para minha mãe. Depois eu entrei na Colúmbia e trabalhei seis meses. Aí, surgiu uma vaga no Senai e fui para a Fábrica de Parafusos Marte.

Trabalho
Fábrica de Parafusos Marte
Você não sabe o orgulho quando eu comecei a trabalhar nessa fábrica! Minha mãe pegou o macacão do meu irmão mais velho, Jaime, ele trabalhava numa fábrica de peneira que era na Parada Taipas. Hoje está tudo emendado, mas naquele tempo parecia longe. Eu lembro que eu pegava um trem, descia na estação de Franco da Rocha, aí pegava um ônibus que parava num bar, lá na Parada Taipas. Dali, tinha que andar não sei quanto para chegar nessa fábrica de peneira em que meu irmão era o chefe. Aí, meu irmão me deu o macacão dele, rapaz! Minha mãe preparou esse macacão, quando eu comecei a trabalhar numa segunda-feira, que eu pus aquele macacão, eu me achava "o rei da cocada!" Aí, eu fui trabalhar. Eu não sabia nem o que era torneiro mecânico, eu não tinha noção do que era. E minha mãe sabia que eu ía ser mecânico, não é? Mas também, não fazia diferença do que era ser mecânico ou não.

Quando eu cheguei nessa fábrica, eu achava que prensa era torno. Tudo era torno para mim. Eu cheguei lá, o cara falou: "Olha, você vai catar pedacinho de ferro aí no chão." Porque tinha umas prensas cortando ferro, e eu ficava catando as sobras e colocando num latão. Quando chegou a hora do almoço, me avisaram: "Olha, hora do almoço." Eu ia almoçar em casa, ia a pé. E eu estava limpo, eu não tinha me sujado, ah!, eu passei perto de um latão de óleo que utilizavam para temperar peça, aquele óleo preto. Eu falei: "Não é possível, eu vou chegar em casa sem minha mãe ver minhas mãos sujas, aqui, de mecânico, pô?!" Aí, enfiei as duas mãos dentro para chegar em casa todo melecado de óleo e falar: "Está aqui, o teu mecânico."

Então eu ia, eu passava na rua orgulhoso. Tinha uma menina, que trabalhava numa quitanda, que eu vivia paquerando ela. Acho que ela nem olhava para mim, mas eu achava que ela olhava, adorava passar com macacão, ela me via de macacão, era orgulho usar macacão, viu? Eu tinha um baita de um orgulho, aquilo para mim era como se fosse, sabe, o menino que se forma e usa a primeira roupa de médico, ou sei lá. Eu achava aquilo o máximo.

Essa fábrica não tinha restaurante, a gente levava marmita de casa, a gente esquentava lá. Tinha dia que eu ia comer em casa. Depois era muito puxado ir comer em casa, porque eu queria jogar bola. Peão tem dessas coisas, numa hora de almoço a gente quer comer em 15 minutos, porque em 45 quer jogar bola. No começo eu ía almoçar em casa mas depois eu falei: "Não, eu vou almoçar aqui porque pelo menos sobra tempo para jogar bola." Aí, jogava 45 minutos de futebol todo dia.

Eu trabalhei nessa fábrica quatro anos e meio. Aí, depois, eu fui pedir aumento de salário, o cara falou: "Ah, não vamos dar aumento porque nós te financiamos o estudo." "Financiamos coisa nenhuma, financiou. Porra, eu quero aumento." Trabalhava um senhor perto de mim, ele produzia menos do que eu e ganhava o dobro de mim. Chamava-se seu Vitório. E eu tinha um companheiro chamado Barbosa, que era mais velho também do que eu, que era um pai para mim lá dentro. Me ensinou muito, acho que eu aprendi mais com ele do que no Senai. Aí, não me deram aumento, eu pedi a conta. Só que eu pedi a conta sem me dar conta que estava começando uma crise de desemprego, não é? No final da década de 60, 64, mais ou menos. Bem mas aí eu já tinha, eu estou falando de quando eu já tinha quase 18 anos.

Na Fábrica de Parafusos Marte, eu participei pela primeira vez de uma greve. Quando tinha greve era interessante, porque nessa fábrica de parafuso, o chefe, um tal de seu Zé, ficava na porta e: "Foi decretada a greve, ninguém vai entrar pra trabalhar porque o piquete pode passar aqui e pode quebrar a fábrica." Aí, a gente pegava um caminhão da fábrica, um caminhãozinho velho, a gente lotava o caminhão e saía pra fazer piquete, não é? Quer dizer, o pessoal mesmo se organizava. O dono até hoje é meu amigo, o Seu Miguel, ele até hoje é meu amigo. Ele tem um restaurante ali perto de onde eu tenho o escritório. A fábrica faliu. Tinha dois filhos dele que são meus amigos, um tal de Luizinho e um tal de Miguelito que jogavam bola junto comigo. E nessa fábrica também, eu aprendi muito, aprendi com esse seu Barbosa muito, muito, muito.

Mas, antes, disso, eu tinha tido o meu primeiro contato com uma greve, em 1958, aos 13 anos de idade. Foi uma greve numa fábrica na Avenida Carioca chamada Justifício São Francisco. Eu lembro que houve a greve e lembro que o pessoal estava furando, e um piquete derrubou o muro da fábrica. Era uma coisa, todo mundo empurrou o muro, derrubou o muro da fábrica. Aí, fez um cordão, um corredor polonês, e os funcionários iam saindo e os piqueteiros iam dando tapa na cabeça. E uma outra greve que eu presenciei foi em 62, uma greve, me parece, que pelo 13º salário. Quando a gente saía para trabalhar de manhã, naquele tempo eles escreviam na rua: ‘Dia tal, greve geral’. Ah, quando eu via aquilo já nem ia trabalhar. Mas teve uma greve que me marcou muito, perto de onde eu trabalhava. Eu tinha 14 ou 15 anos de idade. Tinha uma pequena tecelagem, era uma fábrica de meias, e tinha lá meia dúzia de pessoas trabalhando, o piquete passou e mandou parar e o dono da fábrica não quis parar. Aí, o pessoal invadiu a fábrica. O dono da fabrica atirou. Atirou num piqueteiro e, aí, os outros subiram e jogaram ele da janela para baixo. Ele morreu. O pessoal matou o dono da fábrica.

Trabalho
Metalúrgica Independência
Depois que eu saí da Fábrica de Parafusos Marte, eu entrei numa empresa chamada Metalúrgica Independência. Essa empresa fazia botão de cofre para banco, fazia esses puxadores de porta. Eu trabalhava à noite. Ah, era a maior gostosura!

Nessa fábrica, eu recebi meu primeiro 13º salário. O primeiro 13o. salário que eu recebi, foi o primeiro soco que eu tomei. Eu tinha 14 anos de idade e tinha uma padaria perto de casa. A turma da fábrica foi lá, sabe o que a gente comia? Azeitona, mortadela e vinho daqueles garrafões de cinco litros, aquele Sangue de Boi. Para mim, aquilo era o must, aquilo era uma coisa! E foi a primeira vez que eu tomei um foguete na minha vida, com 14 anos. Cheguei em casa meio alegre.

Nessa Metalúrgica Independência eu perdi o dedo. Era de madrugada, o prensista que estava trabalhando cochilou, eu estava trocando o estampo e, aí, a prensa veio e pegou meu dedo. Isso foi de madrugada, eu tive que esperar até às 6 horas da manhã para poder ir no médico, precisava de um carro para me levar no médico, esperei o dono da fábrica chegar para me levar. Aí cheguei lá, o médico arrancou o dedo.

Nós trabalhávamos em cinco à noite. E ai, como eu adorava! A gente comprava bacon e a gente fritava bacon e colocava com o ovo no meio do pão. E depois, como só éramos em cinco à noite, o chefe era nosso amigo, a gente ia dormir. A gente acordava lá pelas três horas da manhã para esquentar as máquinas.

Também na Metalúrgica Independência eu ganhei o meu primeiro presente, fui eu mesmo que me dei. Comprei uma bicicleta velha. A desgraçada saía a corrente toda hora então, toda hora eu tinha que parar para arrumar a maldita corrente. Eu já não agüentava mais. Eu saía às dez horas da fábrica, ia de bicicleta. Eu comprava sorvete e não sabia guiar com uma mão só. Então, às vezes, eu comprava o sorvete e saía pedalando e não conseguia tirar a mão, o sorvete ia derretendo e quando eu chegava em casa já não tinha mais sorvete. Ou seja: ao invés de parar e chupar o sorvete, eu deixava o sorvete derreter.

Eu saí da Independência porque tive uma briga com um chefe, por causa de aumento de salário também. Aí eu peguei e saí. Pedi a conta. Eu fiquei oito meses desempregado. Nesse período, em 65, a gente estava vivendo uma crise, eu estava com 20 anos de idade e estava havendo uma crise de desemprego muito forte. Eu fiquei desempregado oito meses. E a gente estava numa pindura muito grande, uma pindura. Para ver televisão, eu ia na casa da minha sogra, que ainda não era sogra, era só amiga naquele tempo. Era uma televisão branco e preto que colocava um vidro colorido na frente, era uma coisa horrível.

Mas a gente estava numa pindura tão grande, tão desgraçada por causa da crise que, nesse ano de 65, eu saí para procurar emprego, eu saía da Vila São José, vinha até a Volkswagen a pé. Fábrica e fábrica, fábrica e fábrica, ninguém pegava nada, ninguém. Eu fumava e não tinha dinheiro para comprar cigarro. Um dia, eu paro na porta da Mercedes e vem um tal de Osmar, amigo meu: "O que você está fazendo aqui e tal." Eu falei: "Olha, estou aqui, pegaram a minha carteira e tal." A gente conversando e ele fumando, ele dava cada tragada e eu sentia aquilo, batia no fundo do meu pulmão. Daqui a pouco ele joga aquela bitucona, e eu doido para ele ir embora porque eu queira pegar a bituca. E ele não foi embora, e eu olhando a desgraçada, ela foi queimando, queimando até chegar no filtro, e ele foi embora.

Aí, eu já tinha tirado o sapato para ficar esperando a resposta. Isso, eram oito horas da manhã, foram me dar a resposta ao meio-dia. Não tem vaga. Eu fui calçar meu sapato, não entrou mais, o pé inchou. Tive que voltar da Mercedes Benz até a Vila São José a pé. Eu lembro que cheguei em casa meu irmão me chamou de vagabundo. Pô, eu tinha sofrido que nem um desgraçado, eu meti o sapato na cara dele, não tinha emprego mesmo, vai fazer o quê?

Desemprego é uma coisa muito triste, porque o cara que perdeu o emprego, ele perde... e eu fiquei quase oito meses desempregado quando perdi o emprego da Independência. Isso foi entre a Independência e a Villares.

Trabalho
Fris Moldu Car
Depois que saí da Metalúrgica Independência, eu fui trabalhar numa empresa chamada Fris Moldu Car. Hoje ela está em São Bernardo, mas naquele tempo era aqui no Ipiranga, na Rua 1822. Era uma fábrica que fazia friso pra carro. É aquele negócio de metal que vai do lado assim. Hoje, os carros nem friso têm mais, naquele tempo todos os carros tinham friso. Hoje é componente, se você quiser colocar, tem que colocar a parte, naquele tempo todos os carros saíam com aquilo, até Volkswagen.

Eu trabalhei onze meses nessa fábrica. Também foi um episódio, um período muito bom para mim. Eu fui mandado embora porque tinha que fazer hora extra de sábado e domingo e o dono da fábrica dava o dinheiro na sexta-feira, pra gente poder pagar o transporte e poder comer no Sábado. E a turma minha ía pra Santos e eu resolvi ir, e gastei o dinheiro. Quando cheguei na segunda-feira, queimadinho que nem um camarão – porque pobre não se bronzeia quando vai pra Santos, ele se queima que nem um camarão –, o cara: "Por que você não veio trabalhar?" "Ah, eu fui pra Santos." "Então vai ser mandado embora." Aí, eu fui mandado embora.

Trabalho
Villares
Veio 1966, eu entrei na Villares. Eu vi no jornal que estavam precisando de torneiro mecânico, fui lá, fiz o teste, passei. Bom, aí, eu mudei de vida, porque a Villares foi a primeira empresa que eu trabalhei, realmente organizada. Eu já tinha o diploma de torneiro mecânico, já fui contratado como profissional, o salário já era bem maior, aí sim.

Mas quando eu comecei na Villares foi muito triste. Eu passei o primeiro ano muito apertado porque estava desempregado há muito tempo. É por isso que eu acho que todo cara que fica desempregado, quando começa a trabalhar, no primeiro dia tem que receber o salário adiantado. Porque é o período mais crítico de quem está desempregado. Então, eu lembro que eu fui trabalhar e a Villares naquele tempo não tinha restaurante. Eu só tinha a moedinha da volta para casa e na hora do almoço, tinha um bar lá perto da Villares e eu fui no bar. E todo mundo falava: "Me dá dois mistos quentes, me dá um peito de frango, me dá um churrasco, me dá uma coca, cerveja, duas cachaça..." E eu lá em pé, olhando os cara comerem aquilo com água na boca, enchia d’água vendo os cara comer. Eu não tinha dinheiro para comprar, aí um cara falou: "Você começou a trabalhar hoje?" Você não quer comer nada, não?" "Ah, estou sem fome." Eu lembro que trabalhei o dia inteiro sem comer.

Numa outra vez, a gente estava numa pindura tão grande – era importante que as autoridades vivessem um pouco isso – que eu lembro que não tinha batatinha para cozinhar na água para fazer alguma coisa para comer. E a segunda-feira, normalmente, é o dia que você leva a melhor comida na marmita, porque é a sobra do domingo. Ou você leva um bifão a milanesa ou leva frango ou leva macarronada. E eu lembro que um domingo à noite, não tinha absolutamente nada pra levar. Era só feijão e arroz, nada mais, nem um ovo. Ovo de marmita é terrível. Fritar um ovo e colocar numa marmita, quando você vai comer na hora do almoço, até a gema está branca. Mas eu lembro que não tinha nem ovo. E lembro que eu sentei pra comer e fui abrir – eu não sabia que não tinha nada – não tinha nada. Eu peguei e fiquei com vergonha, porque vi meus amigos abrirem a marmita deles. Porque, na fábrica, a gente tem uma turma que senta junto e quase que, se ficar dez anos lá, são dez anos junto com as mesmas pessoas. E um abria estava lá cada coxa de frango desse tamanho, outro, bife à milanesa e a minha, nada. Aí eu peguei e fechei: "Não estou com fome." Aí um desgraçado de um cara falou assim para mim: "Ô Lula, me dá a tua mistura?" Aí eu falei: "Não, não vou dar porque eu vou comer depois." Levei a marmita para o armário, coloquei na gaveta. Aí, colocava o torno para trabalhar e dava uma garfada na minha comida.

Olha, eu não desejo essas coisas para o meu pior inimigo porque, às vezes, ficávamos sentados minha mãe, minhas duas irmãs e eu, sábado em casa, sabendo que não tinha nada para jantar de noite. Isso, quando eu estava desempregado e o Frei Chico também. Minha irmã, tinha uma pequena e tinha o namorado dela que não deixava ela trabalhar, entendeu? Tinha essas coisas também, hoje é marido dela.

Eu me lembro que muitas vezes, quando saía do trabalho, eu ia a pé porque não tinha dinheiro para a condução. Quantas vezes eu via minha noiva passar no ônibus, eu me escondia para ela não me ver. E eu ia a pé. Quantas vezes eu parei, sentei no campo ali onde está a favela de Heliópolis chorava, chorava, chorava, sabe? Quando eu desabafava a minha desgraça, eu ia andar. Quantas vezes eu saía da fábrica às seis horas da manhã e ficava catando bituca para fumar. Isso, mesmo quando estava trabalhando. Porque não sobrava. Pagava aluguel, tinha que colocar comida em casa, tinha o irmão mais velho meu, desempregado, que morava com a gente.

Eu fumava Continental sem filtro e, naquele tempo, tinha um cigarro chamado Kent que era mais barato. Então, de manhã, eu ia na padaria e via a bituca que tinha. Aí, pegava a bituca no ponto de ônibus, cortava o lado que o cara tinha colocado fogo que era para pôr na boca, que era para não colocar o lado que ele tinha colocado. Então quando eu ía namorar eu ia com o maço de cigarro Continental cheio de bituca dentro. Então toda vez que eu ia acender eu pedia licença, ia no banheiro acender ficava um pouquinho lá para voltar já com o cigarro meio fumado para ninguém descobrir que era bituca. Isso, durante tempos e tempos e tempos. E eu sei que ainda hoje tem gente que passa por isso.

Não tem nada pior do que você sair de uma fábrica sem dinheiro para a condução. Eu tinha vergonha de falar para os meus companheiros que eu não tinha dinheiro. Então os caras, no ponto do ônibus que ia para onde você ia, te chamando: "Vamos pegar o ônibus, taturana." "Não, depois eu vou, depois eu vou." Aí, deixava eles pegarem e, quando eles pegavam o ônibus, eu saía a pé e ia chegar duas horas depois deles lá.

Esse meu apelido de Taturana tem uma história complicada. Eu, toda vez que trabalhava com os carros fodidos, tinha uma alergia muito grande. Não pegava gripe, não chegava a ser gripe, eu ficava alérgico e ficava com os olhos muito vermelhos, mas muito vermelhos, até hoje é assim. E pelo fato de eu ter os olhos vermelhos, o pessoal da Villares falava: "Esse cara acho que fumou maconha hoje, esse cara bebeu não sei das quantas e tal." Então, tinha um cara lá, um tal de Azeitona, que devia conhecer muito de maconha, e ele dizia nas rodinhas lá – porque tem cabeça de negro, tem vassourinha, tem taturana e a taturana é a mais forte – e ele me colocou o apelido de Taturana e ficou até hoje Taturana. Na verdade, ele só me conhecia por Taturana.

Casamento
Lurdes
Eu comecei a namorar minha primeira mulher em 67. Ela era muito minha amiga da minha família e, um belo dia, descobri que gostava dela. Eu não sabia como falar com ela. Eu chamei meu cunhado, que era meu melhor amigo. Esse meu cunhado é um cara por quem eu tenho um apreço muito grande porque, se tivesse dois cigarros no maço, ele ia na minha casa levar um para mim. Se ele tivesse dez centavos era cinco meu e cinco dele. Quando eu estava desempregado ele não fazia nada que não fosse para me ajudar, era impressionante. É meu companheiro de cachaça.

Mas eu estava apaixonado pela irmã dele e falei: "Ô Jacinto, eu estou gostando da Lurdes, mas não sei como é que eu faço." "Ah, fala com ela, pô." "Ah, mas eu tenho vergonha, e teu pai e tua mãe?" "Que nada, fala com ela." Um dia, nós fomos para um baile e eu falei: "vou falar". Toca a primeira seleção, tirei ela para dançar, não tive coragem. Toca a segunda seleção, tiro a segunda seleção, e não tenho coragem. Cada vez que eu não tinha coragem, parava a seleção, eu ia no bar e tomava um conhaque. Naquele tempo não era nem Dreher, era conhaque Palhinha, conhaque de alcatrão São João da Barra. Eu acho que na quarta seleção, já no quarto conhaque, eu tive coragem de falar. Aí falei, namorei, casei.

Eu namorei com a Lurdes dois anos. Casamos em 69. Eu gostava muito dela. Não sei se era paixão. Porque tem um negócio de pobre, que é o seguinte: muitas vezes, pobre casa por necessidade, sabe? Mas eu gostava dela, gostava. Tinha uma relação muito boa com ela, muito forte. Ela trabalhou até morrer. Ela trabalhava numa tecelagem lá no Sacomã. Quando ela morreu, ainda trabalhava. Ela morreu em 71, nós casamos em 69. Quando eu me casei eu estava na Villares, morava na Paulicéia.

Casamento
Marisa
Minha segunda mulher é a Marisa. Eu acho que era preciso dizer o seguinte, tem um ditado que diz: "Por detrás de todo homem tem uma mulher". E eu acho que o papel da Marisa, embora nunca tenha aparecido, foi muito importante na minha carreira porque se não fosse o encorajamento... Eu já tive caso, no Sindicato, de diretores que deixaram de ser diretores porque a mulher infligiu que ele deixasse de ser diretor. Já tive um companheiro que foi convidado para vir para o Sindicato e não veio porque a mulher não deixou.

E, no meu caso, o primeiro fato engraçado é que eu conheci a Marisa no Sindicato. Eu trabalhava no Departamento da Previdência Social e, naquele tempo, tinha uma coisa chamada atestado de vida, que você tinha que dar para as pessoas que recebiam os benefícios. E a Marisa recebia a pensão, me parece que do irmão dela. Então, tinha um companheiro que trabalhava comigo chamado Luizinho e eu dizia assim para o Luizinho: "Toda vez que vier uma viuvinha aqui você me coloca para atender ela. Por coincidência, ou não, passou acho que uma semana, ele falou assim para mim: "Lula, veio uma loirinha, rapaz, uma viuvinha tão bonita que eu nem atendi ela. Pedi para ela voltar para você atender".

E tem um fato interessante, eu namorava no centro de São Bernardo e toda quinta-feira e sábado à noite eu pegava um táxi para ir embora para casa, de São Bernardo. E tinha um senhor que me levava, que tinha um filho que tinha sido assassinado, e esse filho tinha deixado uma viúva. Ele tinha três meses de casado, então, esse senhor ficava dizendo: "Porque minha nora é maravilhosa, porque minha nora é linda, porque minha nora...". E falava toda viagem. Ele contava a história da morte do filho dele, eu contava a história da morte da minha mulher. E terminava ele falando dessa nora e do neto dele. Eu fiquei pensando: "Rapaz, sabe que eu ainda vou encontrar com a nora desse velho?". Toda vez que ele me falava eu pensava: "Eu ainda vou encontrar a nora desse velho, eu vou encontrar". Ele me falava maravilhas, eu já quase conhecia a nora do velho sem saber quem era, né?

Aí, nesse dia, o Luizinho falou para mim: "Tem uma loirinha, aí, bonita, rapaz. Que está, aí, viuvinha... Você que vai atender ela". No dia seguinte, chegou a dona Marisa, aquela viuvinha, e a Marisa era realmente muito bonita. Ela tinha um rosto lindo, lindo. Aí, ela me entregou o documento dela, eu vi que ela era viúva e deixei cair a minha identidade perto dela, porque eu queria que ela pegasse e visse que eu era viúvo. Ela pegou minha identidade e disse: Ah! Você também é viúvo!? Eu falei: "Sou". "Ah! Também, não me interessa". Eu falei: "Já me interessou!" Aí, no meio da conversa, eu fiquei percebendo que aquela mulher era a nora do velho. Eu falei: "Está no papo!" Aí, fiquei telefonando para a Marisa, acho que liguei um mês inteiro para ela. Ela trabalhava numa escola, na secretaria. Eu ligava, convidava, inventava coisa.

Ela tinha um namorado, que era um cara da Volkswagen e, quando foi um dia, eu me invoquei e falei: "Eu vou lá disputar com esse namorado dela". E eu fui na casa dela, era um sábado, às 18h, cheguei lá tinha uma senhora de idade no portão e eu falei: "A senhora é a dona Regina?", ela falou: "eu sou.". "É a mãe da Marisa?". "Sou.". Aí eu entrei. Tinha um corredor grande, tinha um portão, eu cheguei lá, bati palma, a Marisa veio. Eu falei: "Eu vim aqui para conversar com você.". "Ah! Mas meu namorado vai vir aqui.". Eu falei: "Dispensa. Eu vou ficar aqui e quando ele vier você vai lá e dispensa ele.". E o cara chegou, a Marisa foi lá e falou para o cara: "Não dá para a gente namorar hoje". Olha, que petulância!

Aí, foi interessante, eu até compreendo o ódio que a Míriam Cordeiro tem de mim porque ela estava grávida de seis meses. A gente estava até procurando casa. Mas quando eu conheci a Marisa eu me apaixonei e falei: "Bom, eu vou largar de tudo o que eu tenho. Aí, eu larguei da Míriam Cordeiro e com seis meses eu casei com a Marisa. Quando a gente começou a namorar eu pensei que fosse só um namoro, sabe, aquele negócio, dois viúvos se encontram, né? Pensei: "isso não vai dar em nada". Mas não deu outra, com seis meses a gente estava casado. Quando nos casamos, a Marisa tinha o Marcos, o meu filho mais velho. E aí, foi uma coisa interessante porque a gente casou em 74. Em 75 eu tive o primeiro filho com a Marisa. Ela parou de trabalhar.

Mas, por que eu disse que a Marisa tinha um papel importante na minha vida? Porque, primeiro, ela nunca, em nenhum momento, criou qualquer obstáculo para a minha atividade sindical. A Marisa é o que alguns médicos chamam de "mulher boa parideira", ou seja, ela nunca teve problema, nunca se queixou de ânsia de vômito, nunca se queixou: "O marido está viajando", "meu marido chega tarde", nunca. E isso, obviamente, dá uma mobilidade muito grande para quem faz política. Se você viaja, chega em casa, tem uma mulher aporrinhando a sua vida, você não vai para lugar nenhum. Então, a Marisa teve esse papel de compreensão de tudo o que eu fazia, de aturar as minhas cachaças, de aturar as minhas reuniões, de aturar as minhas assembléias, de aturar aquela vida conturbada.

E quando a coisa começou a engrossar, de polícia começar a ir na porta de casa, tudo, a Marisa sempre teve uma atitude corajosa que eu vejo em poucas pessoas. Ou seja, se chegasse 2h e alguém batesse na porta de casa, a Marisa nunca deixou eu abrir a porta. Ela sempre tratou, sem nenhuma formação, sem nenhum aprendizado, mas ela sempre tratou de me resguardar. Às vezes era meia-noite, 1h, 2h, batiam palma no portão ou faziam qualquer coisa, barulho no quintal, era ela quem abria a porta e quem saía. E não deixava eu sair, e isso ficou muito forte em 79. A polícia me seguia 24 horas por dia, onde quer que eu fosse, em qualquer parte do Brasil. Se eu fosse para o Ceará chegava no aeroporto tinha polícia me esperando; se eu fosse para o Acre estava a polícia me esperando; se eu estivesse em São Bernardo e fosse na casa do meu irmão, a polícia passava o dia inteiro na porta do meu irmão esperando eu sair; e passava a noite inteira esperando na porta de casa. E foram vários meses, chegava até a encher o saco, onde eu ia eles iam atrás. E a Marisa nunca teve medo, isso nunca assustou para ela dizer: "Olha, vamos parar com isso. Não dá, tem muita tensão". Ela sempre achou que a gente deveria continuar fazendo o que nós fazemos, sempre.

Eu acho que ela agia assim por instinto, acho que ela via que dava certo o que a gente estava fazendo. E, ao invés de tentar criar obstáculo, ela tentava facilitar e me ajudou muito. Se todo mundo tivesse mulher como eu, com essa compreensão, possivelmente as pessoas tivessem mais desenvoltura até para crescer na política. Somente depois foi que a Marisa parou um pouco. Também, as pessoas cansam de fazer a mesma coisa durante muito tempo. Mas eu queria fazer esse registro do papel da Marisa, que foi muito importante.

Casamento
Filhos
Eu tenho cinco filhos. O Marcos é o mais velho, que é filho da Marisa, do primeiro casamento dela, depois eu tenho a Lurian, que é só minha. O Marcos está com 29 anos, a Lurian tem 26. E tenho também o Fábio, com 25 anos, o Sandro, com 21, e o Luís Cláudio, com 15. Eu tenho 54 anos, a Marisa tem 50.

A Lurian faz jornalismo, está trabalhando numa dessas empresas que prestam serviço para o Diário do Grande ABC. Trabalha com o Aloísio Mercadante. O Fábio trabalha para uma produtora, acho que está na DVD agora, com o Marcos. Ele tem uma empresa de comunicação, trabalha junto com o Carlinhos Bittar, irmão do Jacó ou filho do Jacó. O Sandro está fazendo publicidade e também está trabalhando numa produtora e o Luís Cláudio está na escola. E tenho dois netos: Maria Beatriz, que é filha da Lurian e o Tiago, que é filho do Marcos.

Golpe Militar de 64
Quando houve o golpe militar de 64, eu estava trabalhando na Metalúrgica Independência. O Frei Chico sempre foi o irmão que mais me influenciou porque ele era mais militante, ele tentava fazer a cabeça da gente. Ele já freqüentava o Sindicato. O golpe militar, para a gente, tinha outra dimensão do que tinha para quem fazia política já. Dentro da fábrica, o orgulho dos militares terem chegado ao poder era muito grande. As pessoas confiavam no exército brasileiro. O fato de que "o exército assumiu agora, vai acabar com o comunismo, vai acabar com a corrupção" era uma coisa muito forte.

Eu, nessa época, nem achava nada, mas ouvia os mais velhos comentarem e eles achavam isso. O exército, naquele tempo, parece que tinha uma respeitabilidade muito grande, a instituição Forças Armadas tinha uma respeitabilidade na sociedade. Então, o contraditório era que meu irmão Frei Chico, já era politizado, já era militante do Sindicato de São Paulo, já falava de golpe militar. E a gente não, na fábrica a gente ouvia o pessoal falar bem. Os velhinhos falavam: "Ah, graças a Deus, que o exército agora vai colocar as coisas no eixo, vai acabar com a corrupção, vai acabar com o comunismo, aquele negócio todo."

E, nesse mesmo tempo, eu comecei a ficar uma espécie de admirador do Arraes e do Brizola, porque eles eram os que resistiam, não é? Porque meu irmão também falava, não é? Então, a gente ia para a esquina, tinha um pai de um amigo meu que ficava explicando para a gente essas coisas de Arraes, essa coisa de Brizola, essa coisa dos militares. Você ia admirando as pessoas, mesmo sem conhecer as pessoas. A gente sabia que eram os dois governadores que tinham, de certa forma, resistido ao golpe militar de 64. Mas nesse tempo eu não queria saber de política. Meu negócio era ler o Diário da Noite porque tinha a coluna que falava de futebol e eu queria ler tudo que falava do Corinthians, era isso. Não tinha cabeça para outra coisa.

Início da Vida Sindical
Quando fui para o Sindicato era interessante porque eu não manjava muita coisa de política, mas meu irmão, Frei Chico, freqüentava a política, freqüentava o Sindicato. Acho que eles eram do Partidão, meio na clandestinidade, e meu irmão ficava falando: "Não, porque você precisa ir no Sindicato, você precisa ir na assembléia." Eu falava: "Quê, só tem ladrão!" Era assim. Isso foi em 68. Eu não tinha nenhuma ligação. Quando passava em São Paulo que eu via: ‘Procura-se terroristas’ eu achava que eles eram terroristas mesmo, achava. E o Frei Chico: "Não, Lula, porque esse pessoal está tentando derrubar o regime militar, são gente boa e tal." Mas eu tinha medo, eu ficava meio assustado.

Nessa época, eu só lia a Gazeta Esportiva. Aí, aconteceu a mudança na minha vida, porque o meu irmão, Frei Chico, foi convidado para ir para o Sindicato, na empresa que ele trabalhava já tinha um companheiro que era diretor de Sindicato. O Frei Chico falou: "Olha, é melhor levar o Lula que trabalha na Villares, é empresa grande e não tem diretor de Sindicato." Foram me convidar, eu não queria ir porque tinha medo, eu tinha medo.

Aí, eu fui conversar com o Afonso Monteiro. A primeira vez que eu tinha ido conversar com o Afonso Monteiro, eu fiquei muito puto da vida porque ele dava mais atenção à cachorrinha que tinha no Sindicato do que a mim, não é? No Sindicato tinha uma cachorrinha que era mascote, um carro passou por cima dela e o Afonso e o Mário Ladeira mandaram no veterinário e conseguiram consertar a cachorrinha, e ela virou mascote do Sindicato, vivia lá no prédio. Eu fui me queixar do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço porque na época eu não queria fazer opção e, aí, fiquei com má impressão do Afonso.

E, dessa vez, eu fui chamado para uma conversa com o Afonso, Mário Ladeira e Paulo Vidal, para me convencerem a ir para o Sindicato. Eu estava noivo na época. Aí, eu tinha muita dúvida, fui conversar com a minha noiva ela falou: "Lula, eu comentei na fábrica, bicho, o dono da fábrica falou para você não entrar nessa. Ser diretor de Sindicato, bicho, é virar comunista, os caras vão te prender, você nunca mais vai ter emprego. O negócio é o seguinte: eu não caso. Nós vamos ter que esperar, então, porque eu não vou casar." Aí, pronto, eu fui conversar com meu irmão Frei Chico, voltei a conversar com pessoal e o pessoal falou que não tinha nada disso e tal. Mas eu já estava mordido pela mosca azul de entrar no Sindicato. Eu nem tinha noção do que era, mas falei: "Acho que é uma coisa boa." Aí eu entrei. Tomei posse no dia 24 de abril de 1969, no dia 25 de maio eu casei. E convenci a mulher que era bobagem e tudo.

Aí começou a vida sindical, não é? As coisas aconteceram na minha vida – acho que na vida de muita gente que veio depois de mim – de forma muito inesperada, porque eu jamais imaginei ser presidente de Sindicato. Eu era tão inibido que, quando citavam meu nome numa assembléia, eu já ficava vermelho. Eu jamais me imaginei sendo presidente de Sindicato, e acho que o Meneguelli também jamais se imaginou presidente de Sindicato. Eu não sei qual foi a história que o Meneguelli contou pra vocês, mas o Meneguelli acho que jamais passou pela cabeça dele ser diretor do Sindicato, nem o Vicentinho. O Marinho talvez seja a melhor pessoa, porque ele veio de Comissão de Fábrica, ele já veio mais, sendo talhado. Eu jamais imaginei.

Diretoria do Sindicato
Primeiro Secretário
Em 72, fui convidado para ser primeiro secretário do Sindicato. Primeiro secretário naquela época cuidava de Previdência Social, de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, e eu fui fazer isso no Sindicato. Eu fui desligado, saí da produção e fui pro Sindicato cuidar disso, de fazer aposentadoria, de habite-se - quando você faz uma casa você tem que ter o habite-se - cuidava de seguro de acidente de trabalho, de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Esse passou a ser o meu trabalho. Aí, eu já tinha um advogado como meu assessor e um outro rapaz que trabalhava comigo. E aí foi que eu comecei mesmo a aprender, porque comecei a participar de viagens dentro do Brasil, comecei a participar de congressos, a participar de debates. Então, eu comecei a abrir minha cabeça pra uma série de coisas.

Meu irmão, na época dessa segunda diretoria da qual participei, era oposição. O Frei Chico era oposição. O pessoal da Ford tinha muita oposição e eles queriam que eu fizesse uma chapa de oposição, e eu falei: "Não. Eu vou continuar na chapa." Isso, já para o terceiro mandato. Aí, eu fiquei esses três anos, ganhei a simpatia dos meus companheiros da diretoria, tinha boa relação com todos eles.

Diretoria do Sindicato
Presidência do Sindicato
Eu fui para a presidência do Sindicato em 1975. Quem era o presidente era o Paulo Vidal, mas a fábrica do Paulo Vidal tinha mudado pra Mauá e a gente não aceitava que alguém tivesse que esquentar a carteira para ser diretor de Sindicato. O Paulo Vidal ficava insinuando, em toda reunião, que ele tinha que deixar o Sindicato, a diretoria falava: "Não, você não pode deixar, você não pode deixar, quem vai te substituir?" Então, ele tirava proveito disso. Ele estava sempre dizendo para a diretoria: "Vou ter que deixar." Ficava todo mundo um pouco receoso porque o Paulo Vidal fazia tudo no Sindicato, ele falava no começo, no meio e no fim. Aí quando foi um belo dia, nós falamos: "Olha você vai ter que deixar mesmo. Eu vou ser o presidente do Sindicato." Eu já tinha conversado com o Rubão, já tinha conversado com o Nelson. Ele não tinha como voltar atrás, aí, eu fui o presidente do Sindicato.

Nessa época que fui para a Executiva, os meus amigos eram: o Nelson Campanholo, o Anacleto, o Machadinho. O Anacleto era da Volkswagen, o Machadinho era da Mercedes-Benz, o Rubão, da Mercedes Benz, o Nelson Campanholo, da Karmann Ghia, o Antenor Biolcatti, que era tesoureiro, era da Ford, o Paulo Vidal era o presidente, e o Exupério, da Mercedes, era vice-presidente. As pessoas tinham uma certa desconfiança do Paulo e, por conta disso, ficou mais fácil fazer esse trabalho. Quando eu, então, disse que me tornava presidente, houve quase que uma concordância desses companheiros todos. E o Paulo não reagiu porque, como estava falando que precisava sair em todas as reuniões, ele não tinha como reagir.

Bem, conclusão: ele continuou como secretário-geral do Sindicato. Mas, na cabeça dele, o fato de eu ser presidente e ele ser secretário-geral era tudo o que ele queria, porque ele achava o seguinte: "Bom, o Lula nunca foi à uma assembléia..." porque eu nunca tinha falado numa assembléia, nada. Tinha até medo, tinha até vergonha. Foi muito difícil no começo porque, realmente, ele mandava. Acho que era que nem o Pitta e o Maluf. Porque ele era o secretário-geral, ele começava a falar na assembléia - secretário tem que ler o edital - ele lia o edital e já fazia o discurso, e já acabava a assembléia.

A primeira vez que fiz um discurso foi na posse. A diretoria se reuniu, discutiu o que eu deveria falar e o Maurício redigiu o discurso. Na hora de ler me deu uma tremedeira que eu quase não paro em pé. Parecia que eu estava no último estágio do mal-de-parkinson. Precisou o Marcelo Gato segurar a minha mão para eu poder conseguir ler. Tremia que nem vara-verde. Na primeira entrevista que eu fui dar, nessa mesma posse, quando o cara colocou o microfone da Cultura para eu falar, começou a tremer minha perna, eu fui obrigado a sentar para poder dar a entrevista, tal era o medo que eu tinha. Bom, depois, o que aconteceu? Acho que tem muita coisa de Deus, tem muita coisa de muitos amigos. Porque, muita coisa que eu imaginava que jamais seria, fui percebendo que a gente teria condições de ser. Que não era tão difícil, era só uma questão de oportunidade, não é? Aí, de repente, você fazer uma assembléia com 2 mil trabalhadores, ter que abrir a assembléia, ter que falar, ter que enfrentar oposição. Então, você vai aprendendo.

Eu lembro que um dia, em 73, eu me preparei para fazer um discurso. A gente estava inaugurando um curso de Madureza no Sindicato. E eu passei o sábado nervoso, o domingo, na sexta-feira - até com dor de barriga - tentando preparar alguma coisinha para falar, tudo. Preparei e, quando eu chego no domingo de manhã, o Paulo Vidal vai ler o edital e faz o discurso que eu tinha que fazer. Quando me deu a palavra, eu não sabia mais o que falar. Aí, o que eu falei nisso? "Olha, o Paulo já falou tudo, está encerrada a assembléia". E depois, quando eu vim para a presidência, durante quase que um ano, ele tentou fazer esse papel. Ele era o mais esperto de todos, era o melhor orador de todos, né? Então, ele quase que fazia esse papel mesmo, de ser o secretário-geral que mandava no Sindicato, que falava. Até que um dia, sabe, a gente rompeu.

O meu rompimento com o Paulo Vidal foi em um episódio da Ford. A Ford tinha feito uma proposta de demitir 400 e incluiu duas coisas na proposta: tinha um plano médico, e tinha um outro assunto, que eu acho que era redução da jornada de trabalho, com redução de salário. E a Ford queria que nós fizéssemos a assembléia para votar o assunto dentro da fábrica. Eu fui para São Paulo e disse para o Estadão que era contra fazer a assembléia dentro da fábrica. Quando eu cheguei em São Bernardo, o Paulo Vidal tinha dado uma entrevista para o Diário do Grande ABC dizendo que iria fazer a assembléia lá dentro. Então, tinha a minha posição de presidente contra, e a dele, de secretário-geral, favorável. Aí, eu reuni minha diretoria e proibi qualquer pessoa de falar para a imprensa, a não ser eu, sabe. Baixei uma medida provisória. Se não fizesse isso, não tinha como sobreviver. Aí, bom : "O Paulo Vidal não fala mais, quem fala é o Lula, se o Lula não falar é o Rubão e, se o Rubão não falar, aí é o Paulo Vidal. Mas vamos respeitar a hierarquia".

Mas, nesse ano de 75, que eu fui candidato a presidente, tem uma coisa interessante: eu tentei convencer a oposição de que eles não deveriam fazer chapa. Os principais líderes da oposição eram meus amigos, eles não acreditavam que o Paulo Vidal fosse passar a presidência para mim. Eu falava: "Vai passar, não tem como." Eles não acreditaram, fizeram a chapa de oposição. E é ruim você derrotar companheiros, não é? E, aí, eu ganhei as eleições e desmontou a oposição. Eu tinha uma relação com a oposição que acho que nunca houve. Não era uma relação promíscua, era uma relação de companheiros, todos eram tratados em igualdade condições, mas nós tínhamos uma linha dura. Qual era a linha dura? O que fosse decidido no comando de greve era lei e o que fosse decido na diretoria era lei. As pessoas poderiam discordar até a assembléia, mas quando a assembléia aprovava, esse negócio do cara falar: "Eu não concordo." Não concordava, agora concorda. Porque senão, não tem democracia, porra!

Mas, aí, tem uma coisa importante, porque quando assumimos a presidência em 75, nós também mudamos a relação Sindicato/Categoria. Naquele tempo, o Sindicato ía na porta da fábrica, convocava a assembléia. Se o pessoal não fosse, o Sindicato falava: "Bom, convocamos e o pessoal não quis". Ficava por isso mesmo. Então, fizemos uma inversão, nós passamos a ir mais em porta de fábrica conversar com os trabalhadores. Qual foi a grande mudança que nós tivemos? Ao invés de ficar esperando os trabalhadores virem ao Sindicato, o Sindicato era que tinha que ir até os trabalhadores. E passamos a fortalecer e a dar força para os companheiros que eram diretores de base, que ficavam dentro da fábrica. Isso foi depois que eu virei presidente. Eu acho que teve duas coisas que nós fizemos: essa inversão, de você não esperar as pessoas virem no Sindicato, mas ir até ele, e a comunicação que nós começamos a fazer entre o Sindicato e a categoria: nós começamos a fazer história em quadrinhos, fazíamos uma espécie de um gibizinho para o trabalhador, que tem pouco hábito de leitura. Esse tipo de comunicação talvez falasse mais direto para ele do que os boletins que a gente fazia. Porque os boletins, raramente alguém lia.

Uma vez, eu fui na fábrica e queria saber por que, quando chegava um determinado momento, tinha tanto papelzinho no chão. Bem, a pessoa que lia, normalmente jogava fora quando terminava de ler. Outros que não liam jogavam fora com medo de entrar com o boletim para dentro da fábrica. E o nosso material de comunicação era equivocado porque se queria convocar para uma assembléia num determinado dia, a gente falava quinhentos "considerandos" e colocava em último lugar: "assembléia dia tal, em tal lugar". Então, a gente estava contribuindo para que o trabalhador não soubesse a coisa principal que a gente queria fazer, que era a assembléia, porque, ao invés de colocar a assembléia na frente para ser a primeira coisa que ele lesse, colocava por último. Então, nós fizemos algumas mudanças e começamos a trabalhar muito com símbolos, como o João Ferrador, uma figura criada pelo Antônio Carlos Félix Nunes. O boneco é do Laerte, mas quem escrevia muito era o Nunes. Eu acho que isso contribuiu muito para mudar a imagem da categoria.

Campanha Salarial de 77
A campanha salarial de 77 foi aquela dos 34,1%. Era campanha de reposição salarial. O Paulo Vidal era contra fazer aquela campanha, nós é que teimamos em fazer aquela campanha, já tinha uma efervescência muito grande na categoria, foi uma campanha muito forte. Ou seja, você tinha uma parte da categoria que já estava querendo cortar as amarras. Então, foi uma campanha muito forte, que terminou em agosto de 77, terminou num clima muito bom. A gente entrou na Justiça para ver se ganhava, porque a gente lutou por uma reposição, que a gente tinha perdido, não é? O Delfim Neto tinha falsificado os índices de inflação.

Essa foi uma campanha maravilhosa que não terminou em nada, porque a gente entrou na justiça e não ganhamos. Mas essa campanha foi, na verdade, o que deu início para mim em 1978. Primeiro, porque a categoria saiu de uma campanha boa, foi uma bela campanha. A campanha da reposição salarial foi uma campanha de muita denúncia. Tinha surgido muita militância no meio da categoria. Daquela campanha ficou muita gente organizada na Volkswagen, na Scania, na Mercedes, na Ford. O saldo foi muito positivo.

Nessa época, entre a campanha da reposição salarial de 77 e as greves de 78, houve a campanha pela redemocratização. O Petrônio Portella era o ministro da Justiça e ele era o interlocutor do Geisel para a sociedade civil. Então, ele estava chamando as pessoas, para conversar sobre a redemocratização do país e eu fui chamado. E eu fui a Brasília, ao Petrônio Portella, levei um documento.

Nesse período já tinha empresários também lutando por democracia. Já tinha, aqui em São Paulo, os nomes mais conhecidos, Bardella, Mindlin, o Francinni, o Ênio Arcock. Era um momento, de 75 a 77, em que já tinha uma movimentação. E, para a gente conversar com o Petrônio Portella, era uma coisa complicada, porque tinha uma oposição na categoria que achava que isso era rendição. E nós achávamos que não, que deveríamos fazer parte dessa discussão porque a democracia interessava para todo mundo.

Na categoria, tinha um pessoal mais organizado ideologicamente. Tinha uma parte de companheiros ligada à Igreja, e tinha alguns outros companheiros ligados a algumas organizações, a AP, algumas organizações que eu nem conhecia. O Alemãozinho, por exemplo, era de alguma organização, o Osmarzinho era de outra, o Wagner era do Partidão, então, tinha essas coisas assim. Eles não se identificavam e a gente também não sabia. Tinha uma oposição em toda assembléia, e o pessoal tinha muito material apócrifo na categoria.

Essa época de 77 tem uma característica: já estava começando a ficar uma coisa mais nervosa, do ponto de vista político, a comemoração do 1º de Maio. Já começou a ter prisão de companheiros e o Sindicato Operário já passou a fazer mais debates. Eu lembro que em 1977 a gente fez um ciclo de debates, com vários conferencistas, sobre o 1º de Maio. E ia bastante gente assistir.

Greves
Greve de 78
Em 78, o que a gente queria provar para a categoria? A gente queria provar que, ou a gente fazia alguma coisa diferente ou, se a gente continuasse fazendo as mesmas coisas, o que aconteceria? O presidente da República decretava um percentual de reajuste de cada mês. Todo mês o Geisel decretava reajuste para as categorias, por exemplo, as que têm data-base em abril: tantos %. Então, a gente queria mostrar para os trabalhadores: "Olha, se a gente fizer assembléia com 50 mil pessoas ou fizer com um, tem o mesmo sentido. Por que? Porque é o presidente que decreta. Então, nós vamos provar isso. Nós vamos fazer uma campanha onde não vai ter pauta de reivindicação". E não fizemos pauta de reivindicação. E os trabalhadores ficavam apavorados porque eles achavam que iam perder. Aí, quando chega no dia 1º de Maio o Geisel decreta: "Vai vir tantos % de reajuste". Aí, nós começamos a ir em porta de fábrica e dizer: "Olha, a gente falou que era isso aí. Agora, se vocês quiserem um pouco mais, tem que fazer um pouco mais". E aí, aconteceu. Nós tínhamos dois bons diretores na Scania: o Gilson, que hoje é prefeito de Diadema, e o Severino, que era o secretário-geral do Sindicato. Eles tinham um trabalho muito sério na Scania.

Eles começaram a discutir na sexta-feira. Naquele tempo, a gente recebia dia 10 e saiu o pagamento na sexta-feira. Saiu o pagamento na sexta-feira e os trabalhadores não ficaram contentes com o que veio. Aí, na segunda-feira de manhã, entraram em greve. Mas nós não fomos pegos de surpresa. O Gilson não foi pego de surpresa. Nós tínhamos feito uma reunião no sábado e o Gilson tinha dito que a Scania ía parar. A gente não acreditava muito, mas o Gilson disse que a Scania ía parar porque tinha clima para greve. E aí, nós fomos informados: "Parou a Scania". Depois, parou a ferramentaria da Mercedes, aí, parou a Ford.

O ano de 1978 foi fantástico, teve greve o ano inteiro. Todo dia parava uma fábrica, toda semana parava outra fábrica. E nessa greve da Scania nós fomos enganados porque fizemos um acordo com a Scania. Nós fomos para uma assembléia dentro da Scania. Colocamos o acordo em votação, todos os trabalhadores aceitaram a proposta e nós fomos homologar na Delegacia Regional do Trabalho em São Paulo. Quando nós chegamos na delegacia estava a Ford, a Mercedes e a Volkswagen mais o Mário Garnero, que era o presidente do Sindicato da Indústria Automobilística, mais o cara da Fiesp, que disseram para o tal Lunerdal da Scania: "Não tem acordo. Você não pode manter esse acordo porque nossas empresas não querem". Aí, o desgraçado pegou e voltou atrás. Veja: você faz uma assembléia com os empresários presentes, aprova um acordo, vem para São Paulo para homologar, eu jamais imaginei que eles fossem voltar atrás.

Eu acho que do ponto de vista da cabeça sueca até que eles queriam cumprir o acordo, mas a pressão das empresas foi muito grande. Ele voltou atrás. Bem, o que aconteceu? Quando o pessoal da Scania ficou sabendo que eles voltaram atrás, o pessoal achou que nós tínhamos traído eles. E a empresa montou um tal esquema de repressão por setor que, no dia seguinte, o pessoal não conseguiu parar outra vez. E aí, ficou o Sindicato como traidor. Só fomos recuperar o prestígio quinze dias depois quando a gente conseguiu fazer um acordo para toda a categoria de 15%. E 20% para a Scania. Acho que foi um bom acordo para aquele momento, o pessoal da Scania ficou satisfeito e esse acordo foi estendido para todas as empresas automobilísticas de São Bernardo.

Nessa greve, eu fiquei imaginando que ia ter repressão, porque a história de greve é repressão. O que aconteceu? Aconteceu um fato fantástico. Dois dias depois da greve, o Luís Eulálio Bueno Vidigal procura o Comandante do 2º Exército, que era o General Dilermando Monteiro, para dizer para ele que era preciso acabar com a greve. Então, ele vai lá, vai vender o ponto de vista dele, empresário, com relação às greves. Quando eu vi aquilo, qual era a primeira reação que tinha um dirigente sindical naquela época? "Bem, vamos correr, né, pô! Porque o Exército vai acabar com essa greve". Sabe o que eu fiz? Uma coisa quase que por instinto: eu peguei o telefone, liguei para o Comandante do 2º Exército. Eu falei: "General, eu estou vendo nos jornais que o Sr. conversou, por quase três horas, com o presidente da Fiesp. O Sr. já ouviu o lado deles. Agora, eu quero marcar uma audiência com o Sr. , quero colocar o meu lado". E ele me convidou. Aí, eu fui lá, falei acho que umas três horas com ele, mostrei qual era a situação, e ele me garantiu: "Lula, enquanto eu for General aqui, eu te garanto que o meu Exército não vai bater em trabalhador". Sabe, aquilo me deu ânimo.

Aí, quando aconteceram as greves, não tinha mais oposição. Porque muitos dos que eram oposição não tinham conseguido parar a fábrica deles. E já tinha uma turma na categoria, que não era politizada, que não estava em nenhuma organização, que era mais porreta do que muitos que estavam organizados. Já tinha linha de frente, que veio crescendo de 75 até 78 e que, portanto, já estava num nível de politização razoável, né? Então, a oposição começou a desaparecer e nós ficamos quase que unanimidade. Aí, era todo mundo para o meu lado.

Greves
Greve de 79
Aconteceu uma coisa em 1979, eu não sei se foi no começo do ano, ou no final do ano de 78 que eu fui ver um jogo no Morumbi: Corinthians e Guarani. E estava eu e um grupo de metalúrgicos e aquele estádio estava lotado e eu dizia assim: "O dia que a gente conseguir colocar tanta gente assim numa assembléia nós viramos esse país de ponta-cabeça". E eu lembro que em março de 79 nós convocamos uma assembléia no Estádio da Vila Euclides. Quando eu chego lá, a primeira visão que eu tive foi do Morumbi. Estava entupido de gente. E a gente não tinha a dimensão, a gente não tinha nem aparelho de som. Se você pegar uma foto antiga, vai perceber que eu estou falando com uma corneta. Eu tinha que gritar para as pessoas irem passando para trás. E ninguém estava querendo nada. Aquilo era uma guerra, estava todo mundo ali pouco ligando para discurso. O pessoal estava querendo participar.

A gente deu uma trégua de 45 dias, nesses 45 dias nós preparamos a categoria para uma guerra. Uma verdadeira guerra, só que quando chegou na época da guerra a empresa fez um acordo. Ela propôs 15%. Ela propôs pagar os dias nas férias, pagavam os dias que estavam parados. Não descontaram o Fundo de Garantia, o que foi uma baita duma vitória. Mas, como a gente tinha preparado os trabalhadores para uma guerra, eles não queriam paz, eles queriam guerra! E aí, nós tivemos que propor o fim desta greve. Foi o dia mais triste da minha vida porque os trabalhadores não queriam.

As assembléias eram no Estádio da Vila Euclides. Aquilo era o caldeirão do diabo. Tudo era ali. E eu não gostava de fazer assembléia de tarde porque o pessoal chegava com o saco cheio. Você vai na assembléia de tarde, o cara começa a beber depois das dez, porra! E o cara bêbado fica mais autêntico, fica mais nervoso. Então, fazia sempre de manhã que é para evitar nego chegar alcoolizado na assembléia. Mas nesse dia, eu tinha criado o Comando de Greve e tinha Meneguelli, Guiba, Bargas, todo mundo fazia parte desse comando, que eu mandei cedo para o Estádio, que era para sentir o termômetro, que era para ver a temperatura da categoria e tentar pegar aqueles mais radicais e tentar mostrar para eles que o acordo era bom. Quando eu cheguei no Estádio da Vila Euclides estava todo mundo com medo: "Não. Ninguém quer parar a greve". Então, foi um clima muito nervoso. O Alemãozinho foi falar para acabar com a greve. Foi vaiado. O Maurício foi apresentar a proposta, foi vaiado.

Aí, quando chegou minha vez de falar eu já tinha um comunicado que os trabalhadores não aceitavam a proposta. Já tinha visto dois oradores falarem na minha frente e sabia que os trabalhadores não queriam voltar ao trabalho. Então, o que eu fiz? Como eu achava que o acordo era bom e a gente não podia jogar fora aquele acordo, eu, ao invés de propor a aceitação do acordo, pedi um voto de confiança para mim e coloquei em votação o voto de confiança. Aí, a categoria me deu o voto de confiança. Me deu voto de confiança, mas ficou puta da vida. Nego achou que eu era traidor, nego achou que eu tinha me vendido. Foi muito difícil o final de 79, porque o clima dentro da fábrica era um clima de traição, era um negócio muito duro. Não tinha reunião da diretoria que eu fizesse com que o pessoal não chorasse. Chorava.

Nessa campanha de 79, falei uma frase que saiu na emoção do momento: "que ninguém, nunca mais, ouse duvidar da capacidade de luta dos trabalhadores". Foi, inclusive, na Assembléia do final da greve. Porque eu achava que a gente tinha dado a lição nos empresários e no governo.

Greves
Proposta de trégua na greve de 79
A proposta de trégua na greve de 79 foi feita numa mesa de negociação. Foi feita pelos empresários. Porque era preciso ganhar um tempo para a gente negociar. Eu acho que foi importante a trégua e acho que foi importante a negociação. Analisando tudo o que aconteceu, eu acho que o acordo de 79 foi um dos bons acordos que nós fizemos no movimento sindical brasileiro.

Em 79 houve também umas reuniões na chácara do Murilo Macedo, com o Lins.

Eu, na verdade, já tinha sido traído pelo Lins e pelo Marcílio, né? Eles estavam fazendo reuniões. Nós íamos negociar com o ministro lá, na casa dele. Afinal de contas, ele era ministro, ele marcava as reuniões onde bem entendia, e nós fomos duas vezes nos reunir na chácara dele.

Nessa época houve uma sacanagem. Teve uma matéria em que saiu o João Lins e o Marcílio saindo da chácara do Murilo. Foi sacanagem, porque a gente não aceitou a proposta de acordo e, um belo dia, eu estou em casa, toca o telefone, num sábado às 18h. Era um jornalista do Jornal do Brasil dizendo que eu estava sendo traído pelo Lins e pelo Marcílio, porque estavam fazendo acordo com o Murilo Macedo. Eu não acreditei, ele falou: "Põe, então, na Bandeirantes". Aí, eu coloquei na Bandeirantes. Estava o repórter na porta da chácara do Murilo Macedo saindo com o Marcílio e o João Lins, que estavam negociando sem a minha presença, né? Na verdade, acho que foram me vender lá, mas também não tinha nenhuma importância porque quem tinha peso, mesmo, eram os metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Nós tínhamos maior peso porque éramos a maior concentração, porque era lá que tinha as maiores indústrias. Então, não tinha maiores problemas, não é? Eles terminaram enfraquecendo a luta deles e nós continuamos com uma greve muito forte.

Depois, alguém, não sei se foi o Teobaldo De Nigris disse para a Folha de S. Paulo que entrou em mesa de negociação a retomada do Sindicato, mas eu jamais negociaria a volta do Sindicato, a volta ao trabalho. Quando estava preso, houve propostas para que eu pedisse para o pessoal que voltasse ao trabalho, que eu era liberado, eu não fiz, por que eu iria fazer em liberdade? Então, isso já faz parte do folclore, quando acontece uma coisa dessas o pessoal já começa a inventar o diz-que-diz.

Mas uma coisa não é folclore: a história da greve começar no dia da posse do Figueiredo. Aí, era estratégia mesmo. Era tática. Por que? Porque como a gente tinha feito greve no governo do Geisel e não tinha acontecido nada, o ministro do Trabalho era o Arnaldo da Costa Prietto e o presidente era o Geisel, e não tinha acontecido nada, a gente fez a greve no final do governo Geisel, alguns dias antes da posse do novo governo. A gente queria começar a greve num governo que não tinha reprimido a primeira, e entrar no segundo governo, aí, o ministro já era o Murilo Macedo, né? E eu sei é que foi uma coisa interessante porque moralmente a tática estava correta. Politicamente estava correta. A gente começou a greve no final do governo Geisel e ía entrar no governo do Figueiredo. Só que eles não agiram do mesmo jeito que agiu o governo Geisel. Ou seja, houve um endurecimento. Eu acho até que o Figueiredo tinha menos autoridade moral junto aos militares do que tinha o Geisel, né? Tanto é que o Caveirinha não obedecia as orientações e mandava os militares, mandava o General Braga lá para o Sindicato para encher o saco. Mas, então, foi isso.

A gente nunca começava a greve na segunda-feira porque sempre determinava que a segunda-feira era o dia em que os dirigentes iriam conversar com os trabalhadores dentro da fábrica. Então, eu decretava greve à partir da meia-noite. A sensação que você tem: você decreta uma greve, tem certeza que ela vai acontecer, mas não tem certeza absoluta, ela pode não acontecer. Então, quando dava meia-noite começavam os telefonemas: "Parou a Mercedes". "Parou a Volkswagen". "Parou a Ford". "Parou a Metagal". "Parou a Brastemp". "Parou não sei quem". "Parou não sei quem". "E o pessoal está indo para o Sindicato". E aí, era multidão de gente que chegava a noite inteira. A gente fazia assembléia da meia-noite ao meio-dia do dia seguinte, ou seja, ia chegando, enchia o salão do Sindicato, fazia assembléia. Liberava, entrava outros, enchia o Sindicato.

A gente dividia a assembléia em três períodos: o Maurício falava da pauta de reivindicação, e eu fechava a assembléia. Isso era o dia inteiro. Começava à meia-noite e ía até o meio-dia do dia seguinte. Iam parando novas fábricas e a gente ía fazendo a mesma coisa. Eu acho que esse momento, tal como aconteceu, dificilmente vai se repetir. Eu acho que não acontece mais, esse momento histórico acho que foi o mais forte. Pode até ter outros que tenham maiores conquistas, podem vir a ter, mas viver aquele momento... era uma coisa muito forte. O regime militar estava já sem fôlego, havia uma unanimidade contra o regime militar e a gente queria derrotá-lo. Então, juntava a vontade de reivindicar com a vontade de derrubar o regime militar. E também porque a gente era muito inocente. Eu achava que os empresários não agüentavam com cinco horas de greve, com duas horas de greve. Depois que eu fui perceber que eles agüentavam dias, agüentavam meses, se tiver a ajuda do Estado agüentam até anos. Agora, isso, só foi possível aprendendo, só foi possível fazendo, porque senão a gente não aprenderia também.

Greves
Primeira Intervenção no Sindicato - 1979
Em 79 houve a primeira intervenção no Sindicato. Foi a intervenção que durou 50 e poucos dias. E, quando houve a intervenção, eu saí da minha casa e fui para o Rudge Ramos, para a casa onde morava a sogra da minha mulher. No dia seguinte houve uma assembléia no Paço Municipal e eu não fui na assembléia. Na assembléia teve muitos oradores, o Djalma foi falar em nome da diretoria. Eu não tinha ido à assembléia porque a gente achou que não era conveniente ir, eu tinha acabado de ser cassado. Aliás, a gente achou que era importante mandar um diretor, foi só o Djalma em nome da diretoria. Porque a gente não sabia o que podia acontecer. Qual foi uma das discussões que nós fizemos? Vai todo mundo na assembléia, se prender, prende todo mundo e acabou. Então, vai o Djalma na assembléia e não foi mais nenhum diretor.

Eu, no mesmo período, estava dando uma entrevista coletiva numa igreja, no Riacho Grande. Nesse dia de noite foi lá em casa a Lélia Abramo com um grupo de dirigentes sindicais: o Paulo Skcromov, Arnaldo Gonçalves, acho que o Jacó Bittar. Foram dizer para mim que eu não podia permitir que a assembléia ficasse sem a minha participação. E me fizeram críticas porque eu não tinha ido na assembléia. E disseram que eu tinha que assumir. Um ou dois dias depois, teve uma assembléia na Igreja da Matriz e eu fui. Aí, retomamos o Comando da Greve. Aí, passados alguns dias, acabaram com a intervenção.

Em 79, antes da intervenção, o Fernando Henrique Cardoso foi no Sindicato, ele e o Fernando de Morais. Nós fomos jantar num restaurante e o Fernando Henrique Cardoso fez uma análise da conjuntura mostrando que não tinha clima para uma intervenção no Sindicato. Que era um absurdo imaginar que ia ter intervenção no Sindicato, que o pai dele era general e que ele conhecia como é que funcionava e tal. Ele falou isso para mim umas 2h. Eu cheguei no Sindicato, coloquei uma almofada no chão, deitei. Quando foi 4h eu acordo com o pessoal gritando: "A polícia tomou conta do Sindicato". Aí, cheguei, abri a janela, tinha acho que uns 300 policiais, carro de bombeiro, cachorro, né? E aí, tinha a possibilidade de um confronto entre os trabalhadores que estavam dentro do Sindicato e a polícia. E eu, então, fui lá falar para o pessoal sair do Sindicato. E no dia seguinte, quando foi 8h, saí do Sindicato. É só para registrarmos o erro da avaliação de conjuntura do Fernando Henrique Cardoso, o nosso grande cientista social.

Mas a intervenção no Sindicato foi um grande aprendizado para nós: fazer sindicalismo sem o Sindicato. Foi a grande descoberta que eu tive na vida, ou seja, que o Sindicato é uma máquina mas, se os trabalhadores estiverem organizados, você consegue fazer sindicalismo sem o prédio. Ou seja, aquela máquina burocrática funciona sozinha para outras coisas. O papel da diretoria é fazer política. E foi em 79 que nós descobrimos isso. Ou seja, nós ficamos sem Sindicato, ficamos sem gráfica, ficamos sem carro e, mesmo assim, a gente continuou com a mesma respeitabilidade e com a mesma força que tinha na categoria. A gente rodava materialzinho de noite, numa maquininha, num mimeógrafo. Trabalhávamos a noite inteira para no dia seguinte ir distribuir em porta de fábrica. Foi importante porque a gente descobriu quem era o diretor, quem era sindicalista de verdade, quem era o diretor que era sindicalista só porque tinha carro, gasolina e outras coisas mais. Também, é um processo de depuração importante. E nós sobrevivemos, criamos o fundo de greve, que teve um papel muito importante, não apenas na distribuição de alimento, mas o papel de ser uma espécie de coisa aglutinadora dos remanescentes daquela luta.

Essa greve também ajudou a fazer alianças entre os vários movimentos: movimento sindical, movimento popular, igreja etc. Eu acho que a coisa mais forte que aconteceu foi essa integração. De repente, você conseguia distribuir 100 mil panfletos num dia, nas vilas, utilizando o potencial de organização que tinha o movimento popular, as comunidades de base da Igreja Católica. E a gente percebeu que o Sindicato era só um prédio, que não atrapalhava a nossa luta. Sabe, se você não tinha a sede, tinha a porta da igreja, se você não tinha a porta da igreja, tinha o estádio, se não tinha a porta da igreja, tinha o salão da igreja. Então, foram descobertas importantes para todo o mundo. Acho que melhorou a qualidade de compreensão da luta que o pessoal fazia no Sindicato e, paralelo a isso, o crescimento da categoria.

Também nessa época, entre 79 e 80, eu tive muitos contatos. Eu tive contato com o Adolfo Soares que era Primeiro Ministro espanhol, depois tive com o Helmut Schimidt que era Primeiro Ministro da Alemanha. Depois eu tive com Ted Kennedy, depois eu tive com vários governadores de Estado, com ministro, eu tinha estado com o Geisel na Ford, Delfim Netto, esse João Paulo... todos que eram autoridade. Porque também, a verdade é que a gente tinha passado a ser referência para um série de coisas. A gente tinha passado. Então, a gente muitas vezes era convidado para reunião, para debate, e essas coisas. No movimento sindical eu já tinha conhecido figuras importantes na minha vida: o Olívio Dutra, que veio de 75, o João Paulo Pires Vasconcelos, que era um dirigente sindical muito atuante. Depois tinha o Sindicato dos Jornalistas, que teve um papel importante na Greve de 78. Tinha o Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais, tinha o Sindicato dos Bancários de Minas Gerais. Aqui, já tinham os companheiros da oposição ganho o Sindicato dos Metalúrgicos e dos Bancários... Então, já estava se formando um nova turma de dirigentes sindicais. E a maioria veio da mesma data que eu: de 1975, do Sindicato.

Essas autoridades todas que eu conheci, nenhuma foi marcante porque eles eram tão insignificantes que acabaram quando acabou o regime. Eles não sobreviveram, quase ninguém conseguiu sobreviver. Quem que é o Arnaldo da Costa Prietto hoje? Quem que é um Murilo Macedo, quem é o Paulo Egídio Martins? As alternativas ao regime militar foram aqueles que saíram do meio dele e brigaram com ele, que foi o caso do Maluf. Mas, o restante, desapareceu tudo. O Paulo Egídio Martins foi candidato a deputado federal em São Paulo, não se elegeu. Você imagina, um governador do Estado ser candidato a deputado federal e não se eleger. Significa mediocridade pura, né? O Delfim Neto foi um que ficou como deputado. O Delfim Neto tem mais peso que um governador de Estado, não é? Ele mandou durante muitos anos na economia deste país.

Greves
Greve de 80
Quando chegamos na Greve de 80 nós sofremos a intervenção logo, 17 dias depois. O governo imaginava que prendendo a gente a greve ia acabar. E foi pura ilusão. Ele prendeu e a greve cresceu. Por quê? Porque o pessoal estava tão organizado em bairros que a gente conseguia conversar com a categoria mesmo não indo na porta da fábrica porque a gente não trabalhava.

Foi em 80 que surgiu a frase "dessa vez, a onça vai beber água". É um ditado popular. Era uma forma de dizer que dessa vez iríamos até as últimas conseqüências. E por conta dessa frase, é importante lembrar, eu fui condenado a três anos e meio de cadeia no Acre, no processo do Chico Mendes. Fui participar de uma assembléia em Brasiléia e tinham matado um companheiro do Sindicato de lá, o Wilson Pinheiro de Souza. Eu fui um dia de noite lá e estava um clima pesado, muita gente armada, muita polícia, um clima muito tenso. E, aí, eu fui falar e disse o seguinte: "Chega de trabalhador chorar a morte de companheiro. Está chegando a hora da onça beber água". Bem, eu falei isso e depois fui no bar tomar um conhaque. A Polícia Federal tem até gravada as conversas no bar tomando conhaque. Eu voltei para São Paulo e, quando cheguei, recebi a notícia de que os trabalhadores tinham matado o suposto assassino do Wilson Pinheiro de Souza.

E aí, a polícia cismou que a frase: "Chegou a hora da onça beber água", era o recado, a senha para o pessoal matar. Aí, eu fui julgado em Manaus. Quando chegou em Manaus, o juiz falou assim: "Olhe, esse Sr. Luiz Inácio tem que ser condenado. Não porque ele usa metralhadora, revólver ou canhão. É porque ele tem uma língua muito ferina. E ele tem que ser condenado por conta disso". Aí, me condenou por causa da língua. Mas eu fui absolvido, acho que pelo Superior Tribunal Militar, lá em Brasília. E essa frase, a gente utilizava como forma de motivar, de mexer com o brio do pessoal!

Nessa greve de 80, a Diretoria do Sindicato estava muito magoada com o tratamento que a categoria tinha dado para ela na Greve de 79. Porque, embora para nós tivesse sido um bom acordo, a verdade é que a categoria, como tinha sido preparada para uma guerra, queria mais. Então, houve uma certa incompreensão, até muitas vezes criando grandes dificuldades para a gente fazer trabalho sindical de maio de 79 até janeiro de 80. Quando chega em 80, a primeira assembléia que nós fomos fazer na porta de fábrica – nós fomos na Ford – eu lembro que tinha um jornalista chamado Sérgio Motta que, nesse momento, parece que estava no Jornal do Brasil. Ele escreveu uma manchete que dizia assim: "Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores da Ford". Por quê? Porque na Ford a gente fazia assembléia e os trabalhadores não paravam. Eles não ouviam a gente. Aí, nós voltamos para o Sindicato, fizemos a assembléia e resolvemos 80 em questão de honra. Aí, fomos para a porta de fábrica e trabalha e trabalha. E fala, e fala, e fala, e fala.

Tinha político que falava que nós nunca mais voltaríamos a ser os mesmos, que nunca mais voltaríamos a fazer greve, que tínhamos acabado no Sindicato e tal. E eis que em 80 a gente consegue fazer uma greve muito, mas muito maior que a Greve de 79. E para mim tinha uma coisa muito clara: a Greve de 80, eu não terminaria por nada desse mundo. Eu queria levar os trabalhadores a perceberem o tamanho da sua força. Porque uma coisa é o cara dizer para você: "É, porque eu agüento 100 dias, eu agüento 80 dias, eu agüento 90, eu agüento 50". Bobagem, porque o cara depende do salário, depende de pagar aluguel, depende de pagar a conta de luz. Vai chegando um certo momento em que ele começa a perceber. E a gente não deixou eles perceberem em 79, então, passamos a ser culpados. Por isso, eu falei: "Bom, eles vão se descobrir, ou seja, eles vão saber o tamanho da nossa capacidade de resistência".

Eu estava preso, ali. O Teotônio Vilella foi na cadeia, o Almir Pazzianoto, meu irmão Frei Chico. Os advogados nossos: "Olha, você pode acabar com a greve". "Não tem segredo, essa greve não acaba da minha boca". E foi interessante porque foi a maior missão política, coletiva, que nós tivemos. Porque em 79 nós fizemos a coisa certa e perdemos politicamente. Em 80 nós levamos a greve até as últimas conseqüências, não ganhamos nenhum vintém, não ganhamos um centavo. Perdemos muito, entretanto, do ponto de vista político, nós nunca ganhamos tanto, porque, depois da greve, veio a consolidação do PT enquanto partido político. E, depois da greve, a peãozada descobriu que em 79 a gente estava certo. Quando eu saí da cadeia – eu fui preso no dia 17 de abril e fiquei 31 dias preso – a quantidade de trabalhadores que eu encontrava, quando eu chegava num bar, numa padaria, os caras vinham me abraçar dizendo: "Lula, você estava certo em 79, nós erramos, sabe, nós queríamos pedir desculpas. Nós xingamos vocês, mas vocês estavam certo". Porque, realmente, foi a grande lição, eles perceberam que não tem essa coisa de uma greve até a morte. Greve é uma coisa que você faz em função de uma circunstância e ela pode durar um dia, uma hora, e às vezes, em uma hora você pode ganhar mais que em uma semana. Eu acho que nós tivemos essa grande lição, mas eu ali não acabava com a greve, mas de jeito nenhum.

Greves
Período pós greve de 80
O período depois da greve de 80 foi complicado porque você não tem estrutura, você não tem advogado, né? Nesse aspecto eu acho que a Igreja é que contribuiu muito porque os advogados da Igreja é que terminavam sustentando a nossa defesa. E aí, é um período de incerteza. A nossa sorte é que a gente estava num período de ascensão enquanto luta popular, enquanto luta sindical. Então, a solidariedade vinha crescendo independente da gente estar à frente do Sindicato. Mas eu, por exemplo, fui condenado no Acre, fui condenado em São Paulo. Eu não podia sair do Brasil sem autorização da Polícia Federal, né? Toda vez que ia viajar tinha que pedir autorização.

Toda vez que eu ia viajar, chegava no computador do aeroporto estava meu nome: "proibido viajar". Ficava duas horas criando confusão para poder embarcar, para viajar. Mas, aí, também já tinha o nome público, já estava consolidado, né? E aí, também, já não podiam fazer mais nada comigo.

Sucessão no Sindicato
Acho que a gente tem que fazer justiça ao Meneguelli porque, de todas as pessoas que eu conheci, pelo que tinham representado antes e pelo que representaram depois, certamente, se a gente tivesse como medir o crescimento político, acho que o Meneguelli foi a pessoa que mais cresceu politicamente no Sindicato. Porque você tinha outros companheiros que já tinham uma formação política, que tinham o mapa da política, do Sindicato, do Brasil e do mundo na cabeça. O Meneguelli não tinha, né? Você pega a foto da posse dele, segurando aqui no abacaxi, ele era o próprio abacaxi. E, surpreendentemente, o Meneguelli teve uma desenvoltura, eu diria excepcional, foi um grande presidente daquele Sindicato, muito corajoso, muito companheiro. E tinha uma diretoria que era melhor qualificada do que a minha.

Então, eu acho que o Meneguelli foi essa grande surpresa, cresceu muito, virou um dirigente sindical muito importante. Veja: ele entrou no Sindicato em 81, nunca tinha feito um discurso e, em 83, já era presidente da CUT. Em dois anos ele já era uma figura nacional. O Meneguelli saiu de São Bernardo se tornar para uma figura nacional. Porque no fundo, quando eu digo que eu sou o resultado do crescimento da categoria, hoje eu não falo mais isso porque a minha categoria, hoje, são centenas de categorias, não são mais os metalúrgicos. Mas eu só cresci porque os metalúrgicos cresciam. Então a categoria era tão importante que qualquer um que assumisse cresceria. O nosso Sindicato também foi importante em 59, em 64, em 69, 79, independentemente de quem era o presidente. O nosso Sindicato era grande, porque a categoria era grande. Então, o Meneguelli teve esse papel extraordinário.

Bem eu tinha um comportamento que, até porque eu tinha sido vítima dele, eu aprendi. Quando eu assumi a presidência, o Paulo Vidal queria continuar presidente do Sindicato. Então, o meu cuidado era permitir que o Meneguelli dirigisse o Sindicato. Eu conversava muito com ele, que me ouvia muito, a gente mantinha uma relação de irmão e eu dava palpite quando era chamado. Se eu não fosse chamado eu não dava palpite, até porque eu não queria que houvesse disputa porque essas coisas acontecem mesmo. Eu sempre disse: "rei morto, rei posto". Você tem que ter isso na cabeça para poder fazer relação com os outros. Porque se você deixa um cargo e não percebe que tem alguém no teu lugar e que você precisa entender que aquela pessoa tem que ser respeitada no exercício daquele mandato, você começa a trombar e, aí, ao invés de coesão, vira animosidade.

Então, eu confesso que aprendi essa lição, eu não tenho nenhuma queixa da minha relação, todos os presidentes que me sucederam sempre foram meus companheiros, nós sempre conversamos muito, sempre me ouviram nas coisas mais importantes que tinham que deliberar. E eu funcionava no Sindicato, depois que eu deixei a presidência, como se fosse uma espécie de levanta moral, não é? Toda vez que eles faziam uma greve, e que estava demorando para encontrar uma solução, e que a categoria estava caindo no desânimo, eu era chamado para ir na fábrica levantar a moral da tropa. Eu digo até hoje isso: como presidente do PT, eu talvez seja o único candidato que não tenha direito de lamber minhas feridas quando sou derrotado. "Lamber ferida" é um ditado muito utilizado em cachorro. O cachorro, quando perde uma briga, fica lambendo a ferida o tempo inteiro, até sarar. O Brizola uma vez utilizou essa frase, ele perdeu as eleições muito feio em 94 aí perguntaram o que ele estava fazendo e ele falou: "Estou lambendo as minhas feridas."

Então, nem o direito de lamber as feridas eu tenho. Não tive no Sindicato e não tenho agora, no PT. Porque eu acabo de perder uma eleição, sou obrigado a viajar o Brasil inteiro para levantar a moral da tropa, ou seja, a tropa não pode ficar com a moral baixa. Se o general baixa, obviamente que os coronéis e os soldados também baixam. E eu nunca deixei de cumprir esse papel no Sindicato. Obviamente que, hoje, eu vou menos ao Sindicato, mas no tempo do Meneguelli, depois no tempo do Vicentinho, eu ía muito, acho que era difícil um dia que eu não passasse no Sindicato, só quando eu estava viajando. E eu mantinha uma relação de amizade e eu não sei se tem alguém que tem bronca de mim, mas eu sempre tratei todos eles como se fossem filhos, não é?

Mas, nessa questão da sucessão, houve um episódio da Ford no qual eu não sei quem foi o engenheiro político que despertou no Meneguelli a idéia de que ele tinha que fazer alguma coisa sem a minha presença para se firmar como liderança. Porque eu nunca tive dúvida que o Meneguelli era o presidente do Sindicato, nunca quis competir com ele. Até porque ele era uma espécie de filho que eu tinha colocado lá dentro. Ele não pediu para ser, fui eu que fui atrás dele e coloquei ele lá dentro.

Mas eu sei que houve uma greve muito importante na Ford – a Ford sempre fez greves muito marcantes porque historicamente sempre foi uma empresa muito organizada, mesmo no tempo do Regime Militar, no tempo que ela se chamava Willys Overlannd do Brasil, que produzia o Gordini, o Simca. Bem, e eu sei que houve uma assembléia e eu fui chamado pelo Betão e pelo Bagaço, que eram duas lideranças importantes dentro da Ford. Quase duas horas da manhã, a gente estava no Sindicato aguardando o resultado da negociação e, aí, foi eu e o Djalma para lá. Chegamos lá, estava o Dops dentro da fábrica, porque tinha acontecido um negócio interessante nessa greve: os trabalhadores tinham prendido vários mensalistas dentro da Ford e não estavam deixando sair. E as negociações estavam sendo feitas dentro da Ford. Eu não sei se por orientação do Tuma, convenceram a diretoria do Sindicato a negociar fora. O tempo que a diretoria saiu, foi o tempo que a empresa utilizou para tirar o pessoal do escritório e conseguiram tirar. E, aí, fizeram um acordo.

Quando os meninos vieram propor o acordo na assembléia estava um clima muito tenso, foi por isso que o Betão e o Bagaço telefonaram para o Sindicato para eu ir e eu fui. Eu lembro que eram umas duas horas da manhã, fui eu e o Djalma, era uma assembléia muito pesada. E quando eu cheguei lá, não me chamaram para entrar na assembléia. Bom se não me chamaram, eu não ia na assembléia. Eu fiquei na porta da Ford e aliás, tinha um carro da polícia federal atrás de mim. Aí a assembléia terminou muito pesada.

Essa assembléia terminou com os companheiros da Ford fazendo o enterro do Meneguelli. Porque eu nem sei o acordo, mas o pessoal não gostou do acordo. E alguém tinha dito para o Meneguelli que não era para me chamar porque era o momento dele se firmar enquanto liderança. Eu não sei se foi isso que motivou não me chamarem, sei que a assembléia não tem a minha participação, não porque o acordo não fosse bom, até possivelmente o acordo fosse bom, mas politicamente não houve argumento suficiente para convencer os trabalhadores de que o acordo era bom. E me parece que essa greve é resultado de uma campanha organizada pelo companheiro Henfil.

Nessa época, o Osvaldo Bargas era secretário-geral do Sindicato e, numa conversa que ele teve com o Henfil, pediu para o Henfil bolar uma campanha diferente. E o Henfil bolou uma anti-campanha, não é? Então, por exemplo, de madrugada se soltava boletins em pontos de ônibus, cartazes, pequenos panfletos, na porta das fábricas, nas máquinas, dizendo assim: "Hora extra faz bem à saúde." "Eu gosto de trabalhar porque eu sou corno." Essas coisas assim, ou seja, era: "Comer mal faz bem à saúde." "Comer pouco é importante." "O patrão é bonzinho, os trabalhadores.." Então, criou um clima de guerra na categoria porque eles imaginavam que fossem os empresários que estivessem fazendo aquilo, né? Eu nunca concordei com a idéia de desativar isso mas um dia foi numa assembléia e desativou isso. E, foi uma certa frustração para a categoria, né? Porque o pessoal estava sentindo aquilo como se fosse uma provocação dos empresários. Quando eles ficaram sabendo que fomos nós mesmos que tínhamos feito, perdeu a graça. O Henfil concordava que tinha que desativar, tinha que falar quem era, a diretoria concordou. Eu não concordava porque achava que se tivesse que morrer, morresse sem dizer quem tinha bolado aquilo, porque pegou um clima muito forte. O Henfil produziu muito material para nós, produziu junto com o Laerte, possivelmente um dos melhores materiais que a gente produziu no Sindicato, né?

Prisão
Eu fui preso na greve de 80, no dia 17 de abril de 1980, às seis horas da manhã. A gente já sabia que eu ía ser preso, era apenas uma questão de saber qual o dia. A polícia estava seguindo a gente demais, a gente sabia que era uma questão de hora. No dia que eu fui preso, eu fui visitar um trabalhador no Hospital Assunção que tinha perdido a mão com uma bomba. Esse trabalhador era mudo e o médico teve dificuldade, porque não sabia se estava dormente a mão dele, se tinha pegado a anestesia. Então, fui visitar esse trabalhador.

E quando cheguei em casa umas 2h, o Aírton Soares disse: "Lula, eles vão te prender. Você não quer entrar no porta-malas do carro e sair?". E eu falei: "Não, se tiverem que me prender, vão me prender em casa". Estava em casa o Frei Betto, o Geraldinho, que era deputado do PT. Quando foi 6h, eles fizeram uma prisão simultânea. Prenderam acho que umas 30 pessoas às 6h. O Frei Betto bateu na porta do quarto, me avisou, eu não acreditei, continuei dormindo. Aí, o Betto chamou outra vez, eu levantei, fui lá. Estavam seis caras armados, eu mandei esperar. Eles estavam no quintal, eles estavam na rua, aí eu mandei esperar. O Geraldinho pediu mandato, o cara mostrou a metralhadora: "Está aqui o mandato". Eu falei: "Não vamos discutir, não." Aí, o Geraldinho pediu para ir junto, eles não deixaram e a Marisa foi comigo até o portão, na boa.

Era uma madrugada de muita cerração. E na hora dá medo. E a gente conhecia muitas histórias, então, ficava imaginando: "Puxa, vida, sabe! Apareço morto amanhã na via Anchieta, aí: ‘foi acidente’.". A minha sorte foi que, quando eu entrei no carro, passou meia hora. Acho que cinco minutos depois, o cara estava com o rádio ligado na Bandeirantes, aparece o José Paulo de Andrade dizendo: "Acabamos de receber um telefonema do Cardeal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, comunicando que o Lula acaba de ser preso na sua casa". O Frei Betto tinha ligado para o D. Paulo. Então, isso foi um alívio: o fato de eu saber que alguém já sabia que eu estava preso. Um alívio muito grande.

Aí, eu fui para o Dops e encontrei Zé Carlos Dias, o atual ministro da Justiça, Dalmo Dallari, Djalma Bom, Cicotti, Frei Chico, Arnaldo Gonçalves, tanta gente! Eu falei: "Isso é golpe de Estado, isso é um golpe". Eu lembro que uma vez, quando eu estava preso, me levaram numa cela. Sabe, quando vai preso a gente fica sempre pensando que um dia vai vir uma tortura. E um dia à meia-noite me tiraram da cela. Meia-noite, já estava todo mundo dormindo. Chega o carcereiro e fala – me chamava de Lula, já, estava íntimo: "Lula, tem gente, aí, que está querendo falar com você". Aí, eu saio com o carcereiro, e entro em um labirinto, e sobe escada...

Aí, eu cheguei no lugar e estava o seguinte: "Não sei o que lá secreto". Uma sala com uma luz, assim, numa penumbra. Eu já comecei a lembrar do cara, assim, queimando o outro com um charuto. Eu falei: "É hoje que a porca vai entortar o rabo". Aí, eu chego lá, o cara mandou eu sentar, eu sento. Aí, o cara fala: "O Cacique está preocupado com você". Eu falei: "Quem é o Cacique?". "Não importa. O Cacique está preocupado, o Cacique quer terminar essa greve. E o Cacique está querendo saber o que você quer". Eu falei: "Mas o que eu quero está na pauta de reivindicação". Ele falou: "Aquilo a gente não pode dar. O Cacique quer negociar". Eu só estava me preparando para o tapa na orelha. Eu só ficava esperando o cara vai dizer: ‘Tira a roupa, aí’. Aí, o cara falou assim para mim: "Olhe, ligue para o seu advogado amanhã. Você fale com o delegado. Peça para o seu advogado vir aqui te visitar. E diga o que você quer, faça uma pauta de reivindicação para negociar". Eu falei: "Está bom. Posso ir embora?". "Pode". Saí e falei: "Pô, menos mau. Não apanhei". Aí, eu saí e no dia seguinte o Tuma pediu para o Almir ir lá no Dops, aí eu falei: "Almir, traz a pauta de reivindicação". Aí, o Almir trouxe a mesma pauta de reivindicação. No outro dia, à meia-noite, eu sou chamado outra vez. Ele lê a pauta de reivindicação, falou: "E daí? Trouxe a pauta?". "Está aí", entreguei a pauta: "Pô, mas essa aqui é a mesma, isto aqui não tem negociação". Eu falei: "O senhor não pediu a pauta? Por menos que isso a gente não negocia. Pode acabar com a greve, a gente pode ficar preso aqui, mas é isso. Esse é o mínimo para nós". Aí, o cara não me agradou mais, mas também não falou mais nada. "O Cacique não vai gostar disso". Como eu não conhecia quem era o cacique, eu estava pouco ligando. Nunca fiquei sabendo quem era o Cacique. Aí, o cara nunca mais voltou também.

Quando fui preso, não lembro o nome de todas as pessoas que estavam na mesma cela. Dos mais conhecidos estavam o Djalma, eu, Gilson, Severino, Cicotti, Alemãozinho. Tudo na mesma cela. Tinha também o Santo, o Zé Maria, o Manoel Anísio, o Expedito, o Venâncio. Eram quase 17 na mesma cela.

O dia a dia na prisão, primeiro, era muita sacanagem. Imagina, 17 homens presos num cubículo de quatro por quatro ou um pouquinho mais; um banheiro só, aberto. A gente lia o que chegava para ler. A gente logo reclamou da comida da cadeia e a Igreja começou a mandar comida para a gente.

A gente era tratado diferente porque a nossa prisão já se deu num outro momento. Já não tinha mais tortura. Eu lembro que um dia eu estava com dor de dente, em 1h o Tuma chegou com um dentista para me cuidar. Eu lembro que um dia o Corinthians ia jogar com o Botafogo e eu falei para o Tuma: "Olha, escuta aqui, eu não sou bandido, sabe, eu estou aqui injustamente. Sabe, eu quero assistir o jogo do Corinthians, porra!". Aí, ele trouxe uma televisão para ver o jogo. Eram 16 homens, então, aquilo tinha uma catinga. Eu pedi para ele um circulador de ar, ele levou lá também. O filho do Tuma, esse que é deputado agora, queria me conhecer. Ele tinha 12 anos, o Tuma levava ele na cadeia para me ver.

Quando minha mãe morreu, eu estava na cadeia. Meu pai morreu em 78. Eu fiquei sabendo da morte dele, quando foi decretada a Greve de 78. E, quando minha mãe morreu, tem dois momentos: o primeiro, eu saía de noite para ver a minha mãe, ela estava com câncer, e o Tuma me liberava 2h. Aí, depois, quando eu fui para o enterro também foram dois delegados me levar. Dois delegados e um monte de policiais. E na volta, o pessoal não queria que eu voltasse preso, cercou o carro da polícia. Eu tive que fazer assembléia pedindo para liberar o carro porque eu precisava ser preso, tinha que voltar para a cadeia, estava todo mundo preso.

Minha mãe não sabia que eu tinha sido preso. A gente não contava para ela. Agora, a nossa prisão foi diferente de outras prisões. A gente foi preso num período onde é desconfortável ficar na cadeia, mas não é tão desconfortável quanto se você estivesse sendo torturado, pegando pau-de-arara, choque. Acho que não daria para agüentar. Mas, agora, prisão em si, é coisa para cachorro.

Durante o período de prisão, nós jogávamos bola numa quadra encostada à estação, à ferrovia. E não tinha preso comum. Tinha estrangeiro, tinha travesti. O Gushiken tinha sido preso porque estava na Praça da Sé com um tabuleiro de xadrez disputando uma partida para arrecadar fundos para ajudar a gente. Aí, ele foi preso. E ele não tomava banho de sol, não. Ele ficou lá preso.

Então, a gente resolveu decretar greve de fome. Eu sempre fui contra essa história de greve de fome. Porque acho horrível você ter que judiar do próprio corpo para fazer greve. Mas o pessoal se reuniu e discutiu lá. Eu era contra. Aí, quando decretaram a greve de fome eu até tentei guardar umas balinhas embaixo do travesseiro. O Djalma descobriu e jogou fora minhas balinhas. E eu chamei o Tuma para comunicar que a gente estava em greve de fome. Aí, o Tuma deu um esporro, ficou muito nervoso, zangado, e falou que ia tirar jornal, que ia tirar rádio, que não tinha mais nada. Ele falando, o rádio ligado, ele foi embora e deixou o rádio ligado. Aí, no dia seguinte, ele me chamou e falou assim: Olhe, eu vou trazer todo dia o jornal aqui para você ler. Só você vai ler, mas não conte para ninguém que você está lendo. Babaquice, ele achava que eu ia ler e não ia contar para o pessoal. Aí, eu fiquei dois dias subindo, lendo o jornal na sala dele, voltava, colocava para o pessoal o que estava lendo no jornal. Aí, liberou outra vez.

Mas, na prisão, foi mais duro quando a gente foi condenado à três anos e meio. No dia que anunciaram que a gente ia pegar três anos e meio, eu vou te contar! Imaginar ficar três anos na cadeia não é boa coisa, não. Aí, quem teve um papel muito importante nesse momento foi o Teotônio Vilela. Muito solidário. Os juizes ficaram muito nervosos porque, no dia da audiência, nós ficamos em São Bernardo e não fomos. Eles ficaram muito putos da vida.

Mas, voltando à greve de fome, eu acho que tem que ser feita apenas em caso extremo, se é que tem que ser feita. Eu sou contra fazer. Mas é que se tornou uma greve de fome que não tinha nenhum sentido. Então, quando entra em greve de fome, você só pode parar se houver alguma coisa maior que te peça para parar. Por exemplo, quando, agora, em 98, os seqüestradores do Abílio Diniz foram entrar em greve de fome seca – ou seja, depois da greve de fome era a greve seca e era a morte – eu liguei para o Fernando Henrique Cardoso e falei: "Olha, Fernando, você vai levar na tua biografia a morte desses caras. Eles vão entrar em greve seca, eu estive no hospital hoje, e eles vão morrer". Aí, o Fernando falou: "Olha, vê se você consegue negociar. Eu vou liberar eles, garanto que eu vou negociar, tal". Aí, eu fui lá e falei para os caras: "Olha, ou vocês confiam em mim ou não venho mais aqui, porque também o que eu estou fazendo aqui?". Eles não entraram em greve. Cheguei em casa, o Fernando Henrique Cardoso ligou e falou: "Olha, eu vou liberar o chileno, o cearense já vai embora para o Ceará e os argentinos dependem de alguma negociação".

Então, você tem que fazer essa negociação. Quando nós entramos em greve de fome você queria parar a greve, pois bem, qual é a razão da gente parar? Ou você faz o acordo, o que não ia acontecer, ou a assembléia pede para a gente parar com a greve de fome, pô! E foi o que o D. Cláudio fez. Aí, pediu para acabar com a greve de fome. Nós acabamos com a greve de fome. Eu até sonhava em comer um frango daqueles assados naquelas máquinas que rodava na frente do bar, bicho! "Na hora que a gente acabou com a greve de fome: "vamos buscar frango!". Aí, vem um médico e fala: "Trinta gramas, um copinho de suco de laranja, de mamão". Bicho, a minha boca espumava de água, de vontade de comer o frango. Eu queria comer com couro e tudo. Aí, levou uns três dias para comer esse maldito frango!

Militância Clandestina
Depois que eu entrei no Sindicato, o Frei Chico sempre me respeitou muito. Eu acho que pelo fato de eu ser o irmão mais novo e estar crescendo na política, o Frei Chico sempre teve uma relação de muito carinho comigo, eu diria até de uma certa proteção. Em 73/74 ele vivia me convidando para ir à reuniões clandestinas: "Olha, vai ter uma palestra com fulano de tal, no apartamento não sei de quem". Eu falava: "Frei Chico, eu não vou em reunião clandestina. Não vou, sabe por quê,? Eu não sei se agüento uma tortura, Frei Chico. Se eu não for, eu vou morrer sem abrir a boca, porque não conheço ninguém. Mas se eu conhecer eu não vou deixar ninguém me bater. Então, não me convide, não".

Mas o Frei Chico ficava insistindo. Aí, eu fiz papel de palhaço. Um dia ele me leva um cara e fala assim para mim: "Você precisa conversar com esse cara. Esse cara é o Emílio Bonfantti. Era o cara que fez a greve na Marinha Mercante contra o João Goulart. Era um dos caras procurados pelo regime. Aí, quando é um dia, ele me chama, eu vou na praça da Matriz lá em São Bernardo, sento no banco com um jornal, vem um cara, senta atrás de mim com outro jornal, e começa: "Eu sou fulano de tal, eu sou estudante...", aí, começamos a conversar um monte de bobagens: como estavam as eleições de 74, "será que vai eleger não sei quem?", e não sei o quê; "olha, nós estamos botando fé em você, eu acho que você é um menino de futuro". Levantou, foi embora, eu fui embora. Eu falei: "Frei Chico, você acha que eu tenho que correr esse risco para o cara conversar o que conversou comigo? Eu posso ser preso amanhã, você acha justo isso comigo, Frei Chico? Por que esse cara não falou isso por telefone? Custava ele ligar para mim e falar: ‘Olha, como vão ser as eleições?’ Sabe, custava Frei Chico? Olha, quem quiser conversar comigo é aqui no Sindicato. Aqui no Sindicato com o presidente, quem quiser vir que venha, conversa aí. Pelo menos eu estou recebendo como autoridade do Sindicato".

E o Frei Chico foi preso por isso, coitado! Frei Chico foi preso em 75. Na época do Wladimir Herzog. Eu estava no Japão. O Frei Chico foi barbaramente torturado. Ele foi preso por ser do Partidão. Foi pego numa reunião, essas reuniões babacas que o cara não deveria fazer porque o que ele falava numa reunião clandestina eu falava na porta da Volkswagen. No meu Sindicato tinha um companheiro chamado Ratinho, que pegava a assembléia, e estava lá o Delegado do Dops escondido, todo mundo sabia que ele estava lá, esse Ratinho falava: "Olha, companheiros, as coisas só vão melhorar aqui nesse país quando o sangue tiver batendo nas canelas. Nós temos que fazer a Revolução". Falava isso numa assembléia. Eu falava: "Frei Chico, para quê ir numa reunião clandestina, rapaz?". E o Frei Chico foi preso numa reunião dessas babacas, lá em São Caetano. A polícia seguiu ele, pegou. Aí, o cara fica preso três dias, a mulher não sabia que ele era comunista. Ele foi barbaramente torturado: choque elétrico, cadeira do dragão, sabe, afogavam ele.

Quando o Frei Chico estava preso a preocupação dele era a seguinte: eu ia visitar ele, eu estava no Japão, aí, me telefonaram para eu não voltar do Japão: "Não volta que a barra está pesada. Pegaram o teu irmão e já pegaram não sei quem. Não volta". Eu falei: "Vou ficar fazendo o quê no Japão, porra?! Eu vou voltar." Aí, voltei. Montaram um aparato de advogados para me receber no aeroporto. Não aconteceu nada.

Aí, eu cheguei, fui no Dops saber o que tinha acontecido. Eu chego lá tinha um tal de Dr. Campanella. Eu falei: "Dr, eu sou irmão do José Ferreira da Silva, eu vim aqui saber se ele está preso, e o que está acontecendo com ele". Aí, ele já começou a piada: tinha um sofá só e ele mandou sentar eu e o Rubão. Não cabia os dois. Aí, ele pegava o telefone e falava o seguinte: "O quê! Esse filho da puta é comunista? Esse filho da puta queria fazer revolução?", na minha frente. Aí, ele colocou o telefone no gancho e falou assim: "Você vê, Sr. Luiz Inácio, como esse país é democrático, seu irmão está preso porque é comunista e o Sr. em liberdade procurando informações sobre ele". Aí, eu resolvi procurar o Osvaldo Cavignato que era meu assessor econômico que tinha desaparecido também. Aí: "Eu queria saber se está aqui o Osvaldo Rodrigues Cavignato". "O quê! Esse filho da puta desse comunista passou dois anos fazendo curso na União Soviética e não mataram ainda?". Assim, na minha frente, e você imagina o medo que eu estava ali. "Está bom, Dr., como o Sr. é generoso, Dr. Como o Sr. é bonzinho, como o Sr. dá informações.

Aí, eu queria visitar o Frei Chico e ele estava com medo que eu fosse preso e me perguntassem se eu conhecia o tal do Emílio Bonfantti. O Frei Chico mandava recado por todo mundo: "Fala para o Lula não falar que conhece". Porque o Emílio Bonfantti estava preso também e apanhou, quase morre lá na cadeia. Eu falei: "Está vendo, Frei Chico? Se você não leva um cara para ler um jornal de costas para mim, você não precisava ficar com medo, Frei Chico, eu não conhecia ele. Mas você fica sendo torturado aí, com esse medo".

Quando fui lá visitar o Frei Chico, já estava numa fase boa, já tinha parado a tortura, já estava no hipódromo. Depois, o Frei Chico foi liberado. Eu falava para ele: "Olha, Frei Chico, eu acho que vocês, comunistas, são muito frouxos porque eu não quero ser torturado". Eu falava assim: "Olha, Frei Chico, eu tenho medo de não suportar uma tortura, então, quanto menos eu souber, melhor". De vez em quando eu falava assim: "Se tem segredo, não me conte. Porque se é segredo é para não contar, porra. Se você conta é porque você está querendo que passe para frente esse segredo, então, não me conte". Eu falava sempre para ele, isso.

E eu continuo assim. Por exemplo, um advogado, o Almir Pazzianoto, ele era doido: "Lula, você precisa conhecer a lei de greve, precisa conhecer a lei de empresa". Eu falava: "Não quero conhecer. Porque se eu conhecer, vou ficar com medo. Sabe, você vai introjetar na tua cabeça o medo. A lei não permite isso, não permite aquilo, não permite aquilo, então, pra quê eu quero advogado? Eu quero advogado para me livrar e eu vou entrar nessa, fazer a greve. Se der certo, tudo bem. Se eu for preso você me tira da cadeia. Senão, para quê eu quero advogado? Se eu não vou criar nenhum problema para ele?"

Avaliação do Movimento Sindical
O movimento sindical veio num crescendo. É importante lembrar que em 74 nós fizemos um Congresso contra a vontade da Delegacia Regional do Trabalho. O delegado regional do Trabalho aqui, chamado Aluízio Simões de Campos era chefe do Comando de Caça aos Comunistas e proibiu o Congresso e, mesmo assim, a gente fez o Congresso. Depois, em 74, eu já fui procurado por um grupo de companheiros que queriam fazer greve na Ford. Aí, como eu não conhecia muito de lei, eu fui chamar o Paulo Vidal para falar com esses trabalhadores que queriam fazer greve, para orientar os trabalhadores de como fazer a greve ou não. Aí, o Paulo Vidal começou a falar para eles assim: "Olha, a lei 4330 proíbe fazer greve, se vocês fizerem greve, sabe o que pode acontecer com vocês? Torturas. Podem dar choque na língua, podem dar choque no ânus."

Então, ele contou uma história que até podia ser verdadeira mas, contada tal como ele contou, tinha trabalhador que suava só de ouvir aquilo. Aí, quando terminou: "Que greve coisa nenhuma! Aqui não tem clima de greve, não". Foi minha primeira frustração ver alguém, ao invés de orientar os trabalhadores, tentar persuadi-los a não fazer a greve. Mas aí, a categoria veio num crescendo, num crescendo e veio num crescendo. Essas prisões todas, inclusive a do Frei Chico, contribuíram para informar mais a gente, para ir consolidando uma nova consciência.

Nesse momento, em 74, não se falava nada sobre ditadura do proletariado, Revolução Russa. Nada disso. Várias pessoas da esquerda freqüentavam o Sindicato. Vários deles eram de oposição, mas já mantinham comigo uma boa relação de amizade. Mas no início da reestruturação do movimento sindical, mesmo na nossa diretoria, quando nós mudamos o comportamento, houve um conflito cultural. Eu tinha companheiros na diretoria que estavam lá há quinze anos. Então, era aquele Sindicato que tinha se transformado num prestador de assistência social. O Sindicato tinha preocupação com colônia de férias, com dentista, com médico, com cabeleireiro, com um monte de coisas. Então quando você ia na porta de uma fábrica, o trabalhador perguntava: "O que o Sindicato oferece?" Aí você dizia: "Dentista, médico, colônia de férias..." Era assim.

Até 75, o Sindicato funcionava mais ou menos assim: eles tinham um projeto de construção de uma sede, por exemplo. Então, quando iam negociar levavam aquele projeto debaixo do braço, para mostrar para os empresários que tinham que fazer o desconto assistencial porque o dinheiro era para construir a sede. E aí invertia o papel: o empresário começava a defender o trabalhador e o dirigente sindical a achacar o trabalhador. Porque o empresário falava: "Eu não vou descontar do meu trabalhador." E os dirigentes sindicais: "Não, tem que descontar." Aí, ia para julgamento, e o tribunal dava o desconto. Então você ia fazer uma negociação, e encontrava vinte presidentes do Sindicato um com uma planta de colônia de férias, outro com uma planta de um laboratório médico, outro com uma planta... sabe? Era assim.

Quando nós entramos, nós resolvemos mudar isso. Nós começamos a entender o seguinte. Bom, eu fiz um curso de psicodrama. Esse curso foi feito pela Lurdinha, mulher do Barelli. E foi muito importante na minha vida, porque esse curso fazia a gente se descobrir. Por exemplo, se eu chegar para você, você chega em casa cansado e fala para a mulher: "Eu trabalhei tanto essa semana, esse mês eu preciso de férias e tal." Aí, a tua mulher fala assim para você: "Ô Fulano, coloca no papel o que você fez esse mês, o que você fez cada dia." Aí, quando você vai colocar no papel, você percebe que não tem nada. Ou você percebe que o que você fez, não era o que você deveria ter feito. Então, esse curso fez com que a gente descobrisse o quanto a gente estava agindo errado no Sindicato, o quanto a gente fazia coisas que não eram importantes. Por exemplo, eu ia para o INPS negociar a aposentadoria dos trabalhadores. Eu que cuidava da previdência social. Pegava um carro no Sindicato às nove horas da manhã, chegava na rua Santo Antônio às dez horas e saía de lá às quatro horas da tarde. Pelo menos três vezes por semana eu ia fazer isso. Ou eu ia no BNH.

Nesse curso, a gente começou a descobrir o seguinte: "esse é o papel de um dirigente sindical ou é o papel de um funcionário?" O papel do dirigente é fazer política. Então, ao invés de estar seis horas na rua Santo Antônio, ou na praça Roosevelt cuidando do BNH, eu tinha que estar na porta de fábrica. Quem tinha que estar lá era um funcionário. Contrata um funcionário e manda ele fazer essas coisas. Essa foi uma descoberta, eu diria, fantástica, foi como descobrir a roda, ou seja, nós descobrimos que estávamos errando.

Depois teve um outro episódio que foi descobrir o papel de um líder, o papel de um presidente. Eu não sei se já contei essa. Nesse curso de psicodrama tem uma pergunta que é assim: "O que você acha que é o papel do presidente do Sindicato? Como é que você vê o presidente do Sindicato? Qual é a importância que ele tem?" E aí foi o começo do fim do Paulo Vidal. Porque o Paulo Vidal foi o primeiro a representar qual era a imagem que ele tinha do papel dele. Então, ele mandou toda a diretoria ficar com a mão no joelho, todo mundo ficou meio de quatro e ele subiu em cima e ficou com as mãos abertas assim, como se tivesse acima de todo mundo. E logo em seguida fui eu. E aí a pergunta é a seguinte : "O que você acha, qual é o papel do presidente do Sindicato, como é que você se vê? Como é que você vê o presidente do Sindicato?" E aí, eu talvez até porque não soubesse outra coisa, peguei todo mundo que estava lá, todo mundo deu a mão, ficamos todo mundo de mão dada, abraçado. Para mim o Sindicato significava aquilo. Significava a união dos trabalhadores e o papel do presidente era ser um a mais. Ele não tinha muito mais importância porque era presidente do Sindicato. Ele era cumpridor de um mandato, de uma tarefa. Ele não estava acima. Todos que pensam que estão acima, estão desgraçados. E aí, por isso, o Paulo Vidal se acabou no Sindicato. E eu, aí, fui indicado para presidente do Sindicato.

E começamos a fazer o que? A gente partia do seguinte pressuposto: ao invés de ficar esperando o trabalhador vir até o Sindicato, vamos nós até o trabalhador. Então passamos a ir na porta de fábrica. Era meio engraçado porque a gente fortaleceu muito a figura do João Ferrador, um bonequinho nosso que estava sempre de cara feia dizendo: "Hoje eu não estou bom." A gente passou a mudar graficamente o material do Sindicato. A gente fazia muita história em quadrinho, uma espécie de gibizinho. Era difícil um dia que não tivesse muitos diretores na porta de fábrica.

E eu descobri que o regime militar não foi o que impediu o movimento sindical. Obviamente que, em 64, em 66, até 70, era muito duro. Mas os dirigentes sindicais, a pretexto disso, não faziam mais nada. Eles obrigavam os dirigentes sindicais a desfilar no dia sete de setembro. Obrigavam. Eles obrigavam os dirigentes sindicais a participar de todas as festas comemorativas.

E nós começamos a mudar isso. Obviamente que aí você começa a ser mal visto pelos teus ex-companheiros, não é? O pessoal da Federação me via com maus olhos, a gente começou a romper com a Federação, a gente não entregava mais a pauta de reivindicação para a Federação, nós fomos para o Tribunal e conquistamos o direito, sabe? De que quem representava os trabalhadores era o Sindicato e não a Federação. Nós fomos conquistando espaço, né? E, aí, foi criando um rompimento. Tanto nos outros Sindicatos quanto na minha própria diretoria. Tanto é verdade que, chegou 78, eu troquei 14 diretores na minha diretoria. Eu troquei o secretário geral, o tesoureiro, o primeiro secretário, o segundo secretário. Ninguém faz isso num Sindicato. Eu tirei praticamente cinco da executiva, de sete, e eles não reagiram porque já tinha um outro clima na categoria, né? A relação com a categoria era muito melhor. O pessoal já estava vendo no Sindicato um órgão de classe mesmo.

Então, a gente passava para sindicalizar o cara perguntava: "O que o Sindicato oferece?" "O Sindicato oferece luta. O Sindicato oferece a possibilidade de você conquistar alguma coisa. O Sindicato não é um órgão prestador de assistência médica. Essa é a briga que a gente tem que fazer com o governo." Isso resultou , obviamente, em outras coisas maiores.

Por outro lado, acho que nós conseguimos fazer uma revolução no Sindicato porque a gente era muito inocente, era muito puro, a gente não tinha nenhuma organização por trás. Era uma coisa muito distinta, eu acho até que, de certa forma, meio ignorante. A gente era muito classista. Metalúrgico para mim era tudo. Quando eu abria a boca para falar em porta de fábrica, eu achava que estava tomando conta do mundo. Ali era a força.

Depois é que eu fui tendo a noção de que o mundo é maior do que os metalúrgicos, que tem outras categorias, que a sociedade é muito mais complexa. Mas foi outro aprendizado que eu tive na vida. A prisão do meu irmão, em 75, me ensinou muito porque eu comecei a descobrir como é que um coitado que nem o meu irmão, que trabalhava, sustentava a mulher e os dois filhos, pagava aluguel, trabalhava desde os 14 anos, pode ser tachado de ruim, de comunista coisa ruim. O coitado só sabia trabalhar. Eu também fui tirando lições daí. Mas aí, eu já estava respeitado, também. Já tinha um respeito por várias pessoas de organizações, sabe? Eles já me tinham como um cara de confiança, o pessoal que era mais à esquerda do Sindicato, ligado ao Partidão, ligado à outras organizações. O Osvaldo Cavignato trabalhava comigo - ele foi contratado como assessor econômico - e outros companheiros. Então, a gente já tinha ganhado um certo respeito. E eu estava compreendendo mais ou menos como é que as coisas iam acontecendo. Na categoria já tinha um clima. Isso tudo aconteceu em 75.

Em 78 foi o coroamento de tudo o que já vínhamos fazendo desde o início da década. Era um momento muito fascinante, você ver o orgulho que os trabalhadores tinham de ir ao Sindicato. O Sindicato, nessa época, fervilhava de gente. Entre 75 e 80 eu acho que não tinha um dia que não passasse mil trabalhadores pelo Sindicato. Um trabalhador da Ford ou da Volkswagen, que entrava às 16h30min., ele saía mais cedo de casa, não pegava o ônibus da empresa, pegava ônibus particular para passar no Sindicato, saber das novidades e encher a barriga de boletim do Sindicato, para entrar para dentro da fábrica. Ele saía 1h20min. da manhã e, se a gente estivesse no Sindicato, ele passava lá para saber informação. Então, o Sindicato era uma referência muito forte, o Sindicato tinha vida, vida.

Eu acho que hoje o Sindicato é mais organizado no local de trabalho. Para fazer uma greve, o Marinho não tem que fazer o barulho que eu fazia, mas eu acho que falta uma coisa chamada vida. É uma coisa muito forte, mas forte, forte, forte, forte, forte. Os Trabalhadores sentiam, acho que todo mundo sentia igual ao Lula, todo mundo sentia igual ao Severino, todo mundo se sentia importante, sabe! Nego fazia qualquer coisa que a gente mandasse. Eu acho que a gente vai demorar muito para viver um outro período desse. Não é que não acontece, pode acontecer, mas forte daquele jeito...

Depois, a gente era mais companheiro, a gente tomava mais cachaça junto. Eu lembro que a gente tinha sempre um garrafão de pinga na minha sala. Não tinha um que chegasse lá e que não ia lá tomar uma garrafa de pinga. Estava uma interação. Não era uma coisa distante. Eu acho que quem viveu, viveu, e quem não viveu vai ter que esperar um tempo para viver.

Eu digo sempre o seguinte: "Olha, eu só sou o que sou porque eu sou o resultado do grau de consciência que os trabalhadores adquiriram naquele período". Eu acho que o único mérito que eu tenho é que eu soube exteriorizar para o resto da sociedade aquilo que os metalúrgicos conseguiam fazer. Então, eu não me sinto diminuído em dizer o seguinte: "Eu só cresci porque eles cresceram. Se eles não tivessem crescido, eu acho que eu não teria crescido também". Eu acho que essa interação é que me fez durar tanto tempo, não é? Porque eu já estou há muito tempo. Imagina, de 69 até agora são 31 anos, e eu faço a mesma coisa no PT.

Eu não gosto de disputar espaço. Nós, quando tomamos posse em 75, a primeira coisa que fizemos foi uma assembléia para limitar em dois mandatos. O máximo que a gente poderia concorrer era ficar dois mandatos de presidência no Sindicato. Que é para acabar com isso logo, senão o cara fica 30 anos, 25 anos no Sindicato. Então, eu acho que essa interação, essa lealdade era uma coisa muito forte, muito forte. Então, a categoria estava numa garra fantástica e eu só soube colocar isso para fora. Eu acho que se não fossem os metalúrgicos... Eu devo muito, mas muito, muito, muito ao que eles souberam fazer muito bem entre 75 e 80. Foram apenas cinco anos, mas cinco anos que valeram para mim uma Universidade.

Eu lembro que em 78, chegou um momento em que a gente não tinha tantos diretores para atender à quantidade de greves que tinha. Era muita greve. Eu falei da greve da Scania, e na Ford, quando a gente foi propor um acordo na usinagem o pessoal não queria, e na Mercedes-Benz que o pessoal voltou a trabalhar e não veio o dinheiro também... E a Volkswagen, que não conseguiu parar a ferramentaria e o pessoal chorava de ódio porque não conseguiu parar a ferramentaria. Mas assim, teve greve em tudo quanto é fábrica.

Eu lembro de uma greve na Resil no final do ano, trabalhava muita mulher e foi o primeiro piquete que nós fizemos depois de 64. E a gente não queria chamar de piquete para não queimar, e a gente falava em Corrente pra Frente, que era uma coisa que usou muito na Seleção Brasileira de 70, e chegava uns carros do Dops e o Delegado falava: "Olha, vamos acabar com esse piquete, nós somos do Dops". E as meninas falavam: "Que Drops, que nada!". E não paravam. O dono da fábrica chegou, o pessoal subiu no carro do dono da fábrica: "Não vai entrar". E não entrava mesmo. Aí, tinha uma mulher que desmaiou na minha mão, que queria entrar para trabalhar, pegamos ela no colo, botamos ela para dentro: "Vai trabalhar". Sabe, a gente tinha uma força de vontade, uma disposição para brigar que eu nunca tinha visto na minha vida.

Em 79 e 80, nós apenas colhemos aquilo que já havia sido plantado. Eu estou falando do Sindicato porque eu era presidente do Sindicato. Mas a verdade é que você tinha movimentos muito fortes, por exemplo, as comunidades de base da igreja católica, as pastorais, tinham um papel muito importante nos bairros, era uma coisa muito forte. E o cara que militava ali era um operário. Antes, ele só militava lá porque o Sindicato não era o escoadouro das suas insatisfações. Na hora em que o Sindicato cresce, houve um agrupamento disso, do movimento do Sindicato com o movimento popular. Tanto é que na greve de 79, houve a intervenção no Sindicato, o movimento popular entregava cem mil panfletos num dia. Então, tinha movimento de saúde que era muito forte, tinha movimentos de mulheres que eram fortes, tinha movimento contra a carestia que era muito forte. A chamada Igreja Católica Progressista estava crescendo, extraordinário, não é? E tudo isso confluiu para o Sindicato.

Avaliação do Movimento Sindical
Intervenções
Uma coisa foi importante, falando das duas intervenções: a gente tinha um companheiro no Sindicato chamado Sadao que, embora nunca tenha aparecido em público, a verdade é que nas duas intervenções ele provou ser muito mais competente que qualquer dirigente do Sindicato. Porque, com a polícia tomando conta do Sindicato, ele conseguia fazer tudo que a gente queria que ele fizesse. Eu lembro que uma vez nós tivemos uma eleição no Sindicato, ele tirou os arquivos todo do Sindicato sem que o interventor soubesse. Eu lembro que no dia da intervenção de 80 tinha uns 50 policiais tomando conta do Sindicato. Ele conseguiu entrar e sair sem que a polícia o visse. Era um cara que conduzia a máquina do Sindicato com a maior perfeição, sob intervenção, sem nunca dar um milímetro de mancada. O Sadao nunca deu uma mancada nessas intervenções. Eu tinha um respeito profundo por ele porque ele conseguia mexer os pauzinhos dele lá.

O Sindicato sofreu duas auditorias muito sérias. Nas duas auditorias, o Ministério do Trabalho foi obrigado a reconhecer o nosso modelo de contabilidade como uma coisa a ser estendida para todos os Sindicatos. E, também, na intervenção, tem gente que afrouxa, né? Tem gente que fica com medo, tem gente que passa para o lado do interventor, sabe! Tem gente que parecia muito amigo, mas já não é tão amigo. Então, de vez em quando eu acho importante acontecer isso na vida da gente para a gente poder filtrar quem é bom, quem não é bom, quem está do lado, quem não está, sabe! Tem gente que cresce e tem gente que desaparece nesse processo, sabe! É isso. Quanto tempo tem aí, para a gente parar um pouco e voltar outro dia, porra!

Avaliação do Movimento Sindical
Dirigentes Sindicais
Eu tinha relação com a pelegada. Eu tinha uma relação de amizade com o Joaquinzão, em função da Federação dos Metalúrgicos, e acho que o Joaquinzão era boa gente. O Joaquinzão não era o diabo que se vendia. Ele era um bonachão, que possivelmente deixava os outros roubarem. Eu acho que ele não roubou o Sindicato. E o Joaquinzão devia para a gente, às vezes ele radicalizava no discurso e, no outro dia, o delegado regional do Trabalho o chamava e ele falava: "Olha, se eu não falar grosso a minha oposição fala mais grosso que eu. Então, tenho que falar grosso". Então, ele ia se explicar em dar o grito, "porque era necessário gritar senão a oposição ganha de mim". Mas o Joaquinzão era um dirigente sindical esperto, competente, tanto é que ficou muitos anos no Sindicato, e era inteligente.

Mas era outra mentalidade. O Argeu, Paulo Vidal, Joaquinzão. Eram muito espertos, muito capacitados, sindicalmente falando, mas tinham uma outra visão, sabe! Tinham nascido na luta contra a esquerda, então, a esquerda era uma coisa muito pesada para eles. Eles não aceitavam e tinham uma ambigüidade com relação à política do governo. Mas, desses dirigentes sindicais famosos todos, acho que o Joaquinzão era o menos ruim.

O Ari Campista, não. A gente não tinha nenhuma relação. Nós quebramos um pau forte com ele, foi no Congresso dos Metalúrgicos em 1978, no Rio de Janeiro, Congresso da CNTI. Porque gente não quis deixar o Geisel abrir o Congresso. O Geisel ia lá, nós tivemos três dias de enfrentamento, era uma loucura aquilo. Foi um período... Eu tenho pena dos dirigentes sindicais de hoje porque eles não vão viver esses momentos.

Congresso dos Metalúrgicos de 78
O ano de 78 foi importante para o movimento sindical, não só pelas greve, mas também pelos congressos que realizamos. Em janeiro de 78, nós fizemos o Primeiro Congresso das Mulheres, foi uma coisa importante. Eu não sei se foi feito outro depois, mas foi um belo Congresso aquele. Depois, nós fizemos o Congresso dos Metalúrgicos, que eu acho que foi o mais importante congresso já feito até hoje, do ponto de vista das tomadas de posição. Eu acho que ali, naquele Congresso, deu norte para tudo o que o movimento Sindical fez de lá para cá. Desde a construção da Central Única, a acreditar na organização de base, acho que foi o melhor congresso que eu participei.

A gente não queria fazer um Congresso só nosso, a gente queria fazer um Congresso com o que tinha de bom no movimento sindical. Então, a gente convocou os principais dirigentes sindicais, mesmo que não fosse metalúrgico, e convocou as melhores oposições que tinha no Brasil. Então, onde tinha uma oposição forte a gente convocava dois representantes. Teve o caso de um Sindicato que estava a diretoria e também estava a oposição. Porque a gente não queria ouvir apenas um lado e, como a gente já estava com muita autoridade moral, a gente já tinha quase que virado pelo menos, uma referência, as pessoas quase que nos tratavam com uma certa deferência e a gente tinha autoridade para convocar essa gente. Então, em várias situações, tinha dois membros da diretoria e dois membros da oposição. E lá eles tinham um comportamento, não brigavam, não era para discutir o problema de uma categoria específica. Eu penso que foi, do ponto de vista das decisões, o mais importante congresso que nós fizemos. Eu não sei se tem outro que tenha tomado aquelas decisões.

Intervenção do Sindicato em 1983
Até hoje têm companheiros no Sindicato – isso nunca me falaram, é suposição minha – que têm um pouco que eu sou responsável pela intervenção do Meneguelli. Porque aconteceu o seguinte: em 1983, os petroleiros estavam em greve e era uma greve muito importante naquela ocasião. Só que os petroleiros fizeram uma avaliação de conjuntura equivocada, ou seja, eles partiram do pressuposto que não teria mais combustível para o Brasil nos próximos dois dias. Eu estava participando do Congresso dos Metalúrgicos em Piracicaba e fui a Campinas participar de uma reunião com a diretoria dos petroleiros no sábado de manhã, o congresso era sábado e domingo. E a avaliação que os petroleiros fizeram era de que na segunda e na terça acabava o combustível do país e que, portanto, era preciso solidariedade.

Eu voltei para o Congresso e, sem comunicar com nenhum diretor do Sindicato, eu era delegado, eu me inscrevi para falar. E nessa fala eu ainda estava muito com a questão da greve de solidariedade daquela empresa. E eu, então, disse para os companheiros delegados: "Olhem, a gente está aqui fazendo um congresso, os petroleiros estão em greve, na avaliação deles o Brasil pára daqui a dois dias e é importante, então, a gente fazer uma greve de solidariedade." Aliás, era a primeira greve de solidariedade que a gente ía fazer. Eu falei isso e devo ter falado com muita ênfase porque a reação dos delegados foi total e absoluta, talvez só o Bargas e Meneguelli é que não gostaram muito da idéia. Mas aí os delegados: "vamos fazer essa greve, pô!"

E aí, nós paramos o Congresso. Parou o congresso, foi uma coisa tão séria que eu e o Gushiken, que era presidente do Sindicato dos Bancários, esquecemos as nossas mulheres em Piracicaba! Você sabe o que é esquecer mulher? Porque nós saímos os delegados todos, decidimos sair e parar o Congresso. E saímos para passar em Campinas, no Sindicato dos Petroleiros para mostrar nossa solidariedade, para mostrar que a gente ia fazer greve. Quando eu chego em Campinas foi que eu me toquei que a minha mulher que estava comigo, não estava mais. Ela e a mulher do Gushiken tinham ido fazer um passeio em Piracicaba e, como nós terminamos o Congresso antes, fomos embora. Você imagina o que deu: uma semana sem conversar com a mulher.

Mas aí é interessante porque nós fizemos a greve na terça-feira, e a greve era só um dia. Acontece que o Meneguelli ficou entusiasmado com a greve porque a adesão foi total e absoluta. Nós fizemos passeata monstro da Volkswagen para o Paço Municipal, da Ford para o Paço Municipal, da Mercedes para o Paço Municipal, ou seja, o pessoal aceitou a idéia da greve de solidariedade. E todo mundo foi a pé. Da Ford para o Paço acho que dá quase oito quilômetros. E no caminho a gente ia parando tudo. A greve era só de um dia, mas aí, o Meneguelli ficou entusiasmado e não acabou com greve. Era para ele ter acabado com a greve, ele não acabou com a greve. E depois ele propôs mais uma nova assembléia no dia seguinte e aí, de noite, o Murilo Macedo anunciou a intervenção no Sindicato.

Então tem gente que diz que fui eu o responsável pela intervenção. Eu não acho. Eu acho que, primeiro, foi uma greve importante. Segundo, acho que, para a diretoria, também foi uma lição importante. Terceiro, eu acho que foi a primeira greve de solidariedade que a gente fez e quarto, a intervenção era porque o governo precisava se vingar de nós. Nós estávamos muito atrevidos. Nós queríamos cada vez mais e o governo precisava se vingar. E ele aproveitou que a greve... Não tinha greve de solidariedade no Brasil. É proibido greve de solidariedade. Então, nós resolvemos fazer a intervenção. Quando ele interveio, o pessoal ficou fora do Sindicato mais de um ano e pouco. Mas foi bom para eles. Já falei que foi ótimo, foi uma lição extraordinária.

Criação da CUT
Em 1980, os empresários fizeram um encontro de sua classe em nível nacional. Eu não sei como é que eles chamavam, acho que era Conclap Congresso das Classes Produtoras. Aí, nós dissemos: "se os empresários fizeram os deles, vamos fazer o nosso". Que foi o Conclat, Congresso das Classes Trabalhadoras. Nós, em 78, já tínhamos aprovado a idéia da CUT. Então, para alguns Sindicatos, ela já estava bem amadurecida. Então o Conclat era um jeito de juntar todo mundo e, lá, aprovar e criar a CUT. Mas tem muita gente que hoje está no PT que naquele tempo não pensava assim, não tinha essa clareza. A gente fez o Conclat, foi um congresso fantástico.

A articulação para o Conclat não era uma coisa só nossa porque tinha figuras como o Hugo Perez, que era da Confederação dos Eletricitários, o Ônibus Urbanos, tinha o Joaquinzão, que concordava com o Conclat. Eles achavam que era preciso fazer. O que eles não achavam é que a gente queria propor a criação da CUT. E, entre os nossos companheiros, os que defendiam a realização do congresso éramos eu, Arnaldo Gonçalves, Henus Amorina, Jacó Bittar, Hugo Perez, estava do nosso lado naquele tempo, Olívio Dutra, se bem que o Olívio era bancário na época e não participava. Bem, mas tinha já bons sindicatos. João Paulo Vasconcelos de Minas Gerais, não é? E tinha muita gente da oposição. E o dado concreto foi num congresso em que a gente estava ganhando tudo. Porque os trabalhadores camponeses que foram pela Contag eram muitos e, obviamente, o nosso discurso batia muito mais forte na cabeça deles. E a gente não tinha deixado os advogados da Contag entrarem. Então, os advogados não podiam ficar perto orientando os trabalhadores. E além do estudo que a gente colocava, o que ganhava? 60%, 70%. Tanto é verdade que desde do meio dia eles tentaram parar para o almoço para tentar se reorganizar e a gente não deixava almoçar.

E aí, durante o Congresso, quando a gente foi criar a CUT, o meu amigo Jorge Bittar que hoje é deputado federal pelo PT, naquele tempo pertencia a uma organização política que era mais manerada E ele então, sem consultar o plenário, parou para o almoço. Parou para o almoço, foi um desastre. Porque aí a Contag fez um encontro só para os trabalhadores rurais, na volta colocou os advogados junto. E nós começamos a perder.

Então, ao invés de criar a CUT, a gente criou a CONCUT, que era uma comissão para construir a CUT e participava eu o Jacó Bittar, participava a Clara Ant, participava o Edson pelos bancários , o Arnaldo Gonçalves, o Olívio Dutra, parte das pessoas que hoje estão aí fazendo política. E por que CONCUT? Porque o pessoal da delegada não quis criar a CUT. Mas aceitavam participar de uma reunião para discutir isso. Aí nós ficamos um ano, depois resolvemos fundar a CUT. E criamos a CUT.

A realização desse Conclat aconteceu muito menos por mérito meu e muito mais pelo que eu simbolizava para as pessoas. Eu era uma espécie de centro, ou seja, nada acontecia do nosso lado sem que passasse por um discussão comigo, até por uma questão de companheirismo, de lealdade, de amizade. Era eu, João Paulo Pires, Olívio Dutra, Jacó Bittar, bancários, Clara Ant. Os bancários participaram também porque o Edson fazia parte da comissão pró-CUT. Então, eu já tinha uma certa respeitabilidade junto ao pessoal. Tanto é que eu fui praticamente o único que fiquei falando o Congresso inteiro do nosso lado, o MR-8 me vaiando o tempo inteiro, não é? Eles tomaram conta da frente, me vaiaram o tempo inteiro, né? Ninguém nosso assumiu lá para repartir as vaias comigo. Mas eu sei que foi um processo interessante.

A criação da CUT estava prevista para um ano depois da realização do Conclat, mas não aconteceu porque a pelegada não quis fazer.

PT
Criação do PT
A primeira vez que eu disse que estava chegando a hora da classe trabalhadora criar o seu próprio partido foi num congresso dos petroleiros, no dia 15 de julho de 1978, no Hotel Bahia, lá na Bahia. Já em 79 a gente estava criando um movimento para criar o PT.

Tem gente que diz que o primeiro movimento foi para a criação de um partido chamado PP. Mas não. Era PT mesmo. Me lembro que fizemos uma primeira reunião em São Bernardo. Dessa reunião participaram: o Fernando Henrique Cardoso, Almino Affonso, Chico Pinto, Alceu Colares, Fernando Lira, Jarbas Vasconcelos. Participou todo o agrupamento do chamado setor autêntico do PMDB. A pauta era a criação de um partido político.

Nessa reunião, o Fernando Henrique Cardoso disse que não era possível criar um partido político de trabalhadores, que não comportava isso no Brasil. O que era importante era que, primeiro, a gente fortalecesse o movimento sindical e que a gente, então, pensasse em criar um partido socialista mas que tivesse outros agrupamentos. Nós teimamos que era preciso manter o nome de Partido dos Trabalhadores. Afinal de contas nós éramos os donos da idéia e éramos maioria, pô! Então, vamos manter o nome. Aí, mantivemos o nome. Essa reunião foi muito importante, deu até muita imprensa na época. Mas aí, então, o Fernando Henrique dispersou, o Almino Affonso, dispersou, outros dispersaram.

Desse movimento participaram os principais líderes sindicais. Teve um problema muito sério na construção do PT porque tinha muita gente que era nosso amigo mas que pertencia a outra organização e a gente não sabia. Tinha gente do PC do B, gente do MR-8, gente do Partidão, pessoas que já tinham seu partido. Por exemplo: eu não sabia que o Arnaldo Gonçalves era do Partidão, eu não sabia que o Negão era do MR-8, eu não sabia que o Hugo Perez tinha uma proximidade com o Partidão. Então, toda vez que a gente falava de criar o partido eles eram contra: "Não, porque não está na hora, temos que criar o Sindicato tal, fortalecer o Sindicato tal."

Mas a gente insistiu. A gente era: eu, Olívio Dutra, Jacó Bittar, Henus Amorina, Wagner Benevides, o companheiro Cicotti, o companheiro Marcílio, tinha o menino lá de Santos – ou uma cidade daquelas lá – eu esqueci o nome dele agora. Tinha o Paulo Skromov.

Os jornalistas eram quase todos contra. Me lembro que entre os jornalistas, o David era favorável. Mas o David já vem em 1979. A segunda vez que eu falei sobre a criação do PT foi no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Falei no Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, depois falei no Sindicato de Porto Alegre. Bom, chegou um dia, num reunião, não sei se dos metalúrgicos do Rio de Janeiro, a gente falou: "Bom, agora a gente quer discutir um pouco o PT." E, aí, por isso é que radicalidade, de vez em quando, é bom. Aí começou: "Não, porque não vamos discutir, porque não está na hora, tal." Aí o Jacó Bittar, que tinha tomado umas "canjibrinas", falou: "O negócio é o seguinte, só fica aqui quem quiser discutir o PT. Aí, chamaram ele de autoritário, chamaram ele de tudo, mas daí ficou somente nós que queríamos construir o PT. E, aí, resolvemos que tínhamos que construir. Aí começou a pauleira em cima de nós, não é?

O Jacó, o Olívio Dutra, tiveram um papel importante na criação do PT. Também o Wagner Benevides, que todo mundo fala que era louco, mas, se não fosse ele em Minas Gerais, a gente não tinha criado o PT, pelo menos naquele instante. Porque o principal dirigente sindical, João Paulo Pires, era contra. Eu acho que a esquerda também contribuiu muito, a Convergência Socialista contribuiu muito para a gente construir o PT. Porque eu aprendi uma coisa com o Celso Furtado: A gente nunca deve marginalizar esses setores muito esquerdistas. Porque eles são muito esquerdistas e tudo o que eles falam você não deve fazer. Mas eles também evitam que você vá muito para a direita. Então, esse choque te permite ficar no caminho do meio, né?

Eu lembro que eles queriam anunciar o PT no dia 1º de Maio de 1979. Fizeram um jornal que nós mandamos engavetar. Eu proibi. Nós fomos numa assembléia em Osasco e eu disse o seguinte: "Olhe, quem for distribuir jornalzinho, fora do material da categoria, lá em São Bernardo, vai apanhar dos trabalhadores." E, aí, não foi distribuído o jornalzinho aqui, né? Mas o meu amigo, Júlio de Grammont, teve muito a ver com o jornalzinho. O Julinho era meio, acho que chegado, bem não vou dizer ao que ele era chegado não. Mas tinha muito a ver, ele contribuiu para fazer aquele jornalzinho. O jornalzinho era tipicamente, muito na linha daquilo que a Convergência pensava sobre o PT. Então, a gente segurou e, no dia 10 de fevereiro, criamos o PT.

No Congresso de Lins, em 1979, nós levamos uma tese propondo a aprovação da criação de um Partido dos Trabalhadores. E foi aprovada, com o voto do Joaquinzão, com o voto do Argeu. Quem votou contra foi o Arnaldo Gonçalves, o Wagner Lino Alves, porque eles já tinham o partido deles, né? Nesse mesmo ano teve o Congresso Estadual, em Lins e, depois, o Congresso Nacional, em Poços de Caldas. E no Congresso Nacional, outra vez, nós aprovamos o Partido dos Trabalhadores. Era uma tese e foi aprovada também com o voto do Joaquinzão. Ele votou para a gente criar o PT. Mas, aí, ficou a tese e quem começou a levar isso para a frente fomos nós. Começamos a trabalhar.

Aí foi uma alucinação porque tinha que andar o Brasil inteiro. Ou seja, eu viajava para o Acre, viajava para o Piauí, às vezes para me reunir com dez pessoas, 15 pessoas. Mas, para mim, não tinha problema nenhum. Eu estava motivado, acreditava na idéia e tinha muita gente boa querendo discutir isso. Aí, já começou a vir alguns intelectuais, alguns companheiros remanescentes da luta armada, figuras como o Paulo Freire que começaram a fazer um discurso favorável. O Weffort era favorável. E tantos outros, Vinícius Caldeira Brant, teve um papel importante na construção do PT, Álvaro Moisés teve um papel importante.

Eu não posso negar o valor das pessoas em função do que elas fazem hoje, mas tiveram um papel importante. Agora, o peso mesmo, era a partir do Sindicato, tudo girava em torno do que a gente fazia, não é? E como tinha muita gente aderindo, grupos organizados... veja: em 80 o pessoal da Libelu me chamava de a "muleta da ditadura" e, logo depois, ela já estava no partido junto com a gente. E aí, tinha muita gente no movimento popular, juntou tudo. Quer dizer, o cara que era do movimento da Igreja Progressista, que não podia estar no Sindicato porque não era metalúrgico, estava junto com a gente no PT.

PT
Programa
O programa do PT era uma discussão, rapaz! A gente não fazia programa, fazia pauta de reivindicação. A gente tinha muito essa confusão. Qualquer programa nosso começava: a reforma agrária, redução da jornada de trabalho, estatização do sistema financeiro e por aí afora.

A primeira grande discussão era assim: se o PT era tático ou estratégico. Puta, eu não entendia porra nenhuma o que era tático ou estratégico. "Eu só queria criar um partido e vocês querem saber se ele é tático ou estratégico? Seja o que vocês quiserem, porra! Mas vamos criar um partido. Eu quero um partido para eleger deputado, para eleger vereador, para eleger presidente da República, para eleger governador. Eu quero um partido para ganhar as eleições e fazer o que a gente sonha fazer. Outros não, queriam o PT para fazer a Revolução. Se o cara quisesse fazer a Revolução não devia estar preocupado de criar um partido, criasse um exército, caralho! Porra. Então me enchia o saco isso. E não era peixinho pequeno não. Era Genoíno, era o Aitan, era Geraldinho, todos esses figurões do PT: "O PT é tático ou estratégico?" Eu lá sei! Eu lá sabia que discussão era essa, se era tático ou estratégico. O que esses grupelhos achavam era que o PT era tático, que era uma coisa passageira, o estratégico era eles. Mas eu não compreendia isso. Eu não quero confusão na minha cabeça para desgraça, eu só queria criar um partido. Aí, tudo tinha questionamento.

PT
PT - partido sem patrão
Durante um tempo havia essa bobagem de que o PT tinha que ser um partido sem patrão. Mas veja, eu estou falando no ano 2000. Eu também, quando era presidente do Sindicato, que eu pensei o que era o PT, eu achava que um dono de um bar não podia entrar no PT, porque ele era patrão. Eu achava. Esse discurso inicial não era um discurso esquerdista não, era uma concepção muito mais utilizada por setores de Comunidades de Base da Igreja do que pelos grupos organizados. Porque a Igreja tem essa coisa messiânica. Na Igreja, alguns companheiros fazem opção pela fome, não fazem opção pelos famintos. Uma coisa é você fazer uma opção pelos famintos para acabar com a fome, outra coisa é você ser contra o cara ter um sapato novo. Uma vez, eu fui em um comício em Ituiutaba, em Minas Gerais, e estava com um sapato novo, um sapato comum. Aí, eu estou com o pé na carroceria, o padre veio e falou assim: "Olha, tira esse sapato aí, que o povo está todo de chinelo." Eu falei: "E daí que o povo está de chinelo? Eu não estou lutando para andar de chinelo, eu estou lutando para ter um sapato melhor que esse, porra!" Eu também era muito radical, sabe? A gente era muito duro na queda e era uma visão muito classista, achando que somente os operários de macacão poderiam fazer as coisas no mundo. E, não é assim. Por isso é que a gente tinha essa história de "por um partido de operário sem patrão". Por isso é que na campanha de 82 eu dizia: "Vote no três que o resto é burguês."

PT
Primeiras Eleições do PT
Nós tivemos que fazer uma correria muito grande para organizar o PT em tempo de participar das nossas primeiras eleições, em 82. Porque a lei exigia que o partido estivesse organizado, parece que no mínimo em nove estados da Federação, ou em 15, e que estivesse organizado em, no mínimo, 20% dos municípios de cada estado. Então nós tínhamos que correr para fazer filiação. Eu tinha dia que fazia doze assembléias para filiar gente.

Quando criamos o PT, não tinha discussão, eu tinha que ser o presidente. Porque não tinha como explicar você criar um partido e não ser o presidente. Eu era o símbolo da classe operária, o pessoal falava. Você falava em operário, lembrava dos metalúrgicos do ABC, lembrava do Lula, sabe? Então, não tinha como.

Candidatura ao Governo de São Paulo
No ano de 82 eu fui candidato ao Governo de São Paulo e eu achava que ia ganhar. Olha, a paixão que o PT criou no começo, o despertar que o PT criou na juventude, era uma coisa muito forte. Eu achei que ia ganhar. Eu fazia comícios que tinham mais gente do que o número de moradores da cidade. Era uma curiosidade enorme. Quer dizer, eu fazia comício em Sumaré, em Catanduva, em Ubatuba, eu achava que ia ganhar. Não tinha jeito, não tinha como perder aquela eleição. Eu fiquei em quarto lugar, perdi do Jânio Quadros. Eu fiquei tão frustrado, porque pensei que eu ia ganhar. Nós fizemos um comício no Pacaembu monstruoso, monstruoso.

E, aí, eu percebi que nem todo mundo que ri para a gente, nem todo mundo que faz tchau para a gente, nem todo mundo que dá tapinha nas costas da gente, vota na gente, não é? Aí eu fiquei muito frustrado. Eu confesso que foi um tempo que teve um vazio muito grande na minha vida porque o Sindicato não estava mais sob intervenção, já tinha uma outra diretoria e eu tinha perdido as eleições. Então, eu levantava de manhã não tinha o que fazer, ficava desesperado. Nessas eleições, o Olívio Dutra pensava que ia ter 300 mil votos, teve 50. Aí, partimos para tentar reorganizar o PT, levantar.

É por isso que eu acho: tem gente que acha que ser revolucionário é dizer que é marxista, tem gente que acha que ser revolucionário é pegar no revólver para atirar, tudo isso é fácil. Não tem nada mais difícil do que a relação humana. A arte de você convencer as pessoas de que as coisas em que você acredita são importantes para ela. Essa é a grande revolução, viu? Porque você passar duas horas falando num comício, falando, falando, falando, o cara chega em casa, a televisão destrói aquilo em dois minutos. Eu lembro de uma cena muito forte em Santo André. Tinha uma fazenda, quase na divisa de São Bernardo com Santo André, Sítio dos Viana, era uma coisa assim. E lembro que nós passamos quase que nove dias lá, um monte de gente do PT, enfrentando a polícia. Na época da eleição o Lincoln Gray foi com um caminhão distribuir leite e nós fomos de tarde fazer um comício, tacaram pedra na gente. Então, eu descobri o quanto é difícil, porque esse negócio tem um preconceito, tem um monte de coisas que depõem contra você. Somente em 85, eu fui para Cuba e aí, conversando com o Fidel, o Fidel falou pra mim: "Olha Lula, você está enganado, não tem na história da América Latina um operário que tenha tido um milhão e tantos mil de votos. Pára com essa bobagem de que vocês perderam, vocês foram grandes vencedores. É o primeiro exemplo da história. Conta outro. Não tem." Daí que eu me dei conta de que a derrota não tinha sido tão grande, né? Me motivei para outras.

Campanha pelas Diretas
Eu vivi momentos importantes, a campanha das diretas foi uma campanha fantástica. Na verdade, o PMDB tinha uma certa bronca de mim, eles achavam que montavam o palanque para mim. Porque eu ia nos palanques e, como falava coisas que o povo queria ouvir e que não tinham uma diferenciação do discurso, então, chegou um momento que o Montoro falou para o Ulisses Guimarães: "Olha, vamos parar de montar palanque para o Lula." E eu acho que a Campanha pelas Diretas ajudou muito a construir o PT.

Acho que foram quatro os momentos importantes que eu participei: as greves de 78, 79 e 80, a campanha das diretas, a campanha presidencial de 89, e o impeachement do Collor. Que foram coisas de grande envergadura, que envolveram a sociedade civil.

Campanha pelas Diretas
Ulisses Guimarães
Eu tinha uma boa relação com o Ulisses Guimarães. Eu gostava do Ulisses. O Ulisses era um político que você pode considerar uma figura séria. Não era do meu lado, não pensava igual a mim mas era um democrata na concepção da palavra. O Ulisses foi enganado também, foi enganado por Tancredo, Fernando Henrique Cardoso, foi rifado na campanha de 89. O Ulisses Guimarães, em 88, quando terminou a Constituição, era tido pelos cientistas políticos como o invencível na campanha presidencial. O Brizola era tido como invencível, e nenhum deles foi. O Ulisses teve menos de cinco por cento de votos, coitado. O PMDB o rifou, como rifou o Quércia em 94.

Candidaturas
Candidatura a Deputado Federal
Eu fui candidato a deputado federal em 86. Tive 652 mil votos. Depois, a história, todo mundo já conhece. No meu mandato de deputado, eu acho que foi o melhor momento da câmara. Mas sabe o que acontece? Eu penso que para todo mundo que sai do movimento, como eu saí, com a experiência que eu saí, ir para o Congresso Nacional é matar a gente. Porque veja: você é acostumado a ser um líder de massa, é acostumado a ter liberdade de falar o que bem entende sem precisar ferir nenhum decoro. Você está habituado a falar para milhares de pessoas todos os dias. De repente, você fica num Congresso Nacional, onde tinha que fazer um discurso para cinco pessoas te ouvirem, e nem estavam ouvindo, estavam de costas para você. Isso era uma coisa que me fazia mal. É por isso que eu não quero mais ser deputado. Eu só queria ser constituinte e acabou. Eu não queria ser deputado.

Eu queria provar para o PT que para ser importante, para ter voto, não precisa ser deputado, eu não preciso de cargo. É só ter vontade de trabalhar. E você só é respeitado pelo trabalho que faz. Não tem outra coisa. Então, se você trabalha, se você se mata de trabalhar, se você viaja, se você constrói as coisas, você tem representatividade. Ficar falando numa tribuna naquele Congresso, coisa mais asquerosa, você fazendo um discurso, não convence um a votar em você. Depois, você está falando olhando na cara de pessoas que são teus inimigos. Você já sabe que a banda do lado esquerdo, para quem você está falando, é toda contra você. Eles não batem palma, eles atendem celular, eles conversam, quer dizer, babaca. Mas houve resistências no PT a essa minha decisão de não ser mais deputado. Os companheiros do PT entendiam que eu deveria ser candidato porque entendiam que eu ía ter um milhão de votos, que ia puxar votos para a legenda. Eu não queria ser, não tinha, não é o meu campo. O Parlamento é para quem gosta de parlamento.

Quando fui eleito, quando entrei no Congresso, eu, um torneiro mecânico, a primeira impressão que se tem é a seguinte: a classe operária vai ao paraíso. É a primeira impressão. Porque nós, até então, tínhamos tido uma história de muito poucos trabalhadores no Congresso Nacional. E eu acho importante os trabalhadores estarem lá. Eu acho que o Congresso Nacional é uma instituição muito importante e ela será mais importante quando nós tivermos competência de eleger gente séria. Eu vivi o momento mais auspicioso do Congresso, que foi o da nossa Constituição de 88. Aquilo realmente funcionou, a sociedade civil estava lá dentro pressionando. Então, foi um bom período. Agora, ser minoria no Congresso Nacional é duro, viu? Porque você não ganha uma. Imagina o que são quatro anos perdendo! Só se vota quando a maioria quer, só tem sessão quando a maioria quer, à oposição é dado o direito apenas de espernear. Agora, tem gente que bebe aquilo. Tem gente que nasceu para aquilo, tem gente que gosta disso, não é? Então, eu acho que o PT precisa eleger bons e cada vez mais deputados para a gente poder mudar a história, senão, não muda.

Candidaturas
Candidatura a Presidência da República
A eleição para presidente, em 1989, foi uma coisa muito emocionante, os movimentos de 80, eu acho que dificilmente se repetirão. Veja, um candidato do PT pode até ter mais voto do que eu tive, mas a emoção coletiva criada naquela campanha, acho que vai demorar muito para acontecer. Porque é a coisa da primeira vez, é a primeira emoção. Ou seja, dizem muito que quando um homem e uma mulher têm sua primeira transa mal construída ficam frustrações e decepções para o resto da vida, não é? Mas quando a transa é bem feita, guarda também recordações para o resto da vida. Eu acho que aquela campanha foi uma grande transa da sociedade civil brasileira e daqueles que lutavam por democracia.

Ali teve uma coisa importante, chegou um momento que eu achei que deveria desistir, porque você não sabe o que é ser candidato caindo em pesquisa. Quando você está subindo é ótimo, nem que seja meio ponto. Mas eu lembro que tinha feito um comício em Teresina, tinha feito comício em Belém, era tanta gente na rua. Em Belém a coisa foi tão forte que o corpo de bombeiros teve que ir para a rua com o caminhão pipa jogar água no povo, um calor maluco. Eu saí de Belém, fui para Manaus, aí eu falei: "Eu estou ganhando essa eleição gente! Não é possível. Eu estou ganhando. Um cara que está perdendo não pode ter isso de gente." Eu fui fazer uma caminhada no Piauí às três horas da tarde. Três horas da tarde no Piauí, na época de verão, dá para você fritar um ovo na cabeça, e nós fizemos uma caminhada que a impressão que eu tenho é que foi a cidade inteira atrás da caminhada. "Ganhei as eleições."

Aí, quando eu chego em Manaus o Ricardo Koscho, meu querido, companheiro, irmão, assessor de imprensa – talvez o mais brilhante jornalista brasileiro, não apenas porque sabe escrever, mas de coração e de cabeça – me desce no aeroporto, a gente ía visitar a hidrelétrica de Balbina. Daí, o Ricardo desceu, nós íamos pegar um vôo da Eletronorte, um helicóptero. O Ricardo, em todo lugar que ia, chegava, comprava o jornal e vinha com ele enroladinho debaixo do braço. Mas eu estou sentado no avião, num otimismo, aí chega o Ricardo e fala o seguinte: "Companheiro Lula, uma má notícia." Aí o Estadão traz a manchete: "Lula cai mais meio ponto." Ou seja, eu estava com 2,75, caí para 2,25. Bicho, isso no fígado de um candidato é um soco no otimismo que quase que eu não vou mais à Balbina. Eu falei : eu vou deitar aqui no aeroporto e vou esperar a morte. Não é possível, não é possível, alguma coisa está errada. Eu fui pra Balbina – fica bem distante de Manaus – e aí, eu cheguei lá, tinha uma briga muito grande porque a hidrelétrica não produz energia nem para atender aos interesses de Manaus e fez uma devastação incomensurável. Aí, cheguei em Balbina, o ódio, eu xinguei o Ricardo de palavrão, eu falei: "Olha, ter um assessor como você, a impressão que eu tenho é que você trabalha para os meus adversários, bicho! Você está vendo que eu estou num clima bom, por que você mostra essa desgraça?"

Aí, chega em Balbina, tinha mais ou menos umas cem pessoas me esperando, e um monte de criancinha, uma mistura de índio com desempregado, sabe? Tudo com a bandeirinha do PT me esperando. Rapaz, aquilo! Olha, eu nunca vou morrer de infarto. Porque você cria um partido em São Bernardo, um partido de operário de macacão e, aí, você chega no coração da Amazônia, encontra aquelas criancinhas com a bandeira do PT. Aí já não me importava mais a quantidade de voto. Aqueles 2,5%, eu não estava mais ligando para aquilo. O importante era que o que a gente tinha plantado aqui, tinha sido que nem tiririca, tinha nascido por tudo quanto é lugar. Com aquilo, eu voltei a ficar num otimismo, sabe?

E, aí, quase que como um milagre, eu comecei a subir na pesquisa, fomos para 16%, quase 17, que garantiu o segundo turno. Mas foi uma coisa! Tinha dia, eu andava tão nervoso, vocês não sabem, Deus queira que vocês nunca sejam candidatos majoritários. Eu tinha dia, a gente não tinha nem assessoria, a gente não tinha dinheiro. Era eu, o Wander, o Calil. Rapaz, quando você está por baixo... Eu chegava no comitê, ficava olhando alguma coisa para brigar com alguém. Eu precisava brigar com alguém, então eu brigava pelo papel higiênico, eu brigava pelo sabonete, eu brigava pelo jornal, eu brigava pela caneta. O pessoal, quando me via, já ia encostando a bunda na parede porque: "Já vem o Lula dar esporro." Aí, rapaz, o Ricardo falava assim para mim: "Lula, vamos fazer um pacto aqui, um pacto de bom humor, não vamos mais dar esporro, ninguém agüenta mais, bicho. Ninguém, agüenta mais. Daí você vai melhorando, você vai tentando melhorar." Mas é duro, viu?

Bom, aí, quando eu fui para o segundo turno, eu tinha certeza que ia ganhar. Até hoje ninguém me convence que eu perdi aquela eleição. Eu não vou sair dizendo por aí. Mas até hoje, eu posso dizer isso 15 anos depois, eu tenho certeza que eu fui roubado naquela eleição. Não tinha. O debate do dia 13 ao dia 17 não tem esse efeito rapaz. E eu vinha que nem um concorde subindo e o outro vinha caindo. Não é possível. Hoje eu tenho consciência que três milhões de votos, nesse país, os negos roubam como tirar doce de criança dormindo, sabe?

O pessoal responsabiliza minha derrota pelo último debate pela televisão. Mas eu acho que isso é bobagem, bobagem. Eu acho que teve muito mais efeito o debate, a tramitação do debate, a divulgação do debate no sábado pela Globo do que o debate em si. É importante lembrar que o debate sempre começava dez e pouco da noite, é importante lembrar que uma boa parte das pessoas mais pobres estão dormindo 11 horas da noite e é importante lembrar que o Jornal Nacional é oito e meia. E eles trabalharam apenas a parte boa, ou seja, você só mostra o gol. Você não mostra a cotovelada que o adversário deu, a falta que o cara fez no da bola, eles mostraram três minutos de coisas boas do Collor e três minutos de coisas ruins minhas.

E também não tem só isso. É preciso ter clareza de que a gente não tinha o Partido organizado no Brasil inteiro. Tinha mais de 2500 municípios em que a gente não tinha organização, sabe? E tem lugar em que a urna andou 24 horas de barco, nego tira voto, coloca cobra, jacaré, sabe? Até chegar lá no Colégio Eleitoral. E a gente não tinha como fiscalizar. Então, eu senti muito esta derrota porque eu tinha batido a mão no...

E, depois, a gente errou muito. Eu faço muita autocrítica porque eu é que deveria ter dado um grito e não ter aceito aquela agenda que eles fizeram. Nós tínhamos acordado que eu não ia participar de nenhuma atividade na véspera do debate, sabe? E me fizeram ir para Brasília. Eu fui dormir três horas. Eu dormi três horas. Imagina: eu chego à meia noite do Rio de Janeiro, me levam para um jantar para arrecadar finanças, eu chego em casa três horas da manhã, seis horas me acordam para ir para Brasília. E, aí, eu voltei às seis horas da tarde para o debate das nove. Eu não consegui dormir. Em 48 horas eu dormi três horas para ir para um debate. Quer dizer, isso aí é um crime, sabe? Então, eu não culpo a ninguém, eu culpo a mim mesmo porque eu é que deveria ter recusado.

Mas sabe o acontece? Quando você está na linha de fogo, você nunca acha que a bala vai te pegar. Então, eu conhecia o Collor, eu sabia que o Collor não suportava um debate comigo, sabe? Ele era muito limitado, ele criou quatro ou cinco frases de efeito, acabou, colocava, sabe? Era como um cara querer disputar com o Romário. Bobagem, o Romário é o melhor centro avante do Brasil, goste ou não goste dele. Ele marca a bola, a hora que a bola pingar, de cada dez ele marca nove. E eu tinha certeza que o Collor não agüentava debate. Ele não conhecia coisas, não conhecia nada, ele era uma invenção da Globo. Ele foi eleito prefeito por invenção do pai, foi eleito governador por invenção da família e da televisão dele e foi eleito presidente por invenção da Globo, sabe? Então, nessa derrota eu realmente baqueei.

Teve também o episódio da Míriam Cordeiro. Eu vou confessar uma coisa para vocês: aquilo afetou muito mais aos meus companheiros de partido do que a mim porque até hoje eu não vi nada. Eu não sei o que a Míriam Cordeiro falou, eu nunca vi a cara dela na televisão, eu só sei o que me falaram. O partido ficou traumatizado, eu chego no aeroporto a uma hora da manhã, o companheiro dirigente que vem conversar comigo pede para eu vir sozinho para a gente conversar, já arrumei uma briga com a Marisa porque ela se sentiu alijada da discussão. Quer dizer, na verdade, o Partido ficou tão baqueado, o Partido é que deveria ter tido uma estratégia de atuação minha, não esperar que eu estabelecesse uma estratégia. Eu era a pessoa atingida. Então, era alguém que não fosse atingido que tinha que pensar, o chamado estado maior, falar: "Olha, a tática vai ser essa." Aí, pedem para eu convencer a mãe da Míriam a ir para a televisão, ou pedem para eu pedir para a Lurian falar mal da mãe. Eu não vou pedir para a mãe falar da filha nem para a filha falar mal da mãe. Que mundo cão desgraçado que é esse? Então, eu não vou ganhar uma eleição assim. Mas o partido poderia ter feito sem que eu soubesse.

Eu lembro que cheguei de madrugada no aeroporto, me levam para o estúdio. "O que eu vou gravar? O que eu vou gravar?" Não, eu não tinha nada para falar. Essas coisas só sabe quem sente e é difícil você dizer como é que as pessoas têm que se comportar. No caso de um partido político, o partido é que tem que tomar a decisão: "Olha, vamos tomar tal tática, vamos estabelecer tal linha de comportamento, vamos fazer assim."

Eu acho que as duas grandes vítimas naquele episódio foram a Marisa e a Lurian. A Marisa, porque durante muito tempo ela nunca digeriu a existência da Lurian. É uma coisa complicada. Hoje eu fico feliz porque não é só ela, eu conheço hoje algumas dezenas de companheiros meus que são separados, que têm filhos com outras mulheres, e que, normalmente, as atuais não admitem. Não é? Por mais modernas que sejam não admitem. Conheço dezenas de companheiros. E a Marisa nunca assimilou isso. A Marisa nunca me contou mas ela deve ter sido muito provocada. Durante muito tempo, sem que me contasse, a Marisa deve ter recebido muitos telefonemas anônimos de provocação a ela por parte da outra. Ela nunca me contou, sabe? E ela, sempre como se fosse mais atingida do que eu nesse processo. Eu até, não discordo dela.

E a Lurian, porque você submete uma menina de 15 anos a um processo imbecil, que eu jamais colocaria contra qualquer pessoa. Eu fui o único cara no Brasil condenado por ter uma filha fora do casamento, quando eu nem era casado. Eu era solteiro quando a Míriam Cordeiro engravidou, sabe? Eu fui o único cara execrado. E é engraçado, eu falo isso com mágoa, é que nem as feministas do PT tiveram coragem de me defender, sabe? As pessoas são covardes diante de determinadas coisas.

Mas, na verdade, eu não acho que isso pesou nas eleições não. Eu acho que pesou muito mais o seqüestro do Abílio Diniz, a tentativa de vender a gente como bandido, como seqüestrador, do que esse episódio da Míriam Cordeiro. Eu acho que, num primeiro momento, esse negócio da Míriam Cordeiro teve até um efeito positivo para mim. Não eram poucas as pessoas que me encontravam e diziam: "Olha Lula, um canalha que faz isso não merece ser presidente da República." No negócio do Abílio, não. Assustou porque ninguém nunca afirmou, a não ser o jornal do Acre, uma coisa é você dizer "O Lula seqüestrou o Abílio Diniz." Outra coisa é você dar risadinha e dizer: "Olha, estão dizendo, nós acreditamos, que o PT seqüestrou." Isso é mais mortal do que dizer que seqüestrou, né? E tem outros fatores aí. Ninguém imagina o que foi entre o dia 13 e 14 e o 17. Eu acho que não tem nenhum avião nesse país que não foi liberado para a campanha do Collor. Não tem um avião. Acho que não teve um empresário que não mandou carta para o seu funcionário, ameaçando seu funcionário. Então, é uma máquina mortal, né? Foi isso.

Mas eu guardo a mais extraordinária lembrança dessa campanha porque ela motivou a mim, motivou milhões de pessoas. Sabe, hoje quando eu encontro – é ruim porque a gente descobre que está ficando velho – mas quando eu chego num lugar que vêm meninas bonitas de 12 anos, 15 anos, 20 anos: "Olha, eu estava no teu colo na campanha de 89." "Olha, eu estava na barriga da minha mãe." "Olha, você me pegou no colo." Tem vez que aparece cada menina bonita: "Você me pegou no colo quando eu era pequena." E agora se ela quisesse que eu pegasse no colo não agüentava mais. Então, é essa coisa da velhice ser implacável, não é? Mas foi a melhor campanha. Eu acho que a gente viveu um momento auspicioso.

Depois disso, a direita se recuperou. O medo que eles passaram em 88 e 89 fez com que se aglutinassem e fizeram o maior pacto já feito na história desse país, para poder assimilar o que? Um candidato derrotado. Porque eles só assimilaram o Fernando Henrique Cardoso a partir de maio de 94, quando perceberam que eu tinha quase 50% da pesquisa. Aí, bom: "Vamos, então, encontrar o cara." E foram procurar a pessoa perfeita. Eles pegam um intelectual, com uma tradição na luta democrática no país, com boa penetração na intelectualidade européia, com boa penetração na Igreja Católica brasileira, nos setores médios. No fundo, no fundo, o Fernando Henrique era aquilo que muita gente da classe média quer ser. O intelectual, falando inglês, francês, sei lá mais o que, com bom trânsito na sociedade intelectual da Europa, professor da Sourbonne, professor não sei de onde. É tudo o que desperta...

Então, a direita consegue pegar um cara desses, sabe? A gente de vez em quando não mede a importância disso mas a direita junta PMDB, PFL, PPB, e junta PTB contra nós. O que significa? Isso significa 90% dos prefeitos brasileiros, isso significa 80% de todo o parlamento brasileiro, de vereador a senador, isso significa 90% de todos os meios de comunicação do Brasil, isso significa 80% de todos os governadores, isso significa 95% de todo o capital nacional e multinacional. Quer dizer, é pouco?

É por isso que eu acho que o PT precisa tratar de fazer aliança política. Nós vamos tentar quebrar esse bloco monolítico que se joga contra nós, vamos jogar água fria. Nós precisamos ter mais gente do nosso lado. Ou, sei lá como, conscientizar a sociedade. É muita força, eles conseguem. É importante lembrar uma coisa: se você pegar hoje Itamar, Ciro e Lula, pelas pesquisas, mais o Garotinho, praticamente nós, que aparecemos nas pesquisas, temos 63% dos votos. Tente raciocinar pelas pesquisas hoje, estou falando do dia 26 de abril do ano 2000, as eleições serão apenas em 2002. Hoje, Itamar Franco, Garotinho, Ciro e Lula representam, pelas pesquisas, 63% dos votos pelo país. Pesquisas de intenção de voto. De uma coisa eu tenho certeza: nós não baixamos de 30, precisamos arrumar outros 20. E os outros 20%, obviamente, estão nas alianças.

E aí, é preciso convencer o Partido de que é necessário. Outro dia eu brinquei assim: "O PT tem medo de aliança como as pessoas têm medo de perder a virgindade." Se você perde a virgindade num ato de força é ruim, se você é estuprada é ruim, se você, mesmo homem, é violentado, é ruim. Agora, se você faz isso como uma coisa boa, saudável, por vontade política, perder a virgindade é a melhor coisa do mundo, não é? Se as pessoas descobrissem o quanto é bom, perderiam mais cedo. E aliança política é isso, tem problema na aliança política, é convivência democrática na adversidade. Você vai conviver com companheiros que não são do seu partido político, que não pensam igual a você. Então, tem que construir pontos mínimos, alguma coisa que dê liga para você poder se aliar, pelo menos para derrotar isso que está aí. Porque, senão, ele se reconstrói.

Olha, não tem, na história do Brasil, casos em que a elite tenha deixado os pobres participarem das vitórias. Se você pegar os momentos em que começaram as maiores rebeldias nesse país, desde a luta da Independência, antes dela, você vai perceber – na luta da Inconfidência tem uma coisa assim: um dos inconfidentes fala: "Olha, vocês não acham bom a gente liberar, acabar com a escravidão para que os escravos lutem do lado da gente?" Sabe o que os inconfidentes disseram? "Não, e depois, quem vai trabalhar para nós?" Ou seja, se você pega a Revolução Pernambucana, é importante saber que Pernambuco conquistou a independência quatro anos antes do Brasil. Alagoas era de Pernambuco, Pernambuco perdeu. Uma parte da Bahia era de Pernambuco, Pernambuco perdeu. Porque Pernambuco era um estado muito rebelde. Então, se você pegar a Revolução de 1817 em Pernambuco você vai constatar o que? A burguesia brasileira estava lutando contra a coroa portuguesa, mas toda vez que falava o seguinte: "Vamos colocar os operários, os negros, os índios, para lutar junto com a gente." "Não, nós precisamos ganhar sem eles, porque nós é que temos que ficar no poder." Ou seja, a elite brasileira é tão perversa que ela nunca deixou que o povo vencesse alguma coisa. Nunca! Toda vez que o povo está para vencer ela faz uma negociação, e ela vence, né? Toda vez.

Eu lembro do Tancredo Neves num comício de Belo Horizonte, das diretas, em 84, aquela multidão, 300 mil pessoas. O Tancredo pega na minha mão e fala assim para mim: "Lula, e o que a gente faz com o povo?" Você percebe que na elite brasileira, chegada ao poder, não tem povo. O povo tem que ser apenas platéia, o povo não pode estar no palanque, o povo tem que estar em baixo. Então a revolução do PT é essa, é colocar o povo no palanque. E eu acredito que no Brasil só tem solução se a gente tiver mudança de classes sociais governando esse país. Aliás, o Fernando Henrique Cardoso é a negação, a negação da intelectualidade na política. Quem pensa que para governar o Brasil precisa ter diploma universitário, pode começar a rasgar o seu, porque isso não resolve o problema do Brasil.

Impeachment do Collor
Uma coisa que eu acho importante dizer, que é polêmica: a gente acha que fomos nós que derrubamos o Collor, né? Obviamente, teve um papel importante dos partidos de oposição, teve um papel importante dos Sindicatos, teve um papel importante dos caras pintadas. Agora, o Collor não cairia se a elite brasileira não estivesse com o saco cheio do Collor. Não é porque o Collor estava fazendo mal para ela, é porque o Collor estava roubando sozinho. Se você pegar a história, você percebe que o Collor era tão arrogante que rompeu com a própria elite conservadora. Ele se juntou com a quadrilha dele de Alagoas, mais o PC Farias, e passou a: ninguém prestava, sabe? Então, se a elite brasileira não estivesse com o saco cheio dele, aquele Congresso jamais votaria o impeachement dele. Jamais! Nós tínhamos muito mais força na campanha das diretas, nós colocamos muito mais gente na rua e não aprovamos a simples eleição para presidente. Imagine tirar um presidente. Então, tirou o presidente porque o povo estava cansado do Collor, tinha muita corrupção, mas porque o Roberto Marinho queria também, o Antônio Ermírio de Moraes queria, porque os governadores queriam, porque os fazendeiros queriam, porque todo mundo queria, cansou. Ele começou a roubar sozinho, então, resolveram tirar.

Mas, obviamente, foi uma campanha cívica fantástica. Eu estou dizendo isso apenas para a gente aprender. O Pitta só cai se os vereadores, se a elite de São Paulo quiser. Se a elite resolver comprar vereador para não deixar, ele não cai, termina o mandato. Eu acho que num país de homens e mulheres decentes – eu digo isso como se estivesse olhando para o meu filho Luís Cláudio que é a coisa que eu mais adoro na vida – se acontecesse comigo dez por cento do que a aconteceu com o Pitta, eu não precisava de impeachement, eu não precisava de nada, eu ia embora. Eu não ia ficar num cargo a qualquer custo. Eu poderia até brigar depois, fora, eu poderia até provar minha inocência fora. Mas é humanamente impossível governar assim. Agora, essas pessoas não têm grandeza para tomar essa atitude.

Caravanas
Eu acho que a caravana foi mais que uma universidade porque era a mistura da teoria e da prática. Nós resolvemos fazer as caravanas porque descobrimos que nós... Numa campanha presidencial tem muita mentira, ninguém conhece o Brasil, então, decidimos conhecer o Brasil. Então, nós montamos a caravana. Em cada região que a caravana ia, tinha um estudo sobre a região e tinha a palestra de um especialista antes de chegar no local que a gente ia e você tinha um debate antes. Então, era uma coisa primorosa. Você imagina que nós passamos 14 dias viajando de barco no Rio Amazonas e todo dia depois do almoço no teto do barco juntava todo mundo da caravana, vinha uma pessoa dava uma aula para a gente sobre a região que a gente ia, sabe? E, aí, a gente abria um debate. Uma espécie de uma universidade ambulante. Foi uma lição de vida que, se esses merdas que governam o Brasil se dessem ao luxo de fazer, não venderiam o Brasil como estão vendendo. Eu tenho certeza disso.

Depois da caravana uma das coisas que... De vez em quando eu falo assim: "Eu não perdi porra nenhuma, eu acho que o povo brasileiro é que perdeu. Ele está jogando fora a chance que tem." Aliás, historicamente, jogou muita chance fora. Porque eu fico imaginando se um presidente da República pudesse pegar um ônibus com ar condicionado desses, ônibus leito, e falar o seguinte: "Sabe de uma coisa? Eu vou conhecer o meu país." Ele pode despachar de lá. Ele pode despachar, não pode? Hoje com computador, com fax. Ele não passa 15 dias no Chile, 15 dias na Argentina, 15 na China, 15 dias na Europa, não vai visitar museu? Por que não vai visitar o Brasil? Passar dez dias andando no Vale do Jequitinhonha. Ir ver como é que vive esse povo. Vai para o Nordeste, vai para a Amazônia, sabe? Leva aqueles navios da marinha. Dá para governar de lá, mais confortável do que governar de Brasília. Vai lá e vai ver.

Então, uma das frustrações é que eu imaginava colocar todo o ministério – esse negócio de ministro ficar coçando o saco – colocar todo o ministério num barco: "Vocês vão ver o que vão ter pela frente." E, aí, começar a governar para essa gente, porque essa gente é que precisa de governo. Você acha que os estudantes da USP precisam de governo? Você acha que os empresários da FIESP precisam de governo? Você acha que os bancos precisam de governo? Não. Quem precisa é essa gente. E, é exatamente essa gente que não tem acesso. É exatamente essa gente que está marginalizada. Então, vamos ver.

Nas caravanas aconteceu muita coisa marcante. Tem coisas que, de vez em quando, fico olhando as fotografias para relembrar. É muito forte, quando você chega num lugar, você vai numa comunidade... Eu estava no Mato Grosso, passei num acampamento dos Sem Terra e uma menina, acho que não tinha mais que dez anos de idade, fez um discurso me homenageando e no discurso ela fala: "Olha Lula, eu sei que eu não terei futuro se você não chegar a presidente da República." Certas coisas são muito fortes. Certas coisas te marcam para o resto da vida, sabe? Pessoas que estão debilitadas, que estão em firmas, que estão em cima de uma cama e que mandam um filho ir num comício dizer: "Olha, fala para o Lula que eu não quero morrer sem ver ele." Sabe? Então, essas coisas pesam, marcam, fazem com que a gente tenha muito mais responsabilidade. É por isso que eu sei que estou predestinado a morrer nessas luta porque não tem como parar. Não tem como parar. E eu gosto de fazer. Se dependesse de mim, eu não ficava em São Paulo um minuto, eu ia viajar esse país.

A verdade é que aqui no Brasil as pessoas fazem poucas coisas. Essa é uma discussão que tivemos com o Paul Singer recentemente: "Bom, o socialismo utópico é o que a gente vai construir, e que a gente nem sabe como é. E o que a gente pode fazer hoje? Qual é minha ação socialista hoje? Eu pelo menos peguei uma velhinha atravessei a rua com ela? Eu pelo menos peguei a minha roupa velha e dei para uma pessoa? O que eu estou fazendo para construir esse socialismo?" Se ficar esperando para que tenha uma revolução onde ninguém diz que é revolucionário, não vai acontecer o socialismo nunca. Então, o que a gente pode fazer no dia a dia? O que a gente pode trabalhar?

Pessoas
Fidel Castro
Entre todas as pessoas com quem me relacionei ao longo de minha vida pública, a figura mais impressionante é o Fidel Castro. Eu acho que o Fidel Castro é o maior mito vivo que nós temos hoje. Ele teve um gesto de grandeza inesquecível. Quando veio para a posse do Collor, ele inventou uma agenda em São Paulo porque ele queria almoçar na minha casa, para não ficar apenas em torno do Collor. E foi almoçar em casa. É uma coisa de muita lealdade, não é?

Pessoas
Pessoas Marcantes
Pessoa muito marcante para mim é o Mandela, uma figura excepcional. Dizem que a cadeia deforma o homem, e o Mandela é exatamente o oposto, ou seja, a cadeia deu a ele a dimensão do estadista, do poder. É uma pena que ele chegou muito velho ao governo. Uma outra figura muita simpática, para mim, é o Arafat. Uma beleza de figura. Essas pessoas são figuras de muita projeção. Essas foram as principais pessoas.

Depois eu vivi um pouco mais intensamente a Revolução da Nicarágua, fui muitas vezes à Nicarágua. A Frente Sandinista também é uma coisa que emocionava demais. É uma pena que os dirigentes não estavam à altura da Revolução. Eu convivi bastante com os companheiros que fizeram a revolução em El Salvador, hoje parte deles estão no poder, são deputados, ganharam, é uma coisa importante. De impressão mesmo, figura marcante que você não esquece, são esses três que eu falei.

Futuro
Eu quero reiterar, aqui, o seguinte: eu sempre sonhei em contar essas histórias, mas num lugar diferente. Por Nossa Senhora, eu sempre sonhei, um dia, a gente juntar um grupo de companheiros, num lugar só, Vicentinho, Meneguelli, Guiba, os presidentes de Sindicato e os companheiros, em volta de uma mesa e bota o microfone, bota duas ou três câmeras e vamos soltar bobagem ali. Eu tenho certeza que a essência ía ser uma coisa primorosa, sabe?

Bem, hoje eu não sei por que, inventaram que eu sou presidente do PT. O PT não tem esse título, sabe? Eu acho que foi muito mais a imprensa porque não tinha como falar, quer dizer: "entrevista com Luís Inácio o que? Ex, ex, ex..." Eu acho que eles inventaram esse negócio de presidente de honra para arrumar um título para mim. Eu, além de continuar sendo presidente de honra do PT e ficar cumprindo uma agenda nacional do Partido, trabalho num instituto de cidadania, presidido pelo meu amigo Osvaldo Bargas, pelo menos até o dia 26 de abril do ano 2000. Esse instituto se propõe a duas coisas fundamentais: primeiro, a apresentar para a sociedade brasileira propostas de políticas públicas alternativas, que é uma coisa que falta muito no Brasil, projetos do que fazer com esse país. E a outra coisa é promover debates sobre questões insolúveis, ou seja, têm temas que são quase insolúveis, que as pessoas não gostam nem de discutir. Como no instituto a gente não vota nada, a gente, então, sempre faz uma convocação de pessoas importantes do PT, da CUT, do movimento popular e debatemos o tema. Não vai votar nada mesmo mas, pelo menos, todo mundo fica com clareza do que pensam as pessoas.

E continuo fazendo política, dos outros agora. Estou trabalhando que nem um desgraçado nessa agenda de candidatura a prefeito porque eu acho que o PT vai crescer muito. O PT vai crescer muito.

Avaliação de Trajetória
Primeiro, eu era bom de bola hein? Tem foto minha jogando bola, eu era uma cara bom de bola. Eu era um jogador bom de bola. Eu, com 16 anos, 17 anos, era muito pequerrucho, eu jogava em primeiro quadro de esporte. Isso não é qualquer um que joga. Depois eu joguei algum tempo no Sindicato. Depois o Sindicato resolveu fazer um time para competir eu resolvi: "aí vira bandidagem, você começa a dar dinheiro para o jogador", e caí fora.

O meu problema é o seguinte: eu sempre tive a facilidade de conversar muito, sabe? Eu aprendi muito com o Maurício, eu aprendi muito com o Possidônio, eu aprendi muito com o Barelli, eu aprendi muito com o Pazzianoto. Eu não estou julgando as pessoas pelo que elas são hoje, mas pelo que fizeram.

Então, eu aprendi muito com o conjunto dos trabalhadores. Quer dizer, eu jamais recusava, com um trabalhador, um assunto que ele quisesse conversar comigo. Eu, para chegar numa assembléia e fazer um discurso, ouvia 50, 60 trabalhadores. Eu tomava cachaça com o Possidônio e ficava conversando lorotas, amenidades, durante horas, horas, horas.

O que é importante é que você tem que estar sempre atento para aproveitar a essência do que ouviu. O que não presta joga fora. O que presta guarda para o teu aprendizado. O Possidônio era uma pessoa que também tinha dúvidas com relação ao Paulo Vidal, que era um cara tido como de esquerda naquele tempo, não é? Então eu conversava muito com essa gente, ouvia muito essa gente, conversava muito com o trabalhador. Eu saía do Sindicato, ia para um bar, ficavam 10, 12, 14, 15, 20, 30 companheiros discutindo.

Eu aprendi muito com um companheiro, que está no Sindicato até hoje, chamado Osvaldo Rodrigues Cavignato, é um companheiro, hoje, economista do Dieese. Na época ele era ferramenteiro, era oposição a mim também. Mesmo sendo oposição a mim, ele se formou em economia, eu o contratei para ser meu assessor econômico. Naquele tempo um Sindicato ter assessor econômico era um luxo. Por que eu o contratei? Porque era o primeiro ferramenteiro, primeiro peão que tinha um diploma universitário e estava na categoria trabalhando. Aí, ele trabalhava na Brastemp ou na GM, eu tirei ele de lá e levei para o Sindicato. Ele ficou meu assessor. Ele foi preso em 75, na época do Wladimir Herzog, apanhou que nem gente grande. Aí ele saiu, continuou trabalhando comigo, continuou sendo meu companheiro. Esse é outro que aprendi muito com ele, porque ele era bem politizado, a gente conversava muito, ele confiava em mim, tanto é, que eu fui padrinho de casamento dele, né? Tinha um trio, era eu, ele e o Bolinha, que hoje está em Sorocaba. A gente bebia, conversava, depois o Bolinha entrava quase que em coma alcóolico, eu ia levar ele na Vila Baeta.

Mas eu acho que isso me fez aprender muito, sabe? Esse negócio de conversar muito, de ouvir bastante. Eu acho que, o Possidônio pode até falar isso melhor, porque é bom conversar com um cara que gosta de tomar uma cachacinha. Eu fazia isso. Fazia isso de sábado à domingo, de segunda à segunda. Não tinha chuva, nem sol, nem feriado, a gente conversava muito. E depois, como eu fiquei logo meio famoso, era convidado para muita palestra. Então, eu tinha que ler alguma ciosa, eu tinha que conversar com alguém, tinha que pegar um palpite de alguém para poder falar alguma coisa, sabe? Hoje, fico de vez em quando lembrando de coisas que eu falava, puta merda! Não sei como é que eu cheguei onde cheguei. Mas, para aquele momento, era muito importante aquilo.

Mas, no início, para mim, a questão era mais sindical. Eu dizia assim, textualmente, nas greves de 78: "Eu não gosto de política e não gosto de quem gosta de política." Eu dizia isso em maio de 78. Em novembro, eu estava fazendo a campanha desse "maledeto" desse Fernando Henrique Cardoso. Mas isso, por que? Porque as greves te conduzem para esse processo. Você vai fazendo greve, vai ficando importante, vai aprendendo mais coisas. Aí, você vai percebendo que a política é uma coisa necessária.

Nós tínhamos tanta importância que o Dr. Maurício foi suplente do Fernando Henrique Cardoso, não é? E, por que o Fernando Henrique Cardoso? Porque o Montoro era senador, ele tinha voltado do exterior, era um intelectual que todo mundo acreditava ser um cara de esquerda. E a gente queria renovar, então, nós trabalhamos para ele.

Eu dizia assim em 78: "Eu jamais serei filiado a um partido político, eu jamais serei candidato a alguma coisa." Eu dizia isso textualmente, eu achava isso glorioso. Quando, na verdade, o que eu estava sendo era analfabeto político, como tem milhões de brasileiros hoje, não é? Então, eu entrei, perdemos as eleições, o Fernando Henrique ficou suplente - Graças à Deus perdemos, porque se ele tivesse assumido teria começado a fazer merda antes.

Eu já disse uma vez e vou repetir: eu acho que Deus foi muito generoso comigo, sabe? Eu não reclamo das coisas, acho que vir de onde eu vim e chegar onde eu cheguei, só pode ser uma dádiva de Deus. Então, eu não me queixo da vida. Acho que para mim as coisas aconteceram como tinham que acontecer. Eu acho que as coisas que aconteceram de ruim serviram até para que eu aprendesse alguma coisa com elas. Eu não mudaria muito minha trajetória de vida não. Não vejo porque eu deveria mudar, sabe? Se você está preparado para extrair ensinamentos, qualquer que seja a circunstância a que você está submetido, não vale a pena evitar que aconteça, deixa acontecer. Eu estou bem, eu acho que estou bem de cabeça, estou bem fisicamente, estou bem politicamente, sabe? Eu não queria mudar nada não.

Sonho
O meu sonho não é muito pretensioso não. Eu continuo sonhando, hoje, aquilo que eu sonhava há 20 anos atrás, ou quando eu comecei no Sindicato. Eu sonho com que a gente possa construir um mundo mais justo, mais solidário, em que a riqueza seja distribuída de forma justa. Sonho com um mundo em que os valores éticos conduzam o comportamento de homens e mulheres, em que não haja impunidade. Um mundo que garanta cidadania para todas as pessoas, em que todo mundo tenha direito à casa, ao trabalho, ao lazer, à educação, à saúde. Que todo mundo tenha direito ao trabalho.

Esse mundo é um mundo que pode ser construído, ele não é uma utopia, ele pode ser construído. Eu estou convencido que ele pode ser construído. Eu sempre brinco assim, eu tinha um companheiro na Villares chamado Azeitona, e a gente ganhava o mesmo salário. E o Azeitona era viciado em jogar snooker. No dia que recebia o pagamento – a gente saía as 6:00hs da manhã da Villares – ele não ia para casa, ia para o bar jogar snooker. Às vezes, um dia e meio depois do pagamento ele estava pedindo dinheiro emprestado. Então, o dinheiro não dava para nada. E eu e outros companheiros que ganhavam igual a ele compramos casa, carro, geladeira, numa demonstração de que o nosso salário dava. Eu acho que o Brasil pode melhorar a vida de seu povo. Não é falta de dinheiro, é falta de compromisso. Então eu sonho com isso, meu sonho é que um dia vamos realizar. Eu só tenho 54 anos e devo viver mais 30, se Deus quiser. E nós vamos chegar lá.

Comentários

  1. Toda a história contada como se fosse pelo Lula, nada mais foi do que uma grande farsa, produzida, com seu consentimento, creio, para possibilitar os argumentos para o livro da escritora petista Denise Paraná e posteriormente do filme com o mesmo titulo de “Lula o filho do Brasil”, com o objetivo de transformar o Lula num mito sem precedentes com características de gênio, que nasceu sabendo tudo, cresceu ensinando o mundo e sempre teve poderes absolutos.
    Obs. Essas mentiras todas ele deveria ter contado em 1975 ou 1978!
    Sem entrar no mérito do relato de sua história de vida pessoal e familiar, sobretudo antes de conhecê-lo, posso afirmar que considerando as mentiras inventadas no que diz respeito ao seu ingresso e militância sindical, posso afirmar que também nisso ela é mentirosa.
    Me custa acreditar que o Lula, menino que introduzi no Sindicato, que ensinei todos os passos da vida sindical e alguns da própria vida em comum, inclusive sobre honestidade, ele sabe disso, tenha tido a coragem e a desfaçatez, de na busca de seu endeusamento, negar o básico da verdade e da honestidade e denegrir o nome e a pessoa que mais o ajudou em toda a sua trajetória, sindical e trabalhista e por conseqüência pessoal.
    Só me resta aguardar a oportunidade de publicar a verdade, com base em fatos e documentos e esperar que algum pesquisador e historiador sério e não petista se disponha a reconstituir a verdade histórica, para o bem da própria verdade.
    Janeiro/2011.
    Paulo Vidal Neto

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